O Problema da dor e a antifragilidade
do espírito humano
Uma nova perspectiva espírita sobre o sofrimento
A vida humana é composta de prazeres e dores.
Ambos necessários à educação do espírito
em evolução. Imaginar uma vida só de prazer é
um delírio infantil, egocêntrico e egoísta. Por
não compreendermos perfeitamente as leis do universo, muitas
vezes somos compelidos a acreditar que somos capazes de coordenar
as emoções e reações dos outros, controlando
o impacto dessas ações em nossa existência. Desejamos
uma vida perfeita, na qual a dor fosse suprimida e pudéssemos
gozar de um paraíso particular adquirido sem grandes esforços.
Contudo, sem o concurso da dor, não é possível
que a vida humana seja completa e plena. O sofrimento é a ação
da vida, para quebrar os nossos estreitos conceitos individualistas
e expandir o espírito humano, para que rompa os limites que
aprisionam seu potencial divino.

Pelo exercício da dor e do sofrimento,
deixamos de ser criaturas frágeis, para nos tornarmos seres
antifrágeis. Para explicar o que isso significa,
vou apropriar-me de um conceito criado pelo autor libanês Nassim
Taleb. Para você entender o conceito de antifrágil, é
preciso primeiro definir o que significa ser frágil: algo que
quebra ou se danifica, quando submetido à pressão de
um agente externo. Diferente do que costumeiramente se pensa, o contrário
de frágil não é rígido – nosso idioma,
muito menos qualquer outro idioma conhecido, não possui uma
palavra para expressar o antônimo da palavra frágil –
coisas rígidas são aquelas resistentes, capazes de suportar
situações extremas sem se alterar. Nem perdem nem ganham
com elas. Não se danificam diante de estressores externos,
mas também não se transformam em algo melhor, quando
impactados por esses.

É algo poderoso, capaz de torna-se melhor diante dos
piores cenários. O nosso espírito humano é
um exemplo divino do que significa ser antifrágil. Essa é
a razão por que Jesus nos disse: “Bem Aventurados
os Aflitos, pois que serão consolados”, no Sermão
da Montanha. Para os mais atentos em relação às
sequências do Evangelho, é possível perceber-se
que não foi por acaso que após aquela lição
atemporal, ele acrescentou: Vós sois o Sal da terra
(M 5:13) e Vós sois a Luz do mundo (M 5:14).
Só estaremos verdadeiramente preparados para nos tornarmos
o Sal da terra e a Luz do Mundo, se não formos
frágeis a ponto de perdermos o nosso valor ou apagarmos nosso
brilho divino diante das intempéries da vida. Jesus, em momento
algum, falou que deveríamos aguentar o sofrimento sem coragem
e bom ânimo. Como diz Léon Denis: pelo sofrimento
aprendemos a humildade, a indulgência e a compaixão,
qualidades primordiais do equilíbrio das pessoas verdadeiramente
fortes. Essas habilidades nos preparam para uma compreensão
mais nítida de como devemos nos comportar diante de outras
criaturas humanas, deixando para trás traços primitivos,
que foram importantes para nossa proteção e sobrevivência
na passagem por experiências primitivas, mas que serão
desnecessários na nossa jornada rumo a planos melhores do que
o que hoje habitamos.
Por isso, sermos antifrágeis é a resposta
mais apropriada para a grande pergunta filosófica que atravessa
os séculos: por que sofremos?
Sofremos para nos transformarmos em criaturas melhores, para sermos
capazes de compreender as grandes lições da vida e nos
tornamos Espíritos Antifrágeis.
Existem vários exemplos de pessoas que realizaram grandes feitos,
após passar por grandes dificuldades e provações
da vida. Não se deixaram abalar pela dor e pelos ofensores
que acreditaram que o abateriam e saíram de situações
caóticas e dolorosas mais fortes e capazes do que eram anteriormente.
É assim que todos nós devemos reagir diante de nossas
dores. No meio do pranto e da incerteza, devemos lembrar de nossa
condição divina e ajustar a nossa reação,
para nos prepararmos para uma vida melhor.
A diferença de quem compreende a dor e responde à natureza
espiritual antifrágil e aqueles que se fragilizam demostrando
arrogância, dureza de coração e revolta, é
a capacidade de realização pós-trauma. Enquanto
não sairmos mais fortes dos campos do sofrimento humano, a
vida repetirá as lições, para que aprendamos
e nos preparemos para nossa maior proporção espiritual.
O ser humano endurecido ou o fragilizado experimentam a mesma versão
de controle de sua jornada evolutiva. Precisam romper barreiras de
compreensão, para alcançarem caminhos evolutivos mais
encurtados.
Experimentamos a dor, porque ainda existe uma desproporção
entre nossa fragilidade e o conjunto de todas as forças universais
que nos cercam. Somos incapazes de assimilar nitidamente todos os
mecanismos e leis que influenciam a vida humana. Somos crianças
que desejam ser santos. Apesar de boa parte das verdades divinas estarem
sendo reveladas pela Doutrina Espírita e sabermos que estamos
submetidos a leis perfeitas, conhecer alguns princípios e estudá-los
não é suficiente, para que possamos concluir nossos
ciclos de sabedorias necessárias ao progresso espiritual. Sem
a dor, não estaríamos prontos para vivenciar experiências
mais sofisticadas do nosso destino espiritual, regido pela Lei do
Progresso. Continuaríamos inertes e ainda seríamos espíritos
frágeis e distantes de nosso potencial divino.
O Espiritismo nos dá a melhor explicação sobre
a razão de nossos sofrimentos. Libertando aqueles que se prenderam
a doutrinas deterministas e acreditavam que eram miseráveis
e esclarecendo aqueles que não encontram racionalidade ou justiça
na dor. As múltiplas existências e a Lei do Progresso
são ensinamentos que atenderam aos que ansiavam por explicações
mais consistentes no campo da fé. Só por meio das turbulências
da vida seremos capazes de nos preparar para sermos cocriadores divinos
de nossa melhor versão.
Como disse Paulo aos Hebreus: depois que fostes iluminados, suportastes
grande combate de aflições. Precisamos ter bom animo
para desenvolvermos a nossa melhor versão, após os piores
momentos de nossas vidas. Sigamos o rumo da nossa evolução
espiritual.
Lembremos que somos todos antifrágeis!