Camille Flammarion,
cujo sobrenome em galo-romano significa Aquele que leva a luz, nasceu
em Montignyle - Roi (Alto Marne), a 26 de fevereiro de 1842 e faleceu
em Juvisy a 3 de junho de 1925.
Espírita convicto, foi dedicado amigo e correspondente
de Allan Kardec, tendo sido designado para fazer o discurso final ao
pé do túmulo do mestre lionês.
Flammarion escreveu as seguintes
obras:
Os Mundos Imaginários e os Mundos Reais, As Maravilhas Celestes,
Deus na Natureza, Contemplações Científicas, Estudos
e Leitura sobre Astronomia, Atmosfera, Astronomia Popular, Descrição
Geral do Céu, O Mundo antes da Criação do Homem,
Os Cometas, As Casas Mal-Assombradas, Narrações do Infinito,
Sonhos Estelares, Urânia, Estela, O Desconhecido, A Morte e seus
Mistérios, Problemas Psíquicos, O Fim do Mundo, Origens
da Vida, entre outras.
A seguir, reproduzimos a autobiografia do grande
astrônomo e escritor Camille Flammarion.
“Aos 26 de Fevereiro de 1842, Montigny-Le-Roy
(França) viu, talvez com o desdém habitual de todas as
localidades do mundo, a figura de Camille Flammarion, pois que nascera
numa modesta residência, fomada por um rés-do-chão,
e de um andar, casa velha, casa de pobres.
Filho de humildes agricultores, aos quatro anos Flammarion
já sabia ler e escrever e, aos cinco, com sua irmã Bertha,
contemplava num vaso d’agua um eclipse do sol, o primeiro da sua
vida.
Na escola comunal, ocupou sempre o primeiro lugar, desde
os seis anos! Ei-lo ajudando a missa, excursionista, trabalhando e lendo
muito, já absorto na contemplação da natureza,
profundamente comovido e cheio de admiração! Luminosas
alegrias visitaram sua infância, mas não faltaram tristezas
dos primeiros beijos dolorosos da vida!...
Aprendeu latim com o honrado cura da aldeia, e prosseguiu
seus estudos no pequeno seminário de Langres, onde freqüentava
as aulas de Nicolau Conturier na catedral. Em 1854, ano terrível
para seus pais, o cólera mata a quinta parte dos habitantes de
Montigny; seu pai cai doente, depois de haver enterrado pai e mãe,
com dois dias de intervalo, e a mãe, extenuada de fadiga, mal
tem forças para tratar do marido. E chegam os fatais vencimentos
de termos, a ruína, a venda dos campos, dos jardins, da casa
e dos móveis, do cavalo, do carrinho, de tudo que me recorda
um tempo que não voltará mais... E estas imagens longínquas
e tristes, que me chegam com quase setenta anos de atraso, martelam-me
o coração. Mordedura dolorosa da terna miséria
humana. Mas, fujamos depressa, para que passem rápidos estes
dias do luto.
Enquanto meus pais seguem para Paris, tentando recomeçar
nova vida, a igreja de S. Mamede está em plena festa, os sinos
da Catedral repicam alegremente. Que há, pois? Garotos, com hábitos
de coro, meninas vestidas de branco, caminham para o altar, entoando
cânticos. Mas, entre eles, não estou eu mesmo, vocalizando
com convicção? É o dia de Ascensão, 25 de
maio de 1854, e eu faço a minha primeira comunhão. O grande
órgão enche o âmbito com suas profundas modulações.
Para o céu para Deus, eleva-se o perfume do incenso!
A verdade! Criança de doze anos, tu crês
possuiu-a, e tua alma se humilha em aniquilamento, diante do criador!
* * *
Uma pequena lente e tubos de papelão, eis um
microscópio com que observo os insetos capturados. Atraído
pelo espetáculo do céu, eis-me apontando a metade de um
binóculo para a Lua, examinando-lhe as manchas. Minutos infinitesimais,
em que nós perguntamos a nós mesmos se não somos
vítimas de certas ilusões, se é mesmo o que parece
ser. Estrelas ou átomos, macrocosmos ou microcosmos, uma sinfonia
imensa nos arrebata e domina.
Em Paris, metidos na única ventura que parece
dever salvá-los, meus pais se acham na impossibilidade de prover
às despesas da minha pensão. Disto se encarrega o excelente
cura de Montigny. Todos os meses ele paga o meu alojamento... seis francos...
Minha prima de Montigny traz-me provisões e paga o padeiro. Meu
avô de Mona envia-me vinho...
E eis agora reconheço-a bem, a minha última
distribuição de prêmios. Todos os meus condiscípulos,
cercados de carícias e de atenções, voltam para
as suas casas. Fico só, abandonado. Estamos a 26 de agosto de
1856. Uma semana após, com grande ruído de ferragem, o
trem leva-me para Paris. Torno a ver Paris da minha juventude; sim,
é o mesmo, a antiga Paris, que tenho sob meus olhos, em um panorama
já angustioso por seu esplendor; não é ainda a
Paris imensa, fumosa, a cidade formigante que é a glória
do mundo, mas é a cidade de sofrimentos e de alegria, a plaga
onde vem bater e bajular a onda das paixões humanas.
Os primeiros dias fogem... os passeios... a Escola de
Sainnt Roch e eis que chega o inverno de 1857-57. Aperta-se o coração,
revendo a mansarda onde durmo miseravelmente, a oficina de gravador
que me emprega como aprendiz, e me alimenta com sobriedade espartana.
Revejo-me à mesa de trabalho, decalcando desenhos de ornato sobre
bandejas e vasos, cinzelando-os, gravando-os. Muito comércio,
pouca arte, nenhum ideal. A luta por um ideal mais alto via começar,
luta de todos os instantes, dura e àspera certamente, mas que
proporciona imensas alegrias, e durante a qual muitas vezes se recebe
em pleno coração, como em pleno rosto, a verdade. Lá,
sobre a Terra, este rapaz de 15 anos, que assiste todas as noites aos
cursos gratuitos da Associação Polytechnica; que todas
as noites lê e escreve, às vezes, à luz dum coto
de vela, outras, à do luar; que, sozinho, se entrega aos trabalhos
intelectuais que o libertarão, este rapaz sou eu: Que futuro
me está reservado? É-me indiferente. Trabalho, estudo
quinze a dezesseis horas por dia. Longe da rua ensurdecedora, vejo-me
agora perto do Sena, ao pé das torres de Notre-Dame; o crepúsculo
adianta-se sobre o rio deserto, e o espelho movediço das àguas
reenvia-me, em palhetas de prata, a claridade da lua, e eu sonho com
o astro supenso no Infinito que, mais alto que as torres das catedrais,
parece olhar, indiferente, a agonia humana. Da minha estação
celeste, reconheço a Escola dos Monges de Saint Roch, na rua
d’Argenteuil: é um domingo e a grande sala está
repleta. Duzentas pessoas aí estão para assistir à
inauguração da Academia da Juventude, um grupo de 50 estudantes.
O presidente, rapaz de 16 anos, desconhecido, que se chama Camille Flammarion,
deve pronunciar o discurso inaugural. Escreveu ele longas páginas
sobre as “Maravilhas da Natureza” e, querendo dar-se ares
de improvisador, à feição dos grandes oradores,
estudou e decorou quanto havia escrito. Ei-lo na tribuna. As primeiras
frases são soberbas, os primeiros minutos são magníficos,
mas, subitamente, ele se detém; durante oito segundos procura
o fio, sem encontrá-lo... o silêncio ameaça de eternizar-se...
então, heroicamente, toma uma resolução enérgica:
saca do bolso as tiras de papel, e lê o improviso. Desde então,
nunca mais recitei um discurso decorado.
Ardendo em desejos de conhecer a sucessão das
épocas primitivas, da origem da Terra, da vida e da humanidade,
o aprendiz de gravador-cinzelador acaba de escrever o seu primeiro livro.
Está inteiramente aberta a porta das terras do céu e dos
sóis do infinito, da estrada que conduz à Verdade, pela
ciência. Devido ao excesso de trabalhos físicos, intelectuais
e as privações... ficou abatido por uma febre de mau caráter.
O dr. Eduardo Founier trata-o e nota a sua obra sobre a Cosmogonia.
Logo, este senhor propõe para que Flammarion seja aluno-astrônomo
do Obervatório de Paris. Aí, há entrevista muito
curta com o sr. Leverrier, director, seguida de exame de matemáticas.
“O senhor entrará para aqui, segunda-feira. Até
à vista e trabalhe”. Correm os anos empregados no escritório
dos Cálculos, passou as horas vagas estudar o inglês Fez
seus exames para bacharelado em ciências e letras. Então
consagrou-se especialmente à Astronomia: Laplace, Buffon e Humboldt
são seus familiares. Em seguida escreve Viagem Estática
às Regiões Lunares. Victor Puisieux, Chefe do Serviço
dos Cálculos no Observatório; o abade Moigno, diretor
do Cosmos; o astrônomo Badinet, do Instituto Pasteur, aconselhavam-no,
dirigiam-no, mas nunca o convenceram. “O ensino dos céus
- dizia - não é o de uma táboa de logarítimos”.
Arrebatado por um ardor juvenil, escreveu A
pluralidade dos Mundos Habitados. Do livro de filosofia científica
foram tirados 500 exemplares e vendidos rapidamente. Saint-Beuve, Henri
Martim, Allan Kardec, Victor Hugo lhe consagraram verdadeiros estudos.
Estuda logo o Espiritismo. Graças ao sucesso do seu livro, as
suas relações científicas, filosóficas e
literárias estendem-se. É ouvido, lido, discutido e os
anos passam... Vinte anos! É sorteado: porém alguns amigos
caros compram-lhe um substituto; não será soldade. Os
seus trabalhos continuam, e eis redigido Os Mundos Imaginários
e os Mundos Reaes. Aos 23 anos, era redator científico da Revue
Française e do Cosmos. Paris mundano ainda não conseguiu
freqüentar. Surgem mais obras: o Anuário Astronômico;
As Maravilhas Celestes; As Forças Naturais Incógnitas.
Percorreu toda a Europa em defesa de suas idéias. Surge a guerra
de 1870: ei-lo capitão dos mobilizados; as sábias pesquisas
são interrompidas por alguma tempo. Sua esposa, Mme. Flammarion,
participa dos seus trabalhos. A construção do Observatório
de Juvisy foi um generoso presente dado ao ilustre sábio. As
suas obras são várias: “L’Atmosphère”,
“Deus na Natureza”, “Contemplations Scientifiques”,
“Narrações do Infinito”, “Urania Memoires
biographiques et philosofiques”, “L’inconu et les
problémes Psychiques”. “Como acabará o mundo?
Em inúmeros outros”, “A Morte e o seu Mistério”
(3 vols.) é a sua qüinquagésima obra.
A obra Astronomia Popular rendeu a Flammarion, no ano
de 1880, o prêmio Montyon, da Academia Francesa.
É de Flammarion o epíteto tão difundido
de Allan Kardec, “o bom-senso encarnado”.
Camille Flammarion, segundo Gabriel Delanne, foi
um filósofo enxertado em sábio, possuindo a arte da ciência
e a ciência da arte. Flammarion - “poeta dos Céus”,
como o denominava Michelet - tornou-se baluarte do Espiritismo, pois,
sempre coerente com suas convicções inabaláveis,
foi um verdadeiro idealista e inovador.
Saiba mais:
http://www.culture.gouv.fr/culture/flammarion/accueil/index1.htm
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http://www.culture.gouv.fr/culture/flammarion
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