Felipe Silva Sales
Mestre em Arqueologia e Doutorando em Estudos Antropológicos
do Patrimônio Cultural pelo Programa de Pós-Graduação
em Arqueologia e Patrimônio Cultural Instituição:
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
Lattes: lattes: http://lattes.cnpq.br/2703374190860572
DOI: 10.54899/dcs.v22i83.3702
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RESUMO
Este artigo propõe uma reflexão
teórico-experiencial sobre a arqueologia dos povos de terreiro
sob uma ótica da proposta antropológica de Tim Ingold,
tomando como eixo central a noção de vida dos materiais
e o fazer como forma de conhecimento. A partir de uma abordagem relacional
e profunda, o estudo articula conceitos da antropologia da materialidade
com experiências pessoais do autor enquanto iniciado no Candomblé,
responsável pelos seus Ibás de Oxóssi, Exu e
Iansã.
O texto analisa como a cultura material dos terreiros — expressa
em objetos sagrados, oferendas, paisagens rituais e assentamentos
— constitui um sistema vivo de axé, no qual corpo, matéria
e ambiente se entrelaçam em contínua correspondência.
A pesquisa discute as contribuições de Luciana Novaes
e Ademir Ribeiro Júnior para a consolidação da
arqueologia de religiões afro-brasileiras, ressaltando casos
emblemáticos como o “Exu submerso”, os ebós
em bambuzais e os sítios aquáticos do Recôncavo
Baiano. Também são abordadas experiências recentes
de gestão patrimonial participativa, como o projeto Memórias
do Povo de Terreiro, que exemplificam práticas decoloniais
e colaborativas de preservação do patrimônio afro-religioso.
Inspirada por uma filosofia do fazer e pela ética da correspondência
entre humanos e materiais, a arqueologia de povos de terreiro é
aqui compreendida como uma arqueologia viva, capaz de reconhecer a
agência dos objetos sagrados, valorizar as ontologias afro-brasileiras
e afirmar a dignidade das tradições de axé como
parte essencial do patrimônio cultural brasileiro.
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INTRODUÇÃO
A arqueologia aplicada aos povos de terreiro — comunidades de
religiões afro-brasileiras,
como o Candomblé, a Umbanda e outras expressões de matriz
africana — vem se consolidando nas últimas décadas
como um campo essencial para compreender a diversidade cultural, simbólica
e espiritual do Brasil. O reconhecimento da relevância arqueológica
dessas práticas representa um avanço epistemológico
e ético, pois implica admitir que a materialidade do sagrado
afro-brasileiro não pertence ao exótico ou ao passado,
mas constitui uma realidade viva e em constante movimento (Novaes,
2021).
Abordar arqueologicamente os terreiros exige romper com a visão
de que seus objetos — alguidares, quartinhas, ferramentas, búzios,
pedras, folhas e oferendas — são resíduos a serem
catalogados. Como afirma Novaes (2021), esses elementos “não
são objetos inertes, mas entidades dotadas de potência,
que participam ativamente da circulação do axé
e da comunicação entre mundos”. Assim, o sagrado
se manifesta como matéria viva, que age, se transforma e se
renova em contato com o corpo e o ambiente. Essa vitalidade encontra
paralelo nas reflexões de Tim Ingold (2022), que entende os
materiais não como substâncias mortas moldadas pelo homem,
mas como forças em fluxo — “em devir” —
com as quais o fazer humano mantém uma correspondência
contínua.
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