Espiritualidade e Sociedade





Celso Kraemer

>   As religiosidades expressam a dinamicidade cultural brasileira

Artigos, teses e publicações

Celso Kraemer
>   A fabricação da anormalidade

 

Márcia Junges ntrevista Celso Kraemer

Há uma relação muito próxima entre normalidade e loucura, aponta o filósofo Celso Kraemer. A fim de sustentar o referente “normalidade”, é preciso fabricar seu oposto. Produção da verdade acerca da loucura é o objeto da obra de Foucault.

“Talvez a loucura seja um tipo especial de normalidade”, e ambas estão imbricadas, amarradas, “uma brota e se alimenta da outra”. A reflexão é do filósofo Celso Kraemer, na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. Segundo ele, a sociedade moderna “constitui-se a partir de padrões de normalidade e de processos políticos e educacionais de normalização. Dessa forma, para sustentar o referente da normalidade, nós precisamos fabricar a anormalidade, os intoleráveis em cada momento histórico, para servir de mecanismo regulador para nossos exercícios de poder”. Ao contrário de antigamente, hoje se internam menos pessoas em instituições psiquiátricas, mas cresce a medicalização em todas as faixas etárias. É algo alarmante, pondera. Sobre História da loucura, o pesquisador afirma que a obra é uma provocação a “pensarmos, seriamente, acerca do que são, para nós, a razão, a verdade, a lucidez”. O objeto do livro, em si, não é a loucura, mas “quer compreender como os homens, vivendo em sociedades complexas, produzem, não a loucura, mas a verdade acerca da loucura”.

 

Celso Kraemer é professor da Universidade Regional de Blumenau, no departamento de Filosofia e no programa de pós-graduação em Educação. É graduado em Filosofia e mestre em educação pela Fundação Educacional de Brusque. Doutorou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP com a tese A liberdade em Michel Foucault. É um dos autores de Temas e Teorias da Filosofia (Indaial: Grupo Uniasselvi, 2009).

 

 

 

 

Confira a entrevista.

 


IHU On-Line - História da loucura continua um livro atual? Por quê?

Celso Kraemer - Muito me honra conversar acerca de um autor que, mesmo já falecido há 27 anos, me é tão querido. Também me agrada falar um pouquinho acerca de seu primeiro trabalho, de grande notoriedade e repercussão, inicialmente chamado Folie et déraison - Histoire de la folie à l’âge classique, ou seja, Loucura e desrazão: história da loucura na Idade Clássica, hoje conhecido como História da loucura. Esse trabalho foi produzido por Foucault como tese para seu doutoramento. Junto à tese principal os doutorandos têm que apresentar uma segunda tese, de menor envergadura, sobre um outro tema. Essa tese menor de Foucault versou sobre um estudo acerca da relação entre a Filosofia Crítica de Immanuel Kant, confrontada com textos como a Lógica e a Antropologia de Kant, seguida de uma tradução, do alemão para o francês, do texto integral do livro de Kant, Antropologia em Sentido Pragmático. Esta tese complementar só foi publicada em francês agora, em 2008. Em português em 2011. Estudei demoradamente tanto a tese principal, História da loucura, quanto a tese complementar sobre a relação da Antropologia com a Crítica. Percebi que ambos os textos estão internamente relacionados. Mas a relação não é quanto ao objeto tratado, mas ao método filosófico-epistemológico. Percebi que o estudo sobre a Crítica kantiana serviu de fundamento metodológico para a maneira como Foucault pesquisou e escreveu a tese principal. Chamo a atenção sobre o fato de que dois textos escritos pelo mesmo autor, na mesma época, receberam destinos tão diferentes. Enquanto um se tornou mundialmente conhecido, usado para várias bandeiras e movimentos na sociedade contemporânea, o outro permanece extremamente desconhecido, até mesmo entre um grande número de leitores e pesquisadores de Michel Foucault.

 

A verdade sobre a loucura

Queria chamar a atenção também ao fato de Foucault não ser um leigo na área da saúde e da psicologia. Ele fez, além da faculdade de Filosofia, a graduação na faculdade de Psicologia. Também fez sua formação para exercer o ofício de psicólogo. Também trabalhou na ala psiquiátrica de internados no hospital, na qualidade de voluntário, bem antes de escrever História da loucura. Ele estava interessado no tema, queria ver de perto essa área do conhecimento que desperta tanto interesse e poder. Além disso, seu primeiro trabalho a ser publicado, em 1954, é um livro que chama Doença Mental e Personalidade. Em 1962 ele reedita esse mesmo livro, com algumas alterações, e lhe dá um novo título.

Essa mudança de título e de teor, de personalidade para psicologia, é importante para compreendermos História da loucura. Muita gente acredita que Foucault, nesse livro, estava interessado em contar a verdadeira história da loucura, interessado em conhecer a verdade sobre a loucura. Reside aí um engano. O objeto do livro não é a loucura. O livro quer compreender como os homens, vivendo em sociedades complexas, produzem não a loucura, mas a verdade acerca da loucura. Foucault está interessado em conhecer as diferentes maneiras com que os homens construíram a verdade da loucura, quais foram as práticas sociais que engendraram tais verdades e de que maneira os homens, em diferentes momentos históricos, se relacionaram não com a loucura em si, mas com o modo como representaram a loucura para si mesmos.

Nesse sentido, o livro de Foucault é um trabalho crítico sobre a relação do homem com a sua loucura e a sua própria verdade acerca dessa loucura. Nesse trabalho já se pode perceber nitidamente os traços do procedimento arqueológico e genealógico de Foucault.

 

Instituições de sequestro

A atualidade do texto é inquestionável. Sua leitura, em primeiro lugar, é um mergulho profundo na história da relação, ainda tão atual, que mantemos cotidianamente com nossa loucura. Em segundo lugar é um mergulho sistemático com a história de nossas instituições, ainda tão atuais, como os hospitais, os asilos, os manicômios, etc., que, 15 anos mais tarde, em Vigiar e Punir Foucault irá chamar de instituições de sequestro. O livro é, também, uma excelente viagem no universo da história da psiquiatria. Ele mostra que muitas das crenças da objetividade, universalidade, neutralidade dessa área do saber estão fundados sobre crenças morais, princípios políticos, interesses econômicos, em nível muito mais profundo do que nossa ingenuidade positivista gostaria de admitir. Além disso, o livro é uma provocante reflexão acerca de nossa condição de homens da Modernidade, sempre tão crentes em nossa natural superioridade. O livro nos provoca a pensarmos seriamente acerca do que são, para nós, a razão, a verdade, a lucidez.

 

IHU On-Line - Tendo em vista História da loucura, quais são os nexos de proximidade em Focault e Paulo Freire , pensando na questão dos excluídos e oprimidos?

Celso Kraemer - O livro de Foucault não tem como foco o problema da pobreza e da exclusão. Conforme já apontado, seu foco é relativo à história, mais precisamente, a maneira como o homem, ao longo da história, é produtor da verdade e das normalidades sociais, políticas, morais, econômicas. O livro de Foucault é um trabalho extremamente crítico. Quando se refere aos pobres, seu interesse é diferente do interesse de Paulo Freire. Freire está interessado em identificar, a partir do método crítico do marxismo, a condição histórica e sociológica da produção da pobreza e do estatuto ontológico e antropológico do pobre em nossas sociedades capitalistas. Foucault quer entender de que maneira os pobres despertaram interesse na sociedade, o modo como foram, por um certo tempo, associados, igualados ao estatuto dos loucos, no século XVII, e por quais razões, depois, foram novamente separados, diferenciados dos loucos. Quer saber o que esse movimento com relação aos pobres, vagabundos, esfarrapados, portadores de doença venérea, etc., pode revelar sobre o modo como se produziu a verdade sobre a loucura, de que modo esse movimento pode estar ou não associado ao surgimento da psiquiatria como área de ciência e a criação da noção de doença mental.

O tema dos excluídos e dos oprimidos tem sentido diferente entre esses autores, quando se toma o teor do livro A história da loucura. Isso não quer dizer que ambos não se aproximem mais quando se toma o texto de Vigiar e Punir e se o compara com Pedagogia do oprimido, de Freire. Nesse caso, ao que meus estudos apontam até esse momento, pode-se encontrar alguns nexos, em conceitos como disciplina, por exemplo, que ainda não estava constituído por Foucault em 1961, também o conceito de resistência, de maquinaria escolar, etc. Esses conceitos encontram proximidades com conceitos como educação bancária, docilidade, alienação, etc., em Freire.

 

IHU On-Line - Há uma crítica reiterada que aponta os pobres como “portadores” da loucura, enquanto que os ricos acometidos por algum sintoma de doença mental são taxados como excêntricos, por exemplo. Há um nexo que une loucura e pobreza enquanto estigmas socialmente definidos e pré-estabelecidos?

Celso Kraemer - Creio que, em nossa sociedade, estão completamente diferenciados os conceitos de pobreza e de loucura. A loucura significa para nós, em termos econômicos, um custo, uma despesa, gasto, improdutividade e, em termos sociológicos, um fardo. Já a pobreza é produtiva, fonte de mão de obra barata, fácil de ser treinada para o trabalho, fácil de ser usada e manipulada. Já para os pesquisadores de psicologia ou, principalmente, de psiquiatria, a loucura é fonte rica de investigação, produção do verdadeiro, enquanto a pobreza, por si mesma, enquanto fenômeno social, não desperta tanto interesse. Já com os sociólogos se passa o contrário. A única ligação que eu poderia ver entre pobreza e loucura, em nossas modernas sociedades, é o fato de ambos serem indesejados. Além disso, o destino de alguém tido como louco, sendo pobre, sofre uma dupla exclusão, enquanto que, se for louco, pode até gozar de algum privilégio.

 

IHU On-Line - A normalidade é um tipo especial de loucura? Por quê?

Celso Kraemer - Talvez a loucura seja um tipo especial de normalidade. É difícil estabelecer um referente neutro a partir do qual se possa avaliar o outro termo. Mas seguramente, disso não tenho dúvida, normalidade e loucura estão internamente amarrados um ao outro, um brota e se alimenta do outro.

 

IHU On-Line - Em que medida a transgressão, a fuga aos padrões comportamentais era compreendida e apontada como loucura? Esse quadro perdura hoje?

Celso Kraemer - No século XVII, na Europa, a transgressão, a fuga a certos padrões, como a dilapidação dos bens da família, foi, por longo tempo, motivo para internamento, exclusão social, junto com outros fenômenos de delírio, desrazão. Com o avanço das pesquisas, essa conduta de internação, mas também, e principalmente, por razões de ordem econômica e política, essa tendência de internação havia recuado significativamente. O que nós estamos vivendo, experienciando, é um fenômeno bastante novo. Não se interna mais, não se faz propriamente clínica. Ao contrário, medica-se. A medicalização (entupir de remédios) da infância, da adolescência, da juventude, de pessoas adultas, é algo assustador. No Brasil, os índices de pessoas ingerindo medicação com princípios psicoativos, com ou sem receita médica, é alarmante. Por outro lado, o número de médicos, muito longe da especialidade da psiquiatria, que receita esse tipo de medicação, também é alarmante. Valeria a pena tentarmos entender, em termos antropológicos, mas também políticos e econômicos, esse acontecimento em que estamos metidos.

 

IHU On-Line - Até que ponto nossa sociedade continua fabricando a loucura e outras formas de exclusão?

Celso Kraemer - Conforme já mencionado, a sociedade moderna, na qual nós vivemos, constitui-se a partir de padrões de normalidade e de processos políticos e educacionais de normalização. Dessa forma, para sustentar o referente da normalidade, nós precisamos fabricar a anormalidade, os intoleráveis em cada momento histórico, para servir de mecanismo regulador para nossos exercícios de poder. Assim, o importante não é perguntar se produzimos exclusões, mas buscar saber quais são os mecanismos de exclusão que regulam nossa normalidade nesse momento.




 

 

 

Fonte: https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/17-artigo-2011/3915-celso-kraemer
Edição 364 | 06 Junho 2011

 

 

 



* * *

 


 



topo

 

Acessem os Artigos, teses e publicações: ordem pelo sobrenome dos autores :
- A - B - C - D - E - F - G - H - I - J - K - L - M - N - O - P - Q - R - S - T - U - V - W - X - Y - Z 
  - Allan Kardec
   -   Special Page - Translated Titles
* lembrete - obras psicografadas entram pelo nome do autor espiritual :