Uma reflexão sobre o casamento
mais improvável da história ocidental
O estado guerreiro e o pacifista, a burocracia
governamental e o profeta sem casa. Como eles terminaram juntos
na Igreja Católica e depois no protestantismo? Reflito
sobre esse casamento improvável.
Existe uma cena em Dostoiévski
que resolve a questão antes mesmo de ela ser formulada. No
*Grande Inquisidor*, capítulo central de *Os Irmãos
Karamazov*, Jesus retorna à Sevilha do século XVI. É
preso pela Inquisição. O Cardeal Inquisidor vai à
sua cela e lhe explica, com lógica impecável, por que
ele precisa morrer de novo — porque a liberdade que pregou é
insuportável para os homens, e a Igreja fez o favor de aliviá-los
dela. Jesus escuta em silêncio. No fim, beija o Inquisidor na
boca. O Inquisidor o manda embora e nunca mais volta.
Dostoiévski escreveu isso em
1880. Mas a questão é de 313 d.C., quando o imperador
Constantino abraçou o cristianismo e mudou para sempre o que
esse nome significaria.
O problema de Constantino
Roma era uma máquina de poder. Sua religião era contrato
social — você honra os deuses, os deuses protegem Roma,
o imperador media essa relação. Quando Constantino abraçou
o cristianismo, não foi uma conversão mística.
Foi uma jogada política: o cristianismo já tinha milhões
de seguidores espalhados pelo Império, era uma rede de solidariedade
que atravessava fronteiras sociais, e era mais eficiente unificar
sob uma fé do que continuar perseguindo. O resultado foi que
Roma não se tornou cristã. O cristianismo se tornou
romano.
O que Roma fez com Jesus é preciso: institucionalizou
o carisma. Transformou uma relação pessoal e comunitária
em estrutura hierárquica. Transformou refeições
domésticas em liturgia controlada por sacerdotes. Transformou
o rabbi itinerante sem casa em papa em palácio. Transformou
a experiência direta do divino em doutrina que precisa de intermediário
autorizado para ser acessada. Transformou o Espírito em burocracia.
Esse processo não foi rápido
nem simples. Levou séculos de concílios, heresias declaradas,
perseguições internas, queima de textos e construção
de consensos forçados. O que chamamos de cristianismo ortodoxo
— a versão que chegou até nós como dominante
— é o resultado desses conflitos. É uma versão
entre muitas que existiram e foram derrotadas.
Jesus e as instituições
O problema é que o Jesus dos evangelhos
é consistentemente, quase programaticamente, anti-institucional.
Ataca os fariseus — não por serem judeus, mas por serem
guardiões de uma religião que perdeu o contato com o
humano. Cura no sábado, toca leprosos, come com pecadores,
fala com mulheres em público, recebe prostitutas e cobradores
de impostos — viola sistematicamente as fronteiras rituais que
as instituições constroem para se manter no poder. Anuncia
que o Templo será destruído. Diz que o Reino de Deus
não está em nenhum lugar externo, mas dentro de cada
pessoa.
O estudioso Bruce Chilton, em *Rabbi
Jesus*, coloca Jesus no mundo dos rabinos místicos galileus
que praticavam meditação direta sobre o trono de Deus
— a tradição da Merkabá, que é mística
judaica pré-cabalística. João Batista, seu mestre
provável, era um asceta do deserto que batizava fora do Templo
— um gesto explicitamente anti-clerical. A refeição
que Jesus propôs como centro de sua prática — pão
e vinho partilhados entre iguais — substituía o sacrifício
do Templo, que era monopólio sacerdotal. Era uma desinstitucionalização
radical do acesso ao sagrado.
Chilton descreve Jesus como um homem fisicamente
comum — baixo, tendendo à gordura e à calvície,
um homem que comia e bebia com quem quisesse e era chamado de “glutão
e bêbado” por seus inimigos. Um homem de carne, de mesa,
de contato. Não o Cristo etéreo das imagens renascentistas,
não o Pantocrator dourado dos ícones bizantinos. Um
homem do século I na Galileia ocupada por Roma, que ensinava
nas sinagogas e nos campos, que dormia ao relento, que viajava sem
bagagem.
Seria difícil imaginar esse
homem confortável com o que aconteceu três séculos
depois de sua morte — a mesma estrutura imperial que o executou
usando seu nome para justificar cruzadas, inquisições
e conquistas. Um homem que disse dai a César o que é
de César veria com estranheza sua imagem na moeda de um novo
César chamado papa.
O que sobrou do incêndio
A fusão com Roma produziu três grandes troncos do cristianismo
ocidental — o catolicismo romano, a Igreja ortodoxa oriental
e, a partir do século XVI, o protestantismo, que nasceu como
rebelião contra Roma mas carregou consigo muito de sua estrutura.
São tradições ricas, complexas, habitadas por
séculos de pensamento, arte e santidade genuína. Mas
todas passaram pelo filtro de Constantino.
Existe, porém, um cristianismo que não passou por esse
filtro. Tradições que se desenvolveram à margem
ou antes da romanização — e que por isso preservaram
algo diferente.
A Igreja do Oriente, também chamada nestoriana
ou assíria, nasceu na Mesopotâmia e nunca esteve sob
Roma nem sob Constantinopla. Desenvolveu sua teologia em siríaco
— língua irmã do aramaico que Jesus falava. Espalhou-se
pelo Irã, Índia e chegou à China no século
VII, muito antes das Cruzadas. Ainda existe hoje, com comunidades
no Iraque, Irã, Síria e na diáspora. É
provavelmente a tradição cristã que mais preservou
o ambiente linguístico e cultural original de Jesus.
Os cristãos de São Tomé na
Índia, em Kerala, formam uma tradição
que remonta ao século I, anterior a qualquer influência
romana. Viveram por séculos completamente isolados do Ocidente,
integrados à cultura indiana, com rituais em siríaco.
Quando os portugueses chegaram no século XVI ficaram perturbados
ao encontrar cristãos que nunca tinham ouvido falar do papa
— e tentaram imediatamente romanizá-los, com sucesso
apenas parcial.
A Igreja Copta do Egito desenvolveu sua identidade
em oposição a Constantinopla após o Concílio
de Calcedônia em 451, quando se recusou a aceitar a definição
oficial da natureza de Cristo. Preservou o copta — língua
descendente do egípcio antigo — e uma espiritualidade
monástica que antecede e em muitos aspectos ignora Roma. Os
padres do deserto egípcio — Antão, Pacômio,
os *Apotegmas dos Pais* — são a fonte do monasticismo
cristão, e sua espiritualidade é radicalmente diferente
do cristianismo de corte imperial. Quando perguntado sobre salvação,
um pai do deserto respondia com silêncio, ou com uma ação,
nunca com doutrina.
A Igreja Etíope é uma das mais antigas
do mundo. Tem um cânone bíblico mais amplo que o ocidental,
incluindo o Livro de Enoque e o Livro dos Jubileus, rejeitados pelo
Ocidente. Pratica o sábado judaico junto com o domingo cristão.
Preservou um sincretismo com o judaísmo etíope que sugere
raízes anteriores à romanização. Segundo
sua tradição, guarda a Arca da Aliança em Axum.
Os gnósticos e as comunidades do século I e
II não são uma Igreja — são um
conjunto de movimentos cristãos que foram suprimidos precisamente
pelo processo de institucionalização. Os evangelhos
de Tomé, de Filipe, de Maria Madalena, encontrados em Nag Hammadi
no Egito em 1945, apresentam um Jesus radicalmente diferente: sem
narrativa de paixão e ressurreição como centro,
focado no ensino interior, no autoconhecimento como caminho para o
divino. O Evangelho de Tomé começa: *Estas são
as palavras secretas que Jesus o vivente falou e que Dídimo
Judas Tomé registrou. E disse: Quem encontrar a interpretação
dessas palavras não experimentará a morte.* Não
há milagre, não há ressurreição,
não há Igreja. Apenas palavras para ser interpretadas.
A pergunta
que fica
O que sobrou de Jesus depois que Roma passou por cima?
Talvez a resposta seja: o que não pôde ser institucionalizado.
A relação pessoal. O afeto. A comoção
diante do sacrifício. O choro inesperado quando alguém
conta a história do homem que parou de atirar pedras. O terreiro
onde Oxalá e Jesus partilham o mesmo altar. O centro espírita
onde a caridade é praticada em silêncio, sem padre, sem
missa, sem hierarquia. A sessão de ayahuasca na floresta onde
alguém chama por Jesus e ouve uma resposta.
Roma deu ao cristianismo universalidade, estrutura, sobrevivência
institucional e poder temporal. Deu também inquisição,
cruzadas, colonização e a supressão de tudo que
não coubesse na doutrina aprovada por concílio.
Jesus trouxe outra coisa — algo que resiste à institucionalização
precisamente porque é interior, relacional e gratuito. Algo
que continua aparecendo onde menos se espera, em formas que nenhum
concílio convocou.
O casamento entre Roma e Jesus produziu civilização.
Mas o que move as pessoas, dois mil anos depois, raramente é
o lado de Roma.
Para ir mais fundo — leituras recomendadas
Sobre Jesus histórico e o contexto judaico
- Bruce Chilton, *Rabbi Jesus:
An Intimate Biography* (2000) — a biografia mais viva e
provocadora do Jesus humano, no seu contexto judaico galileu. Chilton
é teólogo e padre episcopal, o que torna sua radicalidade
ainda mais interessante.
- Joan E. Taylor, *What Did Jesus Look Like?*
(2018) — ponto de partida surpreendente: o que a arqueologia
e a antropologia forense dizem sobre a aparência física
de Jesus. A questão estética abre questões históricas
e teológicas maiores.
- Geza Vermes, *Jesus the Jew* (1973) —
o pioneiro. Vermes foi o primeiro historiador moderno a colocar Jesus
firmemente dentro do judaísmo do século I, não
como fundador do cristianismo mas como um judeu falando para judeus.
- Bart Ehrman, *How Jesus Became God* (2014)
— como a figura humana do rabbi galileu foi sendo progressivamente
divinizada ao longo dos séculos. Escrito por um agnóstico
que foi cristão evangélico, com rigor histórico
e sem agenda apologética.
Sobre a fusão com Roma e suas consequências
- Elaine Pagels, *The Gnostic
Gospels* (1979) — o livro que apresentou ao mundo os textos
de Nag Hammadi e mostrou como a diversidade do cristianismo primitivo
foi suprimida. Pagels escreve com clareza e calor, sem jargão
acadêmico.
- Elaine Pagels, *Constantine’s Bible*
— como Constantino e a Igreja estabeleceram o cânone bíblico
oficial, e o que ficou de fora e por quê.
- Reza Aslan, *Zealot: The Life and Times of
Jesus of Nazareth* (2013) — Jesus como figura política
numa terra ocupada. Aslan é iraniano-americano e muçulmano,
o que dá à sua leitura uma distância produtiva.
- Tom Holland, *Dominion: How the Christian Revolution
Remade the World* (2019) — argumento contraintuitivo e
erudito: mesmo o mundo secular moderno, com seus valores de igualdade
e direitos humanos, é produto do cristianismo. Ajuda a entender
o que Roma e Jesus produziram juntos, para o bem e para o mal.
Sobre as tradições cristãs
fora de Roma
- Philip Jenkins, *The Lost History of Christianity*
(2008) — a história do cristianismo além da Europa:
a Igreja do Oriente, os cristãos da Ásia, da África,
da China. O livro que mostra que o que chamamos de “cristianismo”
é uma versão regional de algo muito maior.
- Samuel Hugh Moffett, *A History of Christianity
in Asia* (2 volumes) — referência acadêmica
completa sobre a Igreja assíria e suas ramificações
orientais.
- Bentley Layton, *The Gnostic Scriptures*
— tradução e introdução dos principais
textos gnósticos, incluindo o Evangelho de Tomé. Para
quem quer ler as fontes primárias.
Sobre mística e a experiência
direta do divino
- Simone Weil, *Waiting for God* —
filósofa e mística francesa, de origem judaica, que
nunca se batizou mas viveu o evangelho de forma radical. Uma das vozes
mais lúcidas sobre o que é Jesus fora da instituição.
- Thomas Merton, *The Seven Storey Mountain*
— monge trapista americano que encontrou em Oriente e Ocidente
a mesma experiência contemplativa. A tradição
dos padres do deserto vista de dentro.
- Elaine Pagels, *Beyond Belief* (2003)
— comparação entre o Evangelho de João
e o Evangelho de Tomé como dois caminhos opostos que o cristianismo
primitivo poderia ter tomado. O mais pessoal dos livros de Pagels.
O casamento entre Roma e Jesus produziu dois mil
anos de história. Mas Jesus, como sempre, parece estar em outro
lugar — na mesa, no encontro, no gesto que ninguém filmou.
