Revista Espírita
Jornal de Estudos Psicológicos
publicada sob a direção de Allan Kardec
8º ANO - Nº. 8
AGOSTO 1865
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Há criaturas que perguntam quais
são as conquistas novas que devemos ao Espiritismo. Em razão
de não haver dotado o mundo com uma nova indústria
produtiva, como o vapor, concluem que nada produziu. A maior parte
dos que fazem tal pergunta, por não se terem dado ao trabalho
de o estudar, só conhecem o Espiritismo de fantasia, criado
para as necessidades da crítica, e que nada tem de comum
com o Espiritismo sério. Não é, pois, de admirar
que perguntem qual pode ser o seu lado útil e prático.
Tê-lo-iam descoberto se o tivessem ido buscar em sua fonte,
e não nas caricaturas que dele fizeram os que têm interesse
em denegri-lo.
Numa outra ordem de idéias,
ao contrário, alguns impacientes acham a marcha do Espiritismo
muito lenta para o seu gosto. Admiram-se de que ainda não
tenha sondado todos os mistérios da Natureza, nem abordado
todas as questões que parecem ser de sua alçada; gostariam
de vê-lo diariamente ensinar coisas novas, ou enriquecer-se
com alguma descoberta recente. E, porque ainda não resolveu
a questão da origem dos seres, do princípio e do fim
de todas as coisas, da essência divina e de algumas outras
da mesma importância, concluem que não saiu do á-bê-cê,
que não entrou na verdadeira via filosófica e que
se arrasta em lugares-comuns, já que prega incessantemente
a humildade e a caridade. “Até hoje, dizem, o Espiritismo
nada nos ensinou de novo, porque a reencarnação, a
negação das penas eternas, a imortalidade da alma,
a gradação através de períodos da vitalidade
intelectual, o perispírito não são descobertas
espíritas propriamente ditas; então é preciso
marchar para descobertas mais verdadeiras e mais sólidas.”
A propósito, julgamos por bem
apresentar algumas observações, que também
não serão novidades, pois há coisas que é
útil repetir sob diversas formas.
É verdade que o Espiritismo
nada inventou de tudo isto, porque somente as verdades verdadeiras
são eternas e, por isto mesmo, devem ter germinado em todas
as épocas. Mas não é alguma coisa havê-las
tirado, se não do nada, ao menos do esquecimento? de um germe
ter feito uma planta vivaz? de uma idéia individual, perdida
na noite dos tempos, ou abafadasob os preconceitos, ter feito uma
crença geral? ter provado o que estava no campo das hipóteses?
ter demonstrado a existência de uma lei naquilo que parecia
excepcional e fortuito? de uma teoria vaga ter feito uma coisa prática?
de uma idéia improdutiva ter tirado aplicações
úteis? Nada é mais verdadeiro que o provérbio:
“Nada existe de novo debaixo do sol.” E até esta
verdade não é nova. Assim, não há uma
só descoberta cujos vestígios e o princípio
não se encontrem nalguma parte. À vista disso, Copérnico
não teria o mérito de seu sistema, porque o movimento
da Terra tinha sido suspeitado antes da era cristã. Se a
coisa era tão simples, dever-seia encontrá-la. A história
do ovo de Cristóvão Colombo será sempre uma
eterna verdade.
Além disso, é incontestável
que o Espiritismo ainda tem muito a nos ensinar. É o que
não temos cessado de repetir, pois jamais pretendemos que
ele tenha dito a última palavra. Mas do que ainda resta fazer,
segue-se que não tenha ainda saído do á-bê-cê?
As mesas girantes foram o seu alfabeto; e, depois, ao que nos parece,
tem dado alguns passos; parece mesmo que deu passos bem grandes
em alguns anos, se o compararmos às outras ciências,
que levaram séculos para chegar ao ponto em que estão.
Nenhuma chegou ao apogeu de um salto só; elas avançam,
não pela vontade dos homens, mas à medida que as circunstâncias
apontam novas descobertas. Ora, ninguém tem o poder de comandar
essas circunstâncias, e a prova disto é que, todas
as vezes que uma idéia é prematura, aborta, para reaparecer
mais tarde, em tempo oportuno.
Mas em falta de novas descobertas,
os homens de ciência nada terão a fazer? A Química
não será mais a Química se diariamente não
descobrir novos corpos? Os astrônomos serão condenados
a cruzar os braços por não encontrarem novos planetas?
E assim em todos os outros ramos das ciências e da indústria.
Antes de procurar coisas novas, não se deve fazer a aplicação
daquilo que se sabe? É precisamente para dar aos homens tempo
de assimilar, de aplicar e de vulgarizar o que sabem, que a Providência
põe um freio na marcha para frente. Aí está
a História para nos mostrar que as ciências não
seguem uma marcha ascendente contínua, ao menos ostensivamente.
Os grandes movimentos que revolucionam uma idéia não
se operam senão em intervalos mais ou menos distanciados.
Assim, não há estagnação, mas elaboração,
aplicação e frutificação daquilo que
se sabe, o que é sempre progresso. Poderia o Espírito
humano absorver incessantemente novas idéias? A própria
terra não precisa de um tempo de repouso antes de reproduzir?
Que diriam de um professor que diariamente ensinasse novas regras
aos seus alunos, sem lhes dar tempo para se exercitarem nas que
aprenderam, de com elas se identificarem e de as aplicarem? Então
Deus seria menos previdente e menos hábil que um professor?
Em todas as coisas as idéias novas devem apoiar-se nas idéias
adquiridas; se estas não forem suficientemente elaboradas
e consolidadas no cérebro se o espírito não
as assimilou, as que aí se querem implantar não criam
raízes: semeia-se no vazio.
Acontece a mesma coisa com o Espiritismo.
Os adeptos aproveitaram de tal modo o que ele até hoje ensinou,
que nada mais tenham a fazer? São mais caridosos, desprovidos
de orgulho, desinteressados e benevolentes para com os seus semelhantes?
Terão moderado as paixões, abjurado o ódio,
a inveja e o ciúme? Enfim, são tão perfeitos
que de agora em diante seja supérfluo pregar-lhes a caridade,
a humildade, a abnegação, numa palavra, a moral? Essa
pretensão, por si só, provaria quanto ainda necessitam
dessas lições elementares, que alguns consideram fastidiosas
e pueris. Entretanto, somente com o auxílio dessas instruções,
se as aproveitarem, é que poderão elevar-se bastante
para se tornarem dignos de receber um ensinamento superior.
O Espiritismo contribui para a regeneração
da Humanidade: isto é um fato constatado. Ora, não
podendo essa regeneração operar-se senão pelo
progresso moral, resulta que seu objetivo essencial, providencial,
é o melhoramento de cada um; os mistérios que pode
nos revelar são a parte acessória, porquanto, ao nos
abrir o santuário de todos os conhecimentos só estaremos
mais adiantados para o nosso estado futuro se formos melhores. Para
nos admitir no banquete da suprema felicidade, Deus não pergunta
o que sabemos, nem o que possuímos, mas o que valemos e o
bem que fizemos. Portanto, é acima de tudo pelo seu melhoramento
individual que todo espírita sincero deve trabalhar. Só
aquele que dominou suas más tendências aproveitou realmente
o Espiritismo e receberá a sua recompensa. É por isto
que os Espíritos bons, por ordem de Deus, multiplicam suas
instruções e as repetem até à saciedade;
só um orgulho insensato pode dizer: não preciso de
mais. Só Deus sabe quando serão inúteis, e
só a ele cabe dirigir o ensino de suas mensagens e de o proporcionar
ao nosso adiantamento.
Contudo, vejamos se, fora do ensinamento
puramente moral, os resultados do Espiritismo são tão
estéreis quanto pretendem alguns.
1o – Antes de mais ele dá,
como todos sabem, a prova patente da existência e da imortalidade
da alma. Não é uma descoberta, é verdade,
mas é por falta de provas sobre este ponto que há
tantos incrédulos ou indiferentes quanto ao futuro; é
provando o que não passava de teoria que ele triunfa sobre
o materialismo e previne suas funestas conseqüências
para a sociedade. Tendo mudado em certeza a dúvida quanto
ao futuro, o Espiritismo opera toda uma revolução
nas idéias, cujos resultados são incalculáveis.
Se aí se limitasse exclusivamente o resultado das manifestações,
quão imensos seriam esses resultados!
2o – Pela firme crença
que desenvolve, exerce poderosa ação sobre o moral
do homem; impele-o ao bem, consola-o nas aflições,
dá-lhe força e coragem nas provações
da vida e lhe desvia do pensamento o suicídio.
3o – Retifica todas as idéias
falsas que se tivessem sobre o futuro da alma, sobre o céu,
o inferno, as penas e recompensas; destrói radicalmente,
pela irresistível lógica dos fatos, os dogmas das
penas eternas e dos demônios; numa palavra, descobre-nos
a vida futura e no-la mostra racional e conforme à justiça
de Deus. É ainda uma coisa que tem muito valor.
4o – Dá a conhecer
o que se passa no momento da morte; este fenômeno, até
hoje insondável, não mais tem mistérios;
as menores particularidades dessa passagem tão temível
são hoje conhecidas. Ora, como todos morrem, este conhecimento
interessa a todo o mundo.
5o – Pela lei da pluralidade
das existências, abre um novo campo à filosofia;
o homem sabe de onde vem, para onde vai e com que objetivo está
na Terra. Explica a causa de todas as misérias humanas,
de todas as desigualdades sociais; dá as próprias
leis da Natureza como base dos princípios de solidariedade
universal, de fraternidade, de igualdade e de liberdade, que só
se assentavam na teoria. Enfim, projeta luz sobre as mais árduas
questões da metafísica, da psicologia e da moral.
6o – Pela teoria dos fluidos
perispirituais, torna conhecido o mecanismo das sensações
e das percepções da alma; explica os fenômenos
da dupla vista, da vista a distância, do sonambulismo, do
êxtase, dos sonhos, das visões, das aparições,
etc.; abre novo campo à Fisiologia e à Patologia.
7o – Provando as relações
existentes entre o mundo corporal e o mundo espiritual, mostra
neste último uma das forças ativas da Natureza,
um poder inteligente e dá a razão de uma porção
de efeitos atribuídos a causas sobrenaturais, e que alimentaram
a maior parte das idéias supersticiosas.
8o – Revelando o fato das
obsessões, faz conhecer a causa, até aqui desconhecida,
das numerosas afecções, sobre as quais a Ciência
se havia enganado em prejuízo dos doentes, e dá
os meios de os curar.
9o – Dando-nos a conhecer
as verdadeiras condições da prece e seu modo de
ação; revelando-nos a influência recíproca
dos Espíritos encarnados e desencarnados, ensina-nos o
poder do homem sobre os Espíritos imperfeitos para os moralizar
e os arrancar aos sofrimentos inerentes à sua inferioridade.
10o – Tornando conhecida
a magnetização espiritual, que era desconhecida,
abre novo caminho ao magnetismo e lhe traz um novo e poderoso
elemento de cura.
O mérito de uma invenção
não está na descoberta de um princípio, quase
sempre conhecido anteriormente, mas na aplicação desse
princípio. Sem dúvida a reencarnação
não é uma idéia nova, como o perispírito
descrito por São Paulo sob o nome de corpo espiritual também
não o é, e nem mesmo a comunicação com
os Espíritos. O Espiritismo, que não se gaba de ter
descoberto a Natureza, procura cuidadosamente todos os traços
que pode encontrar da anterioridade de suas idéias e, quando
os encontra, apressa-se em o proclamar, como prova em apoio ao que
avança. Aqueles, pois, que invocam essa anterioridade visando
depreciar o que ele faz, vão contra o seu objetivo e agem
desastradamente, porque isto levaria à suspeição
de uma idéia preconcebida.
A descoberta da reencarnação
e do perispírito não pertence, pois, ao Espiritismo;
é coisa resolvida. Mas, até ele, que proveito a Ciência,
a moral, a religião haviam tirado desses dois princípios,
ignorados pelas massas e ficados em estado de letra morta? Ele não
só os expôs à luz, os provou e faz reconhecer
como leis da Natureza, mas os desenvolveu e faz frutificar; deles
já fez saírem numerosos e fecundos resultados, sem
os quais não se poderia compreender uma infinidade de coisas;
diariamente ele nos faz compreender outras novas e estamos longe
de haver esgotado esta mina. Considerando-se que esses dois princípios
eram conhecidos, por que ficaram improdutivos por tanto tempo? Por
que, durante tantos séculos, todas as filosofias se chocaram
contra tantos problemas insolúveis? É que eram diamantes
brutos, que deviam ser lapidados. É o que faz o Espiritismo.
Ele abriu uma nova via à filosofia ou, melhor dizendo, criou
uma nova filosofia, que diariamente ocupa seu lugar no mundo. Então
estes resultados são de tal modo nulos que devemos apressar
a marcha para descobertas mais verdadeiras e mais sólidas?
Em resumo, de um certo número
de verdades fundamentais, esboçadas por alguns cérebros
de escol e conservadas, em sua maioria, como que em estado latente,
uma vez que foram estudadas, elaboradas e provadas, de estéreis
que eram tornaram-se uma mina fecunda, de onde saíram uma
multidão de princípios secundários e aplicações,
e abriram um vasto campo à exploração, novos
horizontes à Ciência, à filosofia, à
moral, à religião e à economia social.
Tais são, até hoje,
as principais conquistas devidas ao Espiritismo, e não temos
feito mais do que indicar os pontos culminantes. Supondo que devessem
limitar-se a isto, já nos poderíamos dar por satisfeitos,
e dizer que uma ciência nova, que dá tais resultados
em menos de dez anos, não pode ser acusada de nulidade, porque
toca em todas as questões vitais da Humanidade e traz aos
conhecimentos humanos um contingente que não é para
desdenhar. Até que esses únicos pontos tenham recebido
todas as aplicações de que são susceptíveis,
e que os homens os tenham aproveitado, ainda se passará muito
tempo, e os espíritas que os quiserem pôr em prática
para si próprios e para o bem de todos, não ficarão
desocupados.
Esses pontos são outros tantos
focos de onde irradiarão inumeráveis verdades secundárias,
que se trata de desenvolver e aplicar, o que se faz todos os dias,
porque diariamente se revelam fatos que levantam uma nova ponta
do véu. O Espiritismo deu sucessivamente e em alguns anos
todas as bases fundamentais do novo edifício. Cabe agora
aos seus adeptos pôr em obra esses materiais, antes de pedir
outros novos. Deus saberá bem lhos fornecer, quando tiverem
acabado sua tarefa.
Dizem que os espíritas só
sabem o á-bê-cê do Espiritismo. Seja. Que aprendamos,
então, a silabar esse alfabeto, o que não será
o caso de um dia, porque, mesmo reduzido a estas proporções,
passará muito tempo antes de haver esgotado todas as cominações
e colhido todos os frutos. Não restam mais fatos a explicar?
Aliás, os espíritas não devem ensinar esse
alfabeto aos que o ignoram? Já lançaram a semente
em toda parte onde poderiam fazê-lo? Não resta mais
incrédulos a convencer, obsedados a curar, consolações
a dar, lágrimas a enxugar? Há fundamento em dizer
que nada mais se deve fazer quando não se terminou a tarefa,
quando ainda restam tantas chagas a fechar? São nobres ocupações
que valem bem a vã satisfação de as saber um
tanto mais e um pouco mais cedo que os outros.
Saibamos, pois, soletrar o nosso
alfabeto antes de querer ler fluentemente no grande livro da Natureza.
Deus saberá bem no-lo abrir, à medida que avançarmos,
mas não depende de nenhum mortal forçar sua vontade,
antecipando o tempo para cada coisa. Se a árvore da Ciência
é muito alta para que possamos atingi-la, esperemos, para
sobrevoá-la, que as nossas asas estejam crescidas e solidamente
pregadas, para não virmos a ter a sorte de Ícaro.