Nascido quinze anos depois de Allan Kardec,
José Maria Fernandez Colavida perdeu os bens,
a família, mas encontrou o consolo n' O Livro dos
Espíritos, ganho do capitão da marinha.
Ele viria a se tornar um dos maiores divulgadores do Espiritismo na
Espanha
Eduardo Carvalho Monteiro
José Maria Fernandez Colavida
nasceu dia 19 de março de 1819, em Tortosa, na província
de Taragona. Filho de pais afortunados, ele recebeu, nos seus primeiros
anos, instrução das mais significativas para sua época.
Seu pai, D. Pio, secretário do governo militar e político
de Tortosa, com a morte do rei Fernand VII, sofreu muitas perseguições
daqueles que invejavam sua sorte, chegando a ser destituído
do cargo e exilado.
Estas perseguições se estenderam a toda a família,
particularmente, a José Maria Fernandez, por ser o primogênito
dos oito filhos de D. Pio. Isso o obrigou a abandonar o seio paterno
e seu país, antes dos 16 anos, e a prestar seus serviços
voluntários ao Exército. Em 1º de novembro de 1835
ele se incorporou na 6ª Companhia do 1º Batalhão
de Tortosa sob as ordens do comandante Louis Llagostera. Colavida
foi feito prisioneiro em Morella, após heróica defesa
deste lugar como tenente-coronel. Foi, posteriormente, transportado
a Cadiz com outros prisioneiros de guerra, tomando conhecimento, durante
o trajeto, da execução de seu pai, fuzilado em 15 de
julho de 1835.
Todas essas tristezas, sem dúvida, influíram a alma
de Fernandez, fazendo com que ele trabalhasse, mais tarde, pela paz,
muito mais do que o fez na guerra.
A luta termina e ele recobra a liberdade em 25 de setembro de 1841,
voltando a Barcelona, onde resolveu acabar seus estudos de notário.
Colavida não exerceu a profissão, mas ficou à
testa da repartição na qual trabalhou.
Sua iniciação no estudo do Espiritismo teve lugar em
uma viagem que fez a Madrid, quando leu O Livro dos Espíritos,
cedido pelo capitão da Marinha Mercante Ramon Lagier y Pomares.
Fernandez Colavida, que sempre se distinguiu por sua caridade extrema,
foi um dos mais entusiastas fundadores da Sociedade Amigos dos Pobres.
Defendendo os interesses desta Sociedade, a qual presidiu, ganhou
muitos inimigos.
No momento do apogeu da última guerra carlista, ele lutou empenhando
todos os seus esforços para conseguir a paz, com seu gênio
e seus eminentes sacrifícios. Colavida reuniu, para fazer chegar
às mãos armadas dos carlistas, milhares de proclamações
pela paz. Teve a felicidade de ver sua empreitada coroada de sucesso
e recusou todas as recompensas, inclusive quando lhe foi oferecida
a patente de coronel.
Apóstolo do Espiritismo
Pelos grandes empreendimentos que
liderou na sua trajetória de divulgador e praticante do Espiritismo,
por suas renúncias e dedicação aos mais carentes,
Colavida, um dos apóstolos do Espiritismo na Espanha, foi considerado
o "Kardec espanhol". Sua fortuna
e a de sua família foram reduzidas pelos azares da guerra civil,
e tudo o que ganhava pelo seu trabalho, doava aos miseráveis
ou consagrava à propaganda espírita, já que perdera
o pai, como dito, e também a mãe, em morte violenta.
Mas seu caráter era por todos reconhecido, devido à
humildade e modéstia.
O Congresso Espírita de 1888 se reuniu em Barcelona, ocasião
em que Colavida foi aclamado, com entusiasmo, presidente honorário;
justa recompensa por seus méritos.
Empreendimentos de Colavida
Aconselhado pelos espíritos,
ele começou a tradução e a publicação
das obras fundamentais do Espiritismo. Mas, não se contentando
apenas com estas publicações, funda o primeiro Centro
de Estudos Espíritas em Barcelona e a Sociedade Barcelonesa
Propagandista do Espiritismo, que ele sustentou da mesma maneira que
a Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos,
de Allan Kardec. O primeiro número apareceu em maio de 1869.
Colavida era a alma do jornal e da Sociedade que em 1875 já
havia publicado as obras fundamentais da Doutrina, os resumos de Allan
Kardec, além de A Verdadeira Doutrina Espírita,
Harmonia da Lei e da Razão, O Espiritismo na Bíblia,
Harmonia Universal, duas edições da Coleção
de Orações, Melodia para o Espírito
de Isem, Celeste e Ensaios de um Quadro Sinótico
para a Unidade Religiosa do Espírito Romano Leila. Tudo
isso faz de Fernandez Colavida o mais importante divulgador do Espiritismo
na Espanha em sua época.
Propagação do Espiritismo
Durante o período de trinta
anos, ele se dedicou assiduamente ao estudo e à propagação
do Espiritismo. Os estudos profundos nos livros de Allan Kardec e
da Revista Espírita, e as observações diretas
dos espíritos nas sessões dos centros que fundou e dirigiu,
deram-lhe grande conhecimento da ciência espírita, tornando-o
conselheiro dos irmãos mais experimentados.
Reuniu numerosa e extensa correspondência, enfeixadas em volumes
de ensinamentos. Também uns de seus mais importantes trabalhos
foram os estudos sobre magnetismo, subordinados às observações
e aos fins propostos pelo Espiritismo. Fora um grande magnetizador
e desenvolvera grande número de médiuns sonâmbulos.
Realizou notáveis experiências e obteve prodigiosos resultados
em sonambulismo lúcido aplicado ao Espiritismo. Apoiava-se
em sua esposa, Ana de Campos, médium de excepcionais dotes,
falecida em 5 de maio de 1882, e com a qual fora casado por 16 anos.
Talvez pelo seu amor excessivo à ciência, abusou insensivelmente
de suas poderosas faculdades, usando sua energia vital e minando forças
na sua última doença. Colavida Fernandez também
editou: Leila ou Provas de um Espírita (2º
parte); Catecismo Espírita de Joseph Henri Turck;
Lições de Espiritismo para as Crianças,
O Espiritismo e a Moral, Obscuridade e Luzes, de
Navarro Murillo, Contra os Cursos de Tarô, mesmo autor;
O romance ouvido e executado ao piano pelos médiuns
sonâmbulos, senhoritas Avelina Colom e Pilar Rafecas Cassy,
inspiradas pelo espírito protetor do grupo A Paz e por último,
a obra de Gabriel Delanne, O Espiritismo diante da ciência,
traduzido do francês por D. Juan Juste.
Apesar das grandes perdas, ele não quis deixar seu sonho de
fazer novas publicações espíritas, quando a morte
veio surpreendê-lo. Um dos seus desejos, o último e maior,
foi o de ver continuar sua obra de propaganda e, principalmente, sua
querida revista.
Desencarnou em Barcelona em 29 de abril de 1909 (1).
1- A data do desencarne de Colavida não é
29 de abril de 1909, mas sim é 1 dezembro de 1888 (agradeço
o lembrete da leitora Simoni Goidanich). Quem desencarnou em 29 de abril
de 1909 foi outra grande figura do Espiritismo na Espanha, Amalia Domingo
Soler.