Prefácio
Em Janeiro de 1862, Allan Kardec publicou, na
"Revista Espírita", o seguinte comentário sobre
o livreto "O Espiritismo em Sua Expressão Mais Simples",
que acabava de editar:
"O objetivo desta publicação
é dar, num quadro muito sucinto, o histórico do Espiritismo
e uma idéia suficiente da Doutrina dos Espíritos, para
que se lhe possa compreender o objetivo moral e filosófico.
Pela clareza e pela simplicidade do estilo, procuramos pô-lo
ao alcance de todas as inteligências. Contamos com o zelo de
todos os verdadeiros Espíritas para ajudar a sua propagação.
- Allan Kardec"
Histórico do Espiritismo
Por volta de 1848, chamou-se
a atenção, nos Estados Unidos, para diversos fenômenos
estranhos que consistiam em ruídos, batidas e movimento de objetos
sem causa conhecida. Esses fenômenos aconteciam com freqüência,
espontaneamente, com uma intensidade e persistência singulares;
mas notou-se também que ocorriam particularmente sob a influência
de certas pessoas, às quais se deu o nome de médiuns,
que podiam de certa forma provocá-los à vontade, o que
permitiu repetir as experiências. Para isso usaram-se sobretudo
mesas; não que este objeto seja mais favorável que um
outro, mas somente porque ele é móvel, é mais cômodo,
e porque é mais fácil e natural sentar-se em volta de
uma mesa que de qualquer outro móvel. Obteve-se dessa forma a
rotação da mesa, depois movimentos em todos os sentidos,
saltos, reversões, flutuações, golpes dados com
violência, etc. O fenômeno foi designado, a princípio,
com o nome de mesas girantes ou dança das mesas.
Até então, o fenômeno podia explicar-se perfeitamente
por uma corrente elétrica ou magnética, ou pela ação
de um fluído desconhecido, e esta foi aliás a primeira
opinião formada. Mas não se demorou a reconhecer, nesses
fenômenos, efeitos inteligentes; assim, o movimento obedecia à
vontade; a mesa ia para a direita ou para a esquerda, em direção
a uma pessoa designada, ficava sobre um ou dois pés sob comando;
batia no chão o número de vezes pedido, batia regularmente,
etc. Ficou então evidente que a causa não era puramente
física e, a partir do axioma: Se todo efeito tem uma causa, todo
efeito inteligente deve ter uma causa inteligente, concluiu-se que a
causa desse fenômeno devia ser uma inteligência.
Qual era a natureza dessa inteligência? Era essa a questão.
A primeira idéia foi que podia ser um reflexo da inteligência
do médium ou dos assistentes, mas a experiência demonstrou
logo a impossibilidade disso, porque se obtiveram coisas completamente
fora do pensamento e dos conhecimentos das pessoas presentes, e até
em contradição com suas idéias, vontade e desejo;
ela só podia, então, pertencer a um ser invisível.
O meio de certificar-se era bem simples: bastava iniciar uma conversa
com essa entidade, o que foi feito por meio de um número convencional
de batidas significando sim ou não, ou designando as letras do
alfabeto; obtiveram-se, dessa forma; respostas para as diversas questões
que se lhe dirigiam. O fenômeno foi designado pelo nome de mesas
falantes. Todos os seres que se comunicaram dessa forma, interrogados
sobre sua natureza, declararam ser Espíritos e pertencer ao mundo
invisível. Como se tratava de efeitos produzidos em um grande
número de localidades, pela intervenção de pessoas
diferentes, e observados por homens muito sérios e esclarecidos,
não era possível que fossem um jogo de ilusão.
Da América esse fenômeno passou para a França e
o resto da Europa onde, por alguns anos, as mesas girantes e falantes
estiveram na moda e se tornaram o divertimento dos salões; depois,
quando as pessoas se cansaram, deixaram-nas de lado, em busca de outra
distração.
O fenômeno não demorou a apresentar-se sob um novo aspecto
que o fez sair do domínio da simples curiosidade. Os limites
deste resumo não nos permitem segui-lo em todas as suas fases;
assim passamos, sem transição, para o que ele oferece
de mais característico, para o que atraiu sobremaneira a atenção
das pessoas sérias.
Salientemos, antes, que a realidade do fenômeno encontrou numerosos
opositores; alguns, sem levar em conta a preocupação desinteressada
e a honradez dos experimentadores, só enxergaram uma fraude,
uma hábil sutileza. Os que não admitem nada fora da matéria,
que só acreditam no mundo visível, que acham que tudo
morre com o corpo, os materialistas, em resumo os que se qualificam
de espíritos fortes, repeliram a existência dos Espíritos
invisíveis para o campo das fábulas absurdas; tacharam
de loucos os que levavam a coisa a sério, e os cumularam de sarcasmos
e zombarias. Outros; não podendo negar os fatos, e sob o império
de certas idéias, atribuíram esses fenômenos à
influência exclusiva do diabo e procuraram, assim, assustar os
tímidos. Mas hoje o medo do diabo perdeu singularmente seu prestígio;
falaram tanto dele, pintaram-no de tantos modos, que as pessoas se familiarizaram
com essa idéia e muitos acharam que era preciso aproveitar a
ocasião para ver o que ele é realmente.
Resultou que, à parte de um pequeno número de mulheres
timoratas, o anúncio da chegada do verdadeiro diabo tinha algo
de picante para aqueles que só o tinham visto em quadros ou no
teatro; ele foi para muita gente um poderoso estimulante, de modo que
os que quiseram levantar, por esse meio, uma barreira às novas
idéias, agiram contra seu próprio objetivo e tornaram-se,
sem o querer, agentes propagadores tanto mais eficazes quanto mais forte
gritavam. Os outros críticos não tiveram sucesso maior
porque, aos fatos constatados, com raciocínios categóricos,
só puderam opor denegações. Leiam o que eles publicaram
e em toda parte encontrarão a prova da ignorância e a falta
de observação séria dos fatos; em nenhum lugar,
uma demonstração peremptória de sua impossibilidade.
Toda a argumentação deles resume-se assim: "Eu não
acredito, então não existe; todos os que acreditam são
loucos; somente nós temos o privilégio da razão
e do bom senso." O número dos adeptos feitos pela crítica
séria ou burlesca é incalculável, porque em todas
elas só se encontram opiniões pessoais, vazias de provas
em contrário. Continuemos com nossa exposição.
As comunicações por batidas eram lentas e incompletas;
verificou-se que, adaptando um lápis a um objeto móvel
(cesto, prancheta ou um outro, sobre os quais se colocavam os dedos),
esse objeto começava a movimentar-se e traçava sinais.
Mais tarde verificou-se que esses objetos eram tão-somente acessórios
que podiam ser dispensados; a experiência demonstrou que o Espírito,
que agia sobre um corpo inerte dirigindo-o à vontade, podia agir
da mesma forma sobre o braço ou a mão, conduzindo o lápis.
Tivemos então médiuns escritores, ou seja, pessoas que
escreviam de modo involuntário, sob o impulso dos Espíritos,
de que eram instrumentos e intérpretes. A partir daí,
as comunicações não tiveram mais limites, e a troca
de pensamentos pode-se fazer com tanta rapidez e desenvolvimento quanto
entre os vivos. Era um vasto campo aberto à exploração,
a descoberta de um mundo novo: o mundo dos invisíveis, assim
como o microscópio tinha desvendado o mundo dos infinitamente
pequenos.
Que são esses Espíritos? Que papel desempenham no Universo?
Com que propósito se comunicam com os mortais? Tais eram as primeiras
questões que se impunham resolver. Soube-se logo, por eles mesmos,
que não se trata de seres à parte na criação,
mas das próprias almas daqueles que viveram na Terra ou em outros
mundos; que essas almas, depois de terem despojado de seu envoltório
corporal, povoam e percorrem o espaço. Não houve mais
possibilidade de dúvidas quando se reconheceram, entre eles,
parentes e amigos, com quem se pôde conversar; quando estes vieram
dar prova de sua existência, demonstrar que a morte para eles
foi só do corpo, que sua alma ou Espírito continua a viver
que estão ali junto de nós, vendo-nos e observando-nos
como quando eram vivos, cercando de solicitude aqueles que amaram, e
cuja lembrança é para eles uma doce satisfação.
Geralmente fazemos dos Espíritos uma idéia completamente
falsa; eles não são, como muitos imaginam, seres abstratos,
vagos e indefinidos, nem algo como um clarão ou uma centelha;
são, ao contrário, seres muito reais, com sua individualidade
e uma forma determinada. Podemos ter uma idéia aproximada pela
explicação seguinte:
Há no homem três coisas essenciais:
1.o) a Alma ou Espírito, princípio inteligente em que
residem o pensamento, a vontade e o senso moral;
2.o) o corpo, envoltório material, pesado e grosseiro, que coloca
o Espírito em relação com o mundo exterior;
3.o) o perispírito, envoltório fluídico, leve,
que serve de laço e intermediário entre o Espírito
e o corpo. Quando o envoltório exterior está gasto e não
pode mais funcionar, ele cai e o Espírito despoja-se dele como
o fruto de sua casca, a árvore de sua crosta; em resumo, como
se abandona uma roupa velha que não serve mais; é a isso
que chamamos morte.
A morte, portanto, não
passa da destruição do grosseiro envoltório do
Espírito - só o corpo morre, o Espírito não.
Durante a vida o Espírito está de certa forma limitado
pelos laços da matéria a que está unido e que,
muitas vezes, paralisa suas faculdades; a morte do corpo desembaraça-o
de seus laços; ele se liberta e recupera sua liberdade, como
a borboleta saindo de sua crisálida. Mas ele só abandona
o corpo material; conserva o perispírito, que constitui para
ele uma espécie de corpo etéreo, vaporoso, imponderável
para nós e de forma humana, que parece ser a forma-tipo. Em seu
estado normal, o perispírito é invisível, mas o
Espírito pode fazer com que sofra certas modificações
que o tornam momentaneamente acessíveis à vista e até
ao contato, como acontece com o vapor condensado; é assim que
eles podem às vezes mostrar-se a nós em aparições.
É com a ajuda do perispírito que o Espírito age
sobre a matéria inerte e produz os diversos fenômenos de
ruído, de movimento, de escrita, etc.
As batidas e movimentos são, para os Espíritos, meios
de atestar sua presença e chamar para si a atenção,
exatamente como quando uma pessoa bate para avisar que há alguém.
Há os que não se limitam a ruídos moderados, mas
que chegam a fazer um alarido como de louça quebrando, de portas
que se abrem e se fecham, ou de móveis derrubados.
Através de batidas e movimentos combinados eles puderam exprimir
seus pensamentos, mas a escrita lhes oferece o meio completo, mais rápido
e mais cômodo; é o que eles preferem. Pela mesma razão
que podem formar caracteres, podem guiar a mão para traçar
desenhos, escrever música, executar uma peça em um instrumento,
em resumo, na falta do próprio corpo, que não têm
mais, usam o do médium para manifestar-se aos homens de uma maneira
sensível.
Os Espíritos podem ainda manifestar-se de várias maneiras,
entre outras pela visão e pela audição. Certas
pessoas, ditas médiuns auditivos, têm a faculdade de ouvi-los
e podem, assim, conversar com eles; outras os vêem - são
os médiuns videntes. Os Espíritos que se manifestam à
visão apresentam-se geralmente sob forma análoga à
que tinham quando vivos, porém vaporosa; outras vezes, essa forma
tem toda a aparência de um ser vivo, a ponto de iludir completamente,
tanto que algumas vezes foram tomados por criaturas de carne e osso,
com as quais se pôde conversar e trocar apertos de mãos,
sem se suspeitar que se tratava de Espíritos, a não ser
em razão de seu desaparecimento súbito.
A visão permanente e geral dos Espíritos é bem
rara, mas as aparições individuais são bastante
freqüentes, sobretudo no momento da morte; o Espírito liberto
parece ter pressa de rever seus parentes e amigos, como para avisá-los
que acaba de deixar a terra e dizer-lhes que continua vivendo.
Que cada um junte suas lembranças, e veremos quantos fatos autênticos
desse tipo, de que não nos apercebíamos, aconteceram não
só à noite, durante o sono, mas em pleno dia e no estado
mais completo de vigília. Outrora víamos esses fatos como
sobrenaturais e maravilhosos, e os atribuíamos à magia
e à feitiçaria; hoje, os incrédulos os atribuem
à imaginação; mas desde que a ciência espírita
nos deu a chave, sabemos como se produzem e que não saem da ordem
dos fenômenos naturais.
Acreditamos ainda que os Espíritos, só pelo fato de serem
Espíritos, devem ser donos da soberana ciência e da soberana
sabedoria: é um erro que a experiência não tardou
a demonstrar. Entre as comunicações feitas pelos Espíritos,
algumas são sublimes de profundidade, eloqüência,
sabedoria, moral, e só respiram bondade e benevolência;
mas, ao lado dessas, há aquelas muito vulgares, fúteis,
triviais, grosseiras até, pelas quais o Espírito revela
os mais perversos instintos. Fica então evidente que elas não
podem emanar da mesma fonte e que, se há bons Espíritos,
há, também, maus. Os Espíritos, não sendo
mais que as almas dos homens, naturalmente não podem tornar-se
perfeitos ao abandonar seu corpo; até que tenham progredido,
conservam as imperfeições da vida corpórea; é
por isso que os vemos em todos os graus de bondade e maldade, de saber
e ignorância.
Os Espíritos geralmente se comunicam com prazer, constituindo
para eles uma satisfação ver que não foram esquecidos;
descrevem de boa vontade suas impressões ao deixar a Terra, sua
nova situação, a natureza de suas alegrias e sofrimentos
no mundo em que se encontram. Uns são muito felizes, outros infelizes,
alguns até sofrem horríveis tormentos, segundo a maneira
como viveram e o emprego bom ou mau, útil ou inútil que
fizeram da vida. Observando-os em todas as fases de sua nova existência,
de acordo com a posição que ocuparam na terra, seu tipo
de morte, seu caráter e seus hábitos como homens, chegamos
a um conhecimento senão completo, pelo menos bastante preciso
do mundo invisível, para termos a explicação do
nosso estado futuro e pressentir o destino feliz ou infeliz que lá
nos espera.
As instruções dadas pelos Espíritos de categoria
elevada sobre todos os assuntos que interessam à humanidade,
as respostas que eles deram às questões que lhes foram
propostas, foram recolhidas e coordenadas com cuidado, constituindo
toda uma ciência, toda uma doutrina moral e filosófica,
sob o nome de Espiritismo. O Espiritismo é, pois, a doutrina
fundada na existência, nas manifestações e no ensinamento
dos Espíritos. Esta doutrina acha-se exposta de modo completo
em O Livro dos Espíritos, quanto à sua parte filosófica;
em O Livro dos Médiuns, quanto à parte prática
e experimental; e em O Evangelho segundo o Espiritismo, quanto à
parte moral. Podemos avaliar, pela análise que faremos abaixo
dessas obras, a variedade, a extensão e a importância dos
assuntos que a doutrina envolve.
Como vimos, o Espiritismo teve seu ponto de partida no fenômeno
vulgar das mesas girantes; mas como esses fatos falam mais aos olhos
que à inteligência, despertam mais curiosidade que sentimento,
satisfeita a curiosidade, fica-se menos interessado, na medida de nossa
falta de compreensão. A situação mudou quando a
teoria veio explicar a causa; sobretudo quando se viu que dessas mesas
girantes com as quais as pessoas se divertiram algum tempo, saia toda
uma doutrina moral que fala à alma, dissipando as angústias
da dúvida, satisfazendo a todas as aspirações deixadas
no vácuo por um ensinamento incompleto sobre o futuro da humanidade,
as pessoas sérias acolheram a nova doutrina como um benefício
e, a partir de então, longe de declinar, ela cresceu com incrível
rapidez. No espaço de alguns anos conseguiu adesões em
todos os países do mundo, sobretudo entre as pessoas esclarecidas,
inúmeros partidários que aumentam todos os dias em uma
proporção extraordinária, de tal forma que hoje
pode-se dizer que o Espiritismo conquistou direito de cidadania. Ele
está assentado em bases que desafiam os esforços de seus
adversários mais ou menos interessados em combatê-lo e
a prova é que os ataques e críticas não retardaram
sua marcha um só instante - este é um fato obtido da experiência,
cujo motivo os oponentes nunca puderam explicar; os espíritas
dizem simplesmente que, se ele se propaga apesar da crítica,
é que o acham bom e que se prefere seu modo de raciocinar ao
de seus contestadores.
O Espiritismo, entretanto, não é uma descoberta moderna;
os fatos e princípios sobre os quais ele repousa perdem-se na
noite dos tempos, pois encontramos seus vestígios nas crenças
de todos os povos, em todas as religiões, na maior parte dos
escritores sagrados e profanos; só que os fatos, não completamente
observados, foram muitas vezes interpretados segundo as idéias
supersticiosas da ignorância, e não foram deduzidas todas
as suas conseqüências.
Com efeito, o Espiritismo está fundado sobre a existência
dos Espíritos, mas os Espíritos não sendo mais
que as almas dos homens, desde que há homens, há Espíritos;
o Espiritismo nem os descobriu, nem os inventou. Se as almas ou Espíritos
podem manifestar-se aos vivos, é que isso é natural e,
portanto, eles devem tê-lo feito todo o tempo; assim, em qualquer
época e qualquer lugar encontramos a prova dessas manifestações
abundantes, sobretudo nos relatos bíblicos.
O que é moderno é a explicação lógica
dos fatos, o conhecimento mais completo da natureza dos Espíritos,
de seu papel e seu modo de ação, a revelação
de nosso estado futuro, enfim, sua constituição em corpo
de ciência e de doutrina e suas diversas aplicações.
Os Antigos conheciam o princípio, os Modernos conhecem os detalhes.
Na Antigüidade, o estudo desses fenômenos constituía
o privilégio de certas castas que só os revelavam aos
iniciados em seus mistérios; na Idade Média, os que se
ocupavam ostensivamente com isso eram tidos como feiticeiros e, por
isso, queimados; mas hoje não há mistérios para
ninguém, não se queima mais ninguém; tudo se passa
claramente e todo mundo pode esclarecer-se e praticá-lo, pois
há médiuns em toda parte.
A própria doutrina que os espíritos ensinam hoje não
tem nada de novo; é encontrada em fragmentos na maior parte dos
filósofos da Índia, do Egito e da Grécia, e inteira
no ensinamento de Cristo. Então o que vem fazer o Espiritismo?
Vem confirmar novos testemunhos, demonstrar, por fatos, verdades desconhecidas
ou mal compreendidas, restabelecer em seu verdadeiro sentido as que
foram mal interpretadas.
O Espiritismo não ensina nada de novo, é verdade; mas
não é nada provar de modo patente, irrecusável,
a existência da alma, sua sobrevivência ao corpo, sua individualidade
depois da morte, sua imortalidade, as penas e recompensas futuras? Quanta
gente acredita nessas coisas, mas acredita com um vago pensamento dissimulado
de incerteza, e diz em seu foro íntimo: "E se não
fosse assim?" Quantos não foram levados à incredulidade
porque lhes apresentaram o futuro sob um aspecto que sua razão
não podia admitir? Então, não é nada que
o crente vacilante possa dizer: "Agora tenho certeza!", que
o cego reveja a luz? Pelos fatos e por sua lógica, o Espiritismo
vem dissipar a ansiedade da dúvida e trazer de volta à
fé aquele que dela se afastou; revelando-nos a existência
do mundo invisível que nos rodeia, e no meio do qual vivemos
sem suspeitar, ele nos dá a conhecer, pelo exemplo dos que viveram,
as condições de nossa felicidade ou infelicidade futura;
ele nos explica a causa de nossos sofrimentos aqui na terra e o meio
de amenizá-los. Sua propagação terá por
efeito inevitável a destruição das doutrinas materialistas,
que não podem resistir à evidência. O homem, convencido
da grandeza e da importância de sua existência futura, que
é eterna, compara-a com a incerteza da vida terrestre, que é
tão curta, e eleva-se, pelo pensamento, acima das mesquinhas
considerações humanas; conhecendo a causa e o propósito
de suas misérias, ele as suporta com paciência e resignação,
porque sabe que elas são um meio de chegar a um estado melhor.
O exemplo daqueles que vêm do além-túmulo descrever
suas alegrias e dores, provando a realidade da vida futura, prova ao
mesmo tempo que a justiça de Deus não deixa nenhum vício
sem punição e nenhuma virtude sem recompensa. Acrescentemos,
finalmente, que as comunicações com os seres queridos
que perdemos acarretam uma doce consolação, provando não
só que eles existem, mas que estamos menos separados deles que
se estivessem vivos num país estrangeiro.
Em resumo, o Espiritismo suaviza a amargura das tristezas da vida; acalma
os desesperos e as agitações da alma, dissipa as incertezas
ou os terrores do futuro, elimina o pensamento de abreviar a vida pelo
suicídio; da mesma forma torna felizes os que aderem a ele, e
está aí o grande segredo de sua rápida propagação.
Do ponto de vista religioso, o Espiritismo tem por base as verdades
fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma, a imortalidade,
as penas e as recompensas futuras; mas é independente de qualquer
culto particular. Seu propósito é provar, aos que negam
ou duvidam que a alma existe, que ela sobrevive ao corpo, que ela sofre
depois da morte as conseqüências ao bem e do mal que fez
durante a vida corpórea; ora, isto é de todas as religiões.
Como crença nos espíritos, também não se
afasta de qualquer religião, ou de qualquer povo, porque em todo
lugar onde há homens há almas ou espíritos; que
as manifestações são de todos os tempos, e o relato
delas acha-se em todas as religiões, sem exceção.
Pode-se, portanto, ser católico, grego ou romano, protestante,
judeu ou muçulmano, e acreditar nas manifestações
dos espíritos, e conseqüentemente ser Espírita; a
prova é que o Espiritismo tem aderentes em todas as seitas.
Como moral, ele é essencialmente cristão, porque a doutrina
que ensina é tão-somente o desenvolvimento e a aplicação
da do Cristo, a mais pura de todas, cuja superioridade não é
contestada por ninguém, prova evidente de que é a lei
de Deus; ora, a moral está a serviço de todo mundo.
O Espiritismo, sendo independente de qualquer forma de culto, não
prescrevendo nenhum deles, não se ocupando de dogmas particulares,
não é uma religião especial, pois não tem
nem seus padres nem seus templos. Aos que indagam se fazem bem em seguir
esta ou aquela prática, ele responde: Se sua consciência
pede para fazê-lo, faça-o; Deus sempre leva em conta a
intenção. Em resumo, ele não se impõe a
ninguém; não se destina àqueles que têm fé
ou àqueles a quem essa fé basta, mas à numerosa
categoria dos inseguros e dos incrédulos; ele não os tira
da Igreja, visto que eles se separaram dela moralmente em tudo, ou em
parte; ele os faz percorrer os três quartos do caminho para entrar
nela; cabe a ela fazer o resto.
O Espiritismo combate, é verdade, certas crenças como
a eternidade das penas, o fogo material do inferno, a personalidade
do diabo, etc.; mas não é certo que essas crenças,
impostas como absolutas, sempre fizeram incrédulos e continuam
a fazê-los? Se o Espiritismo, dando desses dogmas e de alguns
outros uma interpretação racional, devolve à fé
aqueles que dela desertaram não está prestando serviço
à religião? Assim, um venerável eclesiástico
dizia a esse respeito: "O Espiritismo faz acreditar em alguma coisa;
ora, é melhor acreditar em alguma coisa que não acreditar
em absolutamente nada."
Os Espíritos não sendo senão almas, não
se pode negar os Espíritos sem negar a alma. Sendo admitidas
as almas ou Espíritos, a questão reduzida à sua
mais simples expressão é esta: As almas dos que morreram
podem comunicar-se com os vivos? O Espiritismo prova a afirmativa pelos
fatos materiais; que prova se pode dar de que isso não é
possível? Se assim é, todas as negações
do mundo não impedirão que assim seja, pois não
se trata nem de um sistema, nem de uma teoria, mas de uma lei da natureza;
ora, contra as leis da natureza, a vontade do homem é impotente;
é preciso, querendo ou não, aceitar suas conseqüências,
e adequar suas crenças e seus hábitos.
Resumo do ensinamento dos Espíritos
1. Deus é a inteligência suprema, causa
primeira de todas as coisas.
Deus é eterno, único, imaterial, imutável, Todo-Poderoso,
soberanamente justo e bom. Deve ser infinito em todas as suas perfeições,
pois se supuséssemos um único de seus atributos imperfeito,
ele não seria mais Deus.
2. Deus criou a matéria que constitui os mundos; também
criou seres inteligentes que chamamos de Espíritos, encarregados
de administrar os mundos materiais segundo as leis imutáveis
da criação, e que são perfectíveis por sua
natureza. Aperfeiçoando-se, eles se aproximam da Divindade.
3. O espírito propriamente dito é o princípio inteligente;
sua natureza íntima nos é desconhecida; para nós
ele é imaterial, porque não tem nenhuma analogia com o
que chamamos matéria.
4. Os Espíritos são seres individuais; têm um envoltório
etéreo, imponderável, chamado perispírito, espécie
de corpo fluídico, semelhante à forma humana. Povoam os
espaços, que percorrem com a rapidez do raio, e constituem o
mundo invisível.
5. A origem e o modo de criação dos Espíritos nos
são desconhecidos; só sabemos que são criados simples
e ignorantes, quer dizer, sem ciência e sem conhecimento do bem
e do mal, mas com igual aptidão para tudo, pois Deus, em sua
justiça, não podia isentar uns do trabalho que teria imposto
aos outros para chegar à perfeição. No princípio,
ficam em uma espécie de infância, sem vontade própria
e sem consciência perfeita de sua existência.
6. Desenvolvendo-se o livre arbítrio nos Espíritos ao
mesmo tempo que as idéias, Deus lhes diz: "Vocês podem
aspirar à felicidade suprema, assim que tiverem adquirido os
conhecimentos que lhes faltam e cumprido a tarefa que lhes imponho.
Então trabalhem para seu engrandecimento; este é o objetivo;
irão atingi-lo seguindo as leis que gravei em sua consciência."
Em conseqüência de seu livre arbítrio, uns tomam o
caminho mais curto, que é o do bem, outros o mais longo, que
é o do mal.
7. Deus não criou o mal; estabeleceu leis, e essas leis são
sempre boas, porque ele é soberanamente bom; aquele que as observasse
fielmente seria perfeitamente feliz; mas os Espíritos, tendo
seu livre arbítrio, nem sempre as observaram, e o mal veio de
sua desobediência. Pode-se então dizer que o bem é
tudo o que é conforme à lei de Deus e o mal tudo o que
é contrário a essa mesma lei.
8. Para cooperar, como agentes do poder divino, com a obra dos mundos
materiais, os Espíritos revestem-se temporariamente de um corpo
material. Pelo trabalho de que sua existência corpórea
necessita, eles aperfeiçoam sua inteligência e adquirem,
observando a lei de Deus, os méritos que devem conduzi-los à
felicidade eterna.
9. A encarnação não foi imposta ao Espírito,
no princípio, como uma punição; ela é necessária
ao seu desenvolvimento e para a realização das obras de
Deus, e todos devem resignar-se a ela, tomem o caminho do bem ou do
mal; só que os que seguem o caminho do bem, avançando
mais rapidamente, demoram menos a chegar ao fim e lá chegam em
condições menos penosas.
10. Os Espíritos encarnados constituem a humanidade, que não
está circunscrita à Terra, mas que povoa todos os mundos
disseminados pelo espaço.
11. A alma do homem é um Espírito encarnado. Para auxiliá-lo
no cumprimento de sua tarefa; Deus lhe deu, como auxiliares, os animais;
que lhe são submissos e cuja inteligência e caráter
são proporcionais às suas necessidades.
12. O aperfeiçoamento do Espírito é o fruto de
seu próprio trabalho; não podendo, em uma única
existência corpórea, adquirir todas as qualidades morais
e intelectuais que devem conduzi-lo ao objetivo, ele aí chega
por uma sucessão de existências, dando em cada uma delas
alguns passos adiante no caminho do progresso.
13. Em cada existência corpórea o Espírito deve
cumprir uma missão proporcional a seu desenvolvimento; quanto
mais ela for rude e laboriosa, maior seu mérito em cumpri-la.
Cada existência é, assim, uma prova que o aproxima do alvo.
O número de suas existências é indeterminado. Depende
da vontade do Espírito de abreviá-las, trabalhando ativamente
em seu aperfeiçoamento moral; assim como depende da vontade do
operário que tem de realizar um trabalho abreviar o número
de dias para sua execução.
14. Quando uma existência foi mal empregada, não aproveitou
o Espírito, que deve recomeçá-la em condições
mais ou menos penosas, em razão de sua negligência e de
sua má vontade; assim é que, na vida, podemos ser obrigados
a fazer no dia seguinte o que não fizemos no anterior, ou a refazer
o que fizemos mal.
15. A vida espiritual é a vida normal do Espírito: ela
é eterna; a vida corpórea é transitória
e passageira: é apenas um instante na eternidade.
16. No intervalo de suas existências corpóreas, o Espírito
é errante. Não por duração determinada;
nesse estado o espírito é feliz ou infeliz de acordo com
o bom ou mau emprego de sua última existência; ele estuda
as causas que apressaram ou retardaram seu desenvolvimento; toma resoluções
que tentará pôr em prática na próxima encarnação
e escolhe, ele mesmo, as provas que considera mais adequadas ao seu
progresso; mas algumas vezes ele se engana, ou sucumbe não mantendo
como homem as resoluções que tomou como Espírito.
17. O Espírito culpado é punido pelos sofrimentos morais
no mundo dos Espíritos, e pelas penas físicas na vida
corpórea. Suas aflições são conseqüências
de suas faltas, quer dizer, de sua infração à lei
de Deus; de modo que constituem simultaneamente uma expiação
do passado e uma prova para o futuro é assim que o orgulhoso
pode ter uma existência de humilhação, o tirano
uma vida de servidão; o rico mau uma encarnação
de miséria.
18. Há mundos apropriados aos diferentes graus de avanço
dos Espíritos, onde a existência corpórea acha-se
em condições muito diferentes. Quanto menos o Espírito
é adiantado, mais os corpos de que se reveste são pesados
e materiais; à medida em que se purifica, passa para mundos superiores
moral e fisicamente. A Terra não é o primeiro nem o último,
mas um dos mundos mais atrasados.
19. Os Espíritos culpados são encarnados em mundos menos
adiantados, onde expiam suas faltas pelas tribulações
da vida material. Esses mundos são para eles verdadeiros purgatórios,
dos quais depende deles sair, trabalhando em seu progresso moral. A
Terra é um desses mundos.
20. Deus, sendo soberanamente justo e bom, não condena suas criaturas
a castigos perpétuos pelas faltas temporárias; oferece-lhes
em qualquer ocasião meios de progredir e reparar a mal que elas
praticaram. Deus perdoa, mas exige o arrependimento, a reparação
e o retorno ao bem, de modo que a duração do castigo é
proporcional à persistência do Espírito no mal;
conseqüentemente, o castigo seria eterno para aquele que permanecesse
eternamente na mau caminho, mas, assim que um sinal de arrependimento
entra no coração do culpado, Deus estende sobre ele sua
misericórdia. A eternidade das penas deve assim ser entendida
no sentido relativo, e não no sentido absoluto.
21. Os Espíritos, encarnando-se, trazem com eles o que adquiriram
em suas existências precedentes; é a razão por que
os homens mostram instintivamente aptidões especiais; inclinações
boas ou más que lhes parecem inatas.
As más inclinações naturais são os vestígios
das imperfeições do Espírito, dos quais ele não
se despojou inteiramente; são também os indícios
das faltas que ele cometeu, e o verdadeiro pecado original. A cada existência
ele deve lavar-se de algumas impurezas.
22. O esquecimento das existências anteriores é uma graça
de Deus que, em sua bondade, quis poupar ao homem lembranças
freqüentemente penosas. Em cada nova existência, o homem
é o que ele fez de si mesmo; é para ele um novo ponto
de partida - ele conhece seus defeitos atuais, sabe que esses defeitos
são a conseqüência dos que tinha, tira conclusões
do mal que pôde ter cometido, e isso lhe basta para trabalhar,
corrigindo-se. Se tinha outrora defeitos que não tem mais, não
tem mais que preocupar-se com eles; bastam-lhe as imperfeições
presentes.
23. Se a alma ainda não existiu, é que foi criada ao mesmo
tempo que o corpo; nessa suposição, ela não pode
ter nenhuma relação com as que a precederam. Pergunta-se,
então, como Deus, que é soberanamente justo e bom, pode
tê-la feito responsável pelo erro do pai do gênero
humano, maculando-a com um pecado original que ela não cometeu.
Dizendo, ao contrário, que ela traz ao renascer o germe das imperfeições
de suas existências anteriores, que ela sofre na existência
atual as conseqüências de suas faltas passadas, dá-se
do pecado original uma explicação lógica que todos
podem compreender e admitir, porque a alma só é responsável
por suas próprias obras.
24. A diversidade das aptidões inatas, morais e intelectuais,
é a prova de que a alma já viveu; se tivesse sido criada
ao mesmo tempo que o corpo atual, não estaria de acordo com a
bondade de Deus ter feito umas mais avançadas que as outras.
Por que selvagens e homens civilizados, bons e maus; tolos e brilhantes?
Dizendo-se que uns viveram mais que os outros e mais adquiriram, tudo
se explica.
25. Se a existência atual fosse única e devesse decidir
sozinha sobre o futuro da alma para a eternidade, qual seria o destino
das crianças que morrem em tenra idade? Não tendo feito
nem bem nem mal, elas não merecem nem recompensas nem punições.
Segundo a palavra do Cristo, sendo cada um recompensado segundo suas
obras, elas não têm direito à felicidade perfeita
dos anjos, nem merecem ser dela privadas. Diga-se que poderão,
em uma outra existência, realizar o que não puderam naquela
que foi abreviada, e não há mais exceções.
26. Pelo mesmo motivo, qual seria a sorte dos cretinos, idiotas? Não
tendo nenhuma consciência do bem e do mal, não têm
nenhuma responsabilidade por seus atos. Deus seria justo e bom tendo
criado almas estúpidas para destiná-las a uma existência
miserável e sem compensações? Admita-se, pelo contrário,
que a alma do idiota e do cretino é um Espírito em punição
dentro de um corpo impróprio para exprimir seu pensamento, onde
ele é como um homem fortemente aprisionado por laços,
e não se terá mais nada que não seja conforme com
a justiça de Deus.
27. Em suas encarnações sucessivas, o Espírito,
sendo pouco a pouco despojado de suas impurezas e aperfeiçoado
pelo trabalho, chega ao termo de suas existências corpóreas;
pertence então à ordem dos Espíritos puros ou dos
anjos, e goza simultaneamente da vida completa de Deus e de uma felicidade
imperturbável pela eternidade.
28. Estando os homens em expiação na terra, Deus, como
bom pai, não os entregou a si mesmos sem guias. Eles têm
primeiro seus Espíritos protetores ou anjos guardiães,
que velam por eles e se esforçam para conduzi-los ao bom caminho;
têm ainda os Espíritos em missão na terra, Espíritos
superiores encarnados de quando em quando entre eles para lhes iluminar
o caminho através de seus trabalhos e fazer a humanidade avançar.
Se bem que Deus tenha gravado sua lei na consciência, ele achou
que devia formulá-la de maneira explícita; mandou primeiro
Moisés, mas as leis de Moisés estavam ajustadas aos homens
de seu tempo; ele só lhes falou da vida terrestre, de penas e
de recompensas temporais. O Cristo veio depois completar a lei de Moisés
através de um ensinamento mais elevado: a pluralidade das existências,
a vida espiritual, mas as penas e as recompensas morais. Moisés
os conduziu pelo medo, o Cristo pelo amor e pela caridade.
29. O Espiritismo, mais bem entendido hoje, acrescenta, para os incrédulos
a evidência à teoria; prova o futuro com fatos patentes;
diz em termos claros e sem equívoco o que o Cristo disse em parábolas;
explica as verdades desconhecidas ou falsamente interpretadas; revela
a existência do mundo invisível ou dos Espíritos,
e inicia o homem nos mistérios da vida futura; vem combater o
materialismo, que é uma revolta contra o poder de Deus; vem enfim
estabelecer entre os homens o reino da caridade e da solidariedade anunciado
pelo Cristo. Moisés lavrou, o Cristo semeou, o Espiritismo vem
colher.
30. O Espiritismo não é uma luz nova, mas uma luz mais
brilhante, porque surgiu de todos os pontos do globo através
daqueles que viveram. Tornando evidente o que era obscuro, põe
fim às interpretações errôneas, e deve unir
os homens em uma mesma crença, porque não há senão
um Deus, e suas leis são as mesmas para todos; ele marca enfim
a era dos tempos preditos pelo Cristo e pelos profetas.
31. Os males que afligem os homens na terra têm como causa o orgulho,
o egoísmo e todas as más paixões. Pelo contato
de seus vícios, os homens tornam-se reciprocamente infelizes
e punem-se uns aos outros. Que a caridade e a humildade substituam o
egoísmo e o orgulho, então eles não quererão
mais prejudicar-se; respeitarão os direitos de cada um e farão
reinar entre eles a concórdia e a justiça.
32. Mas como destruir o egoísmo e o orgulho, que parecem inatos
no coração do homem? - O egoísmo e o orgulho estão
no coração do homem, porque os homens são espíritos
que seguiram desde o princípio o caminho do mal, e que foram
exilados na terra como punição desses mesmos vícios;
é o seu pecado original, de que muitos não se despojaram.
Através do Espiritismo, Deus vem fazer um último apelo
para a prática da lei ensinada pelo Cristo: a lei de amor e de
caridade.
33. Tendo a terra chegado ao tempo marcado para tornar-se uma morada
de felicidade e de paz, Deus não quer que os maus Espíritos
encarnados continuem a trazer para ela a perturbação,
em prejuízo dos bons; é por isso que eles deverão
deixá-la: Irão expiar seu empedernimento em mundos menos
evoluídos; onde trabalharão de novo para seu aperfeiçoamento
em uma série de existências mais infelizes e mais penosas
ainda que na terra.
Eles formarão nesses mundos uma nova raça mais esclarecida,
cuja tarefa será levar o progresso aos seres atrasados que neles
habitam, pelos conhecimentos que já adquiriram. Só sairão
para um mundo melhor quando tiverem merecido, e assim por diante, até
que tenham atingido a purificação completa: Se a terra
era para eles um purgatório, esses mundos serão seu inferno,
mas um inferno de onde a esperança nunca está banida.
34. Enquanto a geração proscrita vai desaparecer rapidamente;
surge uma nova geração, cujas crenças serão
fundadas no Espiritismo cristão. Nós assistimos à
transição que se opera, prelúdio da renovação
moral cuja chegada o Espiritismo marca.
Máximas extraídas do ensinamento dos espíritos
35. O objetivo essencial do Espiritismo é
o melhoramento dos homens. Não é preciso procurar nele
senão o que pode ajudá-lo para o progresso moral e intelectual.
36. O verdadeiro Espírita não é o que crê
nas manifestações, mas aquele que faz bom proveito do
ensinamento dado pelos Espíritos. Nada adianta acreditar se a
crença não faz com que se dê um passo adiante no
caminho do progresso e que não o faça melhor para com
o próximo.
37. O egoísmo, o orgulho, a vaidade, a ambição,
a cupidez, o ódio, a inveja, o ciúme, a maledicência
são para a alma ervas venenosas das quais é preciso a
cada dia arrancar algumas hastes, e que têm como contraveneno:
a caridade e a humildade.
38. A crença no Espiritismo só é proveitosa para
aquele de quem se pode dizer: hoje está melhor do que ontem.
39. A importância que o homem atribui aos bens temporais está
na razão inversa de sua fé na vida espiritual; é
a dúvida sobre o futuro que o leva a procurar suas alegrias neste
mundo, satisfazendo suas paixões, ainda que às custas
do próximo.
40. As aflições na terra são os remédios
da alma; elas salvam para o futuro, como uma operação
cirúrgica dolorosa salva a vida de um doente e lhe devolve a
saúde. É por isso que o Cristo disse: "Bem-aventurados
os aflitos, pois eles serão consolados."
41. Nas suas aflições, olhe abaixo de você e não
acima; pense naqueles que sofrem ainda mais que você.
42. O desespero é natural para aquele que crê que tudo
acaba com a vida do corpo; é um contra-senso para aquele que
tem fé no futuro.
43. O homem é muitas vezes o artesão de sua própria
infelicidade neste mundo; se ele voltar à fonte de seus infortúnios,
verá que a maior parte deles são o resultado de sua imprevidência,
de seu orgulho e avidez, conseqüentemente, de sua infração
às leis de Deus.
44. A prece é um ato de adoração. Orar a Deus é
pensar Nele; é aproximar-se Dele; é pôr-se em comunicação
com Ele.
45. Aquele que ora com fervor e confiança é mais forte
contra as tentações do mal, e Deus envia-lhe bons Espíritos
para assisti-lo. É um auxílio que nunca é recusado,
quando é pedido com sinceridade.
46. O essencial não é orar muito, mas orar bem. Certas
pessoas crêem que todo o mérito está na extensão
da prece, enquanto fecham os olhos para seus próprios defeitos.
A prece é para eles uma ocupação, um emprego do
tempo, mas não uma análise de si mesmos.
47. Aquele que pede a Deus o perdão de seus erros não
o obtém senão mudando de conduta. As boas ações
são a melhor das preces, pois os atos valem mais que as palavras.
48. A prece é recomendada por todos os bons Espíritos;
é, além disso, pedida por todos os Espíritas imperfeitos
como um meio de tornar mais leves seus sofrimentos.
49. A prece não pode mudar os desígnios da Providência;
mas, vendo que há interesse por eles, os Espíritos sofredores
se sentem menos desamparados; tornam-se menos infelizes; ela exalta
sua coragem, estimula neles o desejo de elevar-se pelo arrependimento
e reparação, e pode desviá-los do pensamento do
mal. É nesse sentido que ela pode não só aliviar,
mas abreviar seus sofrimentos.
50. Cada um ore segundo suas convicções e o modo que acredita
mais conveniente, pois a forma não é nada, o pensamento
é tudo; a sinceridade e a pureza de intenção é
o essencial; um bom pensamento vale mais que numerosas palavras, que
se assemelham ao barulho de um moinho e onde o coração
não está.
51. Deus fez homens fortes e poderosos para que fossem sustentáculos
dos fracos; o forte que oprime o fraco é advertido por Deus;
em geral ele recebe o castigo nesta vida, sem prejuízo do futuro.
52. A fortuna é um depósito cujo possuidor é tão-somente
o usufrutuário, já que não a leva com ele para
o túmulo; ele prestará rigorosas contas do emprego que
fez dela.
53. A fortuna é uma prova mais arriscada que a miséria,
porque é uma tentação para o abuso e os excessos,
e porque é mais difícil ser moderado que ser resignado.
54. O ambicioso que triunfa e o rico que se sustenta de prazeres materiais
são mais de se lamentar que de se invejar, pois é preciso
ter em conta o retorno. O Espiritismo, pelos terríveis exemplos
dos que viveram e que vêm revelar sua sorte, mostra a verdade
desta afirmação do Cristo: "Aquele que se orgulha
será humilhado e aquele que se humilha será elevado."
55. A caridade é a lei suprema do Cristo: "Amem-se uns aos
outros como irmãos; - ame seu próximo como a si mesmo;
perdoe seus inimigos; - não faça a outrem o que não
gostaria que lhe fizessem"; tudo isso se resume na palavra caridade.
56. A caridade não está só na esmola pois há
a caridade em pensamentos, em palavras e em ações. Aquele
caridoso em pensamentos, é indulgente para com as faltas do próximo;
caridoso em palavras, não diz nada que possa prejudicar seu próximo;
caridoso em ações, assiste seu próximo na medida
de suas forças.
57. O pobre que divide seu pedaço de pão com um mais pobre
que ele é mais caridoso e tem mais mérito aos olhos de
Deus que o que dá o que lhe é superfluo, sem se privar
de nada.
58. Aquele que nutre contra seu próximo sentimentos de animosidade,
ódio, ciúme e rancor, falta à caridade; ele mente,
se se diz cristão, e ofende a Deus.
59. Homens de todas as castas, de todas as seitas e de todas as cores,
vocês são todos irmãos, pois Deus os chama a todos
para ele; estendam-se pois as mãos, qualquer que seja sua maneira
de adorá-lo, e não atirem o anátema, pois o anátema
é a violação da lei de caridade proclamada pelo
Cristo.
60. Com o egoísmo, os homens estão em luta perpétua;
com a caridade, estarão em paz. A caridade, constituindo a base
de suas instituições, pode assim, por si só, garantir
a felicidade deles neste mundo; segundo as palavras do Cristo, só
ela pode também garantir sua felicidade futura, pois encerra
implicitamente todas as virtudes que podem levá-los à
perfeição. Com a verdadeira caridade, tal como a ensinou
e praticou o Cristo, não mais o egoísmo, o orgulho, o
ódio, a inveja, a maledicência; não mais o apego
desordenado aos bens deste mundo. É por isso que o Espiritismo
cristão tem como máxima: FORA DA CARIDADE NÃO
HÁ SALVAÇÃO.
Incrédulos! Podeis rir dos Espíritos, zombar daqueles
que crêem em suas manifestações; ride, pois, se
ousardes, desta máxima que eles acabaram de professar e que é
sua própria salvaguarda, pois se a caridade desaparecesse da
terra, os homens se entredilacerariam, e talvez vocês fossem as
primeiras vítimas. Não está longe o tempo
em que esta máxima, proclamada abertamente em nome dos Espíritos,
será uma garantia de segurança e um título à
confiança, naqueles que a trouxerem gravada no coração.
Um Espírito disse: "Zombaram das mesas
girantes; não zombarão nunca da filosofia e da moral que
daí decorreram". É que, com efeito, hoje estamos
longe, depois de alguns anos apenas, desses primeiros fenômenos
que serviram, por um instante, de distração para os ociosos
e os curiosos. Esta moral, vocês dizem; está caduca: "Os
Espíritos deviam ter espírito bastante para nos dar algo
de novo." (Frase espirituosa de mais de um crítico). Tanto
melhor! se ela está caduca; isso prova que ela é
de todos os tempos, e os homens são apenas mais culpados por
não tê-la praticado, pois não há verdadeiras
verdades senão as que são eternas. O Espiritismo
vem lembrá-la, não por uma revelação isolada
feita a um único homem, mas pela voz dos próprios Espíritos
que, como uma trombeta final, vêm proclamar: "Creiam
que aqueles que vocês chamam de mortos estão mais vivos
que vocês, pois eles vêem o que vocês não vêem,
e ouvem o que vocês não ouvem; reconhecei, naqueles
que lhes vêm falar, seus parentes, seus amigos, e todos aqueles
que vocês amaram na terra e que acreditavam perdidos irremediavelmente;
infelizes aqueles que crêem que tudo acaba com o corpo, pois serão
cruelmente desenganados, infelizes daqueles a que terá faltado
caridade, pois sofrerão o que tiverem feito os outros sofrer!
Escutai a voz daqueles que sofrem e que lhes vêm dizer: "Nós
sofremos por não ter reconhecido o poder de Deus e duvidado de
sua misericórdia infinita; sofremos por nosso orgulho, nosso
egoísmo, nossa avareza e por todas as más paixões
que não soubemos reprimir; sofremos por todo o mal que fizemos
ao nosso semelhante, pelo esquecimento da caridade".
Incrédulos! Dizei se uma doutrina que ensina tais coisas é
digna de risos, se ela é boa ou má! Vendo-a tão
somente do ponto de vista da ordem social, dizei se os homens que a
praticam seriam felizes ou infelizes; melhores ou piores!
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