Ensaio sobre a vida e a obra de V.I.
Kryzhanovskaia-Rochester, a Primeira Dama da Ficção
Científica.
Que não
pensem os leitores que o autor escrevia sob a influência
de algum pesadelo infernal. Eles deveriam observar com um
olhar perscrutador e sóbrio à sua volta e
então veriam claramente os embriões de todos
os horrores que irão desabrochar pomposamente no
futuro.
V.I. Kryzhanovskaia. A Morte do Planeta.
Não há nenhum exagero no título
deste ensaio. Está tudo absolutamente correto – a
escritora e espírita russa Vera Kryzhanovskaia historicamente
é realmente a primeira mulher escritora de ficção
científica na literatura mundial, e a primeira escritora
de ficção científica profissional da Rússia.
Mary Shelley, criadora do famoso “Frankenstein”, usava
a FC (ficção científica) esporadicamente,
enquanto o reconhecido “primeiro” profissional nacional
de FC - A.R. Beliaev (aqui nos subentendemos escritores cujas
obras são inteiramente, ou em sua maior parte, ficção
científica) estreou neste gênero somente um ano após
a morte de V.I. Kryzhanovskaia. Portanto, a escritora tem todo
o direito de concorrer ao título de “Primeira Dama
da Ficção Científica”.
Mas, nada é tão simples assim. Por
mais de setenta anos Vera Ivanovna Kryzhanovskaia foi proibida
aos seus conterrâneos. Quando o seu nome aparecia em algum
informativo ou artigo era-o exclusivamente com reflexos negativos,
como uma típica representante das tendências burguesas
da literatura, estranhas à ideologia soviética.
Falando objetivamente, mesmo em vida e, apesar da enorme popularidade
de seus livros, – a escritora era considerada como de literatura
popular. Bem, é difícil chamá-la de uma destacada
artista da palavra. Apesar disso, seus livros eram à sua
maneira notáveis e inteligentes. E mais, Vera Ivanovna
era exímia quanto aos temas.
“Ela (V.I. Kryzhanovskaia), indubitavelmente,
merece respeito, pois seus livros trouxeram algum bem. Também
é indubitável que a sua série “Os Magos”
é incomparavelmente mais talentosa e rica em informações
corretas do que as obras de muitos romancistas ocultistas posteriores”-
esta foi a avaliação da obra da autora dado naquele
tempo por Helena Ivanovna Rerikh (Cartas
de H.I. Rerikh, 1940, tomo 2, p. 134).
Vera Ivanovna descendia de uma antiga família
nobre da província de Tambov, mas nasceu em Varsóvia
no de 14 de julho de 1861 onde seu pai – o general-major
da artilharia I.A Kryzhanovsky – comandava a brigada de
artilharia. A futura escritora recebeu uma boa educação
ainda em casa. A família dos Kryzhanovsky gostava de livros.
Desde a tenra infância Vera Ivanovna interessava-se pela
História Antiga e ocultismo. Era uma menina muito frágil
e doente mas, ela própria confessou que acreditava sinceramente
que forças cósmicas misteriosas a protegerão
da maldade e das doenças.
Em 1871 morre seu pai e a família
fica em situação econômica complicada. Com
grande dificuldade conseguem introduzir Vera numa Sociedade Educacional
de moças nobres, em São Petersburgo. No ano seguinte
a futura escritora foi matriculada na escola Santa Catarina (instituto
Santa Catarina) de São Petersburgo, mas a sua frágil
saúde e problemas financeiros impediram-na de concluir
o curso – em 1877 ela foi dispensada e concluiu a sua educação
em casa.
Vera Ivanovna começou a
testar a sua força literária desde os 18 anos. Em
1880 ela viaja para a França, onde se apresenta com sucesso
como médium e... escreve, escreve e escreve. Muitos contemporâneos
seus citavam a surpreendente produtividade de Vera apesar da saúde
fraca. Em 1886, em Paris, saiu o primeiro livro de Vera Kryzhanovskaia
– a novela histórica “Episode de vie de Tibere”
(na tradução russa “Um episódio da
vida de Tibério”, 1906). Deve-se salientar que Vera
dominava perfeitamente o idioma francês e escrevia todas
as suas obras exclusivamente em francês e somente depois
estas eram traduzidas para o russo.
Já na primeira obra publicada
da escritora aparecem claros indícios de temas ocultistas
e fantásticos. Alguns biógrafos (particularmente,
Vs. Nymtak e B. Vlodarj) supõem que o seu marido S.V. Semenov
teve uma influência considerável na orientação
criativa da escritora pois ele ocupava um cargo importante na
chancelaria de Sua Majestade, era um famoso espírita e
presidente do “Círculo de Pesquisas Psíquicas”
de São Petersburgo. Isto, entretanto, é discutível.
Vera Ivanovna era uma personalidade única e quando conheceu
S.V. Semenov ela já era uma médium de renome, suas
sessões espíritas eram frequentadas pelo próprio
czar Nicolau II. Quanto à orientação criativa,
a escritora sem dúvida foi influenciada pelas doutrinas
ocultas de H.P. Blavatsky, Papus, Alan Kardec e, naturalmente,
pela literatura fantástica européia.
Durante o tempo que permaneceu
em Paris, V. Kryzhanovskaia escreveu uma série de romances
histórico-ocultistas: “O faraó Merneftá”
(1888), “A Rainha Khatasu” (1894), “Com este
sinal vencerás” (1893), “A vingança
do judeu” (1890) e outros. As obras históricas da
escritora chamaram a atenção do público leitor.
E não somente pelos temas interessante e intrigas arrebatadoras.
O crítico V.P. Burenin elogiando o romance “A rainha
Khatasu” observava que a “madame Kryzhanovskaia”
conhecia o cotidiano dos antigos egípcios “talvez
melhor do que o famoso romancista histórico Ebers”
(jornal “Novoe Vremia”, 13 de jan.1895). Este elogio
da crítica realmente não contradiz a verdade. Vera
conseguia reproduzir com surpreendente fidelidade o espírito
da época histórica descrita nos romances e em suas
obras abundam inúmeros detalhes interessantes. Pelo romance
“O chanceler de ferro do Antigo Egito” a Academia
de Ciências da França concedeu-lhe o título
de “Oficial da Academia Francesa” e, em 1907, a Academia
de Ciências da Rússia também lhe concedeu
a “Menção Honrosa” pelo romance “Os
luminares tchecos” (1903).
Aliás, na maioria dos casos,
os críticos da Rússia preferiam ignorar as obras
da escritora. O escritor A M Gorky chamou a atenção
geral para ela à sua maneira. Em sua famosa obra “Literatura
do Van’ka”(1899) ele arrasou a obra de Kryzhanovskaia,
não deixando pedra sobre pedra, e frisando que a escritora
escreve para o leitor ignorante e sem cultura que prefere diversões
frívolas à alta literatura.
Paralelamente com o ciclo histórico,
Kryzhanovskaia iniciou uma série de romances com tema puramente
de ficção científica – era o “ciclo
ocultista-cosmológico” (conforme sua própria
definição). Entretanto, antes de falarmos sobre
as obras de FC da escritora, vamos falar sobre a mística
em geral e sobre o surgimento do pseudônimo “Rochester”,
pois este nome tem uma relação direta com o místico
e o fantástico. Já nos títulos dos primeiros
livros de Vera Ivanovna, aparecia frequentemente o autor misterioso
“Rochester”. Na verdade, muito mais frequentemente
este nome, separado por um hífen, aparecia depois do verdadeiro
nome da autora.
“Um acontecimento de enorme
importância para ela ocorreu neste período de sua
vida (anos de 1890 – E. Kh.), - recorda Blagei Vlodarj,
um dos biógrafos da escritora, - ou seja, o primeiro encontro
com o seu Mestre e protetor invisível, I. V. Rochester.
Ele materializou-se integralmente aproveitando os poderes mediúnicos
da própria Vera e propôs que ela se dedicasse de
corpo e alma a serviço do Bem. Também propôs
que ela escrevesse sob sua direção (...). De fato,
Rochester não é o pseudônimo de Vera Kryzhanovskaia
mas sim o co-autor de seus romances” (B.
Vlondraj. Vera Ivanovna Kryzhanovskaia – Rochester. // Ocultismo
e ioga. Ed. 25. Assuncion, 1961, p. 32).
Nós, vivendo no mundo ateu
do fim do século XX, abriríamos um sorriso desdenhoso
diante de cenas como convocação de espíritos
dos mortos (o conde Rochester é o poeta inglês J.
Wilmot (1647-1680), cujo espírito supostamente “ditava”
as obras da escritora). Mas, ainda hoje, o mundo astral permanece
ignorado e inacessível ao estudo científico. Sempre
é mais fácil não acreditar naquilo que não
se consegue compreender. Francamente, eu mesmo sou cético
em relação a estas coisas. Entretanto, eis um fato
comprovado: após entrar em contato mediúnico com
o Mestre, Vera Ivanovna ficou curada de uma grave doença
(incurável naquele tempo) – tuberculose crônica.
E, sem interferência médica! Misticismo? Pode ser.
Quem sabe?...
Toda a vida de Vera está
envolta numa certa auréola mística. Ela própria
possuía algo sobrenatural. Por exemplo, vejam um testemunho
de como ele escrevia seus romances ocultistas:
“Frequentemente, no meio
de uma conversa, ela de repente se calava, ficava pálida
e passando a mão pelo rosto, começava a repetir
a mesma frase: “Dêem-me um lápis e papel,
rápido!”. Geralmente nesta hora Vera sentava-se
numa poltrona junto à uma pequena mesa onde quase sempre
havia um lápis e um bloco de papéis. Sua cabeça
ficava levemente jogada para trás e os olhos, semicerrados,
concentravam-se num único ponto. De repente, ela começava
a escrever sem olhar para o papel. Era a verdadeira
escrita automática. < ... > Este estado de transe
durava de 20 a 30 minutos, após o que Vera Ivanovna geralmente
desmaiava. < ... > As transmissões por escrito
terminavam sempre com a mesma palavra: “Rochester”.
Conforme Vera, este era o nome (ou melhor, o sobrenome) do Espírito
que ela recebia.” (V.V. Scriabin.
Recordações. Ver # 65 da bibliografia, p. 24-25).
Um testemunho semelhante encontramos nas “Anotações
literárias” de M. Spassovsky: “No estado inconsciente
ela sempre escreve em francês... Seus escritos são
traduzidos para o russo e criteriosamente redigidos ou pela própria
autora ou por uma pessoa de sua confiança.” (M.
Spassovsky. Anotações literárias. –
“Veshie vody”, 1916, livro 7-8, p. 145)
O tema principal dos romances
de FC de V.I. Kryzhanovskaia-Rochester é a luta universal
entre as forças divinas e satânicas, a interdependência
das forças ocultas no ser humano e no cosmos, segredos
da matéria original... Os segredos da reencarnação,
do consciente e das almas foram descritos pela autora já
na série histórica (por ex.: “Rainha Khatasu”).
A linha espiritual e de ficção científica
firmou-se nos romances iniciais, como “O castelo encantado”
(1898), “As duas Esfinges” (1900), “A Urna”
(1900) e abriu-se em todo seu esplendor na série mais popular
da escritora – a pentalogia “Os Magos”, que
inclui os romances “O elixir da vida” (1901). “Os
Magos” (1902), “A Ira Divina” (1909), “A
Morte do Planeta” (1911) e “Os Legisladores”
(1916).
O pobre médico Ralf Morgan,
acometido de uma doença fatal, recebe a visita de um misterioso
indivíduo que lhe propõe – a imortalidade
em troca de serviços sinceros aos ideais divinos. Ele deve
levar a palavra de Deus para outros mundos e entregar-se inteiramente
ao auto-aperfeiçoamento e salvação da espécie
humana do fim iminente. Entrando para as fileiras da irmandade
dos imortais, Ralf (que agora tem um novo nome – Supramati),
após passar um “curso de instrução”,
torna-se um membro da irmandade – um mago imortal. Ele irá
passar por muitas aventuras, conhecer os segredos da Criação
do Universo, fazer viagens no tempo e no espaço como um
missionário. Apesar disso, a Terra é destruída
– a humanidade enlouquecida, atolada no pecado e ateísmo,
“provocou” a catástrofe ecológica total,
que levou ao devido final – a destruição do
planeta e da civilização humana. A fé entrou
em um último combate com o ateísmo e este venceu.
A irmandade dos imortais abandona a Terra em naves espaciais construídas
a tempo, para num Novo planeta, onde a humanidade mal saiu da
pré-história, criar uma nova civilização,
uma sociedade na qual seria impossível repetir-se a tragédia
da Terra.
Naturalmente, com os conhecimentos
atuais, muitas coisas nos romances de Vera parecem inocentes.
Entretanto, esta pentalogia está cheia de temas e idéias
interessantes. Talvez pela primeira vez na FC mundial, num romance
foi descrito o método de teleportação como
meio de transporte no espaço. As naves espaciais, descritas
no último romance “Os Legisladores” chamaram
a atenção do professor N. Rynin, autor da enciclopédia
capital “As viagens espaciais”. Nos romances existe
o tema de civilizar raças espaciais atrasadas, tão
popular na FC atual. Devemos salientar que o romance “A
Morte do Planeta” é, emocionalmente uma poderosa
anti-utópica e deve ser examinado como um romance “aviso-de-alerta”.
Ao ler a história da destruição da humanidade,
fica-se surpreendido com que exatidão a escritora pressentiu
muitos traços do futuro (o nosso presente) e com que veracidade
estão profetizados (e descritos em detalhes!) os momentos
históricos da nossa Pátria – a Rússia:
revolução, destruição dos templos,
ditadura e os problemas da Rússia
atual!
Na verdade, mesmo hoje em dia,
a série “Os Magos” é uma leitura bastante
atual que obriga a pensar sobre muitas coisas.
O romance “No Planeta Vizinho” também
refere-se à FC espacial. É uma utopia espacial de
um governo ideal em Marte, onde vai parar por acaso o herói
principal – um terráqueo. Aliás, a sociedade
ideal de Kryzhanovskaia é bastante discutível –
é uma monarquia, uma sociedade de castas.
O tema “governo ideal” também
aparece no romance “No outro mundo” (1910). Desta
vez a escritora envia os terráqueos para Vênus.
É preciso salientar que os primeiros filmes nacionais de
FC foram baseados nos romances de V.I. Kryzhanovskaia –
“Cobra Capella” e “A Flor do Pântano”
(ambos os filmes, de 1917).
Aliás, a herança criativa de Vera
Ivanovna Kryzhanovskaia-Rochester não se limita a obras
históricas e de FC. Ela também escreveu romances
do cotidiano e de amor que adquiriram popularidade numa determinada
faixa do público: “A teia” (1906), “O
Paraíso sem Adão” (1917), “Os Rekensteins”
(1894), ”A Feira do Casamento” (1893) e outros.
É preciso dizer que os pesquisadores das
obras de Kryzhanovskaia (particularmente doutor A Aseev, L. Sokolova-Rydnina
e outros) frequentemente preferiam estudar Vera Ivanovna como
uma médium psicógrafa do que como escritora.
“O que me interessava e ainda interessa
nos romances de Vera Ivanovna não é a fábula,
às vezes interessante mas frequentemente inocente, mas
o profundo sentido esotérico sempre oculto pela fábula.”
(L. Sokolova-Rydnina. “V.I. Kryzhanovskaia-Rochester”.
Ver bibliografia # 65).
E.I. Rerikh fazendo uma crítica de toda
a obra da escritora escreveu: “Mesmo os livros de Kryzhanovskaia
fizeram algum bem. Em meio a muita vulgaridade, estes livros contêm
verdadeiras pérolas. Sem dúvida, ela merece ser
respeitada, pois seus livros trazem algum benefício. Também
é indubitável que a sua série “Os Magos”
é incomparavelmente mais talentosa e rica de informações
verdadeiras do que as obras de muitos autores de temas ocultistas
posteriores a ela“. (E.I. Rerikh.
Cartas. Tomo 1, p.338)
Ainda durante a vida da escritora, seus livros
– particularmente a série “Os Magos”,
foram reeditados várias vezes. Após a morte de Vera
Ivanovna, seus livros também foram lançados em Riga
e em Berlim até meados dos anos 30.
Não aceitando a revolução
Vera Kryzhanovskaia emigrou para a Estônia. Mas lá
ela quase já não escrevia – faltavam meios
para edição de livros. Ela teve de trabalhar na
usina madeirense “Forest” o que refletiu muito na
sua saúde. Não tinha dinheiro nem para editar um
livro e nem para viver normalmente. À noite fazia “bicos”
– lendo a sorte nas cartas.
A escritora faleceu na completa miséria
no dia 29 de dezembro de 1924 na cidade de Tallin (capital de
Estônia), “ela faleceu num pequeno e humilde cômodo,
sobre uma velha cama de ferro. Somente duas pessoas estavam presentes
em seus últimos momentos: a filha Tamara e um amigo fiel
de sua casa” (Vs. Nymtak. Recordações.
Tallin, 1935. Cit. Sobre “Ocultismo e Ioga”, 1961,
p. 44).
A escritora foi enterrada no cemitério
“Aleksandr Nevsky” de Tallin.
Em 30 anos de trabalho, V.I. Kryzhanovskaia-Rochester
criou mais de 80 romances e novelas (a maioria era prosa de FC),
mas, infelizmente, muitas edições e publicações
foram praticamente perdidas.
Hoje em dia, os livros de Vera Ivanovna Kryzhanovskaia
retornam ao leitor.