HOMEOPATIA E ESPIRITISMO
A homeopatia de Hahnemann surgiu inserida no mesmo cenário
que o mesmerismo, quando, na Europa do século XVIII, surgiram
diversas teorias envolvendo o tratamento de doenças amparadas
nos lentos avanços da química, da física,
das ciências naturais, da fisiologia. Utilizando processos
experimentais, muitas vezes, tendo os doentes como cobaias e sem
praticamente nenhum resguardo em teoria, procuraram explicar a
dinâmica do funcionamento dos organismos vivos, em particular,
do corpo humano, seus processos de adoecimento, além de
técnicas de tratamento capazes de lhes restabelecer a saúde.
Essas teorias, que tinham em seus fundamentos concepções
que estavam ligadas ao animismo, ao mecanicismo e ao vitalismo,
entre outros, tornaram-se princípios teóricos que
fundamentaram o exercício das práticas de cura e
lhes davam sustentação.
Entretanto, pretende que o seu sistema seja diferente em tudo
dos que constituíam a medicina da época: no método
que, ao invés de dedutivo e ilógico, pretende sistematicamente
experimentalista; na intervenção terapêutica
que, ao invés de empírica e arbitrária porque
ousa penetrar no “interior invisível do corpo”
do doente à procura da causa primeira da doença,
pretende mais prática e de maior eficácia. Finalmente,
na própria concepção do processo saúde-doença,
que pretende ser mais científica, na medida em que toma
como ponto de partida desse processo o homem como totalidade indissociável,
o indivíduo doente, e não partes desse indivíduo
atingidas por alguma patologia que as invade (LUZ, 1996, p. 52).
Em comparação com a medicina alopática75,
que já em meados do século XIX só trataria
de doenças do ponto de vista biológico, a homeopatia
conceberia a doença como um desequilíbrio “particular”
na totalidade biopsíquica do paciente. Desequilíbrio,
pois representaria uma perturbação da força
vital, particular, porque cada indivíduo que adoecer de
uma morbidade qualquer “adoecerá de acordo com sua
história biológica, psíquica, familiar, sexual,
temperamental, caracteriológica etc. E é o caráter
singular dessa história que interessa à clínica
homeopática.” (LUZ, 1996, p. 53). Além disso,
para a medicina, que estava se constituindo cada vez mais com
o funcionamento material do corpo e afastando-se de quaisquer
teorias metafísicas, seria impossível conviver com
um sistema de cura que, embora compartilhasse conhecimentos comuns
em anatomia e fisiologia, propunha terapêuticas completamente
diferentes, atribuindo a causa das doenças ao desequilíbrio
em um elemento imaterial, a força vital.
Sob esse aspecto, a ligação entre mesmerismo, homeopatia
e espiritismo se deu, justamente, pela ressignificação
que a doutrina espírita deu à força vital.
Desta forma, enquanto para a homeopatia “a força
vital, princípio não-material que sustenta a vida
humana, [seria] responsável pelo equilíbrio orgânico
que se traduz em saúde” (SIGOLO, 1999, p. 46), o
espiritismo teria feito uma releitura da teoria hahnemanniana
“aproximando as noções de força vital
com a de perispírito” (SIGOLO, 1999, p. 33). Esta
aproximação não impediu que tais concepções
iniciais, presentes nos documentos que inauguraram cada uma dessas
doutrinas, tenham sofrido modificações pelos seus
seguidores ao longo do tempo. Com relação à
doutrina espírita, é preciso considerar que Kardec
era não só conhecedor, como praticante do Magnetismo.
Sua admiração pelo Marquês de Puységur,
por Charles d’Eslon e por François Deleuze, por conta
dos novos rumos que empreenderam ao magnetismo, resultando na
descoberta do sonambulismo provocado, foi mais de uma vez mencionada.
Segundo relatou, desde 1823 (WANTUIL, 1979, p. 102) interessara-se
pelo magnetismo, seu estudo e sua prática, lendo tanto
as obras que divulgavam o magnetismo quanto aquelas que se opunham
à técnica. Portanto, não é surpresa
que na construção da doutrina tenha se valido diversas
vezes do magnetismo, colocando-o como precursor da doutrina.