| Adriano
de Oliveira
> O
Brincar e o ensino das virtudes
Na Grécia Clássica, há dois mil e quatrocentos
anos, começava a surgir entre os gregos a preocupação
pela formação dos cidadãos.
No seio da civilização grega, através de filósofos
como Sócrates, Platão e Aristóteles, desenvolveu-se
a noção de paidéia: sintetizada no intuito
de formar o caráter do cidadão segundo um ideal superior.
Ou seja, desejava-se que o destino feliz da pólis - da cidade
grega - estivesse assegurado através de uma formação
que levasse o jovem à excelência, através do
cultivo das virtudes.
Essas virtudes envolviam o bem falar, o bem escrever, o gosto pela
arte, o aprendizado da justiça, o desenvolvimento da razão
e o aprendizado da cultura em geral, no intuito de formar um cidadão
capaz de participar na vida social como protagonista.
Para Platão, este ideal de formação deveria
iniciar-se já na infância, no período das brincadeiras
ou puerilidades. Segundo o filósofo grego, o brincar das
crianças, a natureza de suas brincadeiras e jogos, traziam
repercussões para a fase adulta, as quais poderiam assegurar
a ordem ou então perturbar a vida social. Dessa forma, na
visão do filósofo grego, era preciso estimular o "brincar
honestamente", ou o "jogo conforme a lei".
As brincadeiras das crianças deveriam, assim, serem supervisionadas
pelos adultos, a fim de que no meio das brincadeiras não
se misturassem falsos conceitos, o desrespeito e o cultivo de tudo
o que se afastasse da lei e das virtudes.
Para o filósofo ateniense, como percebemos, a manutenção
da ordem e a garantia de um futuro promissor para a pólis
grega passava pela observância do brincar das crianças.
De outra forma, estariam lançadas as sementes dos crimes,
do desrespeito às leis e da infelicidade para todos os cidadãos.
As considerações de Platão estariam ultrapassadas,
ao refletirmos sobre a educação infantil em nossos
dias? Pensamos que não... Sem dúvida, a tarefa de
observar o brincar das crianças se faz relevante. Qual a
natureza da brincadeira? É uma guerra? Qual o motivo da guerra?
É lícito ao adulto observar e intervir, buscando compreender
a brincadeira, o que será percebido pela criança como
interesse e afeto. Não se trata de encerrar a brincadeira,
mas compreender as intenções da criança, a
natureza dos pensamentos e dos sentimentos que ali estão
envolvidos.
Melhor ainda se faz quando o adulto participa deste momento, adentrando
no universo lúdico da criança. As crianças
adoram ouvir as opiniões dos pais sobre o que estão
fazendo, principalmente quando pequenas. Segundo o psicanalista
Erik Erikson (1960), os pais devem transmitir às crianças
uma convicção quase orgânica de que tudo o que
fazem possui sentido. Assim, ao comentar uma brincadeira, apresentando
argumentos sobre o que observam, os pais não reprimem o brincar,
mas apresentam ao pequeno ser as diretrizes da cultura na qual este
se desenvolve, apresentando-lhe paulatinamente aspectos das leis
e costumes que, como membro de uma comunidade, também está
convidado a seguir.
Tal participação do adulto, por outro lado, permite
ao mesmo investigar a natureza daquele espírito com quem
convive. Podemos identificar nas brincadeiras se a criança
traz uma tendência solidária, gérmen de um senso
de justiça inato; ou então se se trata de um pequeno
déspota, o qual deseja controlar a tudo e a todos, indicando
a provável existência de um espírito que já
passou pela posição de governante... de uma nação,
de um Estado, ou mesmo de um lar, no qual fora tirano implacável,
internalizando o falso conceito de que as outras criaturas participam
de sua vida para lhe servir.
No brincar, como propôs Platão, ao estabelecer regras
em uma brincadeira com os amigos, ensaia-se para a criança
sua convivência em sociedade, como futuro adulto...
Aqui se torna relevante a seguinte indagação: estamos
dando a atenção devida a este aspecto tão importante,
o qual já era uma preocupação do grande filósofo
grego, há mais de dois mil anos?
Freqüentemente, considera-se sem importância que a criança
imite danças sensuais dos adultos, em determinadas músicas
de mau gosto; acha-se até bonito! Noutras vezes, quando a
criança se mostra violenta e cruel com os amigos ou com os
animais, se relativiza o acontecimento... Sem percebermos, tudo
vai sendo impresso nos painéis da mente do pequeno ser em
desenvolvimento. Tudo acaba por ser um aprendizado para a criança,
que ao ter o olhar dos pais sobre si, interioriza o que pode ou
o que não pode, o que é correto ou incorreto.
Mais de dois mil anos após a teorização platônica,
em meados da década de cinqüenta, do século XX,
um psicólogo e pesquisador norte-americano chegou a conclusões
semelhantes àquelas esboçadas pelo filósofo
grego sobre o papel que o brincar e o mundo adulto desempenham na
vida infantil.
Albert Bandura, um dos mais proeminentes teóricos da chamada
aprendizagem social, desvinculou-se de teóricos comportamentais,
como Skinner, para quem o comportamento era explicado somente em
termos de condicionamentos provocados por agentes externos.
Bandura e seus colaboradores descobriram que as pessoas, somente
observando o comportamento de seus pares, podem aprender comportamentos,
os quais se tornam significativos para elas. Em outras palavras,
nós aprendemos a predizer o que pode acontecer conosco caso
executássemos uma ação semelhante a que observamos,
elaborando hipóteses sobre as possíveis conseqüências
de nossos atos.
A este processo de aprendizagem cognitiva o psicólogo norte-americano
denominou reforço indireto ou "reforço vicário".
Esta nova teoria psicológica e suas pesquisas trouxeram informações
muito importantes para pais e educadores, dentre elas, a de que
as crianças aprendem novos comportamentos somente observando
um filme ou um desenho na televisão, por exemplo. Dessa forma,
a anterior suposição de que a criança somente
aprendia ao receber uma ação direta e externa sobre
suas ações, estava superada.
Bandura, ao expor crianças de pré-escola a um modelo
vivo e com um comportamento agressivo e, paralelamente, expondo
um outro grupo de crianças a um modelo televisivo igualmente
agressivo, constatou que ambos os grupos de crianças, colocadas
posteriormente no mesmo ambiente dos modelos observados, passavam
a exibir a mesma magnitude de agressões diante de um boneco.
Somando-se a isso, o psicólogo norte-americano ainda descobriu
que a observação na televisão de comportamentos
considerados desviantes pela sociedade, ao serem punidos ou relativizados
em novelas e filmes, tendem igualmente a inibir ou reforçar
estes mesmos comportamentos naqueles que os assistem.
Como percebemos, as brincadeiras de nossas crianças, muitas
delas oriundas do universo observado nos televisores, diariamente,
assumem a mesma dimensão defendida por Platão. Observar
a natureza das brincadeiras aprendidas, dos personagens imitados
e agora transportados dos filmes para a vida real torna-se uma tarefa
indispensável.
Por outro lado, o postulado espírita, de que mais valem as
atitudes que as palavras, como assevera a mentora espiritual Joanna
de Ângelis, recebe agora a sua comprovação dos
homens da ciência.
Que virtudes estamos transmitindo às crianças? Que
ambiente modelador da personalidade e das ações dos
futuros cidadãos estamos oferecendo diariamente?
Fugirmos a essas reflexões, tentando esconder as crianças
em um suposto mundo infantil desconexo do mundo adulto, sob argumentações
de que as crianças "não compreendem", de
que são "ingênuas", e nada assimilam daquilo
que observam, não se faz mais possível. Antes será
atitude irresponsável, fruto de um descomprometimento com
a sociedade na qual vivemos.
Se os gregos valorizaram em demasia o exterior, em uma cultura que
não desenvolvia os sentimentos, hoje, após a descoberta
do espírito imortal, disfarçado no pequeno corpo infantil,
torna-se imperiosa a necessidade dos exemplos e das virtudes propostas
por Jesus, como a solidariedade, a humildade, o amor incondicional
e o respeito às liberdades individuais expressas no ...Amar
ao próximo como a si mesmo.
De outra forma, prosseguiremos assistindo ao aumento vertiginoso
dos crimes, aos desmandos da corrupção política
e à falta de harmonia que viceja em muitos lares, onde a
infância que se tornou adulta não experimentou o amor...
e na qual a educação para os valores e a aprendizagem
da justiça simplesmente inexistiu...
Bibliografia:
ÂNGELIS, Joanna de (2005). Libertação pelo Amor.
Psicografia de Divaldo P.Franco. - Salvador, BA: Livraria Espírita
Alvorada.
ÂNGELIS, Joanna de (2001). Nascente de Bençãos.
Psicografia de Divaldo P. Franco. - Salvador, BA: Livraria Espírita
Alvorada.
BARROS, Gilda Naécia de (1995). Platão, Rousseau e o Estado
Total. - São Paulo: TA Queiroz (Biblioteca básica de ciências
sociais: v.9).
CAMBI, Franco (2001). História da Pedagogia. - São Paulo:
UNESP.
COLL, César, Palacios & Marchesi (2004). Desenvolvimento
Psicológico e Educação (v.2). - Porto Alegre: Editora
Artmed.
ERIKSON, Erik (1971). Infância e Sociedade. - Rio de Janeiro:
Zahar Editora.
FADIMAN, James & Frager, Robert (1986). Teorias da Personalidade.
- São Paulo: Editora Harbra.
FREITAG, Bárbara (2001). O indivíduo em formação:
diálogos interdisciplinares sobre educação. - São
Paulo, Cortez (Coleção Questões de Nossa Época).
HALL, Calvin Springer & Lindzey, Gardner & Campbell, John B.
(2000). Teorias da personalidade. - Porto Alegre: Artes Médicas.
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