Espiritualidade e Sociedade





Marcos Moreira Marques


>  O Espiritismo Homeopático no Rio de Janeiro do Século XIX


Artigos, teses e publicações

Marcos Moreira Marques *
>   O Espiritismo Homeopático no Rio de Janeiro do Século XIX

 

 

Marcos Moreira Marques
Doutor em História, UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Membro do Laboratório de Estudos de Política e Ideologia – LEPIDE, e do NUESHE (Núcleo Estudos de História do Espiritismo) da UNIVERSO (Universidade Salgado de Oliveira), ambos cadastrados no CNPq.

Este artigo foi escrito a partir de um dos itens do primeiro capítulo da tese de doutorado: “A cura do céu. Cura e caridade espírita no Rio de Janeiro da Primeira República”, defendida junto ao PPGH da UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) em 2021.

 

 

 

 

Trecho


HOMEOPATIA E ESPIRITISMO

A homeopatia de Hahnemann surgiu inserida no mesmo cenário que o mesmerismo, quando, na Europa do século XVIII, surgiram diversas teorias envolvendo o tratamento de doenças amparadas nos lentos avanços da química, da física, das ciências naturais, da fisiologia. Utilizando processos experimentais, muitas vezes, tendo os doentes como cobaias e sem praticamente nenhum resguardo em teoria, procuraram explicar a dinâmica do funcionamento dos organismos vivos, em particular, do corpo humano, seus processos de adoecimento, além de técnicas de tratamento capazes de lhes restabelecer a saúde. Essas teorias, que tinham em seus fundamentos concepções que estavam ligadas ao animismo, ao mecanicismo e ao vitalismo, entre outros, tornaram-se princípios teóricos que fundamentaram o exercício das práticas de cura e lhes davam sustentação.

Entretanto, pretende que o seu sistema seja diferente em tudo dos que constituíam a medicina da época: no método que, ao invés de dedutivo e ilógico, pretende sistematicamente experimentalista; na intervenção terapêutica que, ao invés de empírica e arbitrária porque ousa penetrar no “interior invisível do corpo” do doente à procura da causa primeira da doença, pretende mais prática e de maior eficácia. Finalmente, na própria concepção do processo saúde-doença, que pretende ser mais científica, na medida em que toma como ponto de partida desse processo o homem como totalidade indissociável, o indivíduo doente, e não partes desse indivíduo atingidas por alguma patologia que as invade (LUZ, 1996, p. 52).

Em comparação com a medicina alopática75, que já em meados do século XIX só trataria de doenças do ponto de vista biológico, a homeopatia conceberia a doença como um desequilíbrio “particular” na totalidade biopsíquica do paciente. Desequilíbrio, pois representaria uma perturbação da força vital, particular, porque cada indivíduo que adoecer de uma morbidade qualquer “adoecerá de acordo com sua história biológica, psíquica, familiar, sexual, temperamental, caracteriológica etc. E é o caráter singular dessa história que interessa à clínica homeopática.” (LUZ, 1996, p. 53). Além disso, para a medicina, que estava se constituindo cada vez mais com o funcionamento material do corpo e afastando-se de quaisquer teorias metafísicas, seria impossível conviver com um sistema de cura que, embora compartilhasse conhecimentos comuns em anatomia e fisiologia, propunha terapêuticas completamente diferentes, atribuindo a causa das doenças ao desequilíbrio em um elemento imaterial, a força vital.

Sob esse aspecto, a ligação entre mesmerismo, homeopatia e espiritismo se deu, justamente, pela ressignificação que a doutrina espírita deu à força vital. Desta forma, enquanto para a homeopatia “a força vital, princípio não-material que sustenta a vida humana, [seria] responsável pelo equilíbrio orgânico que se traduz em saúde” (SIGOLO, 1999, p. 46), o espiritismo teria feito uma releitura da teoria hahnemanniana “aproximando as noções de força vital com a de perispírito” (SIGOLO, 1999, p. 33). Esta aproximação não impediu que tais concepções iniciais, presentes nos documentos que inauguraram cada uma dessas doutrinas, tenham sofrido modificações pelos seus seguidores ao longo do tempo. Com relação à doutrina espírita, é preciso considerar que Kardec era não só conhecedor, como praticante do Magnetismo. Sua admiração pelo Marquês de Puységur, por Charles d’Eslon e por François Deleuze, por conta dos novos rumos que empreenderam ao magnetismo, resultando na descoberta do sonambulismo provocado, foi mais de uma vez mencionada. Segundo relatou, desde 1823 (WANTUIL, 1979, p. 102) interessara-se pelo magnetismo, seu estudo e sua prática, lendo tanto as obras que divulgavam o magnetismo quanto aquelas que se opunham à técnica. Portanto, não é surpresa que na construção da doutrina tenha se valido diversas vezes do magnetismo, colocando-o como precursor da doutrina.

 

 

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Fonte: https://www.edupe.upe.br/images/livros/Espiritismo%20como%20objeto%20de%20pesquisa%202%201.pdf

 

 



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