REVISTA ESPÍRITA
Jornal de Estudos Psicológicos
publicada sobre a direção de Allan Kardec
Abril de 1859
Todos nós, sem exceção,
atingimos mais cedo ou mais tarde o termo fatal da vida. Nenhuma força
nos poderia subtrair a essa necessidade, eis o que é positivo.
Muitas vezes as preocupações do mundo nos desviam o
pensamento daquilo que se passa além-túmulo, mas quando
chega o momento supremo, são poucos os que não se perguntam
em que se vão transformar, porque a ideia de deixar a existência
sem uma possibilidade de retorno tem algo de pungente. Com efeito,
quem poderia encarar com indiferença a ideia de uma separação
absoluta e eterna de tudo quanto amou? Quem poderia ver sem assombro
abrir-se à sua frente o imenso abismo do nada, em que iriam
desaparecer para sempre todas as nossas faculdades e todas as nossas
esperanças? “O que!? Depois de mim, o nada; nada mais
que o vazio; tudo acabado irremediavelmente? Mais alguns dias e a
minha lembrança se apagará da memória dos que
sobreviverem a mim; em breve não restará nenhum traço
de minha passagem pela Terra; o próprio bem que eu tiver feito
será esquecido pelos ingratos a quem tiver beneficiado, e nada
para compensar tudo isso; nenhuma outra perspectiva além de
meu corpo a ser roído pelos vermes?!” Este quadro do
fim de um materialista, traçado por um Espírito que
tinha vivido esses pensamentos, não tem algo de horrível
e de glacial? Ensina-nos a religião que não pode ser
assim, e a razão o confirma. Mas essa existência futura,
vaga e indefinida, nada tem que satisfaça ao nosso amor ao
que é positivo. É isto que gera a dúvida em muitos.
Vá lá que tenhamos uma alma. Mas o que é a nossa
alma? Ela tem forma e aparência? É um ser limitado ou
indefinido? Dizem uns que é um sopro de Deus; outros, que uma
centelha; outros, uma parte do grande todo, o princípio da
vida e da inteligência. Mas o que concluímos de tudo
isto? Diz-se, ainda, que ela é imaterial. Mas uma coisa imaterial
não poderia ter proporções definidas. Para nós
isso não é nada. Ensina-nos ainda a religião
que seremos felizes ou infelizes, conforme o bem ou o mal que tivermos
feito. Mas qual é essa felicidade que nos espera no seio de
Deus?
Será uma beatitude, uma contemplação eterna,
sem outro objetivo além de cantar os louvores ao Criador? As
chamas do inferno são uma realidade ou uma ficção?
A própria Igreja o entende nesta última acepção;
mas quais são os sofrimentos? Onde o lugar do suplício?
Numa palavra, que é o que se faz ou se vê nesse mundo
que nos espera a todos? Costuma-se dizer que ninguém voltou
para nos dar informações. Isso é um erro, e a
missão do Espiritismo é precisamente esclarecer-nos
sobre esse futuro, fazendo-nos, por assim dizer, tocá-lo e
vê-lo, não pelo raciocínio, mas pelos fatos. Graças
às comunicações espíritas, já não
se trata de uma presunção ou de uma probabilidade, sobre
a qual cada um imagina à vontade e que os poetas embelezam
com as suas ficções ou repletam de imagens alegóricas
que nos enganam. É a própria realidade que se nos apresenta,
pois são os próprios seres de além-túmulo
que nos vêm descrever a sua situação e falar-nos
do que fazem, permitindo-nos, por assim dizer, assistir a todas as
peripécias de sua vida nova, e dessa maneira mostrar-nos a
sorte inevitável que nos aguarda, conforme os nossos méritos
e os nossos deméritos. Haverá nisso algo de anti-religioso?
Muito pelo contrário, pois os incrédulos encontram nisso
a fé e os tíbios uma renovação do fervor
e da confiança.
O Espiritismo é, pois, o mais poderoso auxiliar da religião.
Se assim é, é que Deus o permite, e o permite para reanimar
nossas esperanças vacilantes e para reconduzirnos ao caminho
do bem, pela perspectiva do futuro que nos aguarda.
As conversas familiares de além-túmulo que publicamos;
a descrição que elas encerram da situação
dos Espíritos que nos falam, revelam-nos as suas penas, as
suas alegrias, as suas ocupações. São um quadro
animado da vida espírita, e na própria variedade dos
assuntos podemos encontrar as analogias que nos interessam. Vamos
tentar resumir o seu conjunto. Inicialmente consideremos a alma ao
deixar este mundo e vejamos o que se passa nessa transmigração.
Extinguindo-se as forças vitais, o Espírito se desprende
do corpo no momento em que cessa a vida orgânica. Mas a separação
não é brusca ou instantânea. Por vezes começa
antes da cessação completa da vida e nem sempre é
completada no instante da morte. Sabemos que entre o Espírito
e o corpo existe um liame semimaterial, que constitui o primeiro envoltório.
É esse liame que não se quebra subitamente. Enquanto
subsiste, fica o Espírito num estado de perturbação
comparável ao que acompanha o despertar. Muitas vezes ele até
duvida de sua morte; sente que existe, vê-se e não compreende
que possa viver sem seu corpo, do qual se vê separado. Os laços
que ainda o prendem à matéria o tornam acessível
a certas sensações que toma como sensações
físicas. O Espírito só se reconhece quando completamente
livre. Até então não compreende a sua situação.
A duração desse estado de perturbação,
como já o dissemos em outras ocasiões, é muito
variável: pode ser de algumas horas, como de vários
meses, mas é raro que ao cabo de alguns dias o Espírito
não se reconheça mais ou menos bem. Entretanto, como
tudo lhe é estranho e desconhecido, é-lhe necessário
um certo tempo para familiarizar-se com a sua nova maneira de perceber
as coisas.
Solene é o instante em que um deles vê cessar a sua escravização,
pela ruptura dos laços que o prendem ao corpo. Ao entrar no
mundo dos Espíritos é acolhido pelos amigos que vêm
recebê-lo, como se voltasse de penosa viagem. Se a travessia
foi feliz, isto é, se o tempo de exílio foi empregado
de maneira proveitosa para si e o elevou na hierarquia do mundo dos
Espíritos, eles o felicitam. Ali reencontra os conhecidos,
mistura-se aos que o amam e com ele simpatizam, e então começa,
para ele, verdadeiramente, a sua nova existência.
O envoltório semimaterial do Espírito constitui uma
espécie de corpo, de forma definida, limitada e análoga
à do corpo físico. Mas esse corpo não tem os
nossos órgãos e não pode sentir todas as nossas
impressões. Entretanto, percebe tudo quanto percebemos: a luz,
os sons, os odores, etc. Estas sensações não
são menos reais, embora nada tenham de material; têm,
até, algo de mais claro, de mais preciso, de mais sutil, porque
lhe chegam sem intermediário, sem passar pela fieira dos órgãos
que as embotam. A faculdade de perceber é inerente ao Espírito;
é um atributo de todo o seu ser. As sensações
lhe chegam por todos os lados, e não através de canais
circunscritos. Falando da visão, dizia-nos um Espírito:
“É uma faculdade do Espírito e não do corpo.
Vedes pelos olhos, mas não é o olho que vê. É
o Espírito.”
Em virtude da conformação de nossos órgãos,
necessitamos de certos veículos para as sensações.
É assim que necessitamos da luz para refletir os objetos e
do ar para nos transmitir os sons. Esses veículos se fazem
inúteis, desde que não tenhamos mais os intermediários
que os tornam indispensáveis. Assim, pois, o Espírito
vê sem auxílio de nossa luz e ouve sem necessidade das
vibrações do ar. Eis por que para ele não há
obscuridade. Mas as sensações permanentes e indefinidas,
por mais agradáveis que sejam, com o tempo se tornariam fatigantes,
se não lhe fosse possível subtrair-se a elas. Por isso
tem o Espírito a faculdade de suspendê-las. Ele pode,
à vontade, deixar de ver, de ouvir, de sentir tais ou quais
coisas e, consequentemente, não ver, não ouvir, não
sentir senão aquilo que queira. Essa faculdade está
na razão de sua superioridade, pois há coisas que os
Espíritos inferiores não podem evitar, pelo que a sua
situação se torna penosa.
A princípio o Espírito não compreende essa nova
maneira de sentir, da qual só aos poucos se dá conta.
Aqueles cuja inteligência é ainda muito atrasada não
a compreendem absolutamente e sentiriam muita dificuldade em exprimi-la,
exatamente como entre nós os ignorantes veem e se movem, sem
saber como nem por quê.
Essa impossibilidade de compreender o que está acima de seu
alcance, aliada à fanfarrice, usual companheira da ignorância,
é a fonte de teorias absurdas dadas por certos Espíritos
que nos induziriam em erro se as aceitássemos sem controle
e se não estivéssemos seguros, pelos meios fornecidos
pela experiência e pelo hábito de com eles conversar,
quanto ao grau de confiança que merecem.
Há sensações que têm por fonte o próprio
estado dos nossos órgãos. Ora, as necessidades inerentes
ao corpo não se podem verificar desde que não exista
mais corpo. Assim, pois, o Espírito não experimenta
fadiga, nem necessidade de repouso ou de alimentação,
porque não tem nenhuma perda a reparar. Ele não é
acometido por nenhuma de nossas enfermidades. As necessidades do corpo
determinam necessidades sociais, que para eles não existem.
Assim não mais existem as preocupações dos negócios,
as discórdias, as mil e umas tribulações do mundo
e os tormentos a que nos entregamos para suprirmos as nossas necessidades
ou as superfluidades da vida. Eles têm pena do esforço
que fazemos por causa de futilidades. Entretanto, quanto mais felizes
são os Espíritos elevados, tanto mais sofrem os inferiores,
mas esses sofrimentos se constituem principalmente de angústias
que embora nada tenham de físico, nem por isso são menos
pungentes.
Eles têm todas as paixões e todos os desejos que tinham
em vida (referimo-nos aos Espíritos inferiores) e seu castigo
é o de não poder satisfazê-los. Isto é
para eles uma tortura que julgam eterna, porque sua própria
inferioridade não lhes permite ver o término, o que
é também para eles um castigo.
A palavra articulada é uma necessidade de nossa organização.
Como os Espíritos não necessitam de vibrações
sonoras para lhes ferir os ouvidos, compreendem-se pela simples transmissão
do pensamento, assim como por vezes acontece que nos entendemos por
um simples olhar. Entretanto, os Espíritos fazem barulho. Sabemos
que podem agir sobre a matéria e que essa matéria nos
transmite o som. É assim que se dão a entender, quer
por meio de pancadas, quer por meio de gritos que vibram no ar. Mas
então o fazem para nós e não para eles. Voltaremos
ao assunto em artigo especial, no qual trataremos da faculdade dos
médiuns auditivos.
Enquanto arrastamos penosamente pela terra o nosso corpo pesado e
material, como o condenado as suas cadeias, o dos Espíritos,
vaporoso e etéreo, transporta-se sem fadiga de um lugar para
outro; rasga o espaço com a velocidade do pensamento e tudo
penetra, sem encontrar qualquer obstáculo material.
O Espírito vê tudo aquilo que vemos, e mais claramente
do que nós. Além disso, vê aquilo que os nossos
sentidos limitados não nos permitem ver. Penetrando, ele mesmo,
a matéria, descobre o que a matéria oculta à
nossa visão.
Os Espíritos não são, pois, seres vagos e indefinidos,
conforme as abstratas definições da alma a que nos referimos
acima. São seres reais, determinados, circunscritos, que gozam
de todas as nossas faculdades e de outras que nos são desconhecidas,
porque inerentes à sua natureza. Eles têm as qualidades
da sua matéria peculiar e constituem o mundo invisível
que povoa o Espaço, envolvendo-nos e se acotovelando incessantemente
conosco. Suponhamos desfeito por um instante o véu material
que os oculta aos nossos olhos. Ver-nos-íamos cercados por
uma multidão de seres que vão e vêm, agitam-se
em torno de nós e nos observam, do mesmo modo que faríamos
se nos encontrássemos em uma assembleia de cegos.
Para os Espíritos, nós somos os cegos e eles são
os videntes.
Dissemos que ao entrar em sua nova vida o Espírito precisa
de algum tempo para se reconhecer; que ali tudo lhe é estranho
e desconhecido. Perguntarão como pode ser assim se ele já
teve outras existências corpóreas. Essas existências
foram separadas por intervalos durante os quais ele habitou o mundo
dos Espíritos. Então esse mundo não lhe deve
ser desconhecido, desde que não o vê pela primeira vez.
Várias causas contribuem para que essas percepções,
embora já experimentadas, lhe pareçam novas. Como dissemos,
a morte é sempre seguida por um instante de perturbação,
mas que pode ser de curta duração. Nesse estado suas
ideias são sempre vagas e confusas; a vida corpórea
se confunde, até certo ponto, com a vida espírita e
ele ainda não pode separá-las em seu pensamento. Dissipada
a primeira impressão, as ideias pouco a pouco se aclaram e
a ele volta, mas gradativamente, a lembrança do passado, pois
essa memória jamais irrompe bruscamente. Só quando ele
se encontra inteiramente desmaterializado é que o passado se
desdobra à sua frente, como um espectro saindo de um nevoeiro.
Só então ele se recorda de todos os atos de sua última
existência, depois das existências anteriores e de suas
várias passagens pelo mundo dos Espíritos. Compreende-se,
pois, que durante um certo tempo esse mundo lhe pareça novo,
até que ele se tenha reconhecido completamente e recuperado
de maneira precisa a lembrança das sensações
ali experimentadas.
A essa causa, entretanto, deve juntar-se outra, não menos importante.
O estado do Espírito, como Espírito, varia extraordinariamente
na razão de sua elevação e de seu grau de pureza.
À medida que se eleva e se depura, suas percepções
e suas sensações se tornam menos grosseiras; adquirem
mais acuidade, mais sutileza, mais delicadeza; vê, sente e compreende
coisas que não poderia ver, sentir ou compreender numa condição
inferior. Ora, cada existência corpórea sendo para ele
uma oportunidade de progresso, lança-o a um meio novo para
ele porque, se tiver progredido, encontra-se entre Espíritos
de outra ordem, cujos pensamentos e hábitos são todos
diferentes. Acrescente-se a isso que tal depuração lhe
permite, sempre como Espírito, penetrar nesses mundos inacessíveis
aos Espíritos inferiores, do mesmo modo que nos salões
da alta Sociedade não têm acesso as pessoas mal educadas.
Quanto menos esclarecido, tanto mais limitado é o seu horizonte.
À medida que se eleva e se depura, esse horizonte se amplia
e com ele, o círculo de suas ideias e percepções.
A seguinte comparação pode facilitar-nos a compreensão.
Suponhamos um camponês bruto, ignorante, vindo a Paris pela
primeira vez. Poderá conhecer e compreender a Paris dos meios
sábios e elegantes? Não, porque frequentará apenas
as pessoas de sua classe e os bairros por elas habitados. Mas se no
intervalo entre a primeira e uma segunda viagem esse camponês
se desenvolveu e adquiriu instrução e boas maneiras,
outros serão os seus hábitos e as suas relações.
Então verá um mundo novo, em nada semelhante à
Paris de outrora.
Dá-se o mesmo com os Espíritos, mas nem todos experimentam
o mesmo grau de incerteza. À medida que progridem, suas ideias
se desenvolvem e a memória se apura. Familiarizam-se previamente
com a sua nova situação e seu regresso ao convívio
dos outros Espíritos já nada tem que lhes cause admiração.
Encontram-se novamente em seu meio normal e, passado o primeiro momento
de perturbação, se reintegram quase imediatamente.
Essa é a situação geral dos Espíritos
no estado que chamamos de erraticidade.
Mas o que fazem nesse estado? Como passam o tempo? Isto é de
um interesse capital para nós. São eles mesmos que vão
responder, como foram eles que deram as explicações
que acabamos de transmitir, de vez que nada disto é fruto de
nossa imaginação. Não se trata de um sistema
saído de nosso cérebro. Julgamos pelo que vemos e ouvimos.
Posta de lado qualquer opinião relativamente ao Espiritismo,
hão de convir que esta teoria sobre a vida de além-túmulo
nada contém de irracional. Ela apresenta uma sequência
e um encadeamento perfeitamente lógicos, que fariam honra a
qualquer filósofo. Laboraríamos em erro se acreditássemos
que a vida espírita é uma vida ociosa.
Ao contrário, ela é essencialmente ativa e todos nos
falam de suas ocupações. Essas ocupações
necessariamente diferem, conforme seja o Espírito errante ou
encarnado.
No estado de encarnação, elas são relativas à
natureza dos mundos habitados; às necessidade que dependem
do estado físico e moral desses mundos, bem como da organização
dos seres vivos. E não é disso que devemos tratar aqui.
Falaremos apenas dos Espíritos errantes.
Entre os que já atingiram certo grau de desenvolvimento, uns
velam pela realização dos desígnios de Deus nos
grandes destinos do Universo; dirigem a marcha dos acontecimentos
e concorrem ao progresso de cada mundo. Outros tomam os indivíduos
sob sua proteção, constituindo-se em seus gênios
tutelares e anjos da guarda. Acompanham-nos desde o nascimento até
a morte, buscando encaminhá-los pela estrada do bem. Sentem-se
felizes quando seus esforços são coroados de sucesso.
Alguns se encarnam em mundos inferiores, para neles realizar missões
de progresso. Pelo trabalho, pelo exemplo, pelos conselhos e pelos
sentimentos, procuram fazer que uns progridam nas ciências e
nas artes, outros na moral. Então se submetem voluntariamente
às vicissitudes de uma vida corpórea por vezes penosa,
com o objetivo de fazer o bem, e o bem que fazem lhes é contado.
Muitos, enfim, não têm qualquer atribuição
especial. Eles vão a todo lugar onde sua presença pode
ser útil para dar conselhos, inspirar boas ideias, animar os
desanimados, fortalecer os fracos e castigar os presunçosos.
Se considerarmos o número infinito de mundos que povoam o Universo
e o número incalculável de seres que os habitam, compreenderemos
que os Espíritos têm muito em que se ocupar. Essas ocupações,
entretanto, nada têm para eles de penoso. Exercem-nas com alegria,
voluntariamente, sem constrangimento, e sua felicidade é triunfar
naquilo que empreendem. Ninguém pensa numa ociosidade eterna,
que seria um verdadeiro suplício.
Quando as circunstâncias o exigem, reúnem-se em conselho;
deliberam sobre a marcha a seguir, conforme os acontecimentos; dão
ordens aos Espíritos que lhes são subordinados e, a
seguir, vão para onde o dever os chama. Essas assembleias são
mais gerais ou mais particulares, conforme a importância do
assunto. Nenhum lugar especial ou circunscrito é escolhido
para essas reuniões. O Espaço é o domínio
dos Espíritos. Contudo, elas se realizam de preferência
nos mundos que lhes são o objeto. Os Espíritos encarnados,
que neles estão em missão, delas participam, conforme
a sua elevação. Enquanto o corpo repousa, vão
receber conselhos dos outros Espíritos e, por vezes, receber
ordens relacionadas com a conduta que devem ter como homens. É
verdade que ao despertar não guardam lembrança muito
nítida daquilo que se passou, mas têm a intuição,
que os leva a agir como se fosse por sua própria iniciativa.
Descendo na hierarquia, encontramos Espíritos menos elevados,
menos depurados e, consequentemente, menos esclarecidos, mas nem por
isso menos bons e que, numa esfera de atividade mais restrita, desempenham
funções análogas. Em vez de estender-se a diferentes
mundos, sua ação é antes exercida num mundo especial
e relacionada com o seu grau de desenvolvimento. Sua influência
é mais individual e tem como objetivo coisas de menor importância.
Vem a seguir a multidão de Espíritos vulgares, mais
ou menos bons, mais ou menos maus, que pululam em torno de nós.
Esses estão ligeiramente acima da Humanidade, cujas nuanças
representam e como que refletem, pois têm todos os vícios
e virtudes que a caracterizam. Em muitos deles encontramos os gostos,
ideias e inclinações que possuíam em vida. Suas
faculdades são limitadas, seu julgamento falível como
o dos homens e por vezes errôneo e carregado de preconceitos.
Noutros é mais desenvolvido o senso moral. Mesmo sem grande
superioridade nem grande profundidade, julgam com mais critério,
por vezes até condenando aquilo que fizeram, disseram ou pensaram
em vida. Aliás, há uma coisa notável: é
que, mesmo entre os Espíritos mais comuns, de um modo geral,
os sentimentos são mais puros como Espíritos do que
como homens. A vida espírita os esclarece quanto aos seus defeitos
e, salvo poucas exceções, arrependem-se amargamente
e lamentam o mal que fizeram, pois sofrem mais ou menos cruelmente
as suas consequências.
Vimos alguns desses que não eram melhores do que tinham sido
em vida. Nunca, porém, os vimos piores. O endurecimento absoluto
é muito raro e apenas temporário, porque mais cedo ou
mais tarde acabam lamentando a sua posição. Pode-se,
pois, dizer que todos aspiram ao aperfeiçoamento, porque todos
compreendem que é este o único meio de saírem
da sua inferioridade. Instruir-se e esclarecer-se, eis a sua grande
preocupação e eles se sentem felizes quando podem a
isto acrescentar pequenas missões de confiança que os
elevam aos seus próprios olhos.
Também eles têm as suas assembleias, de maior ou menor
importância, conforme a natureza de seus pensamentos. Falam-nos,
veem e observam aquilo que se passa. Participam de nossas reuniões,
de nossos jogos, de nossas festas e de nossos espetáculos,
assim como de nossas ocupações sérias. Escutam
as nossas conversas, os mais levianos como divertimento ou para rir
à nossa custa, ou ainda para nos pregarem uma peça,
desde que o possam; os outros, a fim de instruir-se. Observam os homens,
analisam o seu caráter e fazem aquilo a que eles chamam estudo
dos costumes, com o fito de escolherem a sua existência futura.
Vimos o Espírito no momento em que, deixando o corpo, entra
em sua vida nova. Analisamos as suas sensações e seguimos-lhe
o desenvolvimento gradual das ideias. Os primeiros momentos são
empregados em reconhecer-se e compreender o que se passa com ele.
Numa palavra, ele, por assim dizer, experimenta as próprias
faculdades, como a criança que pouco a pouco vê crescerem-lhe
as forças e os pensamentos. Falamos dos Espíritos vulgares,
pois os outros, como já dissemos, estão de certo modo
e previamente identificados com o estado espírita, que nenhuma
surpresa lhes causa senão a alegria de se encontrarem livres
dos entraves e dos sofrimentos corporais. Entre os Espíritos
inferiores muitos sentem saudades da vida terrena, porque sua situação
como Espíritos é cem vezes pior. Eis porque buscam distrair-se
com a visão daquilo com que outrora se deliciavam. Essa visão,
contudo, lhes é um suplício, porque sentem desejos mas
não podem satisfazê-los.
Entre os Espíritos é geral a necessidade de progresso.
Isto os excita ao trabalho por seu melhoramento, de vez que compreendem
que é esse o preço de sua felicidade. Mas nem todos
sentem essa necessidade no mesmo grau, principalmente no início.
Alguns chegam mesmo a comprazer-se numa espécie de vagabundagem,
aliás de pouca duração; logo a atividade se torna
para eles uma necessidade imperiosa, à qual, aliás,
são arrastados por outros Espíritos que neles estimulam
os sentimentos do bem.
Vem a seguir o que se pode chamar de escória do mundo espírita,
constituída de todos os Espíritos impuros, cuja preocupação
única é o mal. Sofrem e desejariam que todos sofressem
como eles. A inveja lhes torna odiosa toda superioridade. O ódio
é a sua essência. Não podendo culpar disso os
Espíritos, investem contra os homens, atacando os que lhes
parecem mais fracos. Excitar as paixões ruins; insuflar a discórdia;
separar os amigos; provocar rixas; fazer que os ambiciosos pavoneiem
o seu orgulho, pelo prazer de abatê-los em seguida; espalhar
o erro e a mentira, numa palavra, desviar do bem, tais são
os seus pensamentos dominantes.
Mas por que permite Deus que assim seja? Deus não tem que nos
prestar contas. Dizem-nos os Espíritos superiores que os maus
são provações para os bons e que não há
virtude onde não há vitória a conquistar. Aliás,
se esses Espíritos malfazejos se acham na Terra, é que
aqui encontram eco e simpatias. Console-nos o pensamento de que acima
deste lodo que nos cerca existem seres puros e benevolentes que nos
amam, nos sustentam, nos encorajam e nos estendem os braços,
atraindo-nos, a fim de nos conduzirem a mundos melhores, onde o mal
não encontra acesso, desde que saibamos fazer o que for preciso
para merecê-lo.
__________
OBS.
No "Café com Kardec" é disponibilizado um
resumo e principalmente o áudio do texto acima e itens relacionados
a este texto:
Quadro da vida espírita
(Revista Espírita, abril de 1859)
RESUMO
O artigo apresenta uma visão espírita
sobre a morte e a continuidade da vida. A morte não é
entendida como fim absoluto, mas como transição: o Espírito
se desprende gradualmente do corpo, atravessando um período
de perturbação até reconhecer sua nova condição.
Ele conserva uma forma sutil (perispírito), percebe de modo
mais amplo e direto que os sentidos humanos e participa ativamente
da vida espiritual.
O texto descreve diferentes situações: