REVISTA ESPÍRITA
Jornal de Estudos Psicológicos
ANO I AGOSTO DE 1858 Nº 8
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As contradições encontradas
muito freqüentemente na linguagem dos Espíritos, mesmo sobre
questões essenciais, foram, até hoje, para certas pessoas,
uma causa de incerteza quanto ao valor real de suas comunicações,
circunstância da qual não deixaram os adversários
de tirar partido. Com efeito, à primeira vista essas contradições
parecem ser uma das principais pedras de tropeço da ciência
espírita. Vejamos se elas têm a importância que lhes
atribuem.
Perguntaremos, em primeiro lugar, qual a ciência que não
apresentou, em seus primórdios, semelhantes anomalias? Em suas
investigações, que sábio não foi muitas
vezes confundido por fatos que pareciam lançar por terra as regras
estabelecidas? Se a Botânica, a Zoologia, a Fisiologia, a Medicina
e nossa própria língua não nos oferecem milhares
de exemplos e se suas bases não desafiam toda contradição?
É comparando os fatos, observando as analogias e as dessemelhanças
que se chega, pouco a pouco, a estabelecer as regras, as classificações,
os princípios: numa palavra, a constituir a Ciência. Ora,
o Espiritismo apenas começa a despontar; não é,
pois, de admirar que se submeta à lei comum, até que seu
estudo esteja completo. Só então se reconhecerá
que aqui, como em todas as coisas, a exceção quase sempre
vem confirmar a regra.
Não obstante, em todos as épocas os Espíritos nos
têm dito para não nos inquietarmos com essas pequenas divergências
e que, dentro de pouco tempo, todos seriam levados à unidade
de crença. Essa predição por certo se realiza a
cada dia, à medida que se penetra mais adiante nas causas desses
fenômenos misteriosos e os fatos são mais bem observados.
Já as dissidências que se manifestaram na origem tendem
evidentemente a enfraquecer-se; pode-se mesmo dizer que resultam, agora,
apenas de opiniões pessoais isoladas.
Se bem esteja o Espiritismo em a Natureza, e tenha sido conhecido e
praticado desde a mais remota Antigüidade, é fato notório
que em nenhuma outra época foi tão universalmente espalhado
quanto hoje. É que outrora faziam dele um estudo misterioso,
ao qual o vulgo não era iniciado; conservou-se por uma tradição,
que as vicissitudes da Humanidade e a ausência dos meios de transmissão
enfraqueceram insensivelmente. Os fenômenos espontâneos,
que vez por outra jamais deixaram de produzir-se, passaram despercebidos
ou foram interpretados segundo os preconceitos ou a ignorância
da época ou, ainda, explorados em proveito dessa ou daquela crença.
Estava reservado ao nosso século, onde o progresso recebe um
impulso incessante, tornar clara uma ciência que, por assim dizer,
somente existia em estado latente. Não foi senão há
poucos anos que os fenômenos foram observados seriamente. Na realidade
o Espiritismo é uma ciência nova que se implanta pouco
a pouco no espírito das massas, esperando ocupar uma posição
oficial. De início essa ciência pareceu bem simples; para
as pessoas superficiais, consistia na arte de fazer girar as mesas;
contudo, por suas ramificações e conseqüências,
uma observação mais atenta revelou que era, ao contrário,
muito mais complexa do que se havia suspeitado. As mesas girantes são
como a maçã de Newton que, na sua queda, encerra o sistema
do mundo.
Aconteceu com o Espiritismo o que de início acontece com todas
as coisas: os primeiros não puderam ver tudo; cada um viu por
seu lado e se apressou a transmitir suas impressões conforme
seu ponto de vista e segundo suas idéias ou prevenções.
Ora, não é sabido que, de acordo com o meio, o mesmo objeto
a uns pode parecer quente, ao passo que outros o acharão frio?
Tomemos ainda outra comparação das coisas vulgares, mesmo
que pareça trivial, a fim de nos fazer melhor compreender.
Ultimamente lia-se em diversos jornais: “O cogumelo é um
produto dos mais bizarros; delicioso ou mortal, microscópico
ou de dimensão fenomenal, confunde, sem cessar, a observação
do botânico. No túnel de Doncastre existe um cogumelo que
há doze meses se desenvolve, parecendo não haver ainda
atingido sua última fase de crescimento. Atualmente mede quinze
pés de diâmetro. Veio num pedaço de madeira; é
considerado o mais belo espécime de cogumelo que já existiu.
Sua classificação é difícil, porque as opiniões
estão divididas.” Assim, eis a ciência em grande
dificuldade por causa de um cogumelo que se apresenta sob um novo aspecto.
Esse fato provocou em nós a seguinte reflexão: Suponhamos
vários naturalistas, cada um a observar por seu lado uma variedade
desse vegetal: um dirá que o cogumelo é um criptógamo
comestível, apreciado pelas pessoas de fino paladar; o segundo,
que é venenoso; o terceiro, que é invisível a olho
nu; e o quarto, que pode alcançar até quarenta e cinco
pés de circunferência, etc. À primeira vista, todas
as asserções são contraditórias e pouco
apropriadas à fixação das idéias sobre a
verdadeira natureza dos cogumelos. Depois virá um quinto observador
que reconhecerá a identidade dos caracteres gerais e mostrará
que essas propriedades tão diversas constituem, em verdade, subdivisões
ou variedades de uma mesma classe. De seu ponto de vista, cada um tinha
razão; todos, porém, laboravam em erro, ao
concluírem do particular para o geral, e ao tomarem a parte pelo
todo.
Ocorre o mesmo em relação aos Espíritos. Têm
sido julgados conforme a natureza das relações que se
teve com eles: uns foram feitos demônios; outros anjos. Depois,
por se terem precipitado para explicar os fenômenos antes que
vissem tudo, cada um o fez à sua maneira, buscando-lhes as causas,
evidentemente, naquilo em que consistia o objeto de suas preocupações;
o magnetista relacionava tudo à ação magnética,
o físico à ação elétrica, etc. A
divergência de opinião em matéria de Espiritismo
origina-se, pois, dos diferentes aspectos sob os quais é considerado.
De que lado está a verdade? É o que compete ao futuro
demonstrar; mas a tendência geral não poderia oferecer
dúvida. Evidentemente, um princípio domina e reúne,
pouco a pouco, os sistemas prematuros; uma observação
menos exclusiva os unirá todos a uma fonte comum, vendo-se logo
que a divergência, definitivamente, é mais de forma do
que de fundo.
Compreende-se perfeitamente que os homens elaborem teorias contrárias
sobre muitas coisas; entretanto, o que pode parecer mais singular é
o fato de os próprios Espíritos poderem entrar em contradição;
foi principalmente isso que, no princípio, lançou uma
espécie de confusão nas idéias. As diferentes teorias
espíritas têm, pois, duas origens: umas desabrocharam do
cérebro humano, enquanto as demais foram reveladas pelos Espíritos.
As primeiras emanam dos homens que, confiando demasiadamente em suas
próprias luzes, crêem ter em mãos a chave daquilo
que procuram quando, na maioria das vezes, não encontram senão
uma maneira para se promoverem. Nada há nisso de surpreendente;
entre os Espíritos, porém, seria inadmissível que
uns dissessem uma coisa e os demais falassem outra, o que agora é
perfeitamente explicável. A princípio, fez-se uma idéia
completamente falsa da natureza dos Espíritos. Foram representados
como seres à parte, de natureza excepcional, nada possuindo em
comum com a matéria e devendo tudo saber. Segundo opinião
pessoal, eram seres benfazejos ou malfazejos, uns com todas as virtudes,
os outros com todos os vícios e todos, em geral, com um saber
infinito, superior ao da Humanidade.
À notícia das recentes manifestações, o
primeiro pensamento que brotou na mente da maior parte das criaturas
foi o de buscarem um meio de penetrar em todas as coisas ocultas, uma
nova maneira de adivinhação menos sujeita à dúvida
que os processos vulgares. Quem poderia dizer o número dos que
sonharam fortuna fácil, pela revelação de tesouros
ocultos ou pelas descobertas industriais e científicas, que não
teriam custado a seus inventores senão o trabalho de lhes descrever
os procedimentos, sob o ditado dos sábios do outro mundo! Só
Deus sabe quantas desilusões e quantos desapontamentos! Que de
pretensas receitas, cada uma mais ridícula que a outra, foram
dadas pelos farsistas do mundo invisível? Conhecemos alguém
que havia solicitado uma receita infalível para tingir os cabelos;
foi-lhe dada uma fórmula de composição, espécie
de ungüento que fez da cabeleira uma espécie de massa compacta,
da qual o paciente teve as maiores dificuldades do mundo para se desembaraçar.
Todas essas esperanças quiméricas tiveram que se dissipar
à medida que se conhecia melhor a natureza desse mundo e a real
finalidade das visitas que nos fizeram seus habitantes. Mas, então,
para algumas pessoas que nada faziam, qual era o valor desses Espíritos,
que nem sequer tinham o poder de conseguir-lhes alguns milhões?
Não poderiam ser Espíritos. A essa febre passageira sucedeu
a indiferença e, depois, a incredulidade. Oh! Que de prosélitos
teriam feito os Espíritos, se tivessem podido fazer o bem enquanto
os outros dormiam! Teriam adorado o diabo, mesmo que tivesse brandido
a sua bolsa de moedas.
Ao lado desses sonhadores, havia pessoas sérias que somente viam
vulgaridade nesses fenômenos; observaram atentamente, sondaram
o recôndito desse mundo misterioso, reconhecendo facilmente, nesses
fatos estranhos, se não novos, pelo menos um fim providencial
de ordem mais elevada. Tudo mudou de face quando se soube que esses
mesmos Espíritos nada mais são que as criaturas que viveram
na Terra, cujo número iremos aumentar quando morrermos; que deixaram
aqui o seu envoltório grosseiro, como a lagarta deixa a crisálida
para transformar-se em borboleta. Não pudemos duvidar quando
vimos nossos parentes, amigos e contemporâneos virem conversar
conosco e dar-nos provas irrecusáveis de sua presença
e identidade. Considerando as inúmeras variedades que a Humanidade
apresenta, do duplo ponto de vista intelectual e moral, e a multidão
que diariamente emigra da Terra para o mundo invisível, repugna
à razão acreditar que um estúpido samoieda, um
feroz canibal, um vil criminoso, sofram com a morte uma transformação
que os coloquem no mesmo nível do sábio e do homem de
bem. Compreendeu-se, assim, que podia e devia haver Espíritos
mais ou menos avançados e, desde então, explicaram-se
naturalmente todas essas comunicações tão diferentes,
das quais umas se elevam até o sublime, enquanto outras se arrastam
na imundície. E foram ainda melhor compreendidas quando se descobriu
que o nosso pequeno grão de areia perdido no espaço não
era o único habitado, entre tantos milhões de globos semelhantes,
ocupando, no Universo, apenas uma posição intermediária,
nas proximidades da escala mais inferior; que havia, em conseqüência,
seres mais avançados do que os mais avançados entre nós,
e outros ainda mais atrasados que os nossos selvagens. Desde então
o horizonte intelectual e moral ampliou-se, como sucedeu com nosso horizonte
terrestre, quando foi descoberta a quarta parte do mundo; aos nossos
olhos, o poder e a majestade de Deus cresceram do finito ao infinito.
Dessa forma, ficaram explicadas as contradições da linguagem
dos Espíritos, porquanto se compreendeu que seres inferiores,
sob todos os pontos de vista, não poderiam pensar nem se exprimir
como se superiores fossem; conseqüentemente, não podiam
saber tudo nem tudo compreender, devendo Deus revelar aos eleitos somente
o conhecimento dos mistérios, que a ignorância jamais alcançaria.
Traçada pelos próprios Espíritos e pela observação
dos fatos, a escala espírita dá-nos a chave de todas as
aparentes anomalias da linguagem dos Espíritos. É preciso
chegar, pela força do hábito, a conhecê-los, a bem
dizer, à primeira vista, e poder assinalar-lhes a classe de acordo
com a natureza de suas manifestações. É preciso
dizer, por necessidade, a um que é mentiroso, a outro que é
hipócrita, a esse que é mau, àquele que é
faccioso, etc., sem se deixar levar nem pela sua arrogância, nem
pelas suas bravatas, nem pelas suas ameaças, nem pelos seus sofismas,
nem mesmo pelas suas lisonjas. É o meio de afastar essa
turba que, incessantemente, pulula à nossa volta, e que se afasta
quando sabemos atrair somente os Espíritos verdadeiramente bons
e sérios, de maneira idêntica à que procedemos em
relação aos vivos. Serão seres ínfimos,
votados à ignorância e ao mal para todo o sempre? Não,
porque tal parcialidade não se conformaria nem com a justiça,
nem com a bondade do Criador, que provê a existência e o
bem-estar do menor inseto. É por uma sucessão de existências
que eles se elevam e dEle se aproximam à medida que se tornam
melhores. Esses Espíritos inferiores não conhecem de Deus
senão o nome; não O vêem, nem O compreendem, da
mesma forma que o último dos camponeses, isolado nos rincões
mais distantes, não vê nem compreende o soberano que governa
seu país.
Se estudarmos cuidadosamente o caráter próprio de cada
classe de Espíritos, conceberemos facilmente que alguns deles
são incapazes de fornecer ensinamentos exatos sobre o estado
de seu mundo; se, além disso, considerarmos que, por sua natureza,
alguns Espíritos são levianos, mentirosos, zombeteiros
e malévolos, enquanto outros ainda se acham imbuídos das
idéias e dos preconceitos terrestres, compreenderemos que, em
suas relações conosco, podem divertir-se à nossa
custa, induzir-nos propositadamente ao erro por malícia, afirmar
o que não sabem, dar-nos conselhos pérfidos ou mesmo enganar-se
de boa-fé, julgando as coisas conforme seu ponto de vista. Citemos
uma comparação.
Suponhamos que uma colônia de habitantes da Terra um belo dia
encontre meios de estabelecer-se na Lua; imaginemos essa colônia
composta de diversos elementos da população de nosso globo,
desde o europeu mais civilizado até o selvagem australiano. Sem
dúvida os habitantes da Lua ficarão emocionados e maravilhados
de poderem obter, junto a seus novos hóspedes, informações
precisas sobre nosso planeta, que alguns supunham habitado, embora não
tivessem certeza, considerando-se que também entre eles alguns
se julgam os únicos seres do Universo. Caem sobre os recém-chegados,
fazem-lhes perguntas e os sábios se apressam para publicar a
história física e moral da Terra. Como não seria
autêntica essa história, desde que foi obtida de testemunhas
oculares? Um deles recolhe em sua casa um zelandês, que lhe ensina
que neste mundo é um banquete comer homens e que Deus o permite,
desde que se sacrificam vítimas em seu nome. Na casa de outro,
é um filósofo moralista que lhe fala de Sócrates
e Platão, assegurando que a antropofagia é uma abominação
condenável por todas as leis divinas e humanas. Aqui é
um muçulmano que não se alimenta de carne humana, mas
diz que a salvação é obtida matando o maior número
possível de cristãos; ali é um cristão,
que fala que Maomé é um impostor; mais longe, um chinês
considera como bárbaros todos os demais, afirmando que Deus permite
que os filhos devem ser lançados ao rio, contanto que existam
em grande quantidade; um boêmio traça o quadro das delícias
da vida dissoluta das capitais; um anacoreta prega a abstinência
e as mortificações; um faquir indiano dilacera o corpo
e durante anos se impõe sofrimento para descerrar as portas do
Céu, de tal sorte que as privações de nossos mais
piedosos cenobitas não passam de sensualidade. Em seguida vem
um bacharel, afirmando que é a Terra que gira, e não o
Sol; um camponês, dizendo que o bacharel é mentiroso, pois
vê muito bem o Sol levantar-se e deitar-se todos os dias; um africano
diz que faz muito calor; um esquimó, que o mar é uma planície
de gelo e que só se viaja de trenó.
A política não fica atrás; uns elogiam o regime
absoluto, outros a liberdade; alguém garante que a escravidão
é contrária à Natureza, sendo irmãos todos
os homens, já que são filhos de Deus; outro ainda, afirma
que determinadas raças foram feitas para a escravidão
e são muito mais felizes que no estado de liberdade, etc. Imagino
os escritores selenitas bastante embaraçados para escreverem
a história física, política, moral e religiosa
do mundo terrestre com semelhantes documentos. “Talvez –
pensarão alguns – encontraremos maior unidade entre os
sábios; interroguemos esse grupo de doutores.”
Ora, um dos dois, médico da Faculdade de Paris, centro das luzes,
garante que todas as moléstias têm por princípio
o sangue viciado, fazendo-se necessário, pois, renová-lo
por meio de sangrias, seja qual for a sua causa. “Laborais em
erro, meu caro confrade – replica um segundo – o homem jamais
dispõe de tanto sangue; se o tirais, tirai-lhe a vida. Convenhamos
que o sangue esteja viciado; o que fazemos quando um vaso está
sujo? Não o quebramos, limpamos; então purgai, purgai,
purgai até a extinção.” Tomando a palavra,
diz um terceiro: “Senhores, com vossas sangrias matais os doentes;
com vossos purgantes os envenenais; a Natureza é mais sábia
que todos nós; deixemo-la agir e aguardemos. – Se é
isso, replicam os dois primeiros, se matamos nossos doentes, vós
os deixais morrer.”
A disputa começava a se inflamar quando um quarto, tomando à
parte um selenita, e o conservando a sua esquerda, disse-lhe: “Não
os escuteis; são todos ignorantes; nem mesmo sei por que fazem
parte da Academia. Segui bem o meu raciocínio: todo doente é
fraco; portanto, sofre de fraqueza nos órgãos; isso é
lógica pura, ou não me conheço mais; sendo assim,
é preciso que se lhe dê fortificantes; para isso não
tenho senão um remédio: água fria, água
fria, e não passo disso. – Curais todos os doentes? –
Sempre, quando a doença não é mortal. – Com
um processo assim tão infalível, pertenceis à Academia?
– Já postulei três vezes minha candidatura. Pois
bem! Sabeis que fui repelido por esses pretensos sábios, porque
estavam certos de que eu os pulverizaria com minha água fria?
– Senhor selenita, diz um novo interlocutor, puxando-o para a
direita: vivemos em uma atmosfera de eletricidade; a eletricidade é
o verdadeiro princípio da vida: acrescentá-la, quando
não existe bastante; retirá-la, quando existe em excesso.
Neutralizar uns pelos outros os fluidos contrários – eis
o segredo. Faço maravilhas com meus aparelhos: lede meus anúncios
e vereis! (1) Não chegaríamos
ao fim, se quiséssemos relacionar todas as teorias contrárias
que foram sucessivamente preconizadas em todos os ramos do conhecimento
humano, sem excetuar as ciências exatas; entretanto, foi sobretudo
nas ciências metafísicas que o campo se abriu às
doutrinas mais contraditórias.
(1)
O leitor compreenderá que nossa crítica não
visa senão os exageros em todas as coisas. Em tudo existe
um lado bom; o erro consiste no exclusivismo, que o sábio
judicioso sempre sabe evitar. Não temos intenção
de confundir os verdadeiros sábios, dos quais a Humanidade
se honra merecidamente, com os que exploram suas idéias sem
discernimento; é desses que queremos falar. Nosso objetivo
é unicamente demonstrar que a própria Ciência
não está isenta de contradições.
Se, todavia, um homem ajuizado e de
espírito – por que não os haveria na Lua? –
comparar todos esses relatos incoerentes, chegará à seguinte
conclusão, muito lógica: que na Terra existem regiões
quentes e frias; que em certos países os homens se devoram entre
si; que em outros eles matam os que não pensam do mesmo modo,
tudo para a maior glória de sua divindade; finalmente, que cada
um se pronuncia de acordo com os seus conhecimentos e exalta as coisas
do ponto de vista de suas paixões e de seus interesses. Em suma,
em quem acreditará, de preferência?
Pela linguagem reconhecerá, sem dificuldade, o verdadeiro sábio
do ignorante; o homem sério do leviano; o que tem juízo
daquele que raciocina em falso; não confundirá os bons
e os maus sentimentos, a elevação com a baixeza, o bem
com o mal. E dirá a si mesmo: “Devo ouvir tudo, escutar
tudo, porque mesmo na conversa do homem mais embrutecido posso aprender
alguma coisa; minha estima e minha confiança, porém, não
serão conquistadas senão por aqueles que delas se mostrarem
dignos.” Se essa colônia terrena deseja implantar seus costumes
e usos em sua nova pátria, os sábios repelirão
os conselhos que lhes parecerem perniciosos e se confiarão àqueles
que julgarem mais esclarecidos, neles não vendo nem falsidade,
nem mentiras, mas, ao contrário, reconhecendo seu sincero amor
do bem. Agiríamos de modo diferente, se uma colônia de
selenitas viesse cair na Terra? Pois bem! O que é dado aqui como
suposição, torna-se realidade no que concerne aos Espíritos;
se não vêm entre nós em carne e osso, nem por isso
estão menos presentes de maneira oculta, transmitindo-nos os
pensamentos através de seus intérpretes, isto é,
dos médiuns. Quando aprendermos a conhecê-los, julgá-los
emos por sua linguagem, por seus princípios, e suas contradições
nada mais terão que nos deva surpreender, porquanto vemos saberem
uns aquilo que os outros ignoram; que alguns estão colocados
muito embaixo, ou são ainda muito materiais para compreender
e apreciar as coisas de ordem mais elevada; tal é o homem que,
no sopé da montanha, não vê senão alguns
passos em volta dele, enquanto o que está no alto descortina
um horizonte sem limites.
A primeira fonte das contradições decorre, pois, do grau
de desenvolvimento intelectual e moral dos Espíritos; porém
há outras, sobre as quais é útil chamar a atenção.
Dirão que passamos sobre a questão dos Espíritos
inferiores, desde que assim o é; compreende-se que possam enganar-se
por ignorância; todavia, como se justifica que Espíritos
superiores estejam em dissidência? Que utilizem em certo país
uma linguagem diferente da que empregam em outro? Finalmente, que o
mesmo Espírito nem sempre seja coerente consigo mesmo?
A resposta a essa questão repousa sobre o conhecimento completo
da ciência espírita, e essa ciência não pode
ser ensinada em poucas palavras, porque é tão vasta quanto
todas as ciências filosóficas. Como todos os ramos do conhecimento
humano, só é adquirida pelo estudo e pela observação.
Não podemos repetir aqui tudo quanto já publicamos sobre
o assunto; a ele, pois, remetemos nossos leitores, limitando-nos a um
simples resumo. Todas essas dificuldades desaparecem para quem quer
que lance sobre esse terreno um olhar investigador e sem prevenção.
Provam os fatos que os Espíritos enganadores se paramentam de
nomes respeitáveis, sem o menor escrúpulo, a fim de que
suas torpezas sejam aceitas com mais facilidade, o que por vezes também
ocorre entre nós. Pelo fato de um Espírito apresentar-se
sob um nome qualquer, não significa que seja realmente aquele
que pretende ser; todavia, na linguagem dos Espíritos sérios
há um cunho de dignidade com o qual não se poderia equivocar:
só respira bondade e benevolência, e jamais se desmente.
A dos Espíritos impostores, ao contrário, seja qual for
o verniz com que se apresentem, deixa sempre a cauda exposta
(2 - N. do T.: Grifos nossos), como
se diz vulgarmente. Nada há, pois, de espantoso em que os Espíritos
inferiores, sob nomes usurpados, ensinem verdadeiros disparates. Compete
ao observador procurar conhecer a verdade, e o pode fazer sem dificuldade,
desde que queira compenetrar-se do que a esse respeito dissemos em nossa
Instrução Prática.
Esses mesmos Espíritos geralmente lisonjeiam os gostos e as inclinações
das pessoas, cujo caráter sabem bastante fraco e bastante crédulo
para os ouvir. Fazem-se eco de seus preconceitos e, até mesmo,
de suas idéias supersticiosas, por uma razão muito simples:
os Espíritos são atraídos por suas simpatias pelo
Espírito das pessoas que os chamam ou que os escutam com prazer.
Quanto aos Espíritos sérios, podem igualmente manter uma
linguagem diferente, segundo as pessoas, mas com outro objetivo. Quando
julgam útil e para melhor convencer, evitam chocar muito bruscamente
as crenças enraizadas, e se exprimem segundo os tempos, os lugares
e as pessoas. “Eis por que – dizem eles – não
falamos a um chinês ou a um maometano, como a um cristão
ou a um homem civilizado: jamais seríamos ouvidos. Algumas vezes,
pois, parecemos entrar na maneira de ver das pessoas, a fim de conduzi-las
pouco a pouco àquilo que queremos, desde que isso possa ser realizado
sem alterar as verdades essenciais.” Não é evidente
que se um Espírito quiser levar um muçulmano fanático
a praticar a sublime máxima do Evangelho: “Não façais
aos outros o que não gostaríeis que os outros vos fizessem”,
seria repelido se dissesse que foi Jesus que a ensinou? Ora, o que vale
mais, deixar ao muçulmano seu fanatismo ou torná-lo bom,
fazendo com que momentaneamente acredite que fora Alá que havia
falado? Eis um problema cuja solução transferimos ao leitor.
Quanto a nós, parece-nos que, tornando-o mais doce e mais humano,
seria ele menos fanático e mais acessível à idéia
de uma nova crença do que se lha quiséssemos impor pela
força. Há verdades que, para serem aceitas, não
podem ser lançadas no rosto sem uma certa precaução.
Quantos males teriam os homens evitado se sempre houvessem agido assim!
Como se vê, os Espíritos também tomam precauções
quando falam; nesse caso, porém, a divergência está
no acessório, e não no principal. Induzir os homens ao
bem, destruir o egoísmo, o ódio, a inveja, o ciúme,
ensinar-lhes a praticar a verdadeira caridade cristã, eis para
eles o essencial; o resto virá em seu devido tempo; e tanto pregam
pela palavra quanto pelo exemplo, quando se trata de Espíritos
verdadeiramente bons e superiores; tudo neles respira doçura
e benevolência. A irritação, a violência,
a aspereza e a dureza de linguagem, mesmo que seja para dizer boas coisas,
jamais denotam um sinal de verdadeira superioridade. Os Espíritos
realmente bons não se irritam nem jamais se encolerizam: se não
são ouvidos, vão-se embora; eis tudo.
Existem ainda duas causas de aparentes contradições que
não devemos deixar passar em silêncio. Como já dissemos
em muitas ocasiões, os Espíritos inferiores dizem tudo
o que se quer, sem se preocuparem com a verdade; os Espíritos
superiores se calam ou se recusam a responder quando lhes fazem uma
pergunta indiscreta ou sobre a qual não lhes é permitido
dar explicações. Dizem eles: “Neste caso, não
insistais jamais, porque serão Espíritos levianos que
responderão e vos enganarão; acreditais que somos nós
e podeis pensar que entramos em contradição. Os Espíritos
sérios não se contradizem jamais; sua linguagem é
sempre a mesma com as mesmas pessoas. Se um deles diz coisas contrárias
sob o mesmo nome, ficai certos de que não é o mesmo Espírito
que fala ou, pelo menos, que não se trata de um Espírito
bom. Reconhecereis o bom pelos princípios que ensina, pois todo
Espírito que não prega o bem não é um Espírito
bom, e devereis repeli-lo.”
Querendo dizer a mesma coisa em dois lugares diferentes, o mesmo Espírito
não se servirá literalmente das mesmas palavras: para
ele o pensamento é tudo; mas o homem, infelizmente, é
levado mais a se prender à forma do que ao fundo, e é
essa forma que muitas vezes interpreta ao sabor de suas idéias
e paixões. Dessa interpretação podem originar-se
contradições aparentes, que igualmente têm sua fonte
na insuficiência da linguagem humana para exprimir as coisas extra-humanas.
Estudemos o fundo, perscrutemos o pensamento íntimo e veremos
analogia muitas vezes onde um exame superficial nos teria mostrado um
disparate.
As causas das contradições na linguagem dos Espíritos
podem, pois, ser assim resumidas:
1º O grau de ignorância
ou de saber dos Espíritos aos quais nos dirigimos;
2º O embuste dos Espíritos inferiores que, tomando nomes
sob empréstimo podem dizer, por malícia, ignorância
e maldade, o contrário do que disse alhures o Espírito
cujo nome usurparam;
3º Os defeitos pessoais do médium, que podem influir sobre
a pureza das comunicações e alterar ou modificar o pensamento
do Espírito;
4º A insistência para obter uma resposta que um Espírito
recusa dar, e que é transmitida por um Espírito inferior;
5º A própria vontade do Espírito, que fala segundo
os tempos, os lugares e as pessoas, e que pode julgar conveniente
não dizer tudo a toda gente;
6º A insuficiência da linguagem humana para exprimir as
coisas do mundo incorpóreo;
7º A interpretação que cada um pode dar a uma palavra
ou explicação, conforme suas idéias e preconceitos,
ou o ponto de vista sob o qual encaram as coisas.
As dificuldades são tantas que não se triunfa a não
ser por um estudo longo e assíduo; aliás, jamais dissemos
que a ciência espírita era uma ciência fácil.
O observador sério, que se aprofunda em todas as coisas com maturidade,
paciência e perseverança, capta uma porção
de matizes delicados que escapam ao observador superficial. É
através desses detalhes íntimos que ele se inicia nos
segredos dessa ciência. A experiência ensina a conhecer
os Espíritos, como ensina a conhecer os homens.
Acabamos de considerar as contradições sob o ponto de
vista geral. Em outros artigos trataremos dos pontos especiais mais
importantes.
Fonte: http://www.febnet.org.br/ba/file/Downlivros/revistaespirita/Revista1858.pdf
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