A mídia brasileira,
abrangendo jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão,
tem dedicado muito espaço ao fenômeno mediúnico,
ora como objeto de matéria jornalística imparcial,
ora para apontar casos infelizes de charlatanismo, exercício
ilegal da medicina e curandeirismo, que são crimes previstos
na lei penal vigente.
Como exemplo dessa assertiva, a
revista Istoé dedicou ao tema a matéria
de capa da edição de 15 de abril de 1998. Dispondo-se
a noticiar o que chamou de O fascinante fenômeno da
mediunidade, a revista se propõe a ensinar como
é possível perceber esta sensibilidade em você,
a revelar o que a ciência está descobrindo sobre este
poder e a explicar por que o Brasil é chamado de paraíso
dos médiuns, tudo isso em chamadas sobre a foto de um médium
em transe.
A matéria interior tem o
título Estranhos poderes, sob o qual afirma
que “Eles dizem ouvir vozes, assumir personalidades, receber
mensagens de mortos. As habilidades dos médiuns, por muito
tempo explicadas pela fé, atraem o olhar da ciência
e ganham novas interpretações”, alongando-se
por sete páginas com o texto, depoimentos e fotos, incluindo
uma recente aparição pública de Chico Xavier,
e ainda uma ilustração mostrando o suposto funcionamento
do cérebro segundo o Espiritismo.
Por seu turno, a Rede Globo
de Televisão também dedicou exclusivamente
à mediunidade uma edição de o Globo
Repórter, líder de audiência na sexta-feira.
Com efeito, na noite de 24 de abril de 1998 milhões de telespectadores
assistiram a fenômenos como quadros e músicas de pintores
e compositores falecidos, entre eles Picasso, Toulouse Lautrec e
Vincent Van Gogh (pintores), Ataulfo Alves e Noel Rosa (compositores);
curas impressionantes através da fitoterapia e mensagens
de filhos queridos que consolavam pais e mães desesperados
com suas mortes precoces. Foram entrevistados os médiuns
Valdelice Salum, Jorge Rizzini, Celso Afonso Cunha, Langerton Neves
Cunha e outros.
É inegável que tais
reportagens são importantes para a divulgação
da Doutrina Espírita. Entretanto, lamenta-se que os repórteres
e redatores conheçam muito pouco de Espiritismo e de mediunidade.
Acontece que, como argutamente observou o amigo Felipe Salomão,
muito embora os jornais, revistas e emissoras de rádio e
televisão contratem jornalistas especializados para matérias
específicas como economia, ciência, política
e esportes, o mesmo não acontece com o Espiritismo, área
em que os repórteres, normalmente jejuns no assunto, usam
muito mais o seu faro jornalístico do que um indispensável
conhecimento de causa, resultando na notória insuficiência
das matérias versando sobre o fenômeno mediúnico,
o qual exige longo e sério estudo para que alguém
fale ou escreva sobre ele sabendo realmente do que se trata e como
se processa.
Desse modo, competindo à
imprensa espírita suprir as lacunas da imprensa laica no
seu campo de pesquisa, formos buscar na Revista Espírita
de fevereiro de 1859 e janeiro de 1863, em O que é o Espiritismo
e em O Livro dos Médiuns, todos de autoria de Allan Kardec,
as respostas para as seguintes indagações:
P. O que é mediunidade?
R. “A mediunidade é
uma faculdade multiforme; apresenta uma infinidade de nuanças
em seus meios e efeitos. Quem quer que seja apto a receber ou transmitir
as comunicações dos Espíritos é, por
isso mesmo, um médium, seja qual for o meio empregado ou
o grau de desenvolvimento da faculdade — desde a simples influência
oculta até à produção dos mais insólitos
fenômenos. Contudo, no uso corrente, o vocábulo tem
uma acepção mais restrita e se diz geralmente das
pessoas dotadas de um poder mediatriz muito grande, tanto para produzir
efeitos físicos, como para transmitir o pensamento dos Espíritos
pela escrita ou pela palavra.”
P. Quais as causas da mediunidade?
R. “O dom da mediunidade depende
de causas ainda imperfeitamente conhecidas e nas quais parece que
o físico tem uma grande parte. À primeira vista pareceria
que um dom tão precioso não devesse ser partilhado
senão por almas de escol. Ora, a experiência prova
o contrário, pois encontramos mediunidade potente em criaturas
cuja moral deixa muito a desejar, enquanto outras, estimáveis
sob todos os aspectos, não a possuem.”
P. A faculdade mediúnica
é indício de um estado patológico qualquer,
ou de um estado simplesmente anômalo?
R. “Anômalo, à
vezes, porém, não patológico; há médiuns
de saúde robusta; os doentes o são por outras causas.”
P. É sabido que,
na mediunidade, os Espíritos atuam sobre o cérebro
do médium. Qual o papel dos médiuns e como se processa
o fenômeno mediúnico?
R. “Esta análise do
papel dos médiuns e dos processos pelos quais os Espíritos
se comunicam é tão clara quanto lógica. Dela
decorre, como princípio, que o Espírito haure, não
as suas idéias, porém os materiais de que necessita
para exprimi-las, no cérebro do médium e que, quanto
mais rico em materiais for esse cérebro, tanto mais fácil
será a comunicação. Quando o Espírito
se exprime num idioma familiar ao médium, encontra neste,
inteiramente formadas, as palavras necessárias ao revestimento
da idéia; se o faz numa língua estranha ao médium,
não encontra neste as palavras, mas apenas as letras. Por
isso é que o Espírito se vê obrigado a ditar,
por assim dizer, letra a letra, tal qual como quem quisesse fazer
que escrevesse alemão uma pessoa que desse idioma não
conhecesse uma só palavra. Se o médium é analfabeto,
nem mesmo as letras fornece ao Espírito. Preciso se torna
a este conduzir-lhe a mão, como se faz a uma criança
que começa a aprender. Ainda maior dificuldade a vencer encontra
aí o Espírito. Estes fenômenos, pois, são
possíveis e há neles numerosos exemplos; compreende-se,
no entanto, que semelhante maneira de proceder pouco apropriada
se mostra para comunicações extensas e rápidas
e que os Espíritos hão de preferir os instrumentos
de manejo mais fácil, ou, como eles dizem, os médiuns
bem aparelhados do ponto de vista deles. Se os que reclamam esses
fenômenos, como meio de se convencerem, estudassem previamente
a teoria, haviam de saber em que condições eles se
produzem.”
P. A mediunidade poderia
produzir a loucura?
R. “Não mais do que
qualquer outra coisa, desde que não haja predisposição
para isso, em virtude de fraqueza cerebral. A mediunidade não
produzirá a loucura, quando esta já não exista
em gérmen; porém, existindo este, o bom-senso está
a dizer que se deve usar de cautelas, sob todos os pontos de vista,
porquanto qualquer abalo pode ser prejudicial.”
P. Quais são os tipos
de mediunidade?
R. “Ao primeiro exame, duas
categorias se desenham muito nitidamente: os médiuns de efeitos
físicos e os das comunicações inteligentes.
Estes últimos apresentam numerosas variedades, das quais
as principais são: os escreventes ou psicógrafos,
os desenhistas, os auditivos e os videntes. Os médiuns poetas,
músicos, poliglotas constituem subclasses dos escreventes
e falantes. A faculdade de produzir efeitos físicos constitui
uma categoria bem nítida, que raramente se alia às
comunicações inteligentes, sobretudo às de
elevado alcance. Sabe-se que os efeitos físicos são
peculiares aos Espíritos de classes inferiores, assim como
entre nós a exibição de força dos trapezistas.”
P. De onde vem a aptidão
de alguns médiuns para escrever em verso?
R. “A poesia é uma
linguagem. Eles podem escrever em verso, como podem escrever numa
língua que desconheçam. Depois, é possível
que tenham sido poetas em outra existência, e o Espírito,
tendo que chegar à perfeição em todas as coisas,
jamais perde os conhecimentos adquiridos. Nesse caso, o que eles
hão sabido lhes dá uma facilidade de que não
dispõem no estado ordinário.”
P. O mesmo ocorre com os
que têm aptidão especial para o desenho e a música?
R. “Sim; o desenho e a música
também são maneiras de se exprimirem os pensamentos.
Os Espíritos se servem dos instrumentos que mais facilidade
lhes oferecem.”
P. A expressão do
pensamento pela poesia, pelo desenho ou pela música depende
unicamente da aptidão especial do médium, ou também
da do Espirito que se comunica?
R. “Às vezes, do médium;
às vezes do Espírito. Os Espíritos superiores
possuem todas as aptidões. Os Espíritos inferiores
só dispõem de conhecimentos limitados.”
P. As comunicações
escritas e verbais também podem emanar do próprio
Espírito encarnado no médium?
R. “A alma do médium
pode comunicar-se, como a de outro qualquer. Se goza de certo grau
de liberdade, recobra suas qualidades de Espírito.”
P. Esta explicação
não confirmaria a opinião dos que entendem que todas
as comunicações provêm do Espírito do
médium e não de Espírito estranho?
R. “Os que assim pensam só
erram em darem caráter absoluto à opinião que
sustentam, porquanto é fora de dúvida que o Espírito
do médium pode agir por si mesmo. Isso, porém, não
é razão para que outros não atuem igualmente,
por seu intermédio.”
P. O médium exerce
alguma influência sobre as comunicações que
deva transmitir, provindas de outros Espíritos?
R. “Exerce, porquanto se estes
não lhe são simpáticos, pode ele alterar-lhes
as respostas e assimilá-las às suas próprias
idéias e a seus pendores; não influencia, porém,
os próprios Espíritos, autores das respostas; constitui-se
apenas em mau intérprete.”
P. Como distinguir se o
Espírito comunicante é o do próprio médium,
ou outro?
R. “Pela natureza das comunicações.
Estuda as circunstâncias e a linguagem e distinguirás.
No estado de sonambulismo, ou de êxtase, é que, principalmente,
o Espírito do médium se manifesta, porque então
se encontra mais livre. No estado normal é mais difícil.
Aliás, há respostas que se lhe não podem atribuir
de modo algum. Por isso é que te digo: estuda e observa.”
P. Alguns cientistas negam
os fatos mediúnicos, ou os atribuem a diversos outros fatores,
menos à ação dos Espíritos. Como responder
a tais críticas?
R. “O fato de o Espiritismo
não ter foros de cidade, na ciência oficial, não
é motivo para que se o condene. Se a ciência jamais
se houvesse enganado, sua opinião poderia pesar na balança.
Desgraçadamente, porém, a experiência prova
o contrário. Ela repeliu como quimeras um sem número
de descobertas que, mais tarde, tornaram ilustre a memória
de seus autores.
“Há que se concordar,
também, que ninguém pode ser bom juiz naquilo que
está fora da sua competência. Se alguém desejar
construir uma casa, procurará um médico? Se estiver
enfermo, recorrerá aos serviços de um arquiteto? E
se tivesse um processo, consultaria um dançarino? Finalmente,
se tivesse uma questão de teologia pediria sua solução
a um químico ou a um astrônomo? Não! Cada um
tem sua especialidade.
“As ciências comuns
baseiam-se nas propriedades da matéria, que cada um manipula
a seu bel-prazer. Os fenômenos por ela produzidos têm
por agentes forças materiais. Os fenômenos espíritas
têm por agentes inteligências independentes, dotadas
de livre-arbítrio e que não se submetem ao nosso capricho.
Por esse motivo subtraem-se aos nossos processos de laboratório
e às nossas deliberações. Não estão,
por conseguinte, no domínio da ciência propriamente
dita.”
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