
Vista aérea de Nazaré, localidade
em que Jesus provavelmente passou sua infância e adolescência
- Menahem Kahana/AFP
Minha última coluna,
destacando o consenso acadêmico sobre a existência histórica
de Jesus de Nazaré, provocou reações fortes,
como era previsível. O espaço limitado não me
permitiu abordar muitos aspectos interessantes. Por isso, volto ao
tema agora.
Vamos pensar no que sabemos sobre
o mundo antigo tomando como exemplo dois gigantes da historiografia
grega: Heródoto e Tucídides. Ambos escreveram durante
o século 5º a.C. E ambos abordam as guerras entre gregos
e persas –sim, aquele conflito distorcido na série "300"–
em parte de sua obra. (Heródoto também aborda a cultura
de uma miríade de povos, dos egípcios aos citas, enquanto
o foco principal de Tucídides é o conflito entre Atenas
e Esparta.)
O que os dois dizem sobre a invasão persa foi escrito várias
décadas após o fim da guerra –aliás, mais
ou menos a mesma distância temporal que separa a vida de Jesus
do momento em que os evangelistas do Novo Testamento escreveram. Nem
Heródoto nem Tucídides foram testemunhas oculares dos
eventos.
O primeiro é, do nosso ponto de vista, mais crédulo,
mencionando intervenções divinas e eventos milagrosos;
o segundo soa cético, mas tinha o costume –aceitável
para historiadores da Antiguidade– de simplesmente inventar
diálogos entre embaixadores, generais etc. desde que eles se
encaixassem no que lhe parecia ser correto para o contexto da narrativa.

Tudo isso significa que, do ponto
de vista histórico, Tucídides e Heródoto não
servem para nada? É claro que não. Em muitos casos,
eles são a única fonte relativamente próxima
dos eventos narrados que temos para entender figuras importantes do
mundo grego, como o próprio Leônidas, um dos reis de
Esparta e estrela de "300".
Os historiadores atuais analisam cuidadosamente cada informação
nas obras desses autores, tentam checá-las com outras fontes
e chegam a um veredicto (ou a muitos, já que os debates nunca
terminam de fato). E algumas coisas parecem sólidas demais
para que qualquer um deles sonhe em descartá-las –como
a própria existência de Leônidas, aliás,
de quem não sobrou uma única unha do dedo, ponta de
lança, sepulcro ou descrição feita por testemunha
ocular.
Bem, os mesmos fatores e as mesmas metodologias se aplicam à
pesquisa sobre o Jesus histórico. Primeiro, existem algumas
menções à figura de Cristo em textos extrabíblicos,
escritos por dois autores romanos –Tácito e Plínio,
o Jovem– e pelo judeu Flávio Josefo. Todos são
da virada do século 1º para o século 2º. (O
texto de Josefo foi adulterado por escribas cristãos, mas o
consenso é que ele tinha falado de Jesus em sua obra original,
e há reconstruções bastante convincentes do que
seria esse texto.)
A distância temporal entre esses
textos e a vida de Jesus é menor que um século. Para
os padrões da Antiguidade, não é muita coisa.
Nas obras, o Nazareno é retratado como um pregador não
muito importante –exatamente o que esperaríamos de fontes
não cristãs num momento em que o movimento de Jesus
ainda engatinhava.
Quanto às epístolas de Paulo e aos Evangelhos,
não há motivos para achar que eles são fontes
significativamente piores que Heródoto. É preciso peneirá-las
com a metodologia histórica, claro. E, quando isso é
feito, quase todos os especialistas chegam a uma conclusão
clara: Jesus existiu.
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