| Allan
Kardec
> Sensações dos Espíritos -
Revista Espírita
REVISTA ESPÍRITA
Jornal de Estudos Psicológicos
publicada sobre a direção de ALLAN KARDEC
Dezembro de 1858
Sofrem os Espíritos? Que sensações
experimentam? Tais questões nos são naturalmente dirigidas
e vamos tentar resolvê-las. Inicialmente devemos dizer que,
para isso, não nos contentamos com as respostas dos Espíritos.
De certa maneira, através de numerosas observações,
tivemos que considerar a sensação com o fato.
Em uma de nossas reuniões, pouco depois que São Luís
nos transmitiu a bela dissertação sobre a avareza, inserida
em nosso número do mês de fevereiro, um de nossos associados
narrou o seguinte fato, a propósito dessa mesma dissertação.
“Estávamos ocupados de evocações numa pequena
reunião de amigos quando se apresentou, inopinadamente e sem
que o tivéssemos chamado, o Espírito de um homem que
havíamos conhecido muito bem e que, quando vivo, poderia ter
servido de
modelo ao retrato do avarento, feito por São Luís: um
desses homens que vivem miseravelmente no meio da fortuna e que se
privava, não pelos outros, mas para acumular sem proveito para
ninguém. Era inverno, estávamos perto do fogo; de repente
aquele Espírito lembrou-nos seu nome, no qual absolutamente
não pensávamos, pedindo-nos permissão para vir,
durante três dias, aquecer-se à nossa lareira, pois que
sofria horrivelmente do frio que voluntariamente suportara durante
a vida e que, por sua avareza, também fizera os outros suportar.
Era um alívio que experimentaria, acrescentou, caso concordássemos
com o pedido.”
Aquele Espírito, pois, experimentava penosa sensação
de frio; mas, como a experimentava? Eis aí a dificuldade. A
esse respeito dirigimos a São Luís as seguintes perguntas:
– Consentiríeis em dizer-nos como esse
Espírito de avarento, que não tinha mais o corpo material,
podia sentir frio e pedir para se aquecer?
Resp. – Podes representar os sofrimentos do Espírito
pelos sofrimentos morais.
– Concebemos os sofrimentos morais, como pesares,
remorsos, vergonha; mas o calor e o frio, a dor física, não
são efeitos morais; experimentariam os Espíritos tais
sensações?
Resp. – Tua alma sente frio? Não; mas tem
consciência da sensação que age sobre o corpo.
– Disso parece resultar que esse Espírito de avarento
não sentia um frio real, mas a lembrança da sensação
do frio que havia suportado e essa lembrança, tida por ele
como realidade, tornava-se um suplício.
Resp. – É mais ou menos isso. Fique bem entendido
que há uma distinção, que compreendeis perfeitamente,
entre a dor física e a dor moral; não se deve confundir
o efeito com a causa.
– Se bem entendemos, poderíamos, ao que nos parece,
explicar as coisas do seguinte modo:
O corpo é o instrumento da dor. Se não é a
causa primeira desta é, pelo menos, a causa imediata. A alma
tem a percepção da dor: essa percepção
é o efeito. A lembrança que da dor a alma conserva
pode ser muito penosa, mas não pode ter ação
física. De fato, nem o frio, nem o calor são capazes
de desorganizar os tecidos da alma, que não é susceptível
de congelar-se, nem de queimar-se. Não vemos todos os dias
a recordação ou a apreensão de um mal físico
produzirem o efeito desse mal, como se real fosse? Não as
vemos até causar a morte? Toda gente sabe que aqueles cujos
membros foram amputados costumam sentir dor no membro que lhes falta.
Certo que aí não está a sede, ou, sequer, o
ponto de partida da dor. O que há, apenas, é que o
cérebro guardou esta impressão. Lícito, portanto,
será admitir-se que coisa análoga ocorra nos sofrimentos
do Espírito após a morte. Essas reflexões são
justas?
Resp. – Sim; mais tarde, porém, compreendereis
melhor ainda. Esperai que novos fatos venham vos fornecer motivos
de observação; deles tirareis conseqüências
mais completas.
Isso se passava no começo de 1858; desde então,
com efeito, um estudo mais aprofundado do perispírito, que
desempenha um papel tão importante em todos os fenômenos
espíritas, e do qual não se tinha ainda conhecimento;
as aparições vaporosas ou tangíveis; o estado
do Espírito no momento da morte; a idéia, tão
freqüente no Espírito, de que ainda está vivo;
o quadro tão impressionante dos suicidas, dos supliciados,
das pessoas que se deixaram absorver pelos prazeres materiais e tantos
outros fatos
mais, vieram projetar nova luz sobre essa questão e ensejaram
explicações, cujo resumo faremos aqui.
O perispírito é o laço que à matéria
do corpo prende o Espírito, o qual o tira do meio ambiente,
do fluido universal. Participa ao mesmo tempo da eletricidade, do
fluido magnético e, até certo ponto, da matéria
inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria.
É o princípio da vida orgânica, porém não
o da vida intelectual, que reside no Espírito. É, além
disso, o agente das sensações exteriores. No corpo,
os órgãos, servindo-lhes de condutos, localizam essas
sensações. Destruído o corpo, elas se tornam
gerais. Daí o Espírito não dizer que sofre mais
da cabeça do que dos pés, ou vice-versa. Não
se confundam, porém, as sensações do perispírito,
que se tornou independente, com as do corpo. Estas últimas
só por termo de comparação as podemos tomar e
não por analogia. Um excesso de calor ou de frio pode desorganizar
os tecidos do corpo, mas não pode causar nenhum dano ao perispírito.
Liberto do corpo, o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento
não é corporal, embora não seja exclusivamente
moral, como o remorso, pois que ele se queixa de frio e calor. Também
não sofre mais no inverno do que no verão: temo-los
visto atravessar chamas, sem experimentarem qualquer dor. Nenhuma
impressão lhes causa, conseguintemente, a temperatura. A dor
que sentem não é pois, uma dor física propriamente
dita: é um vago sentimento íntimo, que o próprio
Espírito nem sempre compreende bem, precisamente porque a dor
não se acha localizada e porque não a produzem agentes
exteriores; é mais uma reminiscência do que uma realidade,
reminiscência, porém, igualmente penosa. Algumas vezes,
entretanto, há mais do que isso, como vamos ver.
Ensina-nos a experiência que, por ocasião da morte, o
perispírito se desprende mais ou menos lentamente do corpo;
que, durante os primeiros minutos depois da desencarnação,
o Espírito não encontra explicação para
a situação em que se acha. Crê não estar
morto, por isso que se sente vivo; vê ao lado o corpo, sabe
que lhe pertence, mas não compreende que esteja separado dele.
Essa situação dura enquanto haja qualquer ligação
entre o corpo e o perispírito. Que nos reportemos à
evocação do suicida dos banhos da Samaritana que relatamos
em nosso número do mês de junho. Como todos os outros,
ele dizia: “Não, não estou morto.” E acrescentava:
“No entanto, sinto os vermes a me corroerem.” Ora, indubitavelmente,
os vermes não lhe roíam o perispírito e ainda
menos o Espírito; roíam-lhe apenas o corpo. Como, porém,
não era completa a separação do corpo e do perispírito,
uma espécie de repercussão moral se produzia, transmitindo
ao Espírito o que estava ocorrendo no corpo. Repercussão
talvez não seja o termo próprio, porque pode induzir
à suposição de um efeito muito material. Era
antes a visão do que se passava com o corpo, ao qual ainda
o conservava ligado o perispírito, o que lhe causava a ilusão,
que ele tomava por realidade. Assim, pois, não haveria no caso
uma reminiscência, porquanto ele não fora, em vida, roído
pelos vermes: havia o sentimento de um fato da atualidade. Isto mostra
que deduções se podem tirar dos fatos, quando atentamente
observados.
Durante a vida, o corpo recebe impressões exteriores e as transmite
ao Espírito por intermédio do perispírito, que
constitui, provavelmente, o que se chama fluido nervoso. Uma vez morto,
o corpo nada mais sente, por já não haver nele Espírito,
nem perispírito. Este, desprendido do corpo, experimenta a
sensação, porém, como já não lhe
chega por um conduto limitado, ela se lhe torna geral. Ora, não
sendo o perispírito, realmente, mais do que simples agente
de transmissão, pois que no Espírito é que está
a consciência, lógico será deduzir-se que, se
pudesse existir perispírito sem Espírito, aquele nada
sentiria, exatamente como um corpo que morreu. Do mesmo modo, se o
Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível
a toda e qualquer sensação dolorosa. É o que
se dá com os Espíritos completamente purificados. Sabemos
que quanto mais eles se purificam, tanto mais etérea se torna
a essência do perispírito, donde se segue que a influência
material diminui à medida que o Espírito progride, isto
é, à medida que o próprio perispírito
se torna menos grosseiro.
Mas, dir-se-á, desde que pelo perispírito é que
as sensações agradáveis, da mesma forma que as
desagradáveis, se transmitem ao Espírito, sendo o Espírito
puro inacessível a umas, deve sê-lo igualmente às
outras. Assim é, de fato, com relação às
que provêm unicamente da influência da matéria
que conhecemos. O som dos nossos instrumentos, o perfume das nossas
flores nenhuma impressão lhe causam. Entretanto, ele experimenta
sensações íntimas, de um encanto indefinível,
das quais idéia alguma podemos formar, porque, a esse respeito,
somos quais cegos de nascença diante da luz. Sabemos que isso
é real; mas, por que meio se produz? Até lá não
vai a nossa ciência. Sabemos que no Espírito há
percepção, sensação, audição,
visão; que essas faculdades são atributos do ser todo
e não, como no homem, de uma parte apenas do ser; mas, de que
modo ele as tem? Ignoramo-lo. Os próprios Espíritos
nada nos podem informar sobre isso, por inadequada a nossa linguagem
a exprimir idéias que não possuímos, do mesmo
modo que numa população de cegos não haveria
termos que exprimissem os efeitos da luz; o mesmo ocorre com respeito
à língua dos selvagens, para traduzir idéias
referentes às nossas artes, ciências e doutrinas filosóficas.
Dizendo que os Espíritos são inacessíveis à
impressão da matéria que conhecemos, referimo-nos aos
Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo
não encontra analogia neste mundo. Outro tanto não acontece
com os de perispírito mais denso, os quais percebem os nossos
sons e odores, não, porém, apenas por uma parte limitada
de suas individualidades, conforme lhes sucedia quando vivos. Pode-se
dizer que, neles, as vibrações moleculares se fazem
sentir em todo o ser e lhes chegam assim ao sensorium commune,
que é o próprio Espírito, embora de modo diverso
e talvez, também, dando uma impressão diferente, o que
modifica a percepção. Eles ouvem o som da nossa voz,
entretanto nos compreendem sem o auxílio da palavra, somente
pela transmissão do pensamento. Em apoio do que dizemos há
o fato de que essa penetração é tanto mais fácil,
quanto mais desmaterializado está o Espírito. Pelo que
concerne à vista, essa, para o Espírito, independe da
luz, qual a temos. A faculdade de ver é um atributo essencial
da alma, para quem a obscuridade não existe. É, contudo,
mais extensa, mais penetrante nas mais purificadas. A alma, ou o Espírito
tem, pois, em si mesma, a faculdade de todas as percepções.
Estas, na vida corpórea, se obliteram pela grosseria dos órgãos
do corpo; na vida extracorpórea, se vão desanuviando,
à proporção que o invólucro semimaterial
se eteriza.
Haurido no meio ambiente, esse invólucro varia de acordo com
a natureza dos mundos. Ao passarem de um mundo a outro, os Espíritos
mudam de envoltório, como nós mudamos de roupa, quando
passamos do inverno ao verão, ou do pólo ao equador.
Quando vêm visitar-nos, os mais elevados se revestem do perispírito
terrestre e então suas percepções se produzem
como no comum dos Espíritos. Todos, porém, assim os
inferiores como os superiores, não ouvem, nem sentem, senão
o que queiram ouvir ou sentir. Não possuindo órgãos
sensitivos, eles podem, livremente, tornar ativas ou nulas suas percepções.
Uma só coisa são obrigados a ouvir – os conselhos
dos Espíritos bons. A vista, essa é sempre ativa; mas,
eles podem fazer-se invisíveis uns aos outros. Conforme a categoria
que ocupem, podem ocultar-se dos que lhes são inferiores, porém
não dos que lhes são superiores. Nos primeiros instantes
que se seguem à morte, a visão do Espírito é
sempre turbada e confusa. Aclara-se, à medida que ele se desprende,
e pode alcançar a nitidez que tinha durante a vida terrena,
independentemente da possibilidade de penetrar através dos
corpos que nos são opacos. Quanto à sua extensão
através do espaço infinito, no passado e no futuro,
vai depender do grau de pureza e de elevação do Espírito.
Objetarão, talvez: toda esta teoria nada tem de tranqüilizadora.
Pensávamos que, uma vez livres do nosso grosseiro envoltório,
instrumento das nossas dores, não mais sofreríamos e
eis que nos informais que ainda sofreremos. Desta ou daquela forma,
será sempre sofrimento. Ah! sim, pode dar-se que continuemos
a sofrer, e muito, e por longo tempo, mas também que deixemos
de sofrer, até mesmo desde o instante em que se nos acabe a
vida corporal.
Os sofrimentos deste mundo independem, algumas vezes, de nós;
muito mais vezes, contudo, são devidos à nossa vontade.
Remonte cada um à origem deles e verá que a maior parte
de tais sofrimentos são efeitos de causas que lhe teria sido
possível evitar. Quantos males, quantas enfermidades não
deve o homem aos seus excessos, à sua ambição,
numa palavra: às suas paixões? Aquele que sempre vivesse
com sobriedade, que de nada abusasse, que fosse sempre simples nos
gostos e modesto nos desejos, a muitas tribulações se
forraria. O mesmo se dá com o Espírito. Os sofrimentos
por que passa são sempre a conseqüência da maneira
por que viveu na Terra. Certo já não sofrerá
de gota, nem de reumatismo; no entanto, experimentará outros
sofrimentos que nada ficam a dever àqueles. Vimos que seu sofrer
resulta dos laços que ainda o prendem à matéria;
que quanto mais livre estiver da influência desta, ou por outra,
quanto mais desmaterializado se achar, menos dolorosas sensações
experimentará. Ora, está nas suas mãos libertar-se
de tal influência desde a vida atual. Ele tem o livre-arbítrio,
tem, por conseguinte, a faculdade de escolha entre o fazer e o não
fazer. Dome suas paixões animais; não alimente ódio,
nem inveja, nem ciúme, nem orgulho; não se deixe dominar
pelo egoísmo; purifique-se, nutrindo bons sentimentos; pratique
o bem; não ligue às coisas deste mundo importância
que não merecem; e, então, embora revestido do invólucro
corporal, já estará depurado, já estará
liberto do jugo da matéria e, quando deixar esse invólucro,
não mais lhe sofrerá a influência. Nenhuma recordação
dolorosa lhe advirá dos sofrimentos físicos que haja
padecido; nenhuma impressão desagradável eles lhe deixarão,
porque apenas terão atingido o corpo e não a alma. Sentir-se-á
feliz por se haver libertado deles e a paz da sua consciência
o isentará de qualquer sofrimento moral.
Interrogamos, aos milhares, Espíritos que na Terra pertenceram
a todas as classes da sociedade, ocuparam todas as posições
sociais; estudamo-los em todos os períodos da vida espírita,
a partir do momento em que abandonaram o corpo; acompanhamolos passo
a passo na vida de além túmulo, para observar as mudanças
que se operavam neles, nas usas idéias, nos seus sentimentos
e, sob esse aspecto, não foram os que aqui se encontraram entre
os homens mais vulgares os que nos proporcionaram menos preciosos
elementos de estudo. Ora, notamos sempre que os sofrimentos guardavam
relação com o proceder que eles tiveram e cujas conseqüências
experimentavam; que a outra vida é fonte de inefável
ventura para os que seguiram o bom caminho. Deduz-se daí que,
aos que sofrem, isso acontece porque quiseram; que, portanto, só
de si mesmos devem queixar-se, quer neste, quer no outro mundo.
Certos críticos ridicularizaram algumas de nossas evocações,
por exemplo, a do assassino Lemaire, achando singular que nos ocupássemos
de seres assim tão ignóbeis, quando temos tantos Espíritos
superiores à nossa disposição. Esquecem que é
justamente por isso que, de alguma sorte, apreendemos a natureza do
fato, ou, melhor dizendo, em sua ignorância da ciência
espírita eles não vêem nesses diálogos
senão uma conversa divertida, da qual não compreendem
o alcance. Lemos em algum lugar que um filósofo dizia, depois
de se entreter com um camponês: “Aprendi muito mais com
este homem simplório do que com todos os sábios.”
É que ele era capaz de perceber algo além da superfície.
Para o observador nada é perdido, encontrando ensinamentos
até mesmo no criptógamo que cresce no adubo. Recusa-se
o médico a tocar numa ferida horrenda, quando se trata de aprofundar
a causa do mal?
Acrescentemos ainda uma palavra sobre o assunto. Os sofrimentos de
além-túmulo têm um termo; sabemos que ao mais
inferior dos Espíritos é dado o ensejo de elevar-se
e purificar-se através de novas provas; isso pode ser demorado,
muito demorado, mas depende de cada um abreviar esse tempo penoso,
porquanto Deus o escuta sempre, desde que se submeta à sua
vontade. Quanto mais desmaterializado é o Espírito,
tanto mais vastas e lúcidas são as suas percepções;
quanto mais está sob o domínio da matéria, o
que depende inteiramente de seu gênero de vida terrestre, mais
elas serão limitadas e veladas; quanto mais a visão
moral de um se estende para o infinito, tanto mais restrita é
a do outro. Os Espíritos inferiores têm apenas uma noção
vaga, confusa, incompleta e muitas vezes nula do futuro; como não
vislumbram o termo de seus sofrimentos, acreditam que sofrerão
sempre, o que, para eles, ainda é um castigo. Se a posição
de uns é aflitiva, terrível mesmo, não é,
por isso, desesperadora; a dos outros é eminentemente consoladora.
Cabe, pois, a nós escolher: isto é da mais elevada moralidade.
Os cépticos duvidam da sorte que nos aguarda após a
morte; nós lhes mostramos o que há, acreditando ter-lhes
prestado um serviço. Assim, vimos mais de um deles recuar de
seu erro ou, pelo menos, refletir sobre aquilo que antes censurava.
Nada como nos darmos conta da possibilidade das coisas. Se tivesse
sido sempre assim, não haveria tantos incrédulos e a
religião e a moral só teriam a ganhar. Entre muitos,
a dúvida religiosa não procede senão da dificuldade
que têm em compreender certas coisas; são Espíritos
positivos, não organizados para a fé cega, que só
admitem aquilo que, para eles, tem uma razão de ser. Tornai
as coisas acessíveis à sua inteligência e eles
as aceitarão, porque, no fundo, não pedem mais do que
isso para crerem, e porque a dúvida lhes é uma situação
mais penosa do que imaginamos e do que eles gostariam de admitir.
De tudo o que foi dito não há absolutamente um sistema,
nem idéias pessoais; nem mesmo foram alguns Espíritos
privilegiados que nos ditaram essa teoria: trata-se do resultado de
estudos feitos sobre as individualidades, corroborados e confirmados
pelos Espíritos, cuja linguagem não pode deixar dúvida
sobre sua superioridade. Julgamo-los por suas palavras, e não
pelo nome que carregam ou que se podem atribuir.
Nota do Tradutor: Vide O Livro dos Espíritos
– Livro II – capítulo VI – item 257: Ensaio
teórico sobre a sensação dos Espíritos.
Fonte: http://www.ipeak.net/site/upload/midia/pdf/revista_espirita_feb_1858.pdf
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Pesquisa sobre o tema - Textos extraídos
das obras da codificação e Revista Espírita.
245. O Espírito tem circunscrita
a visão como os seres corpóreos?
“Não, ela reside em todo ele.”
249. Percebe os sons?
“Sim, percebe mesmo sons imperceptíveis para os vossos
sentidos obtusos.”
249a) - No Espírito, a faculdade de ouvir está em todo
ele, como a de ver?
“Todas as percepções constituem atributos do Espírito
e lhe são inerentes ao ser. Quando o reveste um corpo material,
elas só lhe chegam pelo conduto dos órgãos. Deixam,
porém, de estar localizadas, em se achando ele na condição
de Espírito livre.”
(O Livro dos Espíritos - q. 284 - obra
codificada por Allan Kardec)
257. O corpo é o instrumento
da dor. Se não é a causa primária desta é,
pelo menos, a causa imediata. A alma tem a percepção da
dor: essa percepção é o efeito. A lembrança
que da dor a alma conserva pode ser muito penosa, mas não pode
ter ação física. De fato, nem o frio, nem o calor
são capazes de desorganizar os tecidos da alma, que não
é suscetível de congelar-se, nem de queimar-se. Não
vemos todos os dias a recordação ou a apreensão
de um mal físico produzirem o efeito desse mal, como se real
fora? Não as vemos até causar a morte? Toda gente sabe
que aqueles a quem se amputou um membro costumam sentir dor no membro
que lhes falta. Certo que aí não está a sede, ou,
sequer, o ponto de partida da dor. O que há, apenas, é
que o cérebro guardou desta a impressão. Lícito,
portanto, será admitir-se que coisa análoga ocorra nos
sofrimentos do Espírito após a morte. Um estudo aprofundado
do perispírito, que tão importante papel desempenha em
todos os fenômenos espíritas; nas aparições
vaporosas ou tangíveis; no estado em que o Espírito vem
a encontrar-se por ocasião da morte; na idéia, que tão
freqüentemente manifesta, de que ainda está vivo; nas situações
tão comoventes que nos revelam os dos suicidas, dos supliciados,
dos que se deixaram absorver pelos gozos materiais; e inúmeros
outros fatos, muita luz lançaram sobre esta questão, dando
lugar a explicações que passamos a resumir.
O perispírito é o laço que à matéria
do corpo prende o Espírito, que o tira do meio ambiente, do fluido
universal. Contém ao mesmo tempo da eletricidade, do fluido magnético
e, até certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer
que é a quintessência da matéria. É o princípio
da vida orgânica, porém, não o da vida intelectual,
que reside no Espírito. É, além disso, o agente
das sensações exteriores. No corpo, os órgãos,
servindo-lhes de condutos, localizam essas sensações.
Destruído o corpo, elas se tornam gerais. Daí o Espírito
não dizer que sofre mais da cabeça do que dos pés,
ou vice-versa. Não se confundam, porém, as sensações
do perispírito, que se tornou independente, com as do corpo.
Estas últimas só por termo de comparação
as podemos tomar e não por analogia. Liberto do corpo, o Espírito
pode sofrer, mas esse sofrimento não é corporal, embora
não seja exclusivamente moral, como o remorso, pois que ele se
queixa de frio e calor. Também não sofre mais no inverno
do que no verão: temo-los visto atravessar chamas, sem experimentarem
qualquer dor. Nenhuma impressão lhes causa, conseguintemente,
a temperatura. A dor que sentem não é, pois, uma dor física
propriamente dita: é um vago sentimento íntimo, que o
próprio Espírito nem sempre compreende bem, precisamente
porque a dor não se acha localizada e porque não a produzem
agentes exteriores; é mais uma reminiscência do que uma
realidade, reminiscência, porém, igualmente penosa. Algumas
vezes, entretanto, há mais do que isso, como vamos ver.
Ensina-nos a experiência que, por ocasião da morte, o perispírito
se desprende mais ou menos lentamente do corpo; que, durante os primeiros
minutos depois da desencarnação, o Espírito não
encontra explicação para a situação em que
se acha. Crê não estar morto, por isso que se sente vivo;
vê a um lado o corpo, sabe que lhe pertence, mas não compreende
que esteja separado dele. Essa situação dura enquanto
haja qualquer ligação entre o corpo e o perispírito.
Disse-nos, certa vez, um suicida: “Não, não estou
morto.” E acrescentava: No entanto, sinto os vermes a me roerem.
Ora, indubitavelmente, os vermes não lhe roíam o perispírito
e ainda menos o Espírito; roíam-lhe apenas o corpo. Como,
porém, não era completa a separação do corpo
e do perispírito, uma espécie de repercussão moral
se produzia, transmitindo ao Espírito o que estava ocorrendo
no corpo. Repercussão talvez não seja o termo próprio,
porque pode induzir à suposição de um efeito muito
material. Era antes a visão do que se passava com o corpo, ao
qual ainda o conservava ligado o perispírito, o que lhe causava
a ilusão, que ele tomava por realidade. Assim, pois não
haveria no caso uma reminiscência, porquanto ele não fora,
em vida, ruído pelos vermes: havia o sentimento de um fato da
atualidade. Isto mostra que deduções se podem tirar dos
fatos, quando atentamente observados.
Durante a vida, o corpo recebe impressões exteriores e as transmite
ao Espírito por intermédio do perispírito, que
constitui, provavelmente, o que se chama fluido nervoso. Uma vez morto,
o corpo nada mais sente, por já não haver nele Espírito,
nem perispírito. Este, desprendido do corpo, experimenta a sensação,
porém, como já não lhe chega por um conduto limitado,
ela se lhe torna geral. Ora, não sendo o perispírito,
realmente, mais do que simples agente de transmissão, pois que
no Espírito é que está a consciência, lógico
será deduzir-se que, se pudesse existir perispírito sem
Espírito, aquele nada sentiria, exatamente como um corpo que
morreu. Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse perispírito,
seria inacessível a toda e qualquer sensação dolorosa.
É o que se dá com os Espíritos completamente purificados.
Sabemos que quanto mais eles se purificam, tanto mais etérea
se torna a essência do perispírito, donde se segue que
a influência material diminui à medida que o Espírito
progride, isto é, à medida que o próprio perispírito
se torna menos grosseiro.
Mas, dir-se-á, desde que pelo perispírito é que
as sensações agradáveis, da mesma forma que as
desagradáveis, se transmitem ao Espírito, sendo o Espírito
puro inacessível a umas, deve sê-lo igualmente às
outras. Assim é, de fato, com relação às
que provêm unicamente da influência da matéria que
conhecemos. O som dos nossos instrumentos, o perfume das nossas flores
nenhuma impressão lhe causam. Entretanto, ele experimenta sensações
íntimas, de um encanto indefinível, das quais idéia
alguma podemos formar, porque, a esse respeito, somos quais cegos de
nascença diante a luz. Sabemos que isso é real; mas, por
que meio se produz? Até lá não vai a nossa ciência.
Sabemos que no Espírito há percepção, sensação,
audição, visão; que essas faculdades são
atributos do ser todo e não, como no homem, de uma parte apenas
do ser; mas, de que modo ele as tem? Ignoramo-lo. Os próprios
Espíritos nada nos podem informar sobre isso, por inadequada
a nossa linguagem a exprimir idéias que não possuímos,
precisamente como o é, por falta de termos próprios, a
dos selvagens, para traduzir idéias referentes às nossas
artes, ciências e doutrinas filosóficas.
Dizendo que os Espíritos são inacessíveis às
impressões da matéria que conhecemos, referimo-nos aos
Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo
não encontra analogia neste mundo. Outro tanto não acontece
com os de perispírito mais denso, os quais percebem os nossos
sons e odores, não, porém, apenas por uma parte limitada
de suas individualidades, conforme lhes sucedia quando vivos. Pode-se
dizer que, neles, as vibrações moleculares se fazem sentir
em todo o ser e lhes chegam assim ao sensorium commune, que é
o próprio Espírito, embora de modo diverso e talvez, também,
dando uma impressão diferente, o que modifica a percepção.
Eles ouvem o som da nossa voz, entretanto nos compreendem sem o auxílio
da palavra, somente pela transmissão do pensamento. Em apoio
do que dizemos há o fato de que essa penetração
é tanto mais fácil, quanto mais desmaterializado está
o Espírito. Pelo que concerne à vista, essa, para o Espírito,
independe da luz, qual a temos. A faculdade de ver é um atributo
essencial da alma, para quem a obscuridade não existe. É,
contudo, mais extensa, mais penetrante nas mais purificadas. A alma,
ou o Espírito, tem, pois, em si mesma, a faculdade de todas as
percepções. Estas, na vida corpórea, se obliteram
pela grosseria dos órgãos do corpo; na vida extracorpórea,
se vão desanuviando, à proporção que o invólucro
semimaterial se eteriza.
Haurido do meio ambiente, esse invólucro varia de acordo com
a natureza dos mundos. Ao passarem de um mundo a outro, os Espíritos
mudam de envoltório, como nós mudamos de roupa, quando
passamos do inverno ao verão, ou do pólo ao equador. Quando
vêm visitar-nos, os mais elevados se revestem do perispírito
terrestre e então suas percepções se produzem como
no comum dos Espíritos. Todos, porém, assim os inferiores
como os superiores, não ouvem, nem sentem, senão o que
queiram ouvir ou sentir. Não possuindo órgãos sensitivos,
eles podem, livremente, tornar ativas ou nulas suas percepções.
Uma só coisa são obrigados a ouvir - os conselhos dos
Espíritos bons. A vista, essa é sempre ativa; mas, eles
podem fazer-se invisíveis uns aos outros. Conforme a categoria
que ocupem, podem ocultar-se dos que lhes são inferiores, porém
não dos que lhes são superiores. Nos primeiros instantes
que se seguem à morte, a visão do Espírito é
sempre turbada e confusa. Aclara-se, à medida que ele se desprende,
e pode alcançar a nitidez que tinha durante a vida terrena, independentemente
da possibilidade de penetrar através dos corpos que nos são
opacos. Quanto à sua extensão através do espaço
indefinito, do futuro e do passado, depende do grau de pureza e de elevação
do Espírito.
Objetarão, talvez: toda esta teoria nada tem de tranqüilizadora.
Pensávamos que, uma vez livres do nosso grosseiro envoltório,
instrumento das nossas dores, não mais sofreríamos e eis
nos informais de que ainda sofreremos. Desta ou daquela forma, será
sempre sofrimento. Ah! sim, pode dar-se que continuemos a sofrer, e
muito, e por longo tempo, mas também que deixemos de sofrer,
até mesmo desde o instante em que se nos acabe a vida corporal.
Os sofrimentos deste mundo independem, algumas vezes, de nós;
muito mais vezes, contudo, são devidos à nossa vontade.
Remonte cada um à origem deles e verá que a maior parte
de tais sofrimentos são efeitos de causas que lhe teria sido
possível evitar. Quantos males, quantas enfermidades não
deve o homem aos seus excessos, à sua ambição,
numa palavra: às suas paixões? Aquele que sempre vivesse
com sobriedade, que de nada abusasse, que fosse sempre simples nos gostos
e modesto nos desejos, a muitas tribulações se forraria.
O mesmo se dá com o Espírito.
Os sofrimentos por que passa são sempre a conseqüência
da maneira por que viveu na Terra. Certo já não sofrerá
mais de gota, nem de reumatismo; no entanto, experimentará outros
sofrimentos que nada ficam a dever àqueles. Vimos que seu sofrer
resulta dos laços que ainda o prendem à matéria;
que quanto mais livre estiver da influência desta, ou, por outra,
quanto mais desmaterializado se achar, menos dolorosas sensações
experimentará. Ora, está nas suas mãos libertar-se
de tal influência desde a vida atual. Ele tem o livre-arbítrio,
tem, por conseguinte, a faculdade de escolha entre o fazer e o não
fazer. Dome suas paixões animais; não alimente ódio,
nem inveja, nem ciúme, nem orgulho; não se deixe dominar
pelo egoísmo; purifique-se, nutrindo bons sentimentos; pratique
o bem; não ligue às coisas deste mundo importância
que não merecem; e, então, embora revestido do invólucro
corporal, já estará depurado, já estará
liberto do jugo da matéria e, quando deixar esse invólucro,
não mais lhe sofrerá a influência. Nenhuma recordação
dolorosa lhe advirá dos sofrimentos físicos que haja padecido;
nenhuma impressão desagradável eles deixarão, porque
apenas terão atingido o corpo e não a alma. Sentir-se-á
feliz por se haver libertado deles e a paz da sua consciência
o isentará de qualquer sofrimento moral.
Interrogamos, aos milhares, Espíritos que na Terra pertenceram
a todas as classes da sociedade, ocuparam todas as posições
sociais; estudamo-los em todos os períodos da vida espírita,
a partir do momento em que abandonaram o corpo; acompanhamo-los passo
a passo na vida de além-túmulo, para observar as mudanças
que se operavam neles, nas suas idéias, nos seus sentimentos
e, sob esse aspecto, não foram os que aqui se contaram entre
os homens mais vulgares os que nos proporcionaram menos preciosos elementos
de estudo. Ora, notamos sempre que os sofrimentos guardavam relação
com o proceder que eles tiveram e cujas conseqüências experimentavam;
que a outra vida é fonte de inefável ventura para os que
seguiram o bom caminho. Deduz-se daí que, aos que sofrem, isso
acontece porque o quiseram; que, portanto, só de si mesmos se
devem queixar, quer no outro mundo, quer neste.
(O Livro dos Espíritos – item 257
(Ensaio Teórico sobre a sensação nos Espíritos)
- obra codificada por Allan Kardec)
(...)
367. Unindo-se ao corpo, o Espírito
se identifica com a matéria?
“A matéria é apenas o envoltório do Espírito,
como o vestuário o é do corpo. Unindo-se a este, o Espírito
conserva os atributos da natureza espiritual.”
368. Após sua união com o corpo, exerce o Espírito,
com liberdade plena, suas faculdades?
“O exercício das faculdades depende dos órgãos
que lhes servem de instrumento. A grosseria da matéria as enfraquece.”
68a) - Assim, o invólucro material é obstáculo
à livre manifestação das faculdades do Espírito,
como um vidro opaco o é à livre irradiação
da luz?
“É, como vidro muito opaco.”
NOTA DE A. KARDEC: Pode-se comparar a ação que a matéria
grosseira exerce sobre o Espírito à de um charco lodoso
sobre um corpo nele mergulhado, ao qual tira a liberdade dos movimentos.
369. O livre exercício das faculdades da alma está subordinado
ao desenvolvimento dos órgãos?
“Os órgãos são os instrumentos da manifestação
das faculdades da alma, manifestação que se acha subordinada
ao desenvolvimento e ao grau de perfeição dos órgãos,
como a excelência de um trabalho o está à da ferramenta
própria à sua execução.”
370. Da influência dos órgãos se pode inferir a
existência de uma relação entre o desenvolvimento
dos do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais?
“Não confundais o efeito com a causa. O Espírito
dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias.
Ora, não são os órgãos que dão as
faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.”
370a) - Dever-se-á deduzir daí que a diversidade das aptidões
entre os homens deriva unicamente do estado do Espírito?
“O termo - unicamente - não exprime com toda a exatidão
o que ocorre. O princípio dessa diversidade reside nas qualidades
do Espírito, que pode ser mais ou menos adiantado. Cumpre, porém,
se leve em conta a influência da matéria, que mais ou menos
lhe cerceia o exercício de suas faculdades.”
NOTA DE A. KARDEC: Encarnado, traz o Espírito certas predisposições
e, se se admitir que a cada uma corresponda no cérebro um órgão,
o desenvolvimento desses órgãos será efeito e não
causa. Se nos órgãos estivesse o princípio das
faculdades, o homem seria máquina sem livre-arbítrio e
sem a responsabilidade de seus atos. Forçoso então fora
admitir-se que os maiores gênios, os sábios, os poetas,
os artistas, só o são porque o acaso lhes deu órgãos
especiais, donde se seguiria que, sem esses órgãos, não
teriam sido gênios e que, assim, o maior dos imbecis houvera podido
ser um Newton, um Vergílio, ou um Rafael, desde que de certos
órgãos se achassem providos. Ainda mais absurda se mostra
semelhante hipótese, se a aplicarmos às qualidades morais.
Efetivamente, segundo esse sistema, um Vicente de Paulo, se a Natureza
o dotara de tal ou tal órgão, teria podido ser um celerado
e o maior dos celerados não precisaria senão de um certo
órgão para ser um Vicente de Paulo. Admita-se, ao contrário,
que os órgãos especiais, dado existam são conseqüentes,
que se desenvolvem por efeito do exercício da faculdade, como
os músculos por efeito do movimento, e a nenhuma conclusão
irracional se chegará. Sirvamo-nos de uma comparação
trivial à força de ser verdadeira. Por alguns sinais fisionômicos
se reconhece que um homem tem o vício da embriaguez. Serão
esses sinais que fazem dele um ébrio, ou será a ebriedade
que nele imprime aqueles sinais? Pode dizer-se que os órgãos
recebem o cunho das faculdades.
372. Que objetivo visa a providência criando seres desgraçados,
como os cretinos e os idiotas?
“Os que habitam corpos de idiotas são Espíritos
sujeitos a uma punição. Sofrem por efeito do constrangimento
que experimentam e da impossibilidade em que estão de se manifestarem
mediante órgãos não desenvolvidos ou desmantelados.”
372a) - Não há, pois, fundamento para dizer-se que os
órgãos nada influem sobre as faculdades?
“Nunca dissemos que os órgãos não têm
influência. Têm-na muito grande sobre a manifestação
das faculdades, mas não são eles a origem destas. Aqui
está a diferença. Um músico excelente, com um instrumento
defeituoso, não dará a ouvir boa música, o que
não fará que deixe de ser bom músico.”
(O Livro dos Espíritos – qs. de 367
à 372a (Influência do organismo) - obra codificada por
Allan Kardec)
14. Resumimos
nas proposições seguintes o que havemos expendido:
1º Todos os fenômenos espíritas têm por principio
a existência da alma, sua sobrevivência ao corpo e suas
manifestações.
2º Fundando-se numa lei da Natureza, esses fenômenos nada
têm de maravilhosos, nem de sobrenaturais. no sentido vulgar dessas
palavras.
3º Muitos fatos são tidos por sobrenaturais, porque não
se lhes conhece a causa; atribuindo-lhes uma causa, o Espiritismo os
repõe no domínio dos fenômenos naturais.
4º Entre os fatos qualificados de sobrenaturais, muitos há
cuja impossibilidade o Espiritismo demonstra, incluindo-os em o número
das crenças supersticiosas.
5º Se bem reconheça um fundo de verdade em muitas crenças
populares, o Espiritismo de modo algum dá sua solidariedade a
todas as histórias fantásticas que a imaginação
há criado.
6º Julgar do Espiritismo pelos fatos que ele não admite
é dar prova de ignorância e tirar todo valor à opinião
emitida.
7º A explicação dos fatos que o Espiritismo admite,
de suas causas e conseqüências morais, forma toda uma ciência
e toda uma filosofia, que reclamam estudo sério, perseverante
e aprofundado.
8º O Espiritismo não pode considerar crítico sério,
senão aquele que tudo tenha visto, estudado e aprofundado com
a paciência e a perseverança de um observador consciencioso;
que do assunto saiba tanto quanto qualquer adepto instruído;
que haja, por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não
nos romances da ciência; aquele a quem não se possa opor
fato algum que lhe seja desconhecido, nenhum argumento de que já
não tenha cogitado e cuja refutação faça,
não por mera negação, mas por meio de outros argumentos
mais peremptórios; aquele, finalmente, que possa indicar, para
os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhes aponta
o Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer.
(O Livro dos Médiuns - 1a parte, cap. II,
item 14 - obra codificada por Allan Kardec)
51. Eis aqui
a resposta que, sobre este assunto, deu um Espírito:
"O que uns chamam perispírito não é senão
o que outros chamam envoltório material fluídico. Direi,
de modo mais lógico, para me fazer compreendido, que esse fluido
é a perfectibilidade dos sentidos, a extensão da vista
e das idéias. Falo aqui dos Espíritos elevados. Quanto
aos Espíritos inferiores, os fluidos terrestres ainda lhes são
de todo inerentes; logo, são, como vedes, matéria. Daí
os sofrimentos da fome, do frio, etc., sofrimentos que os Espíritos
superiores não podem experimentar, visto que os fluidos terrestres
se acham depurados em torno do pensamento, isto é, da alma. Esta,
para progredir, necessita sempre de um agente; sem agente, ela nada
é, para vós, ou, melhor, não a podeis conceber.
O perispírito, para nós outros Espíritos errantes,
é o agente por meio do qual nos comunicamos convosco, quer indiretamente,
pelo vosso corpo ou pelo vosso perispírito, quer diretamente,
pela vossa alma; donde, infinitas modalidades de médiuns e de
comunicações.
"Agora o ponto de vista científico, ou seja: a essência
mesma do perispírito. Isso é outra questão. Compreendei
primeiro moralmente. Resta apenas uma discussão sobre a natureza
dos fluidos, coisa por ora inexplicável. A ciência ainda
não sabe bastante, porém lá chegará, se
quiser caminhar com o Espiritismo. O perispírito pode variar
e mudar ao infinito. A alma é a inteligência: não
muda de natureza. Não vades mais longe, por este lado; trata-se
de um ponto que não pode ser explicado. Supondes que, como vós,
também eu não perquiro? Vós pesquisais o perispírito;
nós outros, agora, pesquisamos a alma. Esperai, pois." -
Lamennais.
Assim, Espíritos, que podemos considerar adiantados, ainda não
conseguiram sondar a natureza da alma. Como poderíamos nós
fazê-lo? E, portanto, perder tempo querer perscrutar o principio
das coisas que, como foi dito em O Livro dos Espíritos (nos 17
e 49), está nos segredos de Deus. Pretender esquadrinhar, com
o auxílio do Espiritismo, o que escapa à alçada
da humanidade, é desviá-lo do seu verdadeiro objetivo,
é fazer como a criança que quisesse saber tanto quanto
o velho. Aplique o homem o Espiritismo em aperfeiçoar-se moralmente,
eis o essencial. O mais não passa de curiosidade estéril
e muitas vezes orgulhosa, cuja satisfação não o
faria adiantar um passo. O único meio de nos adiantarmos consiste
em nos tornarmos melhores.
Os Espíritos que ditaram o livro que lhes traz o nome demonstraram
a sua sabedoria, mantendo-se, pelo que concerne ao princípio
das coisas, dentro dos limites que Deus não permite sejam ultrapassados
e deixando aos Espíritos sistemáticos e presunçosos
a responsabilidade das teorias prematuras e errôneas, mais sedutoras
do que sólidas, e que um dia virão a cair, ante a razão,
como tantas outras surgidas dos cérebros humanos. Eles, ao justo,
só disseram o que era preciso para que o homem compreendesse
o futuro que o aguarda e para, por essa maneira, animá-lo à
prática do bem. (Vede, aqui, adiante, na 2a parte, o cap. 1o:
Da ação dos Espíritos sobre a matéria.)
(O Livro dos Médiuns - 1a parte, cap. IV,
item 51 - obra codificada por Allan Kardec)
54. Numerosas
observações e fatos irrecusáveis, de que mais tarde
falaremos, levaram à conseqüência de que há
no homem três componentes:
1º a alma, ou Espírito, princípio inteligente, onde
tem sua sede o senso moral;
2º o corpo, invólucro grosseiro, material, de que ele se
revestiu temporariamente, em cumprimento de certos desígnios
providenciais;
3º o perispírito, envoltório fluídico, semimaterial,
que serve de ligação entre a alma e o corpo.
A morte é a destruição, ou, antes, a desagregação
do envoltório grosseiro, do invólucro que a alma abandona.
O outro se desliga deste e acompanha a alma que, assim, fica sempre
com um envoltório. Este último, ainda que fluídico,
etéreo, vaporoso, invisível, para nós, em seu estado
normal, não deixa de ser matéria, embora até ao
presente não tenhamos podido assenhorear-nos dela e submetê-la
à análise.
Esse segundo invólucro da alma, ou perispírito, existe,
pois, durante a vida corpórea; é o intermediário
de todas as sensações que o Espírito percebe e
pelo qual transmite sua vontade ao exterior e atua sobre os órgãos
do corpo. Para nos servirmos de uma comparação material,
diremos que é o fio elétrico condutor, que serve para
a recepção e a transmissão do pensamento; é,
em suma, esse agente misterioso, imperceptível, conhecido pelo
nome de fluido nervoso, que desempenha tão grande papel na economia
orgânica e que ainda não se leva muito em conta nos fenômenos
fisiológicos e patológicos.
Tomando em consideração apenas o elemento material ponderável,
a Medicina, na apreciação dos fatos, se priva de uma causa
incessante de ação. Não cabe, aqui, porém,
o exame desta questão. Somente faremos notar que no conhecimento
do perispírito está a chave de inúmeros problemas
até hoje insolúveis.
O perispírito não constitui uma dessas hipóteses
de que a ciência costuma valer-se, para a explicação
de um fato. Sua existência não foi apenas revelada pelos
Espíritos, resulta de observações, como teremos
ocasião de demonstrar. Por ora e por nos não anteciparmos,
no tocante aos fatos que havemos de relatar, limitar-nos-emos a dizer
que, quer durante a sua união com o corpo, quer depois de separar-se
deste, a alma nunca está desligada do seu perispírito.
(O Livro dos Médiuns - 2a parte, cap. I, item 54 - obra codificada
por Allan Kardec)
58. A natureza íntima
do Espírito propriamente dito, isto é, do ser
pensante, desconhecemo-la por completo. Apenas pelos seus atos ele se
nos revela e seus atos não nos podem impressionar os sentidos,
a não ser por um intermediário material. O Espírito
precisa, pois, de matéria, para atuar sobre a matéria.
Tem por instrumento direto de sua ação o perispírito,
como o homem tem o corpo. Ora, o perispírito é matéria,
conforme acabamos de ver. Depois, serve-lhe também de agente
intermediário o fluido universal, espécie de veículo
sobre que ele atua, como nós atuamos sobre o ar, para obter determinados
efeitos, por meio da dilatação, da compressão,
da propulsão, ou das vibrações.
Considerada deste modo, facilmente se concebe a ação do
Espírito sobre a matéria. Compreende-se, desde então,
que todos os efeitos que daí resultam cabem na ordem dos fatos
naturais e nada têm de maravilhosos. Só pareceram sobrenaturais,
porque se lhes não conhecia a causa. Conhecida esta, desaparece
o maravilhoso e essa causa se inclui toda nas propriedades semimateriais
do perispírito. E uma ordem nova de fatos que uma nova lei vem
explicar e dos quais, dentro de algum tempo, ninguém mais se
admirará como ninguém se admira hoje de se corresponder
com outra pessoa, a grande distância, em alguns minutos, por meio
da eletricidade.
(O Livro dos Médiuns - 2a parte, cap.
I, item 58 - obra codificada por Allan Kardec)
40. - O estudo das propriedades do perispírito,
dos fluidos espirituais e dos atributos fisiológicos da alma
abre novos horizontes à Ciência e dá a chave de
uma multidão de fenômenos incompreendidos até então,
por falta de conhecimento da lei que os rege - fenômenos negados
pelo materialismo, por se prenderem à espiritualidade, e qualificados
como milagres ou sortilégios por outras crenças. Tais
são, entre muitos, os fenômenos da vista dupla, da visão
a distância, do sonambulismo natural e artificial, dos efeitos
psíquicos da catalepsia e da letargia, da presciência,
dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações,
da transmissão do pensamento, da fascinação, das
curas instantâneas, das obsessões e possessões,
etc. Demonstrando que esses fenômenos repousam em leis naturais,
como os fenômenos elétricos, e em que condições
normais se podem reproduzir, o Espiritismo derroca o império
do maravilhoso e do sobrenatural e, conseguintemente, a fonte da maior
parte das superstições. Se faz se creia na possibilidade
de certas coisas consideradas por alguns como quiméricas, também
impede que se creia em muitas outras, das quais ele demonstra a impossibilidade
e a irracionalidade.
(A Gênese - cap. I item 40 - obra codificada
por Allan Kardec)
23. - As propriedades do fluido
perispirítico dão-nos disso uma idéia.
Ele não é de si mesmo inteligente, pois que é matéria,
mas serve de veículo ao pensamento, às sensações
e percepções do Espírito. Esse fluido não
é o pensamento do Espírito; é, porém, o
agente e o intermediário desse pensamento. Sendo quem o transmite,
fica, de certo modo, impregnado do pensamento transmitido. Na impossibilidade
em que nos achamos de o isolar, a nós nos parece que ele, o pensamento,
faz corro com o fluido, que com este se confunde, como sucede com o
som e o ar, de maneira que podemos, a bem dizer, materializá-lo.
Assim como dizemos que o ar se torna sonoro, poderíamos, tomando
o efeito Pela causa, dizer que o fluido se torna inteligente.
(A Gênese - cap. II item 23 - obra codificada
por Allan Kardec)
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