Espiritualidade e Sociedade





Reinaldo José Lopes

>    Uso cuidadoso das fontes antigas corrobora a existência de Jesus

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Reinaldo José Lopes
>   Uso cuidadoso das fontes antigas corrobora a existência de Jesus


 


Vista aérea de Nazaré, localidade em que Jesus provavelmente passou sua infância e adolescência - Menahem Kahana/AFP

 

Minha última coluna, destacando o consenso acadêmico sobre a existência histórica de Jesus de Nazaré, provocou reações fortes, como era previsível. O espaço limitado não me permitiu abordar muitos aspectos interessantes. Por isso, volto ao tema agora.

Vamos pensar no que sabemos sobre o mundo antigo tomando como exemplo dois gigantes da historiografia grega: Heródoto e Tucídides. Ambos escreveram durante o século 5º a.C. E ambos abordam as guerras entre gregos e persas –sim, aquele conflito distorcido na série "300"– em parte de sua obra. (Heródoto também aborda a cultura de uma miríade de povos, dos egípcios aos citas, enquanto o foco principal de Tucídides é o conflito entre Atenas e Esparta.)

O que os dois dizem sobre a invasão persa foi escrito várias décadas após o fim da guerra –aliás, mais ou menos a mesma distância temporal que separa a vida de Jesus do momento em que os evangelistas do Novo Testamento escreveram. Nem Heródoto nem Tucídides foram testemunhas oculares dos eventos.

O primeiro é, do nosso ponto de vista, mais crédulo, mencionando intervenções divinas e eventos milagrosos; o segundo soa cético, mas tinha o costume –aceitável para historiadores da Antiguidade– de simplesmente inventar diálogos entre embaixadores, generais etc. desde que eles se encaixassem no que lhe parecia ser correto para o contexto da narrativa.

Tudo isso significa que, do ponto de vista histórico, Tucídides e Heródoto não servem para nada? É claro que não. Em muitos casos, eles são a única fonte relativamente próxima dos eventos narrados que temos para entender figuras importantes do mundo grego, como o próprio Leônidas, um dos reis de Esparta e estrela de "300".

Os historiadores atuais analisam cuidadosamente cada informação nas obras desses autores, tentam checá-las com outras fontes e chegam a um veredicto (ou a muitos, já que os debates nunca terminam de fato). E algumas coisas parecem sólidas demais para que qualquer um deles sonhe em descartá-las –como a própria existência de Leônidas, aliás, de quem não sobrou uma única unha do dedo, ponta de lança, sepulcro ou descrição feita por testemunha ocular.

Bem, os mesmos fatores e as mesmas metodologias se aplicam à pesquisa sobre o Jesus histórico. Primeiro, existem algumas menções à figura de Cristo em textos extrabíblicos, escritos por dois autores romanos –Tácito e Plínio, o Jovem– e pelo judeu Flávio Josefo. Todos são da virada do século 1º para o século 2º. (O texto de Josefo foi adulterado por escribas cristãos, mas o consenso é que ele tinha falado de Jesus em sua obra original, e há reconstruções bastante convincentes do que seria esse texto.)

A distância temporal entre esses textos e a vida de Jesus é menor que um século. Para os padrões da Antiguidade, não é muita coisa. Nas obras, o Nazareno é retratado como um pregador não muito importante –exatamente o que esperaríamos de fontes não cristãs num momento em que o movimento de Jesus ainda engatinhava.

Quanto às epístolas de Paulo e aos Evangelhos, não há motivos para achar que eles são fontes significativamente piores que Heródoto. É preciso peneirá-las com a metodologia histórica, claro. E, quando isso é feito, quase todos os especialistas chegam a uma conclusão clara: Jesus existiu.


* * *
 

 

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldojoselopes/2025/12/uso-cuidadoso-das-fontes-antigas-corrobora-a-existencia-de-jesus.shtml

 

 

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