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Carolina Machado
> A vidente de Prevorst: Um caso mediúnico pré-Kardec
Na Doutrina Espírita
considera-se o caso das irmãs Fox, ocorrido em 1848 nos EUA,
como sendo o responsável pelo seu nascimento. Porém,
evidentemente, esse não é o primeiro fenômeno
do gênero que ocorreu no mundo. De fato, sabe-se que todos os
povos já existentes relataram a ocorrência de fenômenos
espiritualistas, e inclusive aqueles tidos como feitiçaria
e bruxaria na época da Idade Média, em sua grande maioria,
se tratavam de fenômenos dessa espécie, que tão
somente não foram considerados de forma adequada.
Obviamente que, considerar o caso das irmãs Fox como o fato
que deu início ao espiritualismo moderno e que culminou no
que hoje se conhece por Doutrina Espírita, nada mais é
que uma convenção. Nada mais justo, posto que após
este, muitos outros casos ocorreram, de forma igualmente intrigante,
pela América e Europa, e rapidamente o fenômeno das mesas
girantes se espalhou, caracterizando o que Conan Doyle chamou de “invasão
organizada”. (1 e 2)
Assim sendo, essa sucessão de acontecimentos fez despertar
o real interesse na sua investigação, apesar de com
intuito de prová-los como falsos (2).
E, pela primeira vez, esses fenômenos deixaram de ser considerados
como feitiçaria, magia, ou coisas do gênero, que pareciam
ser próprios daqueles com “dons especiais”, para
serem tratados de forma séria, sob todo o rigor científico
que a situação requer. Isso permitiu que pudessem ser
enxergados como fenômenos naturais que merecem ser investigados.
Como bem se sabe, a Natureza não dá saltos, e isso não
seria diferente com o desenvolvimento do Espiritismo. Muito estranho
seria, se o Espiritismo se revelasse de maneira estanque, de uma só
vez e em um só lugar. Se assim fosse, perderia totalmente sua
credibilidade (3).
E, assim sendo, a história da humanidade está repleta
de casos instigantes, que pouco a pouco trouxeram algumas noções
desse universo e que se tornariam ainda mais interessantes se estudados
à luz da Doutrina.
Para tanto, será apresentado aqui um caso pré-Kardec
extremamente inusitado, a tal ponto que merece atenção
e até mesmo estudo aprofundado. Esse caso trata-se da história
da senhora Frederica Hauffe, mais conhecida como a vidente de Prevorst
(4). A vida
da vidente foi estudada na primeira metade do século 19, pelo
Dr. Justinus Kerner e lhe rendeu um livro de mesmo nome.

Prevorst é um vilarejo de 400 pessoas
e se encontra
no alto de uma cordilheira no meio das montanhas de Löwensteiner
Frederica nasceu na aldeia de Prevorst,
na Alemanha, em 1801. Um lugar de altas montanhas que na época
contava com aproximada-Frederica nasceu na aldeia de Prevorst, na
Alemanha, em 1801. Um lugar de altas montanhas que na época
contava com aproximadamente 400 habitantes. Desde a primeira infância
apresentava sinais de faculdades excepcionais.
Via espíritos; sabia indicar onde havia água e metais
com a vara divinatória; tinha pressentimentos, sonhos proféticos
ou premonitórios, especialmente quando era repreendida ou irritada
por algum motivo. Magoava-se facilmente e isso a levava a ter sonhos
com visões instrutivas. Certa vez, seu pai perdera um objeto
de valor e a responsabilizara por isso. Posto que ela nada soubesse
a respeito, sentiu-se perturbada pela acusação e à
noite viu em sonho onde estava o referido objeto
(5).

E
assim permaneceu durante toda infância, manifestando essas faculdades,
até chegar à idade de seus 17 ou 19 anos, quando Frederica
parecia que tinha perdido um pouco a capacidade de percepção
da vida interna, levando uma vida social normal e em companhia de
amigas. Porém, aos 19 anos contraiu compromisso com o Sr. Hauffe,
o que foi de seu agrado, mas estranhamente caiu, durante cinco semanas,
em estado depressivo, sem dormir e passava os dias a chorar, e assim
recaiu no estado de hipersensibilidade da infância (5).
Esse sentimento mais tarde revelou seu motivo.
O funeral de um amigo, que lhe era de grande estima, foi celebrado
no mesmo dia de seu casamento. Essa situação a deixou
profundamente abalada e ela se tornou indiferente às coisas
no mundo exterior passando a viver uma vida interior (5).
Dessa forma, deu início a uma vida de sofrimento, praticamente
mergulhada em sonambulismo, donde ela deu inumeráveis demonstrações
da sua capacidade mediúnica e seu conhecimento do mundo espiritual.
Muitos fenômenos incomuns ocorriam com a Sra. Hauffe, que demostram
a intensidade de sua vida interior. Ela era sensível ao que
o Dr. Kerner chama de influências elétricas. Com o tempo
verificou-se que quanto mais baixo era o local onde habitava, maiores
eram seus espasmos. Já em locais montanhosos, seu poder magnético
aumentava (6).
Certa vez recebeu a visita de amigos e a casa encheu-se de alegrias,
porém ela continuava triste, visto que seu filho recém-nascido
havia falecido. Então, uma amiga a encontrou em preces e caçoou,
o que a magoou tanto a ponto de se tornar fria e rígida como
um cadáver (7).
Por vezes via sua própria imagem, sentada num banco vestida
de branco, enquanto ela mesma estava deitada na cama. Não suportava
a luz, quando uma vez viajou, precisou ir em carro fechado e quando
chegou precisou esperar que escurecesse para que pudesse entrar em
casa. Ouvia e sabia o que se passava a distância, tinha visões
proféticas em copos e espelhos. Uma vez viu num copo um carro
na estrada, descreveu perfeitamente o carro, os cavalos e as pessoas
que viajavam nele, e meia hora depois chegavam à sua casa (7).
Quando caía em sono magnético receitava para si mesma,
tendo até desenhado uma máquina que deveria curá-la,
mas ninguém deu atenção a isso. Era extremamente
sensível às influências magnéticas, até
mesmo um prego na parede a incomodava de tal forma que era necessário
retirá-lo. Tentaram aplicar-lhe um ímã, o que
a fez virar a cabeça, modificar os traços faciais e
torcer a boca como se estivesse em paralisia. Esses sintomas perduraram
por dois dias (7).
Parecia que precisava de fluidos nervosos de outras pessoas, sendo
necessário dar-lhe a mão constantemente e quando a pessoa
não gozava de boa saúde, se sentia ainda mais fraca.
A medicina tradicional era ineficaz e o tratamento magnético
era o que lhe aliviava os sintomas. Após um segundo parto,
ela caiu em febre e delírio e mergulhou num estado magnético
mais grave e ficou ainda mais dependente da energia nervosa dos outros.
Tinha espasmos e acessos de sonambulismo ainda mais intensos, levando
a diarreia e suores noturnos. Esforçavam-se para que ela levantasse
da cama, porém ela caía sem sentidos e começaram
a achar que sua doença era obra do diabo (8).
Nunca ficava completamente acordada, falava o Alto-alemão e
uma língua estranha que ela dizia se tratar de sua língua
interna. Quando queria falar normalmente, aplicava passes em si mesma.
No início de 1826, o Dr. Kerner foi chamado para consultá-la.
Como lhe disseram coisas a seu respeito, ele não quis dar importância
ao seu estado magnético e fez questão de tratá-la
através da medicina tradicional, o que só fez piorar
os sintomas. Além disso, as gengivas passaram a sangrar constantemente
e ela perdeu os dentes (8).
Ela parecia que estava mais morta que viva e achava-se muitas vezes
desdobrada e dizia perceber o Espírito fora do corpo como se
ele estivesse envolto por ligeira gaze. Dizia que queria outros céus,
outros alimentos, outra atmosfera que o planeta Terra não lhe
poderia oferecer (9).
Quando saía do transe tornava-se sensível ao peso do
corpo das pessoas, independente da matéria, falava de uma espécie
de peso moral.

Era sensível
ao contato com pedras e metais, sua pupila se dilatava consideravelmente
ao
colocar diamantes nas mãos (10).
Tinha percepções ao olhar o interior dos olhos das pessoas,
no olho direito via uma imagem refletida atrás da sua, acreditava
tratar-se do retrato espiritual da referida pessoa. Se examinava o
olho esquerdo, percebia que doenças essa pessoa tinha e dava
a prescrição necessária (11).
Os espíritos muitas vezes apareciam para ela pedindo ajuda.
Ela dizia que eles pareciam escuros e quando oravam juntos tornavam-se
mais leves e iluminados. Além desses, a vidente apresentava
muitas outras capacidades, como telecinesia; era capaz de ver pequenos
relâmpagos saindo da cabeça das pessoas quando a atmosfera
estava carregada de eletricidade; era sensível a quaisquer
emanações fluídicas; sabia quando a água
tinha sido fluidificada, dizia que tinha uma cor diferente; entre
outras. O que mais impressionava o Dr. Kerner era o conhecimento do
mundo sobrenatural que a vidente demonstrava ter.
Ela dizia que quando a clarividência era completa (grau avançado
de sonambulismo), os pensamentos vinham diretamente do espírito
e da região epigástrica, porém quando estava
em sonho magnético (um grau leve de sonambulismo) vinham, sobretudo,
do cérebro. Quando saía desse estado podia lembrar-se
do que tinha sonhado, o que não ocorria no meio-sonambulismo
ou na clarividência. Em estado sonambúlico ela dizia
que a alma continua a viver com o espírito e cria em torno
dele uma forma etérea e que o estado sonambúlico era
a vida e o ato do homem interior, que continha a prova da vida futura
e da nova união após a morte (12).
Com relação à linguagem interior da vidente,
ela dizia que era a linguagem que Jacó falava, que só
assim poderia exprimir completamente os pensamentos da vida interior,
que com uma só palavra poderia expressar linhas inteiras da
linguagem comum e que após a morte, com um único símbolo
o homem poderia ler toda sua vida. Quando ela escrevia, sempre relacionava
os caracteres com números, dizia que dessa forma tinham um
sentido mais profundo (13).
Dizia que a separação do espírito durante o sono
sonambúlico se parecia com a morte, porém não
era o mesmo. Declarava que ao morrer, se o espírito não
sabe da vida futura, não consegue arrastar a alma, que fica
presa no corpo, e então tem que esperar, e o futuro lhes é
obscuro. Porém, quando têm ciência, é porque
a alma já não está mais sob influência
do cérebro e então o espírito recupera sua clarividência
e aspira ao futuro (13).
Para ela o fluido nervoso era o laço que unia a alma ao corpo
e o corpo ao mundo e que a causa do seu estado anormal era o fato
de que o seu fluido se desprendia com muita facilidade. Esse fluido
é imortal e acompanha o corpo após a morte e constitui
uma forma fluídica em torno do espírito. Nos raros casos
em que a pessoa morre perfeitamente pura, não leva consigo
o fluido nervoso e por isso não pode mais aparecer. Dizia que
quanto mais puro é o espírito, mais elevado é
o local que ocupa (13).
Segundo as observações dela os espíritos possuem
o mesmo aspecto que tinham em vida, porém, parecem acinzentados,
as vestimentas vaporosas e os traços são vagos e obscuros.
Os fantasmas bons parecem brilhantes e os maus são escuros.
Caminham como os vivos, porém os mais elevados parecem flutuar
e os maus se arrastam pesadamente e seus passos podem ser ouvidos
por qualquer um que estiver perto. Podem mover objetos pesados e abrir
e fechar portas (14).
Ela percebeu que a crença comum na superioridade dos espíritos
pelo simples motivo de se tratarem de espíritos é errônea.
Segundo ela, eles não eram capazes de responder a todas as
perguntas e, em geral, os mais perversos respondiam com mais facilidade,
e que os espíritos felizes tinham dificuldade de responder
sobre questões terrenas, enquanto que os maus sobre questões
espirituais (14).
Os espíritos inferiores encontram-se na região média,
que pertence à nossa atmosfera, e os purificados ocupam os
mais altos graus. Porém, nos graus superiores, apesar de não
haver as distrações do mundo, é necessário
esforço próprio para se alcançar melhoria. O
espírito continua o mesmo após a morte, mas pode elevar-se
e purificar-se, quando então, pode subir e gozar de certa felicidade.
Dessa forma, seu fantasma e roupas parecem luminosos, é quando
estão espiritualizados (14).
A vidente fez muitas outras explanações a respeito do
mundo espiritual conforme a sua percepção. Aqui foram
utilizados os termos tal qual usados por ela, donde é possível
inferir a similaridade entre o que ela observava e o que Kardec
descobriu com a sua pesquisa, especialmente quando se trata de descrever
os espíritos quanto à forma etérea que o envolve,
ao fluido nervoso, à diferença moral entre os vários
espíritos que ela teve contato e as consequências dos
atos da vida presente na vida futura após a morte.
Além disso, ela também sabia que as faculdades que ela
apresentava não eram um privilégio ou algo como um “dom
especial” para poucos. Segundo ela todos possuem a capacidade
de ver espíritos, e essa capacidade pode ser desenvolvida através
do homem interior (14).

Referências Bibliográficas:
1 DOYLE, Arthur C. A História
do Espiritualismo. FEB, 2008, p.12.
2 DELANNE, Gabriel. O Fenômeno Espírita. 3. ed. Rio de
Janeiro, RJ: FEB, 1977, Capítulo II.
3 KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 365ª edição.
Araras, SP: IDE, 2009, Introdução, item II.
4 KERNER, Justinus. A Vidente de Prevorst. 2. ed. Matão, SP:
O Clarim, 1979.
5 _______. Primeira parte, cap. 1
6 _______. Primeira parte, cap. 2
7 _______. Primeira parte, cap. 3
8 _______. Primeira parte, cap. 4
9 _______. Primeira parte, cap. 6
10 _______. Primeira parte, cap. 7
11 _______. Primeira parte, cap. 10
12 _______. Primeira parte, cap. 19
13 _______. Primeira parte, cap. 21
14 _______. Segunda parte, cap. 2
Fonte: Revista
CELD de Estudos Espíritas
https://celd.xyz/wp-content/uploads/09-Revista_CELD_Setembro-2018.pdf
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