Espiritualidade e Sociedade





Juliano Spyer


>   Só existe um Deus — e ele não é o seu

Artigos, teses e publicações

Juliano Spyer
>   Só existe um Deus — e ele não é o seu



Vou contar em menos de cinco minutos o que é Deus e como entrar em contato com ele

 

Algumas religiões se entendem como monoteístas e, por se considerarem as únicas certas, acabam se perseguindo mutuamente. É o caso da relação tensa entre cristãos, muçulmanos e judeus. Existem também expressões religiosas que pensam em múltiplos deuses, que circulam, são negociados e reinventados a partir do contato entre povos. É o caso do panteão grego e de seus deuses olímpicos, ou do panteão iorubá, que trouxe para as Américas deidades como Xangô e Iemanjá. Mas aqui não me refiro a nenhuma dessas expressões específicas, nem à religião como processo de imposição de uma verdade sobre as outras.

Falo aqui de uma noção menos patriótica de Deus. Um Deus que não pertence a uma terra, a um povo ou a um único rosto. Um Deus desprendido de uma tradição cultural específica. Ele não é o Deus de alguém; é o criador de todos. E, ao usar o termo “criador”, faço isso rejeitando a imagem de um ser humano superior, muitas vezes apresentado como homem, branco, velho e — sinal de sua sabedoria — careca e barbudo. Pensar em um criador implica também perguntar: quem criou o criador?

Minha escolha, para não dizer que sou ateu ou agnóstico — porque não sou — é pensar nesse um-Deus, nessa energia criativa universal descrita nas histórias iorubás e yanomamis. Nomes diferentes, ângulos culturais distintos, geografias diversas, falando da mesma coisa. O mesmo elefante descrito de modos diferentes por pessoas que tocam partes diferentes do mesmo corpo.

Proponho essa noção de Deus porque parece haver um hiato entre, de um lado, as religiões com seus deuses particulares e, de outro, agnósticos e ateus, que se fundam em expressões distintas da mesma indiferença ao tema. Existem os crentes em deuses que competem entre si e os crentes de que, não havendo evidência, não se deve falar disso. Sugiro que possamos recorrer a essa maneira de descrever Deus: um Deus acima das religiões e das teologias. Talvez o mesmo Deus a partir do qual Jesus teria ensinado que qualquer pessoa pode ser Deus se tiver fé do tamanho de um grão de mostarda. Retornamos ao budismo: a questão não é quem é Deus, mas quem é você e o que fazer para evoluir em direção à luz que escolheu seguir — e conseguir reconhecê-la quando ela se acender.

Refiro-me a um Deus que não tem religião, mas que continua a existir no mistério da vida. Um Deus que se comunica com algumas pessoas — ou melhor, com aquelas que desejaram profundamente se aproximar dele. Um Deus que se manifesta nos pontos em que as mitologias falam de autossacrifício, de superação do orgulho, do prazer irracionalizável que escorre como mel da expressão do amor e da compaixão, do amor desinteressado. É o Deus que os místicos parecem enxergar no lugar das pessoas e das coisas: não indivíduos isolados, mas uma força chamada amor, que mantém tudo colado umas às outras.

Ouvi recentemente um evangélico dizer que quem afirma não acreditar em Deus talvez esteja dizendo que não acredita no amor. Está radicalmente convencido de que a lei do mais forte é a única válida; que cada um deve cuidar apenas de si para garantir o máximo de segurança para si e para sua família.

Esse parece ser o ídolo que o budismo combate: a idolatria do materialismo. A ideia de que Deus gosta mais de você do que do outro porque você o chama por um nome e não por outro. Ou o ídolo das seduções da vida: o culto às próprias luxúrias, inclusive a do poder e a da autoridade que se acha superior aos demais. Ou ainda o produto da desilusão com a humanidade, expresso no pensamento de que Deus não deveria permitir que certas coisas aconteçam. Pensamos rapidamente nos massacres étnicos ao longo da história: judeus perseguidos por cristãos, armênios e gregos sob o domínio turco. Pensamos também nas guerras e na constatação de que, nos últimos séculos, tornamo-nos cada vez mais eficientes em matar outros humanos — e também em destruir o planeta que nos sustenta. Basta observar os investimentos em bunkers e em projetos de colonização de outros planetas. Isso seria um plano B?

Mas podemos inverter a pergunta, como a Bíblia descreve que Jesus fez ao impedir a lapidação da mulher considerada pecadora. Afinal, quem provocou ou permitiu todas essas desgraças, no atacado e no varejo: fomos nós, enquanto espécie, ou foi Deus? Ao mesmo tempo, temos evidências de que somos capazes de transformação, de mudança, de superação. Temos odiado muito, mas podemos aprender a amar e a perdoar. E por que isso acontece? Por que vivemos experiências redentoras, que nos libertam de dores do corpo e da alma? É desse Deus que estou falando, por falta de palavra melhor ou de uma consciência mais expandida. Um Deus sem gênero — ou, ao menos, não apenas homem.

Por ter nascido e crescido em um país cristão, posso estar enganado ao imaginar que Jesus reúne as características que esse Deus deveria ter: um professor amoroso, que acreditava que o fim estava próximo e que todos deveriam abdicar de suas posses, grandes ou pequenas, para viver plenamente a experiência do amor ao próximo.

Há muita discussão sobre se Jesus é divino ou se é um personagem parcialmente real e parcialmente inventado, como um super-herói lendário: um líder que conclama seu povo a lutar contra a submissão à banalidade que a vida parece ter quando nos acostumamos com ela. Jesus parece ter vindo para dizer que, de algum modo, somos todos pacientes com câncer. Uns morrerão mais jovens, outros mais velhos, mas o fim não é negociável. Jesus parece dizer: vocês é que escolheram acreditar nisso. O mundo é maior do que a vida e do que a morte. Existem muitos mundos e planos, e tendemos a enxergar o mundo conforme o vemos interiormente. Nesse ponto, budismo e cristianismo parecem caminhar juntos: existe um outro plano além da matéria, e um dos caminhos para alcançá-lo é fazê-lo existir ao nosso redor, a partir da própria iniciativa.

A sua religião, ou a sua ideologia, não é o que você diz, mas o que você faz. A pergunta que deixo aqui não é se você acredita em Deus, mas se acredita em um amor desinteressado. Um amor que não pode ser visto senão em gestos; que não pode ser descrito, apenas sentido e reconhecido. É desse amor que falo quando falo de Deus. Ele não pode ser visto, tocado, provado ou medido, mas todos somos capazes de identificar suas expressões quando entramos em contato com elas.


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