Espiritualidade e Sociedade





Juliano Spyer


>   O que é Deus

Artigos, teses e publicações

Juliano Spyer
>   O que é Deus? - Uma investigação filosófica, teológica e mística


 

1. O que dizem os dicionários e enciclopédias

Definição mínima (Houaiss, 2001): “Ser supremo, criador e governador do universo, dotado de existência necessária e atributos infinitos.” O mesmo dicionário registra 14 acepções distintas para a palavra — sinal de que a língua já reconhece a impossibilidade de uma única definição.

Definição filosófica (Encyclopaedia Britannica, 2023): “A realidade última ou o ser de maior poder e perfeição concebíveis, objeto central da experiência religiosa e da investigação teológica.” A formulação ecoa diretamente Anselmo de Cantuária (1033–1109), que no Proslogion definiu Deus como id quo maius cogitari non potest — “aquilo além do qual nada maior pode ser pensado.” É o chamado argumento ontológico: se Deus é o máximo concebível, e se existir é maior do que não existir, então Deus existe por definição.

Definição teológica cristã (Catecismo da Igreja Católica, §212): “Deus é a Verdade em pessoa.” O documento cita o Êxodo 3,14 — “Eu sou o que sou” — como a auto-revelação fundamental do nome divino, interpretando-o como afirmação de existência pura e necessária.

Definição islâmica (Al-Fatiha, Surata 1 do Alcorão): Deus é Al-Rahman Al-Rahim — “O Compaixoso, O Misericordioso” — e Rabb al-alamin — “Senhor dos mundos.” O teólogo Al-Ghazali (1058–1111) sistematizou 99 nomes (atributos) de Allah no Al-Maqsad al-Asna, cada um apontando uma faceta do que, no fundo, é inominável.

Definição judaica (Maimônides, Guia dos Perplexos, séc. XII): Deus não possui atributos positivos predicáveis — afirmar que Deus é “bom” ou “poderoso” impõe categorias humanas ao infinito. Só podemos dizer o que Deus não é. É a via negativa levada ao limite dentro do monoteísmo.

Toda definição de dicionário pressupõe que o definidor está fora daquilo que define. Mas se Deus é infinito ou é tudo, nenhum definidor pode estar fora. A definição colapsa antes de começar — e isso já é, em si, um dado filosófico de primeira ordem.

 

2. Deus é tudo? — O caminho panteísta

Panteísmo (Baruch Espinosa, Ética, 1677): Deus e Natureza são uma única substância — Deus sive Natura, “Deus, ou seja, a Natureza.” Não há criador separado da criação; a criação é o criador. Espinosa foi excomungado da comunidade judaica de Amsterdã em 1656, em parte por essas ideias.

Panenteísmo (Karl Krause, séc. XIX; Alfred North Whitehead, Process and Reality, 1929): O universo está dentro de Deus, mas Deus o ultrapassa. Como o oceano contém as ondas sem se reduzir a elas. Whitehead descreveu Deus como “o companheiro de sofrimento que compreende” — um Deus que também é afetado pelo mundo.

Advaita Vedanta — Adi Shankaracharya (séc. VIII): Brahman é a única realidade. O eu individual (Atman) e o Todo (Brahman) são idênticos — Tat tvam asi, “Tu és isso” (Chandogya Upanishad 6.8.7). A separação entre eu e Deus é maya, ilusão. Ramana Maharshi (1879–1950) retomou essa tradição no séc. XX, ensinando que a pergunta “quem sou eu?” leva à dissolução do eu no Absoluto.

Taoísmo (Lao-Tzu, Tao Te Ching, séc. VI a.C.): O Tao não é um ser pessoal — é o princípio que precede e sustenta todos os seres. O capítulo 1 abre: “O Tao que pode ser dito não é o Tao eterno. O nome que pode ser nomeado não é o nome eterno.” Chuang-Tzu (séc. IV a.C.) desenvolveu a ideia de que o sábio não busca Deus — ele flui com o Tao, sem separação.

Estoicismo (Marco Aurélio, Meditações, séc. II d.C.): O universo é permeado pelo Logos — razão divina que organiza tudo. Deus não está acima do cosmos; é a inteligência do cosmos. Marco Aurélio escreve: “Tudo está interligado, e o vínculo é sagrado.”


3. Deus é separado e autônomo? — O caminho teísta

Teísmo clássico — judaísmo: O Shemá (Deuteronômio 6,4) — “Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus, o Senhor é único” — é a afirmação central. YHWH é pessoal, age na história, liberta escravos (Êxodo), faz alianças (brit). Abraão é chamado de ohev Elohim — “amigo de Deus” (Isaías 41,8) — uma relação pessoal com o Absoluto.

Teísmo clássico — cristianismo: O Concílio de Niceia (325 d.C.) formulou Deus como una substância em três pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo. Agostinho de Hipona (Confissões, 397 d.C.) descreveu Deus como “aquele em quem vivemos, nos movemos e existimos” (citando Atos 17,28), e ao mesmo tempo como “mais íntimo do que meu próprio interior” (interior intimo meo).

Teísmo clássico — islã: O Alcorão, Surata 112 (Al-Ikhlas): “Diz: Ele é Allah, o Único. Allah, o Eterno Absoluto. Ele não gerou nem foi gerado. E nada é igual a Ele.” Ibn Arabi (1165–1240), místico andaluz, tensionou essa separação com o conceito de wahdat al-wujud — “unicidade do ser” — sugerindo que toda existência é manifestação de Allah.

Deus como Ser Necessário (Tomás de Aquino, Suma Teológica, 1265–1274): As “cinco vias” de Tomás concluem que deve existir um Primeiro Motor, uma Causa Incausada, um Ser Necessário do qual todos os seres contingentes dependem. Leibniz retomou o argumento em 1714 na Monadologia: “Por que existe algo em vez de nada?” — e respondeu: porque Deus, como ser necessário, não pode não existir.

Deísmo (Voltaire, John Locke, Thomas Jefferson, sécs. XVII–XVIII): Deus criou o universo como um relojoeiro cria um relógio e depois se afastou. Não intervém, não ouve orações, não revela escrituras. A razão, não a fé, o acessa. Jefferson chegou a recortar o Novo Testamento eliminando todos os milagres, deixando apenas os ensinamentos morais de Jesus — o chamado Jefferson Bible (1820).


4. Os limites cognitivos e sensoriais humanos

O cérebro humano evoluiu para navegar savanas, reconhecer rostos e prever movimentos de predadores. Não foi “projetado” para conceber o infinito, a eternidade ou a onipresença. Blaise Pascal (Pensamentos, 1670) já sentia a vertigem: “O silêncio eterno desses espaços infinitos me aterra.”

Teologia apofática — via negativa: Como o intelecto falha diante do infinito, a tradição mística propõe que só podemos dizer o que Deus não é. Gregório de Nissa (séc. IV) escreveu que Moisés, ao entrar na nuvem escura no Sinai, encontrou Deus na escuridão — não na luz. O conhecimento divino começa onde o conhecimento humano termina.

Pseudo-Dionísio Areopagita (Teologia Mística, séc. V): Toda afirmação sobre Deus é inadequada. Mesmo “Deus é bom” falha, porque nossa noção de bondade é humana e portanto pequena demais. A aproximação final é o silêncio — apophasis, negação de todas as categorias.

Immanuel Kant (Crítica da Razão Pura, 1781): A razão humana não pode provar nem refutar a existência de Deus. Deus está além das categorias do entendimento — não é objeto de conhecimento possível, mas de fé prática, postulado desenvolvido na Crítica da Razão Prática (1788).

Ludwig Wittgenstein (Tractatus Logico-Philosophicus, 1921): “Do que não se pode falar, deve-se calar.” A proposição final do Tractatus é lida por muitos como referência ao místico e ao divino — não como negação, mas como reconhecimento dos limites da linguagem.

Neurociência contemporânea (Andrew Newberg, Why God Won’t Go Away, 2001): Experiências de “dissolução do eu” têm correlatos neurais identificáveis — redução da atividade no lobo parietal posterior, área de orientação espacial do eu. O que isso significa é disputado: para uns, prova que Deus é construção neural; para outros, mostra apenas o mecanismo pelo qual uma experiência real ocorre.

 
5. Deus nos estados alterados de consciência

João da Cruz (A Noite Escura, séc. XVI): O místico carmelita espanhol descreveu a progressiva dissolução de todas as imagens e conceitos de Deus como caminho necessário para o encontro com Deus mesmo. O ponto mais escuro — noche oscura del alma — é justamente onde Deus se aproxima. Não se vê Deus: torna-se presença silenciosa.

Mestre Eckhart (pregações em alemão médio, séc. XIV): Distinguiu entre Gott (Deus como concebido pela teologia) e Gottheit (a Divindade nua, além de todo nome e forma). “O olho pelo qual vejo Deus é o mesmo olho pelo qual Deus me vê.” Eckhart foi processado pela Inquisição; 28 proposições suas foram condenadas após sua morte.

William James (As Variedades da Experiência Religiosa, 1902): James foi o primeiro a descrever sistematicamente o que chamou de noetic quality — a sensação, em estados alterados, de ter aprendido algo verdadeiro e fundamental sobre a realidade. Ele próprio experimentou óxido nitroso e relatou experiências de unidade mística.

Estudos com psilocibina (Roland Griffiths, Johns Hopkins, 2006–2019): Administração controlada de psilocibina produziu experiências classificadas pelos participantes como entre as “mais significativas de suas vidas”, com características de unidade, sacralidade e inefabilidade — critérios clássicos de experiência mística sistematizados por W.T. Stace em Mysticism and Philosophy (1960).

Ayahuasca — tradição do Santo Daime (fundada por Mestre Irineu, Brasil, 1930): A bebida amazônica, usada há milênios por povos indígenas como os Huni Kuin e Shipibo, é descrita como reveladora de uma presença que ensina, corrige e transforma. O antropólogo Luís Eduardo Luna cunhou o termo “plantas professoras” para essa função.

Xamanismo (Mircea Eliade, O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase, 1951): O xamã não busca um Deus único — negocia com forças, espíritos e ancestrais. O divino é múltiplo, imanente, perigoso e aliado ao mesmo tempo. Não há separação entre sagrado e natural.

Êxtase sufista — Rumi (Masnavi, séc. XIII) e o ritual do zikr: Pela repetição rítmica do nome divino e pela dança dos derviches girovagos (sema), busca-se fana — aniquilação do eu em Allah. Rumi: “Eu procurei a mim mesmo e encontrei apenas Deus. Procurei Deus e encontrei apenas a mim mesmo.” Al-Hallaj (857–922), sufista martirizado, exclamou Ana’l-Haqq — “Eu sou a Verdade/Deus” — e foi executado por blasfêmia.

Mistérios de Elêusis (Grécia, séc. VI a.C.–séc. IV d.C.): Durante nove séculos, iniciados bebiam o kykeon — possivelmente preparado com ergot, fungo alucinógeno — e vivenciavam uma experiência que, segundo Platão (Fedro) e Cícero (De Legibus), transformava completamente a relação com a morte e com o divino. O conteúdo exato era mantido sob pena de morte — e permanece desconhecido.


6. Uma palavra. Poucas letras. Quantas sílabas?

Em português: Deus — duas sílabas, quatro letras. Em latim: Deus — duas sílabas. Em inglês: God — uma sílaba, três letras. Em árabe: Al-lah — duas sílabas, quatro consoantes. Em hebraico: El — uma sílaba, duas letras; YHWH — quatro letras, o Tetragrammaton, pronunciação considerada impronunciável e sagrada, lida como Adonai (”Meu Senhor”) em substituição ritual. Em sânscrito: Om (AUM) — tecnicamente uma sílaba, considerada nos Upanishads (Mandukya Upanishad) como o som primordial do universo, o nome de Brahman antes de qualquer nome.

A palavra que deveria conter o infinito é, em quase todas as línguas, monossilábica ou dissilábica. Cabe na boca em menos de um segundo. O que não cabe em nenhum tratado filosófico cabe em dois fonemas. O Alcorão resolve isso multiplicando os nomes — 99. A tradição judaica resolve proibindo a pronúncia. Os Upanishads resolvem reduzindo ao som pré-linguístico: Om. Três soluções opostas para o mesmo problema.


7. O que as pessoas respondem quando perguntadas

Pesquisas de psicologia cognitiva da religião — Pascal Boyer (Religion Explained, 2001) e Justin Barrett (Why Would Anyone Believe in God?, 2004) — mostram que, quando perguntadas espontaneamente, pessoas de culturas diversas ativam simultaneamente dois conceitos contraditórios de Deus. O Deus teológico (explícito): “Deus é infinito, onipresente, além do tempo e do espaço.” E o Deus intuitivo (implícito): nas orações e reações emocionais cotidianas, as mesmas pessoas tratam Deus como alguém que presta atenção em mim agora, que pode estar ocupado, que ficou surpreso — um ser pessoal e localizado, como um humano extremamente poderoso.

A tipologia das respostas espontâneas mais comuns revela esse campo de tensão. “Deus é amor” é atributo relacional, não ontológico — ecoa 1 João 4,8 e Dante, que encerra a Divina Comédia com “o amor que move o sol e as outras estrelas.” “Deus é energia” é a secularização do conceito, linguagem da física usada para nomear experiência mística, próxima do ki japonês, do prana hindu e do pneuma grego (Atos 2,2 descreve o Espírito Santo como “sopro impetuoso”). “Deus é tudo” é panteísmo intuitivo, não sistematizado, que ecoa Espinosa e o Tat tvam asi dos Upanishads. “Deus é o que criou tudo” é a versão popular do argumento da causa primeira de Tomás de Aquino e do Kalam islâmico (Al-Kindi, séc. IX). “Não sei, mas sinto que existe algo” é o agnosticismo experiencial — Thomas Huxley cunhou o termo agnóstico em 1869; William James chamaria isso de will to believe, crença não intelectual mas vivencial. “Deus é meu pai / protetor” remete à imagem parental presente no Pai Nosso (Mateus 6,9), no Avinu Malkeinu judaico (”Nosso Pai, Nosso Rei”), e criticada por Freud em O Futuro de uma Ilusão (1927) como projeção do pai onipotente da infância. “Deus sou eu, no fundo” ecoa Eckhart, Ramana Maharshi e o Aham Brahmasmi sânscrito (Brihadaranyaka Upanishad 1.4.10): “Eu sou Brahman.” E “Deus é uma história que nos contamos” é a resposta construtivista que ecoa Ludwig Feuerbach (A Essência do Cristianismo, 1841): Deus como projeção das qualidades humanas idealizadas — tese que Marx e Durkheim desenvolveram em versões sociais.


8. Conclusão provisória — ou: por que a pergunta resiste

Deus é talvez o único conceito que se recusa a ser conceito. Toda definição o reduz. Toda negação o pressupõe. Todo silêncio o sugere. A palavra existe em todas as línguas humanas conhecidas — e em nenhuma delas fecha o assunto.

Anselmo propôs que Deus é o máximo pensável. Maimônides respondeu que qualquer pensamento já O diminui. Eckhart disse que o olho que vê Deus é o olho de Deus vendo a si mesmo. Lao-Tzu disse que o que pode ser dito não é. Al-Hallaj gritou que era Deus — e foi morto por isso. Os iniciados de Elêusis viram algo que não podiam contar. Os monges silenciam. Os derviches giram. Os pajés bebem e atravessam.

Pode ser que “o que é Deus” seja uma pergunta que funciona não por ter resposta — mas por transformar quem a faz. E talvez seja isso, precisamente, o que as tradições místicas de todos os tempos chamaram de Deus.

 

 

Fonte: https://spyer.substack.com/p/o-que-e-deus?utm_source=post-email-title&publication_id=5040288&post_id=195846866&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=5yt6us&triedRedirect=true&utm_medium=email

 

 



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