Márcia Junges entrevista Mario
Novello
Compartimentalização da Física
em áreas que “não se comunicam” é
uma realidade, contudo é imprescindível realizar “encontros
entre os saberes”, adverte Mario Novello. “No sistema
capitalista de configuração global, a ciência
se constrói a reboque da tecnologia”.
“Produzir instabilidade no sistema de conhecimento:
essa é a função fundamental do cientista. A
solução é uma questão da técnica,
o que não significa que ela seja menor. É somente
diferente. Não se trata de opor ciência e tecnologia,
mas sim exibir o diferente status que elas possuem na sociedade
e nos diversos meios de comunicação e governamental
na sua organização como principal financiadora dessas
atividades”. A ponderação é do físico
Mario Novello, na entrevista concedida
por e-mail à IHU On-Line. Ele destaca que uma das maiores
revoluções da Física do século XXI “foi
a abertura do pensamento para o não-linear, isto é,
a utilização de métodos e processos não-lineares
na descrição de vários fenômenos”.
Sobre o pensamento de Edgar Morin, o cientista aponta suas origens
multifacetadas, cuja consequência natural é não
receber ordens, mas investigar “incessantemente, produzindo
o mais das vezes, a crítica de sua atividade”.
Novello é professor do Centro Brasileiro
de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, onde é
coordenador do Laboratório de Cosmologia e Física
Experimental de Altas Energias. É graduado em Física
pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pela Universidade
de Brasília (UnB), mestre em Física pelo CBPF e doutor
na mesma área pela Université de Genève (Suíça),
com a tese Algebre de l'espace-temps, pós-doutor pela University
of Oxford (Inglaterra) e doutor honoris causa pela Universidade
de Lyon (França). Conquistou prêmios internacionais,
destacando-se a Menção Honrosa por Teses em Cosmologia
e Teoria da Gravitação, concedida pela Gravity Research
Foundation (USA). É autor de mais de 150 artigos e de inúmeros
livros, dos quais destacamos: Cosmos e Contexto (Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 1989), O Círculo
do Tempo: Um olhar científico sobre viagens não-convencionais
no tempo (Rio de Janeiro: Campus, 1997), Os jogos da natureza
(Rio de Janeiro: Campus, 2004), Máquina do tempo –
Um Olhar Científico (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005)
e Do Big Bang ao universo eterno (Rio de Janeiro: Editora
Jorge Zahar, 2010). Foi o responsável pela condução
da oficina A relatividade, a física das partículas
e as origens do Universo, ministrada em 17-05-2006 no Simpósio
Internacional Terra Habitável: um desafio para a humanidade.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Qual é a importância
do diálogo entre os saberes, chamada de transdisciplinaridade?
Quais são os temas que têm sido tratados transdisciplinarmente
pela Física e o que esse tipo de abordagem trouxe em termos
de avanço do conhecimento?
Mario Novello - Talvez devêssemos fazer aqui
uma distinção para que fique claro por onde iremos penetrar
nessa nossa conversa. Creio que não deveríamos considerar
a Física como um corpo só, único e monolítico.
A Física (assim como o modo convencional de organizar os saberes)
se compartimentou, dividiu-se em várias áreas que, no
mais das vezes, não se comunicam. Enquanto no começo
do século XX nas famosas Conferências Solvay, podíamos
identificar um grupo de cientistas que representavam todo o conhecimento
daquela época reunidos em um grande anfiteatro, hoje isso não
é de forma alguma possível. Qualquer sub-área
da Física produz reuniões científicas que se
estendem por vários dias e envolvem centenas de participantes.
Como consequência, embora claro está,
existam aspectos em comum e algumas Leis fundamentais que são
gerais, a linguagem de cada uma dessas sub-seções que
os físicos organizam, é típica, singular e seu
“dialeto” dificilmente utilizado por todos. Isso se refere
desde aspectos observacionais até aspectos matemáticos
que - exceto (repito) por algumas estruturas fundamentais em comum
- se distinguem de tal forma que se tornam (quase) incompreensível
para outras áreas.
Compartimentação do saber
O que estou querendo dizer pode parecer dramático,
mas é realista: a necessidade da transdisciplinaridade aparece
mesmo no interior de uma ciência como a Física. Como
isso não deve ser exclusivo dessa ciência, devemos então
nos preparar para repensar onde estamos indo nessa compartimentação
do saber para evitar (ou pelo menos aliviar essa especialização
atomizada) que cada área, cada disciplina, cada grupo de pesquisa
ou até mesmo no limite idealizado, cada individuo, possua seu
próprio discurso, como se houvesse uma necessidade implícita
a cada um levando a limitar seu conhecimento a um território
topologicamente isolado dos demais. Isso dito, como preâmbulo,
podemos então procurar entender a questão que me foi
colocada.
Encontros de saberes
Como exemplo da situação acima, vamos
tratar daquilo que é conhecido pelos especialistas, como “Buraco
Negro não-gravitacional”. Explico-me. Creio não
ser exagero afirmar que a noção de Buraco Negro foi
popularizada por diversos meios de comunicação, desde
revistas especializadas em divulgação até jornais
cotidianos e entrevistas e programas de televisão. Sabemos
assim que um Buraco Negro é um estado especial da matéria
(associado possivelmente ao resultado do colapso de uma estrela) de
processo gravitacional que é capaz de atrair inexoravelmente
tudo que está à sua volta. Isso envolve uma complicada
análise que a partir da descrição da Teoria da
Relatividade geral foi empreendida.
Assim, seria estranho e quase incompreensível
imaginar que um tal Buraco Negro poderia ser construído sem
a ação da força gravitacional. Entretanto, foi
o que alguns cientistas propuseram com sucesso. Estamos desenvolvendo
o que chamaríamos de Buraco Negro não-gravitacional,
produzido por outros mecanismos em ação.
O que está por trás disso? Nada mais
do que a utilização de uma prática típica
de uma área (gravitação) em outra (eletromagnetismo,
no caso em questão). Para isso foi necessário realizar
uma transposição de saberes ou uma ponte formal capaz
de permitir a exibição de um conhecimento escondido
em um território no qual, sem a ponte, se tornaria incomunicável.
Transportar para a ciência chamada Eletromagnetismo algumas
características de métodos usados em outra ciência
como a Gravitação resultou nessa produção
fantástica de aproximar propriedades incapazes de serem diretamente
observadas por situações que podem ser controladas em
laboratório.
Note que não se trata de uma analogia. Trata-se
realmente de utilização de métodos formais adquiridos
em um território e um dicionário capaz de transportá-lo
para outro. Ou seja, mais do que nunca, somos levados a desenvolver
esses encontros entre saberes transportando práticas e modos
de uns para outros que estão fora de suas rotinas.
IHU On-Line - Nessa perspectiva, como o estudo dos
fractais, como aquele empreendido por Mandelbrot , ajuda a compreendermos
fenômenos da natureza e sistemas complexos? Quais são
os grandes problemas ainda não resolvidos pela Física
e que podem avançar a partir da perspectiva transdisciplinar
e da complexidade, como proposto por Edgar Morin?
Mario Novello - Uma das maiores revoluções
da Física do século XX foi a abertura do pensamento
para o não-linear, isto é, a utilização
de métodos e processos não-lineares na descrição
de vários fenômenos. Isso foi possível graças
a uma série de descobertas, mas talvez se tivéssemos
que escolher um nome para simbolizar esse movimento eu citaria o grande
matemático francês Henri Poincaré . Foi ele que
iniciou de modo sistemático o estudo daquilo que chamamos hoje
de sistemas dinâmicos, uma série de equações
de natureza não-linear capazes de representar diferentes processos
da natureza. Embora seu estudo tenha se iniciado na Mecânica
de Fluidos, onde o aspecto não-linear é dominante, cedo
seu método de investigação se espalhou para outras
áreas da Física e, em seguida, adquiriu universalidade
de aplicação como na Química e até mesmo
na descrição de processos envolvendo estruturas tão
amplas como fenômenos humanos de várias espécies.
A lista é enorme. Filósofos como Gilles Deleuze , químicos
como Ilya Prigogine, engenheiros, psicólogos, e uma extensa
série de pensadores tem usado esses métodos que não
são mais do território exclusivo da matemática
mas servem para diferentes análises, estendendo cada vez mais
o alcance de sua aplicação.
Bifurcação e sistema
Somente para citar uma propriedade
notável dessa análise eu gostaria de me referir a um
dos fenômenos mais interessantes que é o da bifurcação.
Talvez o território que vou escolher para exemplificar esse
processo seja o menos esperado: a Cosmologia. Vejamos.
A análise de processos de bifurcação
provém do estudo de sistemas dinâmicos descritos em uma
superfície bi-dimensional. Esse é o caso mais simples
que posso pensar agora. Assim, o sistema em questão se caracteriza
somente por duas variáveis. A evolução do sistema
é dada por uma curva nessa superfície. Se necessário,
podemos imaginar que as duas variáveis em questão são,
por exemplo, a posição e a velocidade de um corpo material;
mas essa especificação não é necessária,
pois podemos igualmente pensar a descrição de outros
sistemas envolvendo, por exemplo, processos químicos relacionados
à rapidez da reação entre diferentes substâncias,
processos psicológicos ou até mesmo uma questão
de tráfego em uma cidade.
Pois bem, uma bifurcação
nesse sistema bi-dimensional registra a existência de uma região
do sistema onde a previsibilidade deixa de ser parte formal de sua
análise. Dito de outro modo, uma curva nessa superfície
bi-dimensional caracteriza a evolução de um processo.
Cada ponto dessa curva pode servir como ponto de partida para uma
determinação futura, ou seja, a caracterização
da evolução está inscrita nessa curva. Diferentes
curvas são diferentes histórias com condições
iniciais distintas e, consequentemente, evolução distinta.
Entretanto, dentro de cada curva podemos utilizar a noção
associada ao determinismo desse processo, ou seja, o conhecimento
completo futuro de uma trajetória se faz a partir do conhecimento
inicial dessa curva. Exceto se o sistema é tal que em um dado
ponto da superfície um ponto de bifurcação ocorre.
A partir desse ponto a trajetória do caminho para além
desse ponto deixa de ser previsível: o sistema entra em uma
região onde a previsibilidade deixa de ser uma característica
do sistema.
O Universo e a complexidade
Ao examinarmos algumas particularidades das equações
de Einstein da Relatividade Geral, mostrou-se que sob certas condições
o Universo admite a presença de uma bifurcação.
Isto é, o sistema de equações que descreve o
Universo neste cenário admite a descrição em
termos de um sistema dinâmico que possui bifurcação.
Isso significa que no modelo de Universo controlado por aquelas equações
a descrição desse Cosmos é imprevisível.
Creio que todos nós estaríamos de acordo em afirmar
que uma tal propriedade possui consequências extraordinárias
e certamente conduz a uma visão do Universo distinta da convencional.
O notável é que esse processo que descrevemos
usando uma situação particular em nosso conhecimento
da Cosmologia pode ocorrer em outras áreas. A utilização
desses sistemas ditos complexos, envolvendo sua descrição
por meio de funções não-lineares transbordou
para outros modos de investigar processos na natureza não-orgânica
e orgânica tornando-se um poderoso método de análise
desses sistemas complexos.
IHU On-Line - Em entrevista que o senhor nos concedeu
em 2010, afirmou que compartimentar os saberes se configura numa “prática
de dominação política”. Em que medida avança
a técnica e regride o saber a partir dessa concepção
fragmentária?
Mario Novello - Em um dos primeiros números
da revista eletrônica Cosmos e Contexto (www.cosmosecontexto.org.br)
em um artigo do pensador espanhol Ortega y Gasset ele comenta de uma
forma brilhante e agradável o mal que a especialização
produz sobre as atividades do saber. Todos nós reconhecemos
que no sistema capitalista de configuração global, a
ciência se constrói a reboque da tecnologia. Parece que
a sociedade moderna está derrubando todo vestígio de
encantamento que a descoberta científica pode conceder reduzindo
a atividade do cientista a uma busca pela técnica, ou como
se diz ultimamente, pela inovação. Não é
sem consequência que os órgãos de financiamento
da pesquisa fundamental, como o CNPq e o Ministério da Ciência
e Tecnologia - MCT em geral, estejam mais do que nunca utilizando
o termo “pesquisador” ao que antes se conhecia pelo termo
“cientista”. Essa mudança de terminologia não
é ocasional nem sem consequências. Ela traz em si a ideia
de que o pesquisador se lança em uma busca para resolver um
problema conhecido. Ou seja, temos a priori um problema. Resta então
encontrar sua solução.
A orientação do cientista é distinta.
Ele procura produzir um problema, mesmo ali onde o conhecimento parece
ser estável e seguro. Produzir instabilidade no sistema de
conhecimento: essa é a função fundamental do
cientista. A solução é uma questão da
técnica, o que não significa que ela seja menor. É
somente diferente. Não se trata de opor ciência e tecnologia,
mas sim exibir o diferente status que elas possuem na sociedade e
nos diversos meios de comunicação e governamental na
sua organização como principal financiadora dessas atividades.
Ou seja, parece que estamos entrando em uma ordem econômica
e social na qual o desenvolvimento brasileiro exige o aparecimento
de um contingente grande de técnicos e cada vez menos de cientistas.
Se você conversar com os dirigentes, a maioria
deles ainda se resguarda de explicitar qualquer forma de dicotomia
a nível institucional, e argumentam que o conhecimento deve
ser não enciclopédico, mas prático. Leia-se:
primado da técnica. Se essa premissa for verdadeira, então
entendemos que a fragmentação a que estamos referindo
é uma consequência intrínseca de uma diretriz
do Estado em detrimento do conhecimento que não possua uma
forte componente técnica.
IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto
não questionado?
Mario Novello - Sim. Em seu belo livro Mes philosophes
(Meaux: Germina, 2011), Edgar Morin termina sua introdução
argumentando que ele havia escapado à ditadura do pensamento
convencional dominante, e em particular àquilo que estamos
chamando de “especialização”, através
de uma vertente autodidata e em particular graças à
multiplicidade de suas fontes que ele admite ser de diferentes e variadas
orientações, chamando de “maîtres”
por exemplo Heráclito , Lao-Tsé, Breton, Bataille ,
Von Foerster , Spinoza , Heidegger e outros.
Ele está, assim, dando seu testemunho de um
pensamento de origens multifacetado que, consequência natural,
não recebe ordens. Mas investiga, o tempo todo, incessantemente,
produzindo o mais das vezes, a crítica de sua atividade. Essa
estrada que o humanista constrói – seja ele um cientista
ou um pensador de qualquer área – não pode terminar,
não pode ter fim. Seguir em frente é sua finalidade.
E ela não se mede por resultados concretos, mas sim trata de
um outro lugar. Que lugar é esse que o filósofo está
apontando?