Reinaldo José
Lopes
Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499:
O Brasil Antes de Cabral"
por Folha de São Paulo
Negar Jesus histórico é mais um
caso de 'criacionismo de ateu'
Consenso acadêmico de historiadores sobre existência de
Cristo é praticamente unânime
Aceitar historicidade do Nazareno não equivale a acreditar
de forma acrítica no texto da Bíblia
Existem algumas ideias fixas que às
vezes eu chamo carinhosamente de "criacionismo de ateu":
crenças sem base factual que acabam soando muito sedutoras
para pessoas supostamente sem dogmas. Uma delas é a de que
não existiria natureza humana e tudo seria "construção
social". E há outra que sempre volta para me perseguir
quando escrevo sobre história das religiões. Trata-se
da tese de que Jesus de Nazaré nunca teria existido. Spoiler:
essa é uma crença quase tão pseudocientífica
quanto afirmar que as pirâmides foram feitas por ETs.
Explicar as evidências em favor da existência histórica
de Cristo exigiria muito mais espaço do que disponho por aqui
nesta coluna da Folha de São Paulo. Queria, porém,
dar um passo atrás e pensar um pouquinho nos pressupostos.
Primeiro, a comparação com ideias do tipo "alienígenas
do passado" se explica pelo fato de que é praticamente
impossível encontrar historiadores e arqueólogos sérios
que defendam a tese do "Cristo mítico". O mesmo vale
para publicações em periódicos acadêmicos
com revisão por pares –o processo no qual a comunidade
acadêmica avalia um novo estudo antes de ele ser divulgado.
O que é curioso nesse caso
é o proverbial uso de dois pesos e duas medidas. Algumas das
pessoas que não dão crédito ao negacionismo da
crise climática – porque, afinal, sabem que as raras
pessoas com credenciais científicas que negam o problema em
geral não são climatologistas, nunca publicaram em nenhum
periódico sério sobre o tema, têm motivações
ideológico-financeiras para o negacionismo ou tudo isso junto
– acabam dando crédito aos "miticistas", que
seguem o mesmo figurino.
Os consensos científicos modernos
existem por um bom motivo. E eles quase sempre mudam quando há
boas evidências em favor de alterá-los, o que não
está sendo o caso aqui. E não há nenhuma explicação
convincente para a suposta invenção de um Messias judeu
se a ideia era converter justamente os não judeus para uma
nova religião.
Há ainda outro problema de base nessa história. Trata-se
da mania demasiado humana de se aferrar a qualquer argumento que seja
útil para o seu lado, por mais frágil que seja. A questão,
porém, é que falta enxergar o abismo óbvio que
existe entre aceitar a existência da figura histórica
de Jesus de Nazaré – um profeta da Galileia crucificado
pelos romanos lá pelo ano 30 d.C.– e acreditar no Senhor
divino anunciado por uma das muitas denominações cristãs
por aí.
É claro que o consenso histórico sobre Jesus se refere
à primeira figura, e não à segunda. Os debates
entre historiadores sobre os detalhes mais ou menos prováveis
da vida da primeira figura são ferozes e ainda indecisos (assim
como os debates sobre Alexandre, ou Nero, ou qualquer outra figura
da Antiguidade). Mas nenhum desses debates jamais será suficiente
para "provar" que o Nazareno operava milagres ou ressuscitou
dos mortos ao terceiro dia, como diz o Credo, simplesmente porque
eventos desse tipo não são verificáveis por meio
do método científico e só podem ser aceitos por
meio da fé.
Fica aqui a dica, portanto, aos amigos ateus e agnósticos:
os argumentos em favor da descrença já são bastante
fortes. Não é preciso fazer birra contra o consenso
histórico só por causa do que foi feito do legado de
um pobre galileu.
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