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Cristiane de Carvalho Neves
> Dores Humanas – um olhar sobre as perdas na Pandemia
Cristiane de Carvalho Neves CRP-09/5022 -
Psicóloga especialista em Terapia Sistêmica
Familiar e Intervenções em Luto
Quem de nós imaginaria passar por uma pandemia
ou por um isolamento social? As nossas famílias enfrentaram
algo inusitado e inesperado. Além das diversas perdas, que
emocionalmente não devem ser comparadas, as pessoas estiveram
consumidas pelo medo devido à alta possibilidade de um ou mais
membros se contaminarem, também sentiram medo devido ao agravamento
dos sintomas com possibilidade de morte após o contágio
do vírus, e o nosso medo foi sendo reforçado diariamente
conforme aumentava o número de infectados e mortos em todo
o mundo.
A perda é um dos processos mais desorganizadores da vida humana.
Não somente a perda de pessoas, mas qualquer processo de mudança
de vida pelo fato de implicar o desaparecimento de uma antiga e conhecida
condição, com a obrigatória passagem para uma
nova e desconhecida fase. Isso descreve exatamente o que passamos.
Rotinas bem estabelecidas precisaram ser readequadas às exigências
sanitárias com restrições sociais. Com o coronavírus,
na condição do isolamento, tudo mudou e repentinamente.
Vimos correria aos supermercados e as pessoas desesperadas em busca
de álcool em gel 70%, máscaras e outros... Tudo isso,
já evidenciando um processo de adaptação à
nova realidade que nos estava sendo imposta. Toda aquela realidade
que conhecíamos estava sendo desfeita. Cada pessoa foi buscando
se reorganizar à sua maneira, de acordo com os seus recursos
disponíveis internos e externos, a essa nova condição
de sobrevivência.
Além do mais, Baricca (2008) fala sobre a angústia que
nós sentimos quando nos deparamos com a possibilidade de morte.
Ela diz que a “angústia de morte significa, portanto,
viver a presença imponente de uma ameaça à nossa
existência.” [...] “Assim, pensar a própria
morte, ou a sua possibilidade, provoca forte sentimento no ser humano,
de modo que a angústia desencadeada é transformada,
defensivamente, em medos e dificuldades.”
Tivemos uma preocupação com o movimento das nossas famílias
durante essa crise que, podemos dizer, ainda atravessamos. A palavra
crise na sua etiologia, pressupõe crescimento, oportunidade.
Toda crise desestabiliza o que existia e abre uma oportunidade “sagrada”
de reinvenção; uma oportunidade para a mudança.
Para que a gente possa atravessar uma crise como algo sagrado, a gente
precisa se perguntar qual é o meu propósito para hoje?
E a família em crise pandêmica pode ser estimulada a
enxergar o propósito de reinvenção daquele sistema;
repensar o modo de relacionar uns com os outros como uma oportunidade
de aproximação e aumentar a intimidade entre os membros
da família; corrigir os erros, pedir perdão; propiciar
novas formas de interação, o resgate de brincadeiras
há tempos deixadas de lado; ou até novas receitas culinárias.
Considerando os cuidados com as nossas famílias, compreendemos
a sua importância como matriz no desenvolvimento biopsicossocial
do indivíduo – um sistema de vínculos afetivos
por meio do qual se gera e se desenvolve a organização
psíquica do indivíduo. Nesse sentido, esperamos que
a família seja um lugar de segurança, cuidado e afeto.
Esslinger (2008) corrobora com o conceito que Carter e McGoldrick
definiram sobre família dizendo que é um “sistema
movendo-se através do tempo, com papéis, funções
e relacionamentos insubstituíveis. Esse sistema, por sua vez,
tem seus ciclos, os quais podem ser facilitadores ou dificultadores
na aceitação de mudanças, dentre elas, as perdas”.
Portanto, as famílias estão amedrontadas. O medo é
instintivo e foi necessário na preservação enquanto
espécie. O medo que desenvolvemos do novo coronavírus
é algo natural, impossível de ser evitado. Esse medo
tem dois lados: o positivo está em cuidar da vida, em não
se colocar em situações de risco. O negativo ocorre
quando o medo causa muito sofrimento, quando impede a continuidade
da vida. Porque sentir medo nos serve como instinto de sobrevivência,
que nos prepara para a luta ou fuga. Quando isso acontece, somos protegidos.
Só não podemos viver o tempo todo assim como um alarme
com defeito, pois teremos um desgaste psíquico.
Nesse momento de tantas perdas, precisamos compreender que cada pessoa
lida com rompimentos afetivos à sua maneira. E precisamos saber
respeitar o tempo de processo de luto individual. A mente do enlutado,
no primeiro momento, está confusa com todo o desmoronar na
vida dele. Dependendo do que falamos ao enlutado, podemos ajudar ou
ferir ainda mais. Na verdade, quanto menos falar, melhor. Então,
um abraço, um olho no olho, e o principal, apenas dizer “estou
aqui com você”, já é o suficiente! Frases
como “Agora ele já não sofre mais”; “O
tempo cura tudo”; “É a vida, todos vamos morrer”;
“Olha, que há pessoas que estão pior”; “Você
é jovem, pode se casar novamente/ter outro filho”. Essas
frases podem ser inadequadas de imediato e machucar ainda mais.
Entretanto, podemos dizer “Sinto muito pelo que está
passando”; “Nem posso imaginar o que você está
passando”; “Você é uma pessoa muito importante
pra mim, pode contar comigo”; “Quer falar? Posso te ouvir”.
Lembrando que a pessoa em luto se questiona sobre a capacidade do
cuidador em o ajudar verdadeiramente: “Será que posso
confiar em você? Será que realmente vai me entender?”
Devemos cuidar para não minimizar as nossas perdas cotidianas.
Sofrimento não deve ser comparado. Cada qual sabe o quanto
aquela perda lhe faz falta. Talvez, buscar formas de lidar com nossas
perdas nesse tempo de pandemia seja o mais interessante, pois todos
já passamos ou passaremos por algum tipo de perda significativa
em algum momento da vida. As pessoas podem procurar ajuda em grupos
de apoio ao luto; na conversa amiga e confiável; como também,
buscar ajuda de um profissional de saúde, especialmente, um
psicólogo. As pessoas precisam falar sobre o que estão
enfrentando ao vivenciar suas perdas, para que possam seguir no curso
do seu processo adaptativo do luto.
Referências Bibliográficas:
BARICCA, A. M. Viver e Conviver com HIV/AIDS, In: Morte
e existência humana: caminhos de cuidados e possibilidades de
intervenção. Coord.: Kovács, M. J. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 2008. Cap. I
ESSLINGER, I. De quem é a vida, afinal? Cuidando
dos cuidadores (profissionais e familiares) e do paciente no contexto
hospitalar. In: Morte e existência humana: caminhos de cuidados
e possibilidades de intervenção. Coord.: Kovács,
M. J. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. Cap. IX
Fonte: http://medicinaespiritual.blogspot.com/2021/10/dores-humanas-um-olhar-sobre-as-perdas.html
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