Espiritualidade e Sociedade





Rodrigo de Souza Barreto Mathias

>   O Fenômeno de transporte e suas hipóteses científicas

Artigos, teses e publicações

Rodrigo de Souza Barreto Mathias
>   O Fenômeno de transporte e suas hipóteses científicas

 

 

O fenômeno de transporte, definido por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns (1) como o “trazimento espontâneo de objetos inexistentes no lugar onde estão os observadores”, foi largamente observado, estudado e documentado por grandes pesquisadores dos fenômenos medianímicos. Pode-se destacar o filósofo italiano Ernesto Bozzano, o Físico e astrônomo alemão Johann Karl Friedrich Zöllner, o naturalista e biólogo britânico Alfred Russel Wallace, dentre outros cientistas. Apesar de todo o trabalho de catalogação e das hipóteses para se explicar o fenômeno, a maneira como ele é executado ainda é desconhecida, e os próprios espíritos não sabem exatamente como é o seu mecanismo ou não possuem termos com que possam expressar como se procede.

1- A. Kardec,
O Livro dos Médiuns, Editora FEB, 77. ed. Rio de Janeiro (2006).

 

As hipóteses

Diante da presença de determinadas pessoas em estado de transe, foi observado o estranho fenômeno em que flores, frutos, pedras e até pequenos animais vivos eram transportados de locais, conhecidos ou não, para os locais de experimentação ou vice-versa. O que mais instigava os pesquisadores era o movimento de entrada e saída de objetos através de ambientes hermeticamente fechados, suscitando questionamentos sobre como seria possível a matéria atravessar a matéria. Foram, então, levantadas algumas hipóteses para explicar o fenômeno, e, dentre elas, destaca-se a de Ernesto Bozzano, que defendia que para que os objetos pudessem passar através de paredes e portas maciças, eles deveriam ser “desmaterializados” em um ambiente, transportados e posteriormente “rematerializados”. A matéria sólida poderia ser atravessada por outra matéria, desde que esta última se encontrasse desintegrada em estado molecular ou fluídico. A hipótese de Bozzano ganhou grande acolhimento no meio espírita, pois se enquadra, de certa maneira, no conceito de que toda matéria existente, por mais complexa que seja, é derivada da transformação da matéria primitiva (vide a questão 30, de O Livro dos Espíritos (2). Porém, para admitir essa hipótese, é preciso considerar que os espíritos, mesmo os inferiores, são capazes de manipular a matéria até o seu estado elementar e reverter o processo, mantendo as propriedades e identidade originais do corpo e restituindo a vida orgânica, no caso dos corpos de seres vivos, o que seria sancionar a ideia da ressurreição.

2- A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 86. ed. Rio de Janeiro (2005).

A hipótese de Zöllner (3), que é anterior à de Bozzano, também se destaca, explicando que o fenômeno só é possível, pois os seres que realizam o fenômeno de transporte se encontram em uma dimensão superior àquela do mundo material observável. Ou seja, enquanto o que pode ser observado e medido pelos pesquisadores encontra-se em um ambiente de três dimensões, os seres inteligentes que realizam os transportes habitam, no mínimo, em quatro dimensões. Desta maneira, os seres de quatro dimensões podem manipular os objetos em três dimensões, sem que os habitantes deste último meio percebam o que foi efetuado, dando a impressão de que os objetos desaparecem em um local e aparecem em outro.

3- J. K. F. Zöllner, Provas Científicas da Sobrevivência, Tradução de João Teixeira de Paula, Editora EDICEL, São Paulo (1973).

Ernesto Bozzano foi um severo crítico da hipótese da quarta dimensão, apesar de citar em sua obra “Fenômenos de Transporte” (4), os experimentos realizados por Zollner junto com o médium americano Henry Slade, com os quais procuravam embasar a sua hipótese. Para Bozzano, a hipótese de uma dimensão superior era uma “explicação puramente metafísica, fantástica e nunca demonstrável”. Entretanto, as suas ideias acerca dos transportes conflitam com algumas informações contidas na Codificação da Doutrina Espírita e com determinados aspectos da Física.

4- E. Bozzano, Fenômenos de “Transporte”, Tradução de Francisco K. Werneck, Edições FEESP, 4. ed. São Paulo (1995)



Crítica à hipótese de Ernesto Bozzano

Do ponto de vista Doutrinário, Bozzano diverge do Espírito São Luís, que afirma, na questão 4ª, do item 128, de O Livro dos Médiuns, que no mundo invisível não existem duplos etéreos dos objetos do mundo material. Para explicar os questionamentos dos críticos sobre como seria possível que os objetos “desmaterializados” fossem reconstituídos após o transporte, mantendo a mesma forma e disposição das moléculas no Espaço, Bozzano alegava a existência de uma “substância-forma, fundamento de tudo o que existe, chamado de trama astral ou duplo etéreo”. Ou seja, “para todas as coisas inanimadas e para todo o ser vivo existe uma forma arquétipo fluídica ou etérica, que teria a propriedade de atrair a si, pela lei da afinidade, as variadíssimas moléculas orgânicas e inorgânicas necessárias à criação de toda a coisa existente nos reinos mineral, vegetal e animal”. Ao formular a sua hipótese, Bozzano também não levou em consideração a resposta do Espírito Erasto a Kardec, na 20ª questão, do item 99, do mesmo livro, onde diz que “o Espírito pode tornar invisíveis, porém, não penetráveis, os objetos que ele transporte; não pode quebrar a agregação da matéria, porque seria a destruição do objeto. Tornando este invisível, o Espírito o pode transportar quando queira e não o libertar senão no momento oportuno, para fazê-lo aparecer”. Do ponto de vista da Física, segundo FONSECA (2015) (5), a hipótese de Bozzano esbarra em alguns sérios empecilhos, com destaque para a necessidade de grande quantidade de energia para desintegração molecular dos objetos, a necessidade da manutenção de enorme quantidade de informação dos elementos atômicos do corpo durante o transporte e o problema da indeterminação quântica, principalmente se o corpo for dotado de vida, para o restabelecimento da sua condição inicial.

5- A. F. Fonseca, Fenômenos de Transporte: Bozzano, Zöllner, a Física e o Espiritismo, Jornal de Estudos Espíritas, Vol. 3 (2015). Acessado em 12 de fevereiro no link: https://sites.google.com/ site/jeespiritas/volumes/volume-3/resumo---art-n-010202 ou link.

Ao formular sua hipótese, Ernesto Bozzano desconsiderava completamente o que havia sido proposto por Zöllner, apesar da ideia de seres em uma quarta dimensão não ser inédita, mas pouco difundida à época. Alguns experimentos, como o transporte parcial de objetos, as observações realizadas durante as sessões, bem como os relatos da impressão de algumas pessoas sobre o fenômeno, reforçavam em Bozzano a ideia da necessidade de desagregação molecular dos corpos transportados. Por exemplo, os grandes ruídos de pancadas observados e o aumento da temperatura dos objetos ao final dos transportes eram entendidos como resultado da abrupta desagregação e reconstituição molecular da matéria. Também havia relatos de pessoas que viam ou sentiam o objeto transportado no ambiente antes de sua materialização, o que era justificado por Bozzano pela percepção medianímica do duplo etéreo do objeto, antes da conclusão do fenômeno.

Os Transportes e o Animismo


De acordo com a hipótese de Zöllner, algumas pessoas tinham a sensibilidade para perceberem os objetos transportados antes de se tornarem visíveis, pois elas conseguiam, de alguma maneira, penetrar a quarta dimensão, expandindo seus sentidos. Por este motivo, os objetos eram observados e descritos de forma dilatada, porém mantendo sua estrutura inicial. Da mesma maneira, essa expansão da sensibilidade à quarta dimensão explicaria outros fenômenos, como a Clarividência, conforme pode ser conferido nas experiências relatadas por Zöllner no seu livro Provas Científicas da Sobrevivência. A sua hipótese, apesar de ainda não ser comprovada por meio experimental, a princípio, não entra em conflito com os conhecimentos da Física, entretanto, ainda será necessário entender melhor o papel indispensável do elemento mediúnico para que os objetos sejam transportados, o que fica evidente nos experimentos de ambos os pesquisadores. Ernesto Bozzano chega a afirmar que “uma parte do fenômeno de transporte tem origem em um ato de vontade da personalidade subconsciente do médium”. Também esclarece que os transportes, “por serem de ordem física, não podem por si mesmos fornecer provas diretas em demonstração da existência e sobrevivência do espírito humano”, mas, “poderiam fornecer boas provas indiretas em tal sentido, levando-se em conta que os mesmos se realizam com o auxílio de faculdades supranormais inerentes à personalidade integral subconsciente”.

Este texto não pretende desmerecer ou diminuir o trabalho de Ernesto Bozzano, que foi um dos maiores estudiosos dos fenômenos medianímicos do mundo, e que realizou a pesquisa e registro de centenas de casos pormenorizados. O estudo de seus trabalhos é essencial para aqueles que querem ter um ponto de partida nas pesquisas científicas dos fenômenos, e, com o espírito de sequência, o próprio Bozzano exorta-nos dizendo que “os homens de ciência têm o dever de recomeçar a questão por conta própria, experimentando pacientemente, analisando e controlando os resultados conseguidos pelos predecessores”.

 

Referências Bibliográficas


1 A. Kardec, O Livro dos Médiuns, Editora FEB, 77. ed. Rio de Janeiro (2006).
2 A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 86. ed. Rio de Janeiro (2005).
3 J. K. F. Zöllner, Provas Científicas da Sobrevivência, Tradução de João Teixeira de Paula, Editora EDICEL, São Paulo (1973).
4 E. Bozzano, Fenômenos de “Transporte”, Tradução de Francisco K. Werneck, Edições FEESP, 4. ed. São Paulo (1995).
5 A. F. Fonseca, Fenômenos de Transporte: Bozzano, Zöllner, a Física e o Espiritismo, Jornal de Estudos Espíritas, Vol. 3 (2015). Acessado em 12 de fevereiro
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Fonte: Revista CELD de Estudos Espíritas 
> https://celd.xyz/wp-content/uploads/11-Revista_CELD_Novembro-2018.pdf

 

 

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