Espiritualidade e Sociedade





Felipe Silva Sales

>   Experiências no Candomblé: epistemologia não-cartesiana, filosofia do não, cura e caridade

Artigos, teses e publicações

Felipe Silva Sales
>   Experiências no Candomblé: epistemologia não-cartesiana, filosofia do não, cura e caridade

 

 

Felipe Silva Sales
Mestre em Arqueologia e Doutorando em Estudos Antropológicos do Patrimônio Cultural pelo Programa de Pós-Graduação em Arqueologia e Patrimônio Cultural Instituição: Universidade Federal do Recôncavo da Bahia(UFRB)
Lattes: lattes: http://lattes.cnpq.br/2703374190860572
https://doi.org/10.52641/cadcajv10i5.1342

 

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RESUMO

Este artigo, escrito em primeira pessoa, articula a epistemologia não-cartesiana de Gaston Bachelard – especialmente a “filosofia do não” e o “novo espírito científico” – com a vivência iniciática no Candomblé, durante a obrigação de três anos (Odu Itá), nos espaços sagrados do roncó e do sabaji.

Defende-se que compreender o Candomblé exige romper com premissas cartesianas e ocidentais, reconhecendo-o como religião de cura e caridade em seus próprios termos. A cura manifesta-se tanto para quem incorpora entidades (iaô) quanto para os que não incorporam (ogã, ekedi), já que todos participam de práticas de acolhimento, cuidado e ensino.

A caridade, por sua vez, revela-se na doação do corpo, do tempo e dos cuidados comunitários, integrados à cosmologia do axé. Dialogando com autores como Michel Foucault, Michel de Certeau, Eduardo Viveiros de Castro, Juana Elbein dos Santos, Marcio Goldman e Roger Bastide, argumenta-se que o terreiro constitui espaço de conhecimento plural, simbólico e experiencial, que rompe com a lógica racionalista ocidental.

Propõe-se, assim, que tanto a ciência quanto a experiência religiosa envolvem “atos de não” – negações transformadoras que possibilitam novos patamares de compreensão, seja pela racionalidade complexa, seja pelo axé relacional.

 

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1. INTRODUÇÃO

Minha trajetória acadêmica/profissional e espiritual acabaram de convergir. Ambas levaram-me a transitar entre dois mundos do saber: de um lado, o universo da filosofia e da ciência, enquanto arqueólogo e antropólogo treinado a pensar de modo crítico e objetivo; de outro, o universo do terreiro de Candomblé da nação Ketu, enquanto ogã iniciado de Oxóssi, orientado pela experiência vivida, simbólica e comunitária. Este artigo nasce do encontro entre essas duas esferas. Durante meu recolhimento no terreiro para cumprir a obrigação de três anos, minhas leituras anteriores no curso de doutorado vieram com força à minha cabeça. Em especial, a epistemologia não-cartesiana de Gaston Bachelard e sua “filosofia do não”, que eu havia estudado e refletido academicamente, emergiram de modo vivo no contexto da minha vivência iniciática no Candomblé. Foi nesse momento que comecei a me perguntar: como a epistemologia não-cartesiana de Bachelard – em particular sua filosofia do não – pode iluminar a compreensão da experiência no terreiro? E, inversamente, o que a própria vivência no roncó e no sabaji, durante o ritual de Odu Itá, pode oferecer como insight à crítica da racionalidade ocidental.

 

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Fonte: SALES, Felipe Silva. Experiências no Candomblé: epistemologia não-cartesiana, filosofia do não, cura e caridade. Cadernos Cajuína, [S. l.], v. 10, n. 5, p. e1342, 2025. DOI: 10.52641/cadcajv10i5.1342.
Disponível em: https://v3.cadernoscajuina.pro.br/index.php/revista/article/view/1342.
https://doi.org/10.52641/cadcajv10i5.1342
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