Diferentes credos oriundos do Brasil se disseminam
como sementes espalhadas pelo mundo, observam Cristina Rocha e
Manuel Vásquez, organizadores da obra The Diaspora of Brazilian
Religions
“O Brasil é imaginado como um lugar
onde a conexão com o sagrado não foi erradicada
pela modernidade. Assim, o turismo espiritual tem um papel importante
na construção de um ‘imaginário transnacional’
do Brasil no exterior”. A declaração é
de Cristina Rocha e Manuel
Vásquez no texto a seguir, escrito à
IHU On-Line apresentando a obra The Diaspora of Brazilian
Religions (Leiden: Brill, 2013), da qual são
organizadores. Segundo os pesquisadores, “os motivos da
importância do Brasil na nova cartografia religiosa global
são diversos e complexos”.
Cristina Rocha é bacharel e mestre em
Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo
– USP com a dissertação A cerimônia
do chá no Japão e sua apropriação
no Brasil: uma metáfora da identidade cultural japonesa.
É Ph.D pelo Centro de Pesquisas Culturais da Universidade
do Oeste de Sidnei, na Austrália, onde leciona atualmente.
É autora de Zen in Brazil: The Quest for Cosmopolitan
Modernity (Honolulu: University of Hawaii Press, 2006) e Seeking
Healing in Brazil: John of God and the Globalisation of Spiritism
(no prelo).
Manuel A. Vásquez é bacharel
em Ciências Biológicas pela Universidade de Georgetown,
EUA, mestre em Religião pela Universidade McGill e pela
Universidade Temple, também nos EUA, com a dissertação
The Brazilian Popular Church in Crisis: Local Religion and Global
Capitalism. De sua produção bibliográfica,
destacamos: More than Belief: A Materialist Theory of Religion
(Oxford: Oxford University Press, 2011) e The Brazilian Popular
Church and the Crisis of Modernity (Cambridge: Cambridge University
Press, 1998). Leciona na Universidade da Flórida, nos
EUA, no Departamento de Religião.
Confira o texto
Em junho de 2009 organizamos uma mesa
no congresso da Latin American Studies Association Conference –
LASA que naquele ano aconteceu no Rio. Queríamos trazer à
tona um fenômeno recente que havia sido até então
pouco estudado: a disseminação das religiões
brasileiras no mundo. A mesa foi um sucesso de público e assim
resolvemos fazer uma chamada de artigos para estudiosos do mundo todo
que estivessem trabalhando com o assunto. O resultado apareceu em
março de 2013 com a publicação pela editora holandesa
Brill de um livro em inglês organizado por nós. Com o
título de The Diaspora of Brazilian Religions (A Diáspora
das Religiões Brasileiras), o livro tem quinze capítulos
e é dividido em três partes.
A primeira parte trata da disseminação
do cristianismo brasileiro na forma de novas comunidades católicas
(como a Canção Nova ) e das igrejas pentecostais na
África, Peru, Inglaterra e Europa. A segunda parte discute
a expansão das religiões afro-brasileiras no Cone Sul,
Japão, Canadá, Portugal e Inglaterra. A última
parte trata de novos movimentos religiosos brasileiros na Austrália,
EUA e Europa. As questões que nos orientavam desde a constituição
da mesa do congresso até a publicação do livro
foram por que as religiões brasileiras estão crescendo
no exterior e a maneira como elas se disseminam.
Nesta pequena introdução
tentaremos responder a estas duas questões. Os motivos da importância
do Brasil na nova cartografia religiosa global são diversos
e complexos. Entre eles idenficamos processos sociopolíticos
e culturais, que na década passada reinseriram o Brasil em
uma posição favorável no sistema global, operando
em conjunto com um campo religioso nacional historicamente dinâmico
e marcado por hibridismo. No entanto, existem vetores identificáveis
que contribuíram para a construção, difusão
e consumo global de identidades religiosas, visões de mundo
e estilos de vida brasileiros.
Imaginário sobre o Brasil
Primeiramente, temos os imigrantes
brasileiros que deixaram o país em grande número durante
as décadas de 1980 e 1990, um período de grande instabilidade
econômica e política no país. Estes imigrantes
trouxeram consigo suas religiões para onde emigraram numa tentativa
de dar sentido à sua jornada, construir uma nova vida no exterior
e manter relações transnacionais com o Brasil.
Em segundo lugar, podemos apontar para a criação,
circulação e consumo de um imaginário global
do Brasil, de sua cultura e religiões como exóticas,
sexy, transgressoras, primitivas e autênticas, em contraste
com a superficialidade, impessoalidade, monotonia e artificialidade
da vida cotidiana nos países desenvolvidos. Este imaginário
é muitas vezes construído por peregrinos ou turistas
religiosos que viajam ao Brasil em busca de cura ou como parte de
uma busca espiritual ou existencial.
Em terceiro lugar, há os meios de comunicação
e internet, que globalizam certos líderes religiosos, práticas
ou ideias sobre o Brasil. Finalmente, temos os missionários
brasileiros que, usando a “sociogênese pluralista e fusionista”
do Brasil (SIQUEIRA, 2003, p. 151), rumam ao exterior com o objetivo
explícito de propagação de suas religiões.
Jogadores missionários
Estes vetores se encaixam aproximadamente na tipologia
do antropólogo Thomas Csordas (2009, p. 5-6) que vê quatro
meios de se estabelecer uma “transcendência transnacional”:
missão, migração, mobilidade e mediatização.
Eles podem ser isolados para fins analíticos, mas na prática
estes vetores frequentemente interagem uns com os outros, muitas vezes
se reforçam mutuamente e outras vezes geram “zonas de
atrito” (TSING, 2005). Por exemplo, em seu capítulo sobre
a circulação global de jogadores de futebol brasileiros
que atuam também como missionários pentecostais, a antropóloga
Carmen Rial demonstra que os migrantes também podem ser empresários
religiosos bem sucedidos. Além disso, esses jogadores de futebol
exploram uma dimensão chave do imaginário global sobre
o Brasil – o Brasil como o país do futebol por excelência,
o país do jogo bonito – para avançar o seu trabalho
missionário transnacional. Finalmente, a mídia global
e o espetáculo global que é o futebol são centrais
para a suas confissões públicas de fé, quando,
por exemplo, Kaká tira a camiseta depois de fazer um gol para
revelar a messagem “Eu amo Jesus”.
Sementes espalhadas
Para caracterizar o impacto global destes vetores
perante a propagação global das religiões brasileiras,
escolhemos o termo “diáspora”. Este termo tem sido
objeto de um corpo de literatura crescente (BOYARIN; BOYARIN, 2002;
COHEN, 2008; SAFRAN, 2004). Uma preocupação fundamental
nessa literatura tem sido a tendência de estender o significado
do termo além do seu referente inicial: o deslocamento forçado
de uma população de sua terra natal. Embora incapazes
de retornar à sua terra natal, estas populações
permanecem conectadas a ela através da memória e o desejo
intenso de retorno (CLIFFORD, 1994; SHUVAL, 2000).
A saudade e a incapacidade de se sentir em casa na nova sociedade
criam uma forte identidade coletiva, que envolve muitas vezes a religião
como seu principal ingrediente. O uso do termo além desta conotação
original para significar simplesmente a dispersão de povos,
línguas e culturas levou alguns estudiosos a se preocupar com
a perda de rigor do termo.
Enquanto estamos atentos a este problema, usamos a palavra diáspora
noutro sentido seminal: termo de diaspeirein, um termo grego que significa
literalmente “espalhar sementes”, mas que designa a disseminação
da cultura helenística através da conquista, colonização,
imigração e redes mercantis do antigo Mediterrâneo
(REIS, 2004). As religiões brasileiras estão se espalhando
precisamente por meio de dois destes vetores: missionários
e imigrantes. Além disso, muitas vezes construções
particulares de brasilidade viajam juntamente com religiões
brasileiras, e embora não integradas a uma língua franca
coerente e abrangente como era o helenismo, envolvem memória,
nostalgia, invenção de tradição, mitificação
e a transposição de uma pátria imaginada para
o exterior.
Diáspora policêntrica
O crescimento da economia brasileira como parte dos
países do grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia,
China), termo usado para denominar “gigantes econômicos
emergentes,” e sua nova força política global
tiveram como consequência uma grande visibilidade do Brasil
no exterior e um entusiasmo com o futuro do país. Na mídia
internacional há muitas reportagens sobre o Brasil, complementado
por uma crescente mídia brasileira que incluem empresas transnacionais,
como a Rede Globo, importantes na construção e venda
de uma imagem do Brasil no exterior.
Inúmeros artigos de jornal, revistas e alguns
livros (ROETT, 2010; ROHTER, 2010) tratam do tema. Por exemplo, a
revista Vanity Fair produziu uma edição especial sobre
o Brasil em 2007, enquanto em 2010 a revista Wallpaper, a bíblia
dos artistas, arquitetos e designers da moda, dedicou todo um número
para cobrir o que chamou de “o país mais emocionante
do mundo”. Este entusiasmo culminou em 2010, quando o Brasil
foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos
de 2016.
No entanto, este novo lugar do Brasil na ordem mundial
não interrompeu a emigração. Enormes desigualdades
sociais persistem. Por exemplo, de acordo com o IBGE, em 2007 enquanto
os 10% mais ricos da população brasileira detinham 43,2%
de toda a renda individual, os 10% mais pobres detinham apenas 1,1%
(LAGE; MACHADO, 2008). Apesar de a situação ter melhorado
nos últimos anos, o Brasil ainda está entre os países
com maior desigualdade social (ocupando a 17ª pior posição)
de acordo com o índice de Gini. Embora muitos brasileiros tenham
voltado ao Brasil fugindo da crise econômica que tem afetado
especialmente aos EUA e Europa, as comunidades de brasileiros no exterior
permanecem grandes. As maiores delas estão nos EUA (1,4 milhões),
Paraguai (200.000), Japão (230.000) e no Reino Unido (180.000)
(MRE 2011). Esta diáspora policêntrica tem facilitado
a circulação global da cultura brasileira, incluindo
símbolos, práticas e identidades religiosas.
Brasil, um Outro exótico
Notadamente a diáspora das religiões
brasileiras não é apenas o produto de brasileiros imigrantes
e missionários deixando o Brasil e levando suas religiões
com eles. Atraídos pelas religiões e tradições
espirituais do Sul Global, buscadores espirituais também desempenham
um papel importante neste processo. Frequentemente eles encontram
religiões brasileiras no seu próprio país e posteriormente
vão ao Brasil como turistas espirituais. Para Cohen (1992,
p. 52-54) e MacCanell (1976), o advento da modernidade teve como consequência
maior alienação e um crescente desejo de escapar para
as periferias, onde habitantes do primeiro mundo acreditam que as
pessoas vivem vidas mais “autênticas”, intimamente
ligadas à tradição e espiritualidade. O Brasil
é imaginado como um lugar onde a conexão com o sagrado
não foi erradicada pela modernidade. Assim, o turismo espiritual
tem um papel importante na construção de um “imaginário
transnacional” do Brasil no exterior.
Com efeito, através da mídia, cinema, livros e internet,
bem como da chegada de imigrantes brasileiros que estrategicamente
adotam maneiras essencializadas de ser brasileiro (tais como dar aulas
de dança e capoeira ou como líderes espirituais) para
conquistar um lugar no Norte Global, vemos que, no imaginário
coletivo do Ocidente, o Brasil se torna um Outro exótico, primitivo
e tradicional. O país está associado por um lado com
sensualidade, paixão, beleza, vivacidade, liberdade sexual,
e por outro com um passado perdido pelos países industrializados
no qual a espiritualidade está presente na vida cotidiana.
Sagrado sem intermediações
Sejam seguidores da umbanda no Canadá
(capítulos de Meintel e Hernandez), de João de Deus
na Austrália (Rocha), adeptos de religiões afro-brasileiras
em Portugal (Saraiva), usuários de ayahuasca na Holanda (Groisman)
e praticantes de capoeira no Reino Unido (Stephens e Delamont), muitos
nos chamados países avançados, que são supostamente
secularizados, adotam religiões brasileiras como parte de uma
busca de desenvolvimento pessoal, cura de doenças físicas
e mentais, solução problemas sociais que vão
do desemprego ao divórcio e à solidão e de uma
transformação radical de si mesmos. Além disso,
são atraídos pelo desejo de estar em um lugar sagrado,
onde líderes espirituais e espíritos habitam, e onde
eles podem experienciar o sagrado sem intermediários.
É importante notar que o estudo da diáspora das religiões
brasileiras quebra com os modelos simplistas que conceptualizam a
globalização como principalmente um processo de “McDonaldização,”
isto é, de difusão unidirecional da religião
a partir dos EUA em conjunção com a hegemonia geopolítica,
financeira e da mídia norte-americanas (RITZER, 1996). É
verdade que os EUA continuam sendo um “nó” seminal
das chamadas “indústrias globais do espírito”
(ENDRESS, 2010). Contudo, o reconhecimento do Brasil como uma das
maiores potências na nova geografia global do sagrado aponta
para a proliferação de fluxos religiosos e redes multidirecionais
e multiescalares que vão não só do “Norte”
para o “Sul,” mas também na direção
oposta.
Potência religiosa
Frequentemente, imigrantes e empresários
religiosos brasileiros e de outros países do “Sul Global”
“missionizam em reverso” (JENKINS 2011), exorcizando demônios,
convocando espíritos ancestrais ou limpando resíduos
cármicos em nações que durante o período
colonial intrepretaram a conversão religiosa na periferia como
parte da sua missão civilizadora. Nesse processo, imigrantes
e missionários brasileiros e buscadores espirituais estrangeiros
contribuem para a diversidade e vitalidade religiosa em lugares como
Londres, Lisboa, Atlanta, Sydney ou Montreal, apesar das pressões
secularizadoras da modernidade tardia. Com um campo religioso enormemente
diversificado, dinâmico e aberto à mistura, o Brasil
está se posicionando como uma potência religiosa global
ao lado de países como Nigéria, Gana, Coreia do Sul,
China, e Índia.
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