O fenômeno
de transporte, definido por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns
(1) como o “trazimento espontâneo
de objetos inexistentes no lugar onde estão os observadores”,
foi largamente observado, estudado e documentado por grandes pesquisadores
dos fenômenos medianímicos. Pode-se destacar o filósofo
italiano Ernesto Bozzano, o Físico e astrônomo alemão
Johann Karl Friedrich Zöllner, o naturalista e biólogo
britânico Alfred Russel Wallace, dentre outros cientistas. Apesar
de todo o trabalho de catalogação e das hipóteses
para se explicar o fenômeno, a maneira como ele é executado
ainda é desconhecida, e os próprios espíritos
não sabem exatamente como é o seu mecanismo ou não
possuem termos com que possam expressar como se procede.
1- A. Kardec, O
Livro dos Médiuns, Editora
FEB, 77. ed. Rio de Janeiro (2006).
As hipóteses
Diante da presença de determinadas
pessoas em estado de transe, foi observado o estranho fenômeno
em que flores, frutos, pedras e até pequenos animais vivos
eram transportados de locais, conhecidos ou não, para os locais
de experimentação ou vice-versa. O que mais instigava
os pesquisadores era o movimento de entrada e saída de objetos
através de ambientes hermeticamente fechados, suscitando questionamentos
sobre como seria possível a matéria atravessar a matéria.
Foram, então, levantadas algumas hipóteses para explicar
o fenômeno, e, dentre elas, destaca-se a de Ernesto Bozzano,
que defendia que para que os objetos pudessem passar através
de paredes e portas maciças, eles deveriam ser “desmaterializados”
em um ambiente, transportados e posteriormente “rematerializados”.
A matéria sólida poderia ser atravessada por outra matéria,
desde que esta última se encontrasse desintegrada em estado
molecular ou fluídico. A hipótese de Bozzano ganhou
grande acolhimento no meio espírita, pois se enquadra, de certa
maneira, no conceito de que toda matéria existente, por mais
complexa que seja, é derivada da transformação
da matéria primitiva (vide a questão 30, de O Livro
dos Espíritos (2). Porém,
para admitir essa hipótese, é preciso considerar que
os espíritos, mesmo os inferiores, são capazes de manipular
a matéria até o seu estado elementar e reverter o processo,
mantendo as propriedades e identidade originais do corpo e restituindo
a vida orgânica, no caso dos corpos de seres vivos, o que seria
sancionar a ideia da ressurreição.
2- A. Kardec,
O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 86. ed. Rio de
Janeiro (2005).
A hipótese de Zöllner (3),
que é anterior à de Bozzano, também se destaca,
explicando que o fenômeno só é possível,
pois os seres que realizam o fenômeno de transporte se encontram
em uma dimensão superior àquela do mundo material observável.
Ou seja, enquanto o que pode ser observado e medido pelos pesquisadores
encontra-se em um ambiente de três dimensões, os seres
inteligentes que realizam os transportes habitam, no mínimo,
em quatro dimensões. Desta maneira, os seres de quatro dimensões
podem manipular os objetos em três dimensões, sem que
os habitantes deste último meio percebam o que foi efetuado,
dando a impressão de que os objetos desaparecem em um local
e aparecem em outro.
3- J. K. F.
Zöllner, Provas Científicas da Sobrevivência, Tradução
de João Teixeira de Paula, Editora EDICEL, São Paulo
(1973).
Ernesto Bozzano foi um severo crítico da hipótese da
quarta dimensão, apesar de citar em sua obra “Fenômenos
de Transporte” (4), os experimentos
realizados por Zollner junto com o médium americano Henry Slade,
com os quais procuravam embasar a sua hipótese. Para Bozzano,
a hipótese de uma dimensão superior era uma “explicação
puramente metafísica, fantástica e nunca demonstrável”.
Entretanto, as suas ideias acerca dos transportes conflitam com algumas
informações contidas na Codificação da
Doutrina Espírita e com determinados aspectos da Física.
4- E. Bozzano, Fenômenos de
“Transporte”, Tradução de Francisco K. Werneck,
Edições FEESP, 4. ed. São Paulo (1995)
Crítica à hipótese
de Ernesto Bozzano
Do ponto de vista Doutrinário, Bozzano diverge
do Espírito São Luís, que afirma, na questão
4ª, do item 128, de O Livro dos Médiuns, que
no mundo invisível não existem duplos etéreos
dos objetos do mundo material. Para explicar os questionamentos dos
críticos sobre como seria possível que os objetos “desmaterializados”
fossem reconstituídos após o transporte, mantendo a
mesma forma e disposição das moléculas no Espaço,
Bozzano alegava a existência de uma “substância-forma,
fundamento de tudo o que existe, chamado de trama astral ou duplo
etéreo”. Ou seja, “para todas as coisas inanimadas
e para todo o ser vivo existe uma forma arquétipo fluídica
ou etérica, que teria a propriedade de atrair a si, pela lei
da afinidade, as variadíssimas moléculas orgânicas
e inorgânicas necessárias à criação
de toda a coisa existente nos reinos mineral, vegetal e animal”.
Ao formular a sua hipótese, Bozzano também não
levou em consideração a resposta do Espírito
Erasto a Kardec, na 20ª questão, do item 99, do mesmo
livro, onde diz que “o Espírito pode tornar invisíveis,
porém, não penetráveis, os objetos que ele transporte;
não pode quebrar a agregação da matéria,
porque seria a destruição do objeto. Tornando este invisível,
o Espírito o pode transportar quando queira e não o
libertar senão no momento oportuno, para fazê-lo aparecer”.
Do ponto de vista da Física, segundo FONSECA (2015) (5), a
hipótese de Bozzano esbarra em alguns sérios empecilhos,
com destaque para a necessidade de grande quantidade de energia para
desintegração molecular dos objetos, a necessidade da
manutenção de enorme quantidade de informação
dos elementos atômicos do corpo durante o transporte e o problema
da indeterminação quântica, principalmente se
o corpo for dotado de vida, para o restabelecimento da sua condição
inicial.
5- A. F. Fonseca, Fenômenos de Transporte:
Bozzano, Zöllner, a Física e o Espiritismo, Jornal de
Estudos Espíritas, Vol. 3 (2015). Acessado em 12 de fevereiro
no link: https://sites.google.com/ site/jeespiritas/volumes/volume-3/resumo---art-n-010202
ou link.
Ao formular sua
hipótese, Ernesto Bozzano desconsiderava completamente o que
havia sido proposto por Zöllner, apesar da ideia de seres em
uma quarta dimensão não ser inédita, mas pouco
difundida à época. Alguns experimentos, como o transporte
parcial de objetos, as observações realizadas durante
as sessões, bem como os relatos da impressão de algumas
pessoas sobre o fenômeno, reforçavam em Bozzano a ideia
da necessidade de desagregação molecular dos corpos
transportados. Por exemplo, os grandes ruídos de pancadas observados
e o aumento da temperatura dos objetos ao final dos transportes eram
entendidos como resultado da abrupta desagregação e
reconstituição molecular da matéria. Também
havia relatos de pessoas que viam ou sentiam o objeto transportado
no ambiente antes de sua materialização, o que era justificado
por Bozzano pela percepção medianímica do duplo
etéreo do objeto, antes da conclusão do fenômeno.
Os Transportes e o Animismo
De acordo com a hipótese de Zöllner, algumas pessoas tinham
a sensibilidade para perceberem os objetos transportados antes de
se tornarem visíveis, pois elas conseguiam, de alguma maneira,
penetrar a quarta dimensão, expandindo seus sentidos. Por este
motivo, os objetos eram observados e descritos de forma dilatada,
porém mantendo sua estrutura inicial. Da mesma maneira, essa
expansão da sensibilidade à quarta dimensão explicaria
outros fenômenos, como a Clarividência, conforme pode
ser conferido nas experiências relatadas por Zöllner no
seu livro Provas Científicas da Sobrevivência.
A sua hipótese, apesar de ainda não ser comprovada por
meio experimental, a princípio, não entra em conflito
com os conhecimentos da Física, entretanto, ainda será
necessário entender melhor o papel indispensável do
elemento mediúnico para que os objetos sejam transportados,
o que fica evidente nos experimentos de ambos os pesquisadores. Ernesto
Bozzano chega a afirmar que “uma parte do fenômeno
de transporte tem origem em um ato de vontade da personalidade subconsciente
do médium”. Também esclarece que os transportes,
“por serem de ordem física, não podem por
si mesmos fornecer provas diretas em demonstração da
existência e sobrevivência do espírito humano”,
mas, “poderiam fornecer boas provas indiretas em tal sentido,
levando-se em conta que os mesmos se realizam com o auxílio
de faculdades supranormais inerentes à personalidade integral
subconsciente”.
Este texto não pretende desmerecer ou diminuir o trabalho de
Ernesto Bozzano, que foi um dos maiores estudiosos dos fenômenos
medianímicos do mundo, e que realizou a pesquisa e registro
de centenas de casos pormenorizados. O estudo de seus trabalhos é
essencial para aqueles que querem ter um ponto de partida nas pesquisas
científicas dos fenômenos, e, com o espírito de
sequência, o próprio Bozzano exorta-nos dizendo que “os
homens de ciência têm o dever de recomeçar a questão
por conta própria, experimentando pacientemente, analisando
e controlando os resultados conseguidos pelos predecessores”.