Espiritualidade e Sociedade





Felipe Silva Sales

>   Etnogênese afro-indígena e as religiões de matriz africana no Brasil:
História do Candomblé, Umbanda e Benzimento

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Felipe Silva Sales
>   Etnogênese afro-indígena e as religiões de matriz africana no Brasil: História do Candomblé, Umbanda e Benzimento

 

 

Felipe Silva Sales
Mestre em Arqueologia e Doutorando em Estudos Antropológicos do Patrimônio Cultural pelo Programa de Pós-Graduação em Arqueologia e Patrimônio Cultural Instituição: Universidade Federal do Recôncavo da Bahia(UFRB)
Lattes: lattes: http://lattes.cnpq.br/2703374190860572
DOI: https://doi.org/10.56238/levv17n59-053

 

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RESUMO

Este artigo examina a formação histórica das religiões de matrizes africanas no Brasil – em especial o candomblé, a umbanda e a tradição das benzedeiras (rezadeiras) – sob a perspectiva de um processo de etnogênese afro-indígena.

Argumenta-se que essas tradições religiosas emergiram do encontro entre elementos culturais africanos e indígenas no contexto colonial e pós-colonial brasileiros, incorporando também influências europeias (notadamente do catolicismo e do espiritismo), mas mantendo essencialmente um caráter afro-indígena.

Inicialmente, apresentam-se as origens e o desenvolvimento do candomblé e da umbanda, destacando as contribuições das cosmologias africanas e ameríndias na conformação de seus panteões, rituais e práticas. Em seguida, discute-se a tradição popular das benzedeiras, entendida como parte desse mesmo mosaico religioso afro-indígena, preservando saberes de cura e espiritualidade transmitidos por gerações.

Ao longo do texto, evidencia-se que tais religiões desempenham papel fundamental na construção da identidade étnica, da memória coletiva e da resistência cultural no Brasil. Ressalta-se também a pluralidade interna desses movimentos – existem múltiplos candomblés, umbandas e formas de benzimento – bem como os laços históricos e simbólicos que os interligam, fruto de trajetórias comuns de sincretismo e recriação cultural.

Por fim, o artigo sustenta que candomblé, umbanda e benzimento são manifestações inseparáveis de um complexo processo de etnogênese afro-indígena, estando entrelaçados na formação da religiosidade brasileira e refletindo a diversidade e a riqueza das heranças africanas e indígenas no país.

 

INTRODUÇÃO

As religiões de matrizes africanas no Brasil —com destaque para o candomblé e as umbandas, em diálogo histórico com práticas populares de cura como o benzimento realizado por rezadeiras e benzedeiras —constituem um eixo estruturante da história social, cultural e religiosa brasileira, tanto por sua densidade cosmológicaquanto por sua centralidade na produção de pertencimentos, memórias e formas coletivas de proteção simbólica (BASTIDE, 1971; PRANDI, 2001; NEGRÃO, 1996). Longe de representarem “transplantes” intactos de sistemas rituais africanos, tais tradições devem ser compreendidas como formações históricas produzidas na experiência colonial e pós-colonial, em contextos marcados por escravização, catequese, repressão policial e rearranjos comunitários, nos quais grupos africanos de distintas procedências, populações indígenas e referências europeias (sobretudo o catolicismo popular e, mais tarde, o espiritismo kardecista) interagiram, disputaram e recriaram repertórios rituais e teológicos (DANTAS, 1988; CAPONE, 2004; ORTIZ, 1999). Nesse quadro, a noção de etnogênese oferece um caminho analítico mais produtivo do que vocabulários antigos de “mistura” cultural, ao permitir descrever a constituição histórica de coletivos, identidades e regimes de conhecimento que se reorganizam, ganham coerência interna e produzem tradições, sem supor essências fixas nem reduzir a dinâmica a um somatório de influências (BARTH, 2000; PACHECO DE OLIVEIRA, 1998).

Compreender candomblés, umbandas e benzimentos como expressões de uma etnogênese afro-indígena implica reconhecer que a formação desses campos religiosos não se resume à sobrevivência de “africanismos”, mas envolve processos ativos de reconstrução social, ritual e política, nos quais o vínculo com a África se reatualiza no Brasil por meio de linhagens, casas, “nações”, liturgias e tecnologias do sagrado, ao mesmo tempo em que se incorporam —de modo situado e variável —entidades, paisagens e conhecimentos associados ao mundo indígena (como os caboclos, encantados e repertórios de cura pela folha e pela reza) (VERGER, 1999; PRANDI, 2001; CAPONE, 2004). A literatura antropológica sobre o candomblé evidencia, por exemplo, que as “nações” e ortodoxias são também resultados históricos e políticos, produzidos em disputas por legitimidade e autoridade religiosa, e não simples reflexos diretosde uma África homogênea (DANTAS, 1988; CAPONE, 2004). De modo convergente, estudos sobre a umbanda apontam que suas “origens” não podem ser reduzidas a uma narrativa fundacional única, devendo ser analisadas a partir de trajetórias mais longas e heterogêneas de práticas mediúnicas, curas, macumbas e reorganizações urbanas do sagrado, que articulam caboclos, pretos-velhos e orixás em gramáticas distintas conforme regiões, linhagens e projetos religiosos (NEGRÃO, 1996; ORTIZ, 1999). Já o benzimento e as práticas de rezadeiras e benzedeiras, frequentemente lidas apenas como catolicismo popular, mostram-se mais bem compreendidas quando situadas como tecnologias comunitárias de cuidado e cura que operam na fronteira porosa entre devoções cristãs, saberes tradicionais da folha, regimes locais de encantamento e concepções de corpo e espírito historicamente produzidas na experiência afro-indígena brasileira (BRANDÃO, 1985; BEZERRA; VIDEIRA; CUSTÓDIO, 2020).

Este artigo propõe, portanto, uma leitura histórica e crítica dessas tradições como campos plurais — “vários candomblés”, “várias umbandas”, múltiplas formas de benzer —em que a diversidade interna não é ruído, mas parte constitutiva de sua própria historicidade, marcada por diferentes territorialidades, redes detransmissão, regimes de autoridade e formas de pertencimento (PRANDI, 2001; NEGRÃO, 1996). Ao enfatizar a etnogênese afro-indígena, o texto busca evidenciar as conexões estruturais e as circulações concretas (de pessoas, entidades, ritos, folhas, narrativas e objetos) que tornam inseparáveis, em muitos contextos, o universo dos terreiros e o universo das curas populares, sem apagar tensões, hierarquias e disputas internas por legitimidade (CAPONE, 2004; DANTAS, 1988). Nessa direção, sustenta-se que candomblés, umbandas e benzimentos funcionam como formas históricas de produção de memória e etnicidade no Brasil: elaboram continuidades, recriam ancestralidades, instituem comunidades morais e oferecem repertórios de interpretação do mundo que permanecem decisivos para compreender a formação social brasileira e suas matrizes de pertencimento (BASTIDE, 1971; PRANDI, 2001; ORTIZ, 1999).

 

 

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Fonte: DOI: https://doi.org/10.56238/levv17n59-053
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