Para Cecília Mariz, uma diferença
marcante entre a tradição católica e a protestante
é o projeto comunitário católico e o individualizante
protestante
Ao refletir sobre o que pode justificar o crescimento
das novas comunidades católicas, a professora Cecília
Mariz descreve o seguinte cenário: “para se manter
uma fé, uma crença em uma moralidade ou em valores
que rompem fortemente com os valores predominantes na sociedade
mais ampla, ou seja, para experimentá-los como possíveis
ou ‘plausíveis’, os indivíduos precisam
conviver intensamente e trocar afetivamente com pessoas que compartilham
a mesma visão de mundo”. E continua: “as novas
comunidades, além de oferecer segurança, são
a possibilidade de construção de plausibilidade
que se precisa para adotar propostas distintas da sociedade mais
ampla”.
Cecilia Loreto Mariz possui graduação
em Ciências Sociais e mestrado em Sociologia pela Universidade
Federal de Pernambuco, e doutorado em Sociology of Culture and
Religion (Phd) pela Boston University. Atualmente é professora
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. É uma
das organizadoras de Novas Comunidades Católicas: em busca
do espaço pós-moderno (Aparecida: Idéias
& Letras, 2009).
Confira a entrevista para Graziela Wolfart
IHU On-Line - Considerando as características
da sociedade atual, podemos afirmar que o refúgio nas comunidades
católicas pode ser um abrigo em um mundo “fora dos limites”,
como escreve Luiz Benedetti em seu artigo 'Novos rumos do catolicismo',
na obra Novas comunidades católicas: em busca do espaço
pós-moderno (Aparecida: Ideias & Letras, 2009)?
Cecília Mariz - Sim concordo com Benedetti
, e acrescentaria ainda que Durkheim, em seu livro clássico
O Suicídio, apresenta argumentos a favor dessa hipótese.
Para Durkheim, os indivíduos estão, não apenas
subjetivamente, mas objetivamente, mais vulneráveis em uma
sociedade onde as regras compartilhadas são poucas e fracas.
A força do indivíduo, de acordo com esse autor, estaria
na sua interiorização dos limites dados pelo social.
Essa linha de pensamento também reaparece, embora sob outra
roupagem e permeada de crítica social diversa da feita por
Durkheim, no texto de Bauman sobre a busca de experiências comunitárias
no mundo contemporâneo. Para Bauman, a comunidade seria um abrigo
para as dúvidas, incertezas que o aumento da autonomia individual
da sociedade atual oferece. O dilema do indivíduo contemporâneo
seria, segundo Bauman, escolher entre a segurança e a liberdade.
Na comunidade, o indivíduo sacrificaria sua liberdade para
se sentir seguro.
IHU On-Line - Como entender a busca dos jovens por
movimentos dentro da Igreja que, muitas vezes, reiteram o dogmatismo
e o conservadorismo clássico do discurso proferido há
vinte séculos? Por que os jovens buscam os “muros internos
do coração”?
Cecília Mariz - Os argumentos acima de Benedetti
e Bauman ajudariam a entender o porquê da opção
por esses “muros internos” que você menciona. “Muros”
são ótimas metáforas para se pensar em segurança
e proteção. Se, no mundo contemporâneo, existe
uma segurança maior em termos existenciais e morais, essa insegurança
pode ser maior quando se é jovem. Abraçar um sistema
ideológico pouco flexível, radical, fundamentalista
sempre foi uma opção juvenil para fugir das dúvidas
específicas dessa etapa da vida. Para os jovens, relativizar,
tolerar e flexibilizar um sistema valorativo, moral ou mesmo cognitivo,
é uma fraqueza dos mais velhos, e defende que abole radicalmente
todo sistema moral ou o adota sem contemporização. Essa
atitude não seria específica dos jovens, mas de todos
que vivem em estado de vulnerabilidade. Observa-se também que
aqueles que vivem em situação de risco, seja por falta
de recursos, seja por viver em regiões de conflitos, tendem
a abraçar modelos fundamentalistas ou abrir mão de valores
e moralidades, ou seja, é tudo ou nada. Ser jovem é
viver uma experiência de insegurança existencial por
ser, por definição, uma experiência de liminaridade,
por não ser mais criança e ainda não ser adulto.
Ser jovem em uma sociedade que gera insegurança em todas as
faixas etárias é uma experiência ainda de maior
vulnerabilidade.
IHU On-Line - Como entender o crescimento das novas
comunidades católicas?
Cecília Mariz - Para se manter uma fé,
uma crença em uma moralidade ou em valores que rompem fortemente
com os valores predominantes na sociedade mais ampla, ou seja, para
experimentá-los como possíveis ou “plausíveis”,
os indivíduos precisam conviver intensamente e trocar afetivamente
com pessoas que compartilham a mesma visão de mundo. As novas
comunidades católicas criam o que Peter Berger chama de, “estrutura
de plausibilidade” para várias dimensões do catolicismo
seja para a moralidade sexual, tal como pregada pelo Papa, seja para
um projeto de catolicismo social. Para se manter um tipo de moralidade
sexual contrária a predominante é importante namorar
com pessoas que compartilhem a mesma visão de mundo. Onde encontrar
essas pessoas? As comunidades os reúnem. Por outro lado, também
alguém que rejeite consumir modas ou diversos supérfluos
constantemente criados pela sociedade industrial precisa do apoio
de uma comunidade forte. O indivíduo imerso na sociedade consumista
nem percebe que está consumindo demais, pensa que precisa de
fato do tal supérfluo (isso não apenas para os ricos,
mas também e mais dolorosamente para os pobres). Se, por acaso,
se questiona e se nega a entrar na onda consumista mais geral, pode
ser considerado como “deprimido”, “desistindo”
da vida, ou “reprimido”. As novas comunidades, além
de oferecer segurança, são a possibilidade de construção
de plausibilidade que se precisa para adotar propostas distintas da
sociedade mais ampla.
IHU On-Line - O que podemos entender por catolicismo
social? Como as novas comunidades católicas se inserem nesse
contexto?
Cecília Mariz - Há várias formas
de entender o catolicismo social: há definições
mais amplas e mais específicas. De uma forma mais genérica,
eu entenderia como catolicismo social aquele que afirma que a verdadeira
espiritualidade cristã resulta necessariamente numa busca de
maior justiça social e numa preocupação com os
mais pobres e carentes. Nesse sentido amplo, as novas comunidades
se inserem em um catolicismo social, tanto por sua experiência
comunitária - há compartilhamento nas comunidades de
vida de todos os bens -, como também por obras sociais. A criação
de comunidades que redefinissem a forma de distribuição
e produção dos bens e riquezas na sociedade tem sido
uma das estratégias das utopias socialistas. Nesse sentido,
há convergência entre o projeto socialista, o cristianismo
primitivo e as novas comunidades.
IHU On-Line - O que os jovens buscam hoje dentro
da Igreja Católica que as religiões neopentecostais,
por exemplo, não podem oferecer?
Cecília Mariz - Uma diferença marcante
entre a tradição católica e a protestante é
o projeto comunitário católico e o individualizante
protestante. O pentecostalismo, e mais ainda o neopentecostalismo,
carregam esse projeto individualista. A prosperidade individual neopentecostal
pode ser uma boa promessa para muitos, mas pode não ter o apelo
para todos, especialmente para aqueles que criticam a sociedade de
consumo e que se sentem insatisfeitos com o individualismo extremo
do mundo contemporâneo.
IHU On-Line - Quais as mudanças que as novas
comunidades católicas provocam dentro da Igreja no sentido
da atuação do leigo e da sua espiritualidade?
Cecília Mariz - Uma mudança importante
parece ser o papel do leigo. As comunidades possuem líderes
leigos e, por vezes, casados e com filhos. Acho isso uma novidade.
Nessa experiência, a família, filhos e vida sexual não
parecem ser um impedimento para a liderança e o crescimento
espiritual. Nesse sentido, o projeto das novas comunidades questiona
o modelo mais tradicional de igreja.
IHU On-Line - Em que medida as novas comunidades
católicas refletem o ideário de vida comunitária
cristã?
Cecília Mariz - Acho difícil responder
a essa pergunta, se de fato as novas comunidades conseguem viver esse
ideário, porque projeto e discurso podem ser diferentes da
realidade cotidiana, e me parece muito difícil fazer uma análise
de uma realidade que terminaria por ser um julgamento: estaria ela
sendo cristã como quer mesmo? Se elas conseguem viver esse
ideário cristão de fato? Não sei, mas sem dúvida
o ideário das novas comunidades é o ideário comunitário
do cristianismo primitivo. Creio que isso também explica seu
forte apelo para tantos.
IHU On-Line - Qual a influência da Teologia
da Libertação para a formação e fortalecimento
das novas comunidades católicas?
Cecília Mariz - Não sei se podemos identificar
influência direta dessa teologia nas novas comunidades. Acho
que não. Mas podemos verificar que tanto a Teologia da Libertação
como as novas comunidades se inspiram no cristianismo primitivo e
nesse aspecto compartilham valores e ideais. No Brasil, em minha pesquisa,
encontrei jovens que tiveram experiência em pastoral vinculada
à Teologia da Libertação e depois abraçaram
novas comunidades. Mas não diria que uma opção
influenciou a outra. Pelo menos em minhas pesquisas até agora
não observei isso. Embora Teologia da Libertação
e novas comunidades possam compartilhar a mesma utopia cristã,
a forma como define essa utopia, como a percebe, ou como se pode construí-la,
e os caminhos para alcançá-la parecem realmente bem
distintos.