Vou contar em menos de cinco minutos o que é Deus e como
entrar em contato com ele
Algumas religiões se entendem como monoteístas
e, por se considerarem as únicas certas, acabam se perseguindo
mutuamente. É o caso da relação tensa entre cristãos,
muçulmanos e judeus. Existem também expressões
religiosas que pensam em múltiplos deuses, que circulam, são
negociados e reinventados a partir do contato entre povos. É
o caso do panteão grego e de seus deuses olímpicos,
ou do panteão iorubá, que trouxe para as Américas
deidades como Xangô e Iemanjá. Mas aqui não me
refiro a nenhuma dessas expressões específicas, nem
à religião como processo de imposição
de uma verdade sobre as outras.
Falo aqui de uma noção menos patriótica de Deus.
Um Deus que não pertence a uma terra, a um povo ou a um único
rosto. Um Deus desprendido de uma tradição cultural
específica. Ele não é o Deus de alguém;
é o criador de todos. E, ao usar o termo “criador”,
faço isso rejeitando a imagem de um ser humano superior, muitas
vezes apresentado como homem, branco, velho e — sinal de sua
sabedoria — careca e barbudo. Pensar em um criador implica também
perguntar: quem criou o criador?
Minha escolha, para não dizer que sou ateu ou agnóstico
— porque não sou — é pensar nesse um-Deus,
nessa energia criativa universal descrita nas histórias iorubás
e yanomamis. Nomes diferentes, ângulos culturais distintos,
geografias diversas, falando da mesma coisa. O mesmo elefante descrito
de modos diferentes por pessoas que tocam partes diferentes do mesmo
corpo.
Proponho essa noção de Deus porque parece haver um hiato
entre, de um lado, as religiões com seus deuses particulares
e, de outro, agnósticos e ateus, que se fundam em expressões
distintas da mesma indiferença ao tema. Existem os crentes
em deuses que competem entre si e os crentes de que, não havendo
evidência, não se deve falar disso. Sugiro que possamos
recorrer a essa maneira de descrever Deus: um Deus acima das religiões
e das teologias. Talvez o mesmo Deus a partir do qual Jesus teria
ensinado que qualquer pessoa pode ser Deus se tiver fé do tamanho
de um grão de mostarda. Retornamos ao budismo: a questão
não é quem é Deus, mas quem é você
e o que fazer para evoluir em direção à luz que
escolheu seguir — e conseguir reconhecê-la quando ela
se acender.
Refiro-me a um Deus que não tem religião, mas que continua
a existir no mistério da vida. Um Deus que se comunica com
algumas pessoas — ou melhor, com aquelas que desejaram profundamente
se aproximar dele. Um Deus que se manifesta nos pontos em que as mitologias
falam de autossacrifício, de superação do orgulho,
do prazer irracionalizável que escorre como mel da expressão
do amor e da compaixão, do amor desinteressado. É o
Deus que os místicos parecem enxergar no lugar das pessoas
e das coisas: não indivíduos isolados, mas uma força
chamada amor, que mantém tudo colado umas às outras.
Ouvi recentemente um evangélico dizer que quem afirma não
acreditar em Deus talvez esteja dizendo que não acredita no
amor. Está radicalmente convencido de que a lei do mais forte
é a única válida; que cada um deve cuidar apenas
de si para garantir o máximo de segurança para si e
para sua família.
Esse parece ser o ídolo que o budismo combate: a idolatria
do materialismo. A ideia de que Deus gosta mais de você do que
do outro porque você o chama por um nome e não por outro.
Ou o ídolo das seduções da vida: o culto às
próprias luxúrias, inclusive a do poder e a da autoridade
que se acha superior aos demais. Ou ainda o produto da desilusão
com a humanidade, expresso no pensamento de que Deus não deveria
permitir que certas coisas aconteçam. Pensamos rapidamente
nos massacres étnicos ao longo da história: judeus perseguidos
por cristãos, armênios e gregos sob o domínio
turco. Pensamos também nas guerras e na constatação
de que, nos últimos séculos, tornamo-nos cada vez mais
eficientes em matar outros humanos — e também em destruir
o planeta que nos sustenta. Basta observar os investimentos em bunkers
e em projetos de colonização de outros planetas. Isso
seria um plano B?
Mas podemos inverter a pergunta, como a Bíblia descreve que
Jesus fez ao impedir a lapidação da mulher considerada
pecadora. Afinal, quem provocou ou permitiu todas essas desgraças,
no atacado e no varejo: fomos nós, enquanto espécie,
ou foi Deus? Ao mesmo tempo, temos evidências de que somos capazes
de transformação, de mudança, de superação.
Temos odiado muito, mas podemos aprender a amar e a perdoar. E por
que isso acontece? Por que vivemos experiências redentoras,
que nos libertam de dores do corpo e da alma? É desse Deus
que estou falando, por falta de palavra melhor ou de uma consciência
mais expandida. Um Deus sem gênero — ou, ao menos, não
apenas homem.
Por ter nascido e crescido em um país cristão, posso
estar enganado ao imaginar que Jesus reúne as características
que esse Deus deveria ter: um professor amoroso, que acreditava que
o fim estava próximo e que todos deveriam abdicar de suas posses,
grandes ou pequenas, para viver plenamente a experiência do
amor ao próximo.
Há muita discussão sobre se Jesus é divino ou
se é um personagem parcialmente real e parcialmente inventado,
como um super-herói lendário: um líder que conclama
seu povo a lutar contra a submissão à banalidade que
a vida parece ter quando nos acostumamos com ela. Jesus parece ter
vindo para dizer que, de algum modo, somos todos pacientes com câncer.
Uns morrerão mais jovens, outros mais velhos, mas o fim não
é negociável. Jesus parece dizer: vocês é
que escolheram acreditar nisso. O mundo é maior do que a vida
e do que a morte. Existem muitos mundos e planos, e tendemos a enxergar
o mundo conforme o vemos interiormente. Nesse ponto, budismo e cristianismo
parecem caminhar juntos: existe um outro plano além da matéria,
e um dos caminhos para alcançá-lo é fazê-lo
existir ao nosso redor, a partir da própria iniciativa.
A sua religião, ou a sua ideologia, não é o que
você diz, mas o que você faz. A pergunta que deixo aqui
não é se você acredita em Deus, mas se acredita
em um amor desinteressado. Um amor que não pode ser visto senão
em gestos; que não pode ser descrito, apenas sentido e reconhecido.
É desse amor que falo quando falo de Deus. Ele não pode
ser visto, tocado, provado ou medido, mas todos somos capazes de identificar
suas expressões quando entramos em contato com elas.