RESUMO:
OBJETIVOS: Apresentar diretrizes
baseadas em evidências para a prática clínica
em relação à religiosidade e espiritualidade
na assistência à saúde mental no Brasil.
MÉTODOS: Foi realizada uma revisão
sistemática para identificar artigos potencialmente elegíveis
indexados nas bases de dados PubMed, PsycINFO, SciELO, LILACS e Cochrane.
Um resumo das recomendações e seus respectivos níveis
de evidência foi elaborado de acordo com as diretrizes do Oxford
Centre for Evidence-Based Medicine.
RESULTADOS: A revisão sistemática identificou
6.609 artigos, dos quais 41 atenderam a todos os critérios
de inclusão. A anamnese espiritual mostrou-se essencial para
uma abordagem de cuidado compassiva e culturalmente sensível.
Representa uma forma de obter informações relevantes
sobre a religiosidade/espiritualidade do paciente, potenciais conflitos
que podem impactar a adesão ao tratamento e melhorar a satisfação
do paciente. Evidências consistentes demonstram que relatos
de experiências perceptivas são pouco confiáveis
para diferenciar entre experiências anômalas e psicopatologia.
Sintomas negativos, desorganização cognitiva e comportamental
e comprometimento funcional são mais úteis para distinguir
experiências anômalas patológicas de não
patológicas.
CONCLUSÃO: Considerando a importância
da religiosidade/espiritualidade para muitos pacientes, a história
espiritual deve ser rotineiramente incluída no atendimento
em saúde mental. Experiências anômalas são
altamente prevalentes, exigindo uma abordagem sensível e baseada
em evidências para o diagnóstico diferencial.
_____________
>>>
texto completo em português
INTRODUÇÃO
A religião/espiritualidade (R/E) é
um dos aspectos mais importantes da vida em diferentes culturas ao
redor do mundo.<sup> 1 </sup> Segundo pesquisas globais,
cerca de 84% da população mundial afirma ter alguma
afiliação religiosa, e essa porcentagem está
aumentando.
(...)
Muitas pessoas recorrem a crenças,
práticas e organizações religiosas/espirituais
em busca de apoio quando enfrentam adversidades da vida, doenças
ou problemas de saúde mental. As crenças religiosas/espirituais
também são reconhecidas como um fator importante na
tomada de decisões do paciente, bem como na adesão e
satisfação com o tratamento.
(...)
Apesar das evidências e recomendações
disponíveis, existem poucas diretrizes baseadas em evidências
sobre como incorporar a religiosidade/espiritualidade (R/E) nos cuidados
de saúde mental. Com base em uma revisão sistemática
e abrangente da literatura, o presente estudo fornece um resumo de
recomendações práticas fundamentadas nas melhores
evidências disponíveis e em uma abordagem eticamente
informada da R/E, abordando três questões principais
de pesquisa: 1) Como coletar a história religiosa/espiritual
(HR) 2) Quais evidências devem ser consideradas no diagnóstico
diferencial entre transtornos psiquiátricos e experiências
religiosas ou espirituais? 3) Como integrar a R/E ao tratamento psiquiátrico?
Este artigo apresenta os resultados para as duas primeiras questões.
(...)
Barreiras para abordar a espiritualidade
do paciente
Embora muitos pacientes desejem discutir religião/espiritualidade
em suas consultas, muitos clínicos encontram barreiras para
abordar as necessidades espirituais na prática clínica
(Quadro 1). Uma pesquisa com 484 psiquiatras brasileiros revelou que
a maioria (76,8%) considera muito importante, ou razoavelmente importante,
integrar a religião/espiritualidade do paciente à prática
clínica, embora mais da metade (55,5%) não costume perguntar
sobre a religião/espiritualidade do paciente. As principais
barreiras relatadas para abordar a religião/espiritualidade
na prática clínica foram: i) preocupações
em ultrapassar limites éticos (30,2%), ii) falta de treinamento
em religião/espiritualidade (22,3%) e iii) falta de tempo (16,3%).