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Bas’Ilele Malomalo
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O que é e quais as origens do ubuntu? Bas’Ilele Malomalo
– Etimologicamente, ubuntu vem de duas línguas do povo banto,
zulu e xhona, que habitam o território da República da África
do Sul, o país do Mandela . Do ponto de vista filosófico
e antropológico, o ubuntu retrata a cosmovisão do mundo
negro-africano. É o elemento central da filosofia africana, que
concebe o mundo como uma teia de relações entre o divino
(Oludumaré/Nzambi/Deus, Ancestrais/Orixás), a comunidade
(mundo dos seres humanos) e a natureza (composta de seres animados e inanimados).
Esse pensamento é vivenciado por todos os povos da África
negra tradicional e é traduzido em todas as suas línguas. Como elemento da tradição africana, o ubuntu é reinterpretado ao longo da história política e cultural pelos africanos e suas diásporas. Nos anos que vão de 1910-1960, ele aparece em termos do panafricanismo e da negritude. São esses dois movimentos filosóficos que ajudaram a África a lutar contra o colonialismo e a obter suas independências. Após as independências, estará presente na práxis filosófica do Ujama de Julius Nyerere , na Tanzânia; na filosofia da bisoité ou bisoidade (palavra que vem da língua lingala, e traduzida significa “nós”) de Tshiamalenga Ntumba; nas práticas políticas que apontam para as reconciliações nacionais nos anos de 1990 na África do Sul e outros países africanos em processo da democratização. A tradução da ideia filosófica que veicula depende de um contexto cultural a outro, e do contexto da filosofia política de cada agente. Na República Democrática do Congo, aprendi que ubuntu pode ser traduzido nestes termos: “Eu só existo porque nós existimos”. E é a partir dessa tradução que busco estabelecer minhas reflexões filosóficas sobre a existência. Muitos outros intelectuais africanos vêm se servindo da mesma noção para falar da “liderança coletiva” na gestão da política e da vida social.
IHU On-Line – Como um princípio ético nascido na África, que manifestações do ubuntu podemos encontrar na cultura brasileira ou afro-brasileira, tão marcada por raízes africanas? Bas’Ilele Malomalo – É preciso voltar à história para capturar as manifestações do ubuntu em suas diásporas transatlânticas. No Brasil, a noção do ubuntu chega com os escravizados africanos a partir do século XVI. Estes trouxeram a sua cultura nos seus corpos, e ela foi reinventada a partir do novo contexto da escravidão. Por isso, falar de ubuntu no Brasil é falar de solidariedade e resistência. Como outros registros histórico-antropológicos que expressam o “ubuntu afro-brasileiro”, podemos citar os quilombos, as religiões afro-brasileiras, irmandades negras, movimentos negros, congadas, moçambique, imprensas negras.
IHU On-Line – Como podemos compreender a religião ou o sagrado por meio do ubuntu? De que forma ele tenciona a noção religioso-transcendental? Bas’Ilele Malomalo – Para os africanos e seus descendentes, toda existência é sagrada, quer dizer, há um pouco do divino em tudo o que existe. A religião, como instituição social e sistema simbólico, apresenta-se como o espaço privilegiado de alimentação da “consciência ubuntuística”. Através de seus ritos, seus sacerdotes e adeptos a reatualizam. Os mitos, as celebrações, os cantos e encantamentos desempenham essa função de nos religar com nossos deuses, antepassados, com a comunidade, conosco mesmos, com o cosmos e a natureza. Além dos ritos sagrados, os profanos também desempenham a mesma função mística. Na África, os ritos de iniciação, de entronização dos reis ou rainhas estão sempre conectados com a ancestralidade.
IHU On-Line – Dentro da ética ubuntu, qual é o papel do ser humano e da comunidade? Bas’Ilele Malomalo – A concepção
africana do mundo é antropocêntrica. Não no sentido
absolutista da filosofia iluminista ocidental, que pensa que o ser humano
é o centro do mundo e que ele pode tudo e pode fazer tudo o que
quiser. O antropocentrismo africano é “relativista”.
Quer dizer, o ser humano africano sabe que nem tudo depende da sua vontade.
Esta depende também da vontade dos ancestrais, dos orixás.
Se estes revelarem, através de um sonho, de um Ifá, de um
sacerdote, do seu pai ou da sua mãe, um acontecimento, será
preciso prestar atenção. Bas’Ilele Malomalo – Do ponto de vista filosófico, a crise planetária atual encontra suas raízes na expansão ocidental desde a Idade Média até o surgimento da modernidade. A hegemonia da “razão indolente” (Boaventura de Sousa Santos ) nas suas manifestações através do colonialismo, positivismo, racismo científico, capitalismo selvagem, tem sido o instrumento de aprofundamento dos males da nossa civilização. Esse pensamento absolutizou tanto o homem que este voltou-se contra suas divindades, contra a natureza e contra seus semelhantes. O seu “antropocentrismo absolutista” criou as condições de destruição da sua própria espécie e das espécies não humanas. Qual é a saída que os pensamentos
alternativos têm sugerido? Boaventura de Sousa Santos alega que
é preciso acionar a “razão cosmopolita”; Edgar
Morin sugere o uso de uma epistemologia da complexidade; Leonardo Boff
tem sugerido a espiritualidade ecológica. É na busca da
união umbilical, afirma Boff, que se encontraria a salvação
da humanidade, a superação da crise ecológica atual. Dessa forma, antes dos humanos cuidarem
dos não humanos, precisam cuidar da sua casa. Quer dizer, rever
suas práticas filosóficas e científicas dentro dos
parâmetros éticos. Uma vez feito isso, poderiam ter condições
de cuidar do meio em que vivem. Insisto nisso, porque há um certo
pensamento ambientalista ligado à razão indolente. Muitos
falam do meio ambiente para lucrar. Essa opção leva esses
ativistas e cientistas a ocultar as misérias humanas. O ubuntu
é uma crítica à visão simplista e interesseira.
Pensar o desenvolvimento ambiental nessa perspectiva é perceber,
como Boff, que deve se levar as coisas no contexto da dialética
da complexidade, na qual o teológico, o antropológico e
o cosmológico-ambiental dialogam sabiamente. Somos nós,
os humanos, que devemos procurar o estabelecimento desse equilíbrio
planetário. As responsabilidades têm que ser apuradas, e
evitar o discurso da hipocrisia burguesa. Bas’Ilele Malomalo
– Na filosofia negro-africana, a ancestralidade é eixo do
entendimento da nossa existência. É tudo aquilo que nos proporciona
a vivência do nosso presente (sasa, em swahili) e nosso futuro (lobi,
em lingala), tendo aqueles que pertencem ao passado (zamani, em swahili),
os que nos antecederam, divindades, orixás e antepassados como
ponto de leitura das duas primeiras dimensões da existência. Desse ponto de vista, os mitos e ritos
africanos têm por função pedagógica lembrar
aos vivos o seu parentesco com os seres do mundo invisível e visível
(seres humanos e seres não humanos). Todos os mitos africanos se
pautam nessa lógica. Como os mitos judaicos, os mitos africanos
nos informam que os seres humanos têm um pouco de divino; cada um
é filho de um orixá; e um pouco da natureza. Conta um mito
da criação que Oludumaré (Deus supremo) deu ao orixá
Obatalá a missão de criar o ser humano, e este o fez a partir
do barro (elemento da natureza). Eis a nossa irmandade planetária.
A cosmovisão africana do mundo tem uma importância no sentido
de contribuir para o pensamento ecológico contemporâneo. Bas’Ilele Malomalo
– O ubuntu pertence ao pensamento alternativo, que cogita o mundo
a partir da complexidade. E é oportuno reafirmar que toda filosofia
carrega valores e antivalores. Para a filosofia de ubuntu, não
se pode falar de economia e política sem levar em consideração
os valores da comunidade cósmica. Os profissionais de todos os
campos da teologia, das ciências sociais e da natureza, políticos,
o homem e a mulher comuns, todos devem ser ouvidos. O ubuntu luta contra
os reducionismos impostos pela razão indolente no fazer política
e economia. A democracia participativa em todos os campos é tida
como um valor. A economia não se reduz ao crescimento. Este tem
a ver também com o social e com o cultural. O valor de solidariedade
é também importante. Bas’Ilele Malomalo – É preciso dizer, primeiro, que as vítimas da violência e das desigualdades são aquelas que compõem a classe dos excluídos por motivos raciais, de gênero, de opção sexual ou religiosa. Os seres não humanos também pertencem a essa classe dos dominados pelo fato de interagir com as classes dominantes, agentes da razão indolente, de uma forma desigual. Com isso, estou querendo afirmar a historicidade da violência e das desigualdades. Olhando para a história africana
e da sua diáspora brasileira, quero citar alguns casos em que o
ubuntu se materializou ou foi tensionado para ser traduzido em termos
de perdão, reconciliação e compaixão. Em 2001, com a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância Correlata (31 de agosto a 8 de setembro de 2001), em Durban, na África do Sul, as vítimas do escravismo colonial europeu, africanos e seus descendentes, exigiram aos Estados europeus, americanos e africanos um pedido de perdão pelos atos cometidos. Os Estados africanos através do representante da União Africana o fizeram, mas da parte dos dirigentes dos outros Estados houve resistência. Pois muitos não queriam assumir a sua responsabilidade histórica. Afinal de contas, a conferência condenou a escravidão como crime contra a humanidade. Esses dois exemplos devem inspirar todas
as sociedades multiculturais que pretendem propiciar um destino melhor
para todos os seus cidadãos. Os países africanos que ainda
brigam por causa da hegemonia política ou da gestão dos
recursos naturais; os países da América Latina, como o caso
do Brasil, onde as sequelas do escravismo e do racismo dividem, proporcionando
aos seus cidadãos o acesso aos direitos políticos, econômicos,
sociais e culturais de forma diferenciada, devem se servir dos exemplos
citados, para que o ubuntu se torne uma profecia da esperança cumprida.
IHU On-Line – Em um contexto social como o brasileiro, como a ética ubuntu pode contribuir na situação contemporânea? Bas’Ilele Malomalo
– Uma coisa que o ubuntu tem para nos ensinar, nesse momento histórico
de experimentação de políticas públicas de
ações afirmativas e cotas, é a consideração
dos elementos de perdão, reconciliação e compaixão.
Para mim, perdoar significa antes de tudo a identificação
das causas de nossos males. Os males, que justificam a situação
do subdesenvolvimento da população negra quando comparada
com a branca, têm nomes: o nosso passado escravista e o racismo
contemporâneo. Há outros fatores, mas esses dois são
suficientes. Para a teologia afro-brasileira, eles são identificados
aos pecados. Reconciliação na perspectiva do ubuntu, no Brasil atual, é um encontro entre nós mesmos, com o nosso passado de dor, resistência e esperança. É um encontro entre nós mesmos como povo brasileiro. Um povo marcado pela miscigenação emancipatória e não um falso discurso de miscigenação colonialista. A diferença é que o primeiro discurso assume a pluralidade como valor, já o segundo o nega e o encara como uma ameaça.
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