| Allan
Kardec
> Processo Hillaire - revista espírita
Revista Espírita
Jornal de Estudos Psicológicos
publicada sob a direção de ALLAN KARDEC
Março 1865
Um assunto sobre o qual havíamos guardado um silêncio
que se compreenderá facilmente, acaba de receber um desfecho
que o coloca no domínio público; vários jornais
das localidades vizinhas, tendo disso dado conta, cremos desde
então oportuno dele falar, a fim de prevenir as falsas
interpretações da malevolência com respeito
à Doutrina Espírita, e provar que esta doutrina
não cobre com o seu manto nada daquilo que é irrepreensível.
Aliás, não estando nosso nome a ele misturado, não
é inútil que se conheça a nossa maneira de
ver. Este assunto concerne ao médium Hillaire, de Sonnac
(Charente- lnférieure), com o qual já tivemos a
ocasião de entreter nossos leitores.
Hillaire é um jovem, casado e pai de família, simples
trabalhador, quase iletrado. A Providência dotou-o de uma
notável faculdade medianímica muito múltipla,
da qual se podem ver os detalhes na obra do Sr. Bez, intitulada:
Os Milagres de nossos dias, e que tem mais de uma relação
com a do Sr. Home. Esta faculdade tem naturalmente chamado a atenção
sobre ele; ela tinha adquirido uma celebridade local, ao mesmo
tempo que lhe havia feito valer a simpatia de uns e a repreensão
dos outros. Os elogios um pouco exagerados dos quais era objeto,
produziram sobre ele sua má influência habitual.
Os sucessos do Sr. Home tinham-lhe, de algum modo, subido à
imaginação, assim como o atestam as cartas que nos
escreveu. Ele sonhava um teatro maior do que a sua aldeia; no
entanto, apesar de suas instâncias para vê-lo vir
a Paris, jamais quisemos apertar-lhe a mão. Seguramente,
se nisso tivéssemos visto uma utilidade qualquer, o teríamos
favorecido, mas estávamos convencidos, segundo as ideias
e o caráter que lhe conhecíamos, que ele não
estava à altura a nisso desempenhar um papel bastante preponderante
em seu próprio interesse. Aliás, muito recentemente
tínhamos visto um triste exemplo dessas ambições
que levam para a capital, e que acabam por cruéis decepções.
Elevando-o sobre um pedestal, se lhe prestou um mau serviço.
Sua missão era local; num raio limitado, sobre uma certa
população, poderia prestar grandes serviços
à causa do Espiritismo, com a ajuda dos notáveis
fenômenos que se produziam sob a sua influência; isso
lhe rendeu propagando as ideias espíritas na região,
mas poderia dar-lhe muito mais ainda, se tivesse permanecido em
sua modesta esfera, sem abandonar o trabalho que o fazia viver,
e que com mais prudência teria podido conciliar com o exercício
da mediunidade. Infelizmente, a importância que se atribuía
o tornou pouco acessível aos conselhos da experiência;
como muitas pessoas, as teria voluntariamente aceito se estivessem
conforme às suas ideias, do que suas cartas nos dão
a prova! Vários indícios nos fizeram prever sua
queda, mas estávamos longe de desconfiar porque causa ela
chegaria. Somente nossos guias espirituais nos advertiram, mais
de uma vez, para agir com ele com uma grande circunspeção,
e de não nos colocarmos à frente, sobretudo, desviando
de fazê-lo vir a Paris.
Por muita presunção
de um lado, e muita fraqueza de outro, quebrou a sua missão
no momento em que ela poderia adquirir o maior brilho. Cedendo
a deploráveis arrastamentos, e talvez, somos levados a
crê-lo, a pérfidas insinuações conduzidas
com jeito, ele cometeu uma falta, em conseqüência da
qual deixou o país, e da qual, mais tarde, teve que prestar
conta diante da justiça. O Espiritismo, longe de com isso
sofrer, assim como disso se gabam nossos adversários, saiu
são e salvo dessa prova, como se o verá dentro em
pouco. Vai sem dizer que se queria esforçar-se por fazer
passar todas as manifestações do infeliz Hillaire
como insignes malabarismos.
O lesado, nesse triste negócio, um daqueles que mais o
tinha aclamado em sua glória passageira, e o tinha coberto
com o seu patrocínio, nos escreveu depois da fuga dos culpados,
para nos dar conta dos fatos em detalhe, e nos pedir o nosso concurso
e o de nossos correspondentes, a fim de fazê-los deter.
E termina dizendo: "É preciso lhes tirar todos os
recursos para forçá-los a entrar na França,
e aí poderemos fazê-los castigar pela justiça
dos homens, à espera de que a desse Deus de misericórdia
ela própria os castigue, porque fazem um mal muito grande
ao Espiritismo. À espera de uma resposta de vossa mão,
vou pedir a Deus para fazê-los descobrir. Sou todo vosso,
irmão em Deus, etc."
Eis a resposta que lhe demos, sem desconfiar que se tornaria uma
das peças do processo:
Senhor,
No retorno de uma longa
viagem que acabo de fazer, encontrei a carta que me havíeis
escrito concernente a Hillaire. Deploro, tanto quanto quem
quer que seja, esse triste assunto, do qual o Espiritismo,
no entanto, não pode receber nenhum prejuízo,
porque não poderia ser responsável pelos atos
daqueles que o compreendem mal. Quanto a vós, o mais
lesado nessa circunstância, compreendo a vossa indignação,
e o primeiro momento de desatino que deveu vos agitar, mas
espero que a reflexão terá levado mais calma
em vosso espírito. Se sois realmente Espírita,
deveis saber que devemos aceitar com resignação
todas as provas que apraza a Deus nos enviar, e que elas são
expiações que merecemos por nossas faltas passadas.
Não é rogando a Deus, como o fazes, de nos vingar
daqueles de quem temos a lamentar, que se adquire o mérito
das provas que nos são enviadas; bem ao contrário,
perde-se delas o fruto, e se as atrai maiores. Não
é uma contradição de vossa parte dizer
que pediste ao Deus de misericórdia fazer com que os
culpados sejam detidos, a fim de serem entregues à
justiça dos homens? É o ofensor a lhe dirigir
semelhantes preces, então que temos mais ou menos necessidade
de sua misericórdia para nós mesmos, e esquecer
que disse: Sereis perdoados como tiverdes perdoado aos outros.
Uma tal linguagem não é nem cristã nem
espírita, porque o Espiritismo, a exemplo do Cristo,
nos ensina a indulgência e o perdão das ofensas.
É uma bela ocasião para nós mostrar a
grandeza e a magnanimidade, e provar que estais acima das
misérias humanas. Desejo, por vós, que não
a deixeis escapar.
Pensais que esse negócio
fará mal ao Espiritismo; repito que não sofrerá
com ele, apesar do ardor de seus adversários em explorar
essa circunstância em seu proveito. Se ela devesse lhe
fazer mal, isso não seria senão um efeito local
e momentâneo, e nisso teríeis vossa parte de
responsabilidade, pela pressa que pusestes em divulgá-la.
Tanto pela caridade quanto pelo interesse que dizeis ter pela
Doutrina, deveríeis ter feito tudo o que estava em
vosso poder para evitar o escândalo; ao passo que, pela
ressonância que lhe haveis dado, fornecestes armas aos
nossos inimigos. Os Espíritas sinceros vos teriam agradecido
pela vossa moderação, e Deus vos teria levado
em conta esse bom sentimento.
Lamento profundamente
terdes podido pensar que eu serviria, no que quer que seja,
aos vossos desejos vingativos, tomando providências
para entregar os culpados à justiça. Era vos
enganar singularmente sobre o meu papel, meu caráter
e minha inteligência dos verdadeiros interesses do Espiritismo.
Se sois realmente, como o dizeis, meu irmão em Deus,
implorai a sua clemência e não a sua cólera;
porque aquele que chama essa cólera sobre outro corre
o risco de fazê-la cair sobre si mesmo.
Tenho a honra de vos saudar
cordialmente, com esperança de vos ver retornar às
idéias mais dignas de um Espírita sincero.
A. K.
Eis agora o relatório que nos foi dirigido:
"Começado
sexta-feira, o caso Hillaire terminou sábado à
meia-noite. Vitet retirando sua queixa no momento em que o
julgamento ia ser pronunciado, sua mulher foi inocentada.
Restava somente Hillaire sob a ação da justiça.
O ministério público concluiu pela culpabilidade
e reclamou a aplicação dos artigos 336,337,338,
etc., do Código Penal. O Tribunal, declinando a sua
competência no que toca à apreciação
de todos os transportes e outros fatos medianímicos,
fazendo a aplicação do artigo 463, condenou
Hillaire a um ano de prisão e às despesas. Esse
julgamento é, aos nossos olhos, uma justa aplicação
da lei escrita, se bem que foi achado um pouco severo para
pessoas que não são de nenhum modo espíritas.
"Se fomos testemunhas do desenvolvimento das tristes
torpezas às quais podem conduzir as fraquezas humanas,
de um outro lado, assistimos a um belo espetáculo,
quando ouvimos solenemente proclamar a ortodoxia da moral
espírita; quando, durante as suspensões e na
saída das audiências, ouvimos estas palavras
repetidas em público: "Devemos invejar a felicidade
daqueles que sua fé põe constantemente em presença
daqueles que amaram, e cujo túmulo, ele mesmo, não
pode mais separá-los."
'Vede, com efeito, essa multidão que num instante esse
pretório não poderá mais conter, ali
se espremem os membros de todas as posições
sociais, desde a mais ínfima até a mais elevada.
Pensai que esses homens vêm simplesmente assistir aos
vulgares debates de um sujo negócio em polícia
correcional? à vergonha de dois infelizes que confessaram
e contaram as circunstâncias de sua falta? Oh! Não.
O assunto em questão tem uma importância muito
mais alta. O Espiritismo está em jogo; se vem ouvir
as revelação que se terá trazido sobre
a nova doutrina numa investigação de três
meses; se vem gozar do ridículo que não pode
faltar nem cair sobre esses pobres alucinados; mas essas esperanças
pouco caridosas foram frustradas pela sabedoria do tribunal.
"O presidente começa por proclamar a liberdade
de consciência mais absoluta; recomenda a todos o respeito
pela crença religiosa de cada um; caminha ele mesmo
até o fim neste caminho. Uma ocasião se apresenta
de ler a carta de nosso mestre a Vitet (carta citada mais
acima); toma-a e faz observar, depois da leitura, que, para
ele, reconhecia ali uma voz digna dos primeiros Pais da Igreja;
que jamais mais bela moral foi pregada numa melhor linguagem.
“Vinte testemunhas foram unânimes sobre a veracidade,
para eles, dos transportes; nenhuma manifestou a menor suspeita.
Daí a declaração de incompetência
do tribunal. Somente Vitet, e seu doméstico Muson,
contestaram o caminho miraculoso; mas no mesmo instante se
lhe opôs uma ata redigida no mesmo dia por Vitet, escrita
de sua mão, trazendo sua assinatura e a de Muson. Dois
membros de nossa sociedade foram ouvidos. O presidente não
temendo fazer nascer de sua destituição a discussão
sobre certos pontos da doutrina; um e o outro responderam
perfeitamente e triunfou com a satisfação de
todos os Espíritas.
"O advogado de Hillaire foi, e não podia ser senão
muito curto, no que concerne especialmente ao chefe da acusação.
Mas sobre a Doutrina, sobre os seus ensinamentos, sobre as
suas conseqüências, os seus progressos no mundo;
sobre a perseverança desses homens da localidade, pelo
menos, dizia ele, nossos iguais em ciência, em inteligência,
e em moralidade, em posição social; sobre os
fatos publicados cada dia pela imprensa; sobre a multiplicidade
das obras, dos jornais especiais, sempre falou com eloqüência
e convicção. Seu último lance foi a leitura
de uma carta do Sr. Jaubert. Nesta carta, o Sr. Jaubert dá
conta de que ele mesmo e seus amigos, ocupando-se de manifestações
físicas, viram e viram bem, à luz das lâmpadas
tão bem quanto à luz do dia, fatos análogos
aos obtidos por Hillaire, dos quais dá conta nos menores
detalhes. Esta leitura, seguida daquela, com um tom solene,
da profissão de fé do próprio Sr. Jaubert,
de um magistrado, vice-presidente em exercício de um
tribunal civil, capital do departamento, esta leitura emocionou
todo o auditório. (O Journal de Saint-Jean-d'Angély,
de 12 de fevereiro, dá a análise desse notável
recurso de defesa. Ver também a Revue de l'Ouest, de
Niort, de 18 de fevereiro.)
"Em seu requisitório, o ministério público
desonra naturalmente o culpado. Quanto aos fatos de manifestações,
os explica por meios vulgares; cada um, diz ele, em seu salão,
os produz à sua vontade, com a maior facilidade: a
menor habilidade basta. Cita fatos medianímicos históricos
para os quais conclui pela alucinação. Pelo
que concerne à Dou- trina, sempre foi digno e respeitoso
para com seus sectários derrotados. Sobretudo, calorosamente,
aplaudiu a coragem, a sinceridade e a boa-fé das testemunhas
que vieram afirmar sua crença, sem se deterem nem pelo
medo dos sarcasmos e da zombaria, nem por seus interesse materiais,
que poderiam com isso sofrer."
O Espiritismo não só saiu são e salvo dessa
prova, saiu com as honras da guerra. O julgamento, é verdade,
não proclamou a realidade das manifestações
de Hillaire, mas as colocou fora de causa por sua declaração
de incompetência; por isso mesmo não as declarou
fraudulentas. Quanto à doutrina, obteve ali um estrondoso
sufrágio. Para nós, é o ponto essencial,
porque o Espiritismo está menos nos fenômenos materiais
do que em suas conseqüências morais. Pouco nos importa
que se neguem os fatos que são cada dia constatados sobre
todos os pontos da Terra; o tempo não está longe
em que todo o mundo será forçado a se render à
evidência; o principal é que a doutrina que dele
decorre seja reconhecida digna do Evangelho sobre o qual se apóia.
Certamente, o Sr., o substituto, não é espírita;
o presidente também não o é mais, que o saibamos;
mas o que estamos felizes de constatar, é que a sua opinião
pessoal não tira nada à sua imparcialidade.
Os elogios dados às testemunhas são uma brilhante
homenagem prestada à coragem da opinião e à
sinceridade das crenças. Devemos a esses firmes sustentáculos
de nossa fé um testemunho especial; apressamo-nos em lhos
dar pelo requerimento seguinte, que lhes fizemos chegar.
Paris, 21 de janeiro de 1865.
O SR. ALLAN KARDEC AOS ESPÍRITAS
DEVOTADOS NO CASO HILLAIRE
Caros irmãos
em Espiritismo,
Venho, tanto em meu nome
pessoal quanto em nome da Sociedade Espírita de Paris,
pagar um justo tributo de elogios a todos aqueles que, na
triste circunstância nas quais fomos todos afligidos,
sustentaram sua fé, defenderam a verdade com coragem,
dignidade e firmeza. Um brilhante e solene testemunho lhes
foi prestado pelos órgãos da justiça;
o de seus irmãos em crença não poderia
lhes faltar. Disso pedi a lista tão exata e tão
completa quanto possível, a fim de inscrever seus nomes
ao lado daqueles que têm muito mérito do Espiritismo.
Isto não é para entregá-los a uma publicidade
que feriria sua modéstia, e seria aliás, nos
tempos que correm, mais nociva do que útil, mas nosso
século é tão preocupado que é
esquecido; é preciso que a memória dos devotamentos
verdadeiros, puros de todo pensamento dissimulado de interesse,
não seja perdida por aqueles que virão depois
de nós. Os arquivos do Espiritismo lhes dirão
aqueles que têm um direito legítimo ao seu reconhecimento.
Aproveito esta ocasião,
caros irmãos, para conversar um instante convosco,
sobre o assunto que nos preocupa.
À primeira vista,
poder-se-ia temer as conseqüências desse caso para
o Espiritismo. Não me inquietei com isto, como o sabeis,
porque ela não poderia, em todos os casos, produzir
senão uma emoção local e momentânea;
porque a nossa Doutrina, não mais do que a religião,
não pode ser responsável pelas faltas daqueles
que não a compreendem.
É em vão
que nossos adversários se esforçam em apresentá-la
como malsã e imoral; é preciso provar que ela
provoca, desculpa ou justifica um único ato repreensível
qualquer ou que ao lado de seus ensinos ostensivos ela tenha
segredos sob os quais a consciência pode se colocar
ao abrigo. Mas como, no Espiritismo, tudo se passa sob a luz,
que ele não prega senão a moral do Evangelho,
a prática do qual tende a conduzir os homens que dela
se afastam, somente uma intenção malévola
poderia imputar-lhe tendências perniciosas. Cada um
podendo julgar por si mesmo seus princípios claramente
proclamados e claramente formulados em obras ao alcance de
todos, só a ignorância ou a má-fé
podem desnaturá-los, assim como se fez com os primeiros
cristãos acusados de todas as infelicidades e de todos
os acidentes que ocorriam em Roma, e de corromper os costumes.
O cristianismo, o Evangelho à mão, não
podia sair vitorioso de todas essas acusações
e da luta terrível empregada contra ele; assim ocorre
com o Espiritismo que, ele também, tem por bandeira
o Evangelho. Para a sua justificação, basta
lhe dizer: Vede o que ensinam, o que recomendo e o que condeno;
ora, o que é que condeno? Todo ato contrário
à caridade, que é a lei ensinada pelo Cristo.
O Espiritismo não
está somente na crença na manifestação
dos Espíritos. O erro daqueles que o condenam é
crer que ele não consiste senão na produção
de fenômenos estranhos, e isso porque, não se
dando ao trabalho de estudá-lo, dele não vêem
senão a superfície. Esses fenômenos não
são estranhos senão para aqueles que não
lhe conhecem a causa; mas quem as aprofunda nelas não
vê senão os efeitos de uma lei, de uma força
da Natureza que não se conhecia, e que, por isso mesmo,
não são nem maravilhosos, nem sobrenaturais.
Esses fenômenos provando a existência dos Espíritos,
que não são outros senão as almas daqueles
que viveram, provam, consequentemente, a existência
da alma, a sua sobrevivência ao corpo, a vida futura
com todas as suas conseqüências morais. A fé
no futuro, encontrando-se assim apoiada sobre provas materiais,
torna-se inabalável, e triunfa da incredulidade. Eis
porque, quando o Espiritismo se tiver tornado a crença
de todos, não haverá mais nem incrédulos,
nem materialistas, nem ateus. Sua missão é a
de combater a incredulidade, a dúvida, a indiferença;
não se dirige, pois, àqueles que têm uma
fé, e a quem essa fé basta, mas àqueles
que não crêem em nada, ou que duvidam. Ele não
diz a ninguém para deixar a sua religião; respeita
todas as crenças quando elas são sinceras. A
liberdade de consciência, aos seus olhos, é um
direito sagrado; se não a respeitasse, faltaria ao
seu primeiro princípio que é a caridade. Neutro
entre todos os cultos, será o laço que os reunirá
sob uma mesma bandeira, a da fraternidade universal; um dia
se estenderão a mão, em lugar de se lançarem
anátemas.
Os fenômenos, longe
de serem a parte essencial do Espiritismo, dele não
é senão o acessório, um meio suscitado
por Deus para vencer a incredulidade que invade a sociedade;
é sobretudo na aplicação de seus princípios
morais. É nisso que se reconhecem os Espíritas
sinceros. Os exemplos de reforma moral provocados pelo Espiritismo
são já muito numerosos para que se possa julgar
os resultados que produzirá com o tempo. É preciso
que a sua força moralizadora seja bem grande para triunfar
dos atos inveterados pela idade, e da leviandade da juventude.
O efeito moralizador do
Espiritismo tem, pois, por causa primeira os fenômenos
das manifestações que deu a fé; se esses
fenômenos fossem uma ilusão, assim como os in-
crédulos o pretendem, seria preciso bendizer uma ilusão
que dá ao homem a força de vencer seus maus
pendores.
Mas se depois de dezoito
séculos se vêem ainda tantas pessoas que professam
o cristianismo e o praticam tão pouco, é espantoso
que, em menos de dez anos, todos aqueles que crêem no
Espiritismo não tenham dele tirado todo o proveito
desejável? Entre eles, há os que não
viram senão o fato material das manifestações,
os que a curiosidade foi mais excitada do que o coração,
que não foi tocado. Eis porque todos os Espíritas
não são perfeitos. Isso nada tem de surpreendente
em seu início, e se uma coisa deve admirar, é
o número das reformas que se operaram nesse curto intervalo.
Se o Espiritismo não triunfa sempre dos maus arrastamentos
de maneira completa, um resultado parcial não é
um menor progresso o qual deve ser levado em conta, e, como
cada um de nós tem seu lado fraco, isso deve nos tornar
indulgentes. O tempo e novas existências acabarão
o que foi começado; felizes aqueles que se pouparem
novas provas!
Hillaire pertence a essa
classe que o Espiritismo não fez, de alguma sorte,
senão aflorar; foi por isso que faliu. - A Providência
o havia dotado de uma notável faculdade, com a ajuda
da qual ele fez muito bem; poderia com ela fazer muito mais,
se não tivesse rompido sua missão por sua fraqueza.
Não podemos nem condená-lo nem absolvê-lo;
só a Deus pertence julgá-lo por não ter
realizado a sua tarefa até o fim. Possa a expiação
que sofre e um sério retorno sobre si mesmo merecer
a sua clemência!
Irmãos, estendamos-lhe
mão segura e oremos por ele.
Revista Espírita
Jornal de Estudos Psicológicos
publicada sob a direção de ALLAN KARDEC
Março 1865
topo
|