Este artigo é um entre inúmeros,
tratando de “Espiritualismo e a Instituição”,
publicado no “Ark Review.”
No início desta série de artigos, eu escrevi que o título
Espiritualismo e a Instituição
é um tanto equivocado. O que nós estamos realmente falando
na verdade, é do efeito do peso das opiniões geralmente
negativas, que a mediunidade tem provocado contra ela mesma. No final
das contas, “Espiritualismo”, é somente um pretexto,
uma conveniência verbal sobre o qual nós colocamos o fenômeno
da mediunidade, e os ensinamentos que provem dela através de
um contexto moderno.
“Instituição” é outra palavra conveniente
que é usada para designar um conhecimento sobre qualquer assunto
que é oficialmente aceito e endossado por uma considerável
parcela da sociedade.
A razão pela qual eu sinto ser necessário reiterar os
conceitos acima, é que no decorrer dos próximos meses
estarei usando palavras diferentes cada vez que estiver referindo-me
à “religião” que se formou em volta do conceito
de mediunidade.
“Espiritismo” é a palavra associada com a prática
mediúnica em toda a América Latina, particularmente no
Brasil, (onde rivaliza com o Catolicismo,) e nas Filipinas. No entanto,
a influência de um homem no Espiritismo particularmente no Brasil,
é tão grande que o movimento é freqüentemente
chamado de “Espiritismo Kardecista” ou Kardecismo.
Há muitos paradoxos no impacto que o francês Allan Kardec
(1804 – 1869) teve sobre os assuntos humanos. O mais importante
nisso, é que o seu trabalho constituiu o único exemplo
de uma moderna apreciação sobre a mediunidade que exerceu
e continua exercendo um efeito verdadeiro, profundo, numa parcela significativa
da sociedade. No seu livro “Espíritos e
Cientistas” – Ideologia, Espiritismo e Cultura Brasileira,
o antropologista David J. Hess cita evidências
que sugerem que os ensinamentos espíritas coletados por Kardec,
influenciaram as teorias (Hess quase insinua um plágio) dos mais
importantes fundadores da moderna psicologia e psiquiatria, como Pierre
Janet.
-> HESS, David. Spirits and Scientists:
ideology, spiritism and Brazilian culture. Pennsylvania. Pennsylvania
State University Press, 1991.
Ainda, apesar disso, Kardec permanece quase desconhecido ou pobremente
entendido pelos Espiritualistas na Inglaterra. O erro mais comum e mais
fatal, é ao dizerem que Kardec era médium e que os ensinamentos
eram dele mesmo.
Arthur Findlay mostrou essa falta de entendimento ao referir-se a Kardec
nestes termos:
“No Brasil
um extenso movimento tem sido dirigido pelos escritos do francês
Allan Kardec. Ele no entanto, influenciou o pensamento de seus seguidores
mais para a doutrina da reencarnação do que na crença
do progresso, dos Espiritualistas Americanos e Britânicos”.
O fato de que um
dos mais importantes livros de Kardec foi publicado sob o título
de Livro dos Médiuns,
dá uma idéia de quão longe da verdade Findlay estava.
Isso, junto com o mesmo conceito do progresso eterno, contínuo,
como princípio central, já sugerem como ele não
era familiarizado com o trabalho do francês Allan Kardec. De fato,
a diferença significativa entre Espiritismo
e espiritualismo é que, para os primeiros a “Doutrina
da Reencarnação”,
é um ensinamento central enquanto que no Espiritualismo a crença
em reencarnação não é geralmente muito difundida,
apesar de ser extremamente comum. Há muitos Espiritualistas que
rejeitam esse conceito com aparente desdém. No entanto, não
é minha intenção colocar mais combustível
nesse já super aquecido debate sobre a reencarnação.
A única coisa que eu pessoalmente posso dizer é que eu
encontro argumentos de ambos os lados do debate que são persuasivos
de um lado e algumas vezes sensível e ilógicos de outro.
O que eu espero mostrar no entanto, é a maneira de Kardec analisar
as comunicações espíritas de natureza filosóficas,
proporcionando uma maneira de aumentar o entendimento nessas conclusões
e talvez também, dissolver um pouco a rejeição
que parece provocar em ambos os lados cada vez que o assunto é
abordado.
Em primeiro lugar, se nós queremos realmente entender porque
o trabalho de Kardec continua a ter sucesso tão espetacular e
ao mesmo tempo situá-lo no seu contexto correto, nós precisamos
dar uma olhada no histórico da sua vida. “Allan Kardec”,
é o pseudônimo adotado por Hyppolite Léon Denizard
Rivail, sob o qual ele publicou seus livros sobre Espiritismo. Rivail
nasceu em Lyon no dia 03 de outubro de 1804, numa família que
tinha por várias gerações sido formada por advogados
e magistrados. Desde criança, mostrava aptidões por Ciência
e Filosofia e na idade de dez anos foi enviado para o Instituto
Pestalozzi, cujos métodos de ensino
radicalmente inovadores, estavam atraindo alunos das mais bem posicionadas
famílias da Europa.
Hess enfatiza a importância desse fato na vida de Rivail, pois
o método Pestalozzi de ensino era baseado nos princípios
do Iluminismo. Os estudantes eram encorajados a abraçar os ideais
de reformas políticas e sociais e embora Rivail permanecesse
católico, ele adotou a atitude “mente aberta” de
um Livre Pensador. Ele acreditava que a educação era a
chave para harmonizar as relações entre o “Rico
e o Pobre”. Esses fatores parecem ter influenciado muito o interesse
que os ensinamentos dos espíritos provocaram em Rivail mais tarde.
Não foi só o fato dele ser mente aberta o suficiente para
não rejeitar os ensinamentos por razões religiosas, mas
eles foram como uma confirmação de sua crença na
igualdade e que iam também de encontro a muitos dos dogmas da
Igreja. Também, Rivail chegou ao Instituto Pestalozzi numa época
em que estavam acontecendo uma disputa interna entre o dominador administrador
Joseph Schmid e o teórico
Johannes Niederer que ajudou
a dar publicidade as idéias de Pestalozzi.
Hess especula até que, provavelmente, Rivail aprendeu lições
valiosas com ambos: Com Schimid, as habilidades políticas e administrativas
que o ajudariam mais tarde a fundar e manter um movimento internacional.
Com Niederer, aprendeu a arte de apresentar idéias novas e controversas
à um público cético e as Instituições
da mesma forma. Rivail rapidamente provou ser uma criança gênio
de rara distinção. A disputa interna na Escola provocou
a demissão de dezesseis mestres e na idade de
quatorze anos, Rivail foi convidado a ministrar aulas para os seus próprios
colegas. Ele também tornou-se um
dos alunos favoritos, um dos discípulos mais ardentes do Instituto
Pestalozzi e deixou Yverdun com uma graduação
em Letras e Ciências e um doutorado em medicina.
Após deixar o Instituto Pestalozzi, Rivail fixou-se em Paris,
quando em 1824 publicou seu primeiro livro. Esse livro era baseado no
seu próprio sistema de ensinar matemática e foi reeditado
até 1876. No ano seguinte, com a idade de vinte e um anos, ele
abriu sua própria “Escola de Primeiro Grau” e em
1826 ele abriu outra, o “Instituto Técnico Rivail’.
Ele ensinava Química, Física, Matemática, Astronomia,
Anatomia comparada e retórica. Falava nove línguas, sendo
que o italiano e espanhol fluentemente. Rivail também enviou
várias propostas de reforma Educacional à Câmara
Legislativa da França, que foram muito elogiadas embora não
adotadas.
Em 1832 ele desposou Amelie Gabrielle Boudet,
que era professora de Artes e Escritora. Mas um “desastre”
aconteceu em 1835 quando o tio de Rivail que também era seu sócio,
afundado em enormes dívidas de jogo, forçou o fechamento
de uma das escolas. No entanto, Rivail começou a escrever uma
série de livros, de textos de vários assuntos para a Universidade
Francesa e também começou a dar aulas particulares em
sua própria casa. Em 1848, quando a mediunidade das Irmãs
Fox estava provocando uma comoção na América, ele
já era um Educador muito conhecido e conceituado que poderia
facilmente e confortavelmente se manter pelo resto de sua vida com o
que provinha de seus livros. Em 1854 um amigo que tinha muito interesse
nos fenômenos de mesmerismo, Mr. Fortier, contou a Rivail sobre
a mania das mesas girantes que tinha àquele tempo alcançado
a França. Mais tarde ele inclusive falou que Fortier disse-lhe
que “Não somente fazem uma mesa mexer-se mas também
fazem-na falar. Faça a ela uma pergunta, e ela responde”.
A resposta de Rivail foi típica de um famoso acadêmico
do século XIX, que mais tarde iria arriscar sua reputação
por publicar trabalhos endossando a mediunidade. Ele respondeu, “Eu
acreditarei nisso quando puder ver e quando me provarem que uma mesa
tem cérebro para pensar e nervos para sentir e que ela possa
se tornar uma sonâmbula. Ainda assim, continuo não vendo
nada além de uma fábula contada para provocar sono”.
Como muitos outros na América e na Inglaterra, Rivail achava
que as mesas girantes eram um efeito “puramente material”
e só um ano depois que ele deixou-se convencer a comparecer à
uma sessão de mesas girantes na casa da Sra. Roger, uma das pessoas
pesquisadas por Fortier. Foi aqui que ele testemunhou o fenômeno
das mesas girantes que “pulavam e corriam sob condições
que excluíam dúvidas” e algumas “tentativas
bastante imperfeitas de escrita mediúnica numa lousa”.
Mas tudo isso somente serviu para despertar a curiosidade natural de
Rivail, que fez uma nota mental para investigar o assunto mais tarde.
Ele escreveu: “Minhas idéias estão longe de serem
modificadas, mas eu vi naqueles fenômenos um efeito que deve ter
tido uma causa. Eu prevejo sob a aparente frivolidade e entretenimento
associados à esses fenômenos algo sério, talvez
a revelação de uma nova lei, a qual eu prometo a mim mesmo
que vou explorar”.
Rivail foi então apresentado ao Sr. Baudin,
que organizava sessões espíritas semanais em sua casa.
As duas filhas de Baudin (que eram um tanto frívolas e não
muito cultas), tinham o hábito de obter comunicações
pelo uso das pancadas na mesa. Normalmente os resultados de suas experiências
eram uma ampla confirmação da regra de ouro, “semelhante
atrai semelhante”. As banalidades usuais foram substituídas
pela filosofia de um “caráter muito sério e grave”,
e Rivail adotou a prática regular de sempre chegar às
reuniões armado com uma lista de perguntas perspicazes aos novos
comunicadores.
Embora as narrações inglesas dos eventos desse período
variem bastante, é certo que, de alguma forma a
médium de prancheta Celina Japhet
também envolveu-se em obter respostas para as perguntas de Rivail.
Na breve biografia de Rivail que Anna Blackwell
escreveu no prefácio da tradução que ela fez para
o inglês do primeiro livro dele, ela mencionava que essas sessões
formaram a base da teoria espiritista do uso das mesas girantes, das
pancadas e da escrita na prancheta. No entanto, quando um grupo de outros
investigadores que já haviam coletado mais de cinqüenta
cadernos cheios de comunicações, pediram a Rivail para
organizá-los em algum tipo de seqüência, ele inicialmente
recusou. Se ele estava ou não suficientemente entusiasmado com
o assunto para ficar absorvido pela empreitada nós não
sabemos, o fato é que ele mudou de opinião. Após
dois anos analisando as comunicações, ele observou para
sua esposa:
“Minhas conversações
com as inteligências invisíveis revolucionaram completamente
minhas idéias e convicções. As instruções
que me são transmitidas constituem uma teoria completamente
nova sobre a vida humana, deveres e destino que me parecem ser perfeitamente
racional e coerente, admiravelmente lúcida, consoladora e intensamente
interessante. Eu tenho um grande desejo de publicar essas conversações
num livro. Eu acho que se isso me interessa tão profundamente,
com certeza deve interessar a outros também.”
Quando Rivail submeteu essa idéia aos comunicantes,
eles responderam:
“Ao livro, como ele é
um trabalho mais nosso que seu, você dará
o nome de “O Livro dos Espíritos” e irá
publicá-lo não sob seu próprio nome, mas sob
o pseudônimo de Allan Kardec. (“Kardec” era um antigo
nome Bretão da família de sua mãe). Adote seu
nome de Rivail para seus próprios livros que já foram
publicados”.
Rivail então assumiu a tarefa de editar os cinqüenta cadernos,
classificando os diferentes tipos de comunicações de acordo
com seu caráter e a consistência profunda de seus argumentos.
À estas ele acrescentou mais comunicações de Japhet
e então, ainda não convencido de que o material estava
suficientemente verificado, submeteu suas perguntas à um grande
número de outros médiuns. No decorrer dessa empreitada
ele adotou o método que ele chamava de “princípio
da concordância ou da conformidade” pelo qual ele aceitava
como mais perto da verdade, as respostas que poderiam não somente
“resolver todas as dificuldades das perguntas” mas eram
também consistentes com as respostas de outras fontes independentes.
Quando o O Livro dos Espíritos apareceu em dezoito
de abril de 1857, obteve tanto sucesso que uma Segunda edição,
aumentada ainda com mais material, foi impressa no próximo ano
e o nome Allan Kardec tornou-se uma palavra familiar em todo o continente.
A publicação do O Livro dos Espíritos causou algo
como uma sensação na França não só
porque o autor era um sóbrio, respeitável intelectual,
mas também porque ele continha comunicações dos
espíritos, que respondiam suas perguntas relacionadas à
todos os assuntos, desde a estrutura interna da matéria até
a natureza de Deus, a ética humana, o universo e o lugar da humanidade
dentro dele. Na verdade, o do O Livro dos Espíritos provavelmente
não era o tipo de conteúdo que o público esperava
que surgisse depois da mania da mediunidade que no espaço de
nove anos havia arrebatado a América e a Europa após ser
iniciado por duas crianças.
No entanto, o terreno já havia sido preparado para a aceitação
do primeiro livro de Kardec pelo mesmerista Alphonse Cahagnet
que publicou em 1848 o primeiro de três volumes do trabalho intitulado
“Segredos da Vida Futura Desvendados”. Cahagnet que era
marceneiro, conseguiu suas informações de pessoas que,
após serem “mesmerisadas” relatavam mensagens do
mundo espiritual. Mas havia uma diferença muito grande entre
Cahagnet e Rivail. Colin Wilson menciona que o primeiro não acreditava
em reencarnação, porque as pessoas que ele “mesmerisou”
não lhe disseram nada sobre esse assunto e que ele referia-se
aos médiuns escreventes com desdém. Rivail, por outro
lado, trabalhou quase que totalmente com médiuns escreventes,
e de uma sorte ou de outra tornou-se convencido de que a reencarnação
era um fato. Isso porque a maioria das personalidades espirituais que
se comunicaram através de diferentes médiuns que ele consultou,
referiam-se a reencarnação e explicavam sua operação
com detalhes consideráveis. Mas o fator crucial era provavelmente
o método que Rivail usava para decidir se os ensinamentos filosóficos
de um espírito eram realmente verdadeiros. Muitos anos após
suas tentativas iniciais em provar o fenômeno mediúnico
e também nas contradições que surgiam nas afirmações
dos espíritos sobre a vida espiritual ele escreveu:
“Eu tentava identificar
as causas do fenômeno interligando os fatos de maneira lógica,
e não aceitava uma explicação como válida
a menos que ela pudesse resolver todas as dificuldades da pergunta.
Esta sempre foi a maneira que eu procedi em minhas investigações
desde a idade de quinze e dezesseis anos. Uma das minhas primeiras
observações foi de que os Espíritos sendo somente
as almas dos homens, não apresentavam sabedoria ou conhecimento
absolutos. Seu conhecimento era limitado ao nível de seu adiantamento
e sua opinião tinha o valor de uma opinião pessoal.
Reconhecendo esse fato, desde o começo livrou-me de cometer
sérios erros não acreditando na infalibilidade dos Espíritos
e me precaver ao não formular teorias prematuras baseadas na
opinião de somente um ou alguns Espíritos”. Este
foi basicamente o âmago do método de Rivail. Ele propunha
aos Espíritos questões sobre moralidade, ética,
justiça divina, sendo que ele aparentemente já havia
decidido que os comunicantes que explicassem tudo em termos de reencarnação,
satisfaziam seus critérios satisfatoriamente.
Pretendo mais tarde dar uma explicação mais detalhada
sobre o ponto de vista dos Espíritos de Kardec. No momento
é suficiente dizer que eles apresentavam a reencarnação
como essencial para o progresso espiritual e aqui estava o que mais
causava atrito entre os que defendiam Kardec e os que defendiam Cahagnet.
Mas, surpreendentemente, o O Livro dos Espíritos reserva pouco
espaço para se discutir a reencarnação com mais
profundidade. Embora a influência dos trabalhos de Cahagnet
de certa forma ajudaram na divulgação, no sucesso inicial
de seu livro na França e resto da Europa, a longa permanência
da influência em toda parte do O Livro dos Espíritos
deve-se a outros fatores. David J. Hess a atribui à grande
habilidade de Rivail como educador profissional que foi desenvolvida
no Instituto Pestalozzi durante sua juventude. De fato, Hess menciona
que o O Livro dos Espíritos se assemelha muito com os livros
de texto “Pestalozzianos”. Talvez seja por isso que o
assunto central é apresentado de um jeito que a variedade de
assuntos e idéias apresentadas pelos Espíritos se relacionam
entre si, apresentando uma unidade sem contradições
internas. Na verdade o que o O Livro dos Espíritos apresenta
é uma representação de todo o Cosmos, centrada
nos aspectos morais e éticos da vida Espiritual e como esses
se relacionam com o uso da mediunidade pela humanidade, tudo apresentado
em um volume. Com efeito, embora Rivail não iniciou o Espiritismo
Francês, ele criou um sistema de explicá-lo tão
à frente de seu tempo que literalmente podemos dizer que o
Espiritismo começou desse ponto em diante.
O livro alcançou um vasto número de leitores de todas
as classes da sociedade. Alguns eram atraídos pelos ensinamentos
dos Espíritos dos assuntos científicos. De fato, é
impressionante como algumas das respostas às perguntas de Rivail
podem ser interpretadas como surpreendentemente à frente de
seu tempo. Um exemplo é a pergunta: “Existe o vacuo absoluto
em alguma parte do espaço”? E Rivail obteve como resposta:
“Não. Não existe vácuo. O que parece vácuo
para vocês, é ocupado por matéria num estado que
escapa à ação de seus instrumentos e entendimento”.
Essa afirmação (dada em 1850), que o espaço que
parece estar vazio está realmente cheio de matéria, somente
recebeu confirmação muito recentemente com a descoberta
do que é chamado “quantum Vacuum”. Na mesma época
os Espíritos casualmente também anunciaram: “o que
vocês chamam de molécula (ou talvez “partícula”
ou “átomo”) está realmente bem longe de ser
a molécula elementar”. Este fato científico só
foi confirmado quando J.J. Thomson descobriu o elétron, quase
meio século mais tarde.
No entanto, o O Livro dos Espíritos teve muitos convertidos ao
Espiritismo das classes trabalhadoras da França, talvez pela
simples razão de que os Espíritos não tinham nada
de elogioso para falar sobre a desigualdade, que era e ainda é
inerente à sociedade humana. De fato, a atitude Espiritista com
relação à esse assunto pode ser resumida na resposta
que deram a esta pergunta de Rivail:
“O qual, dentre todos
os vícios, pode ser considerado como a raiz de todos os outros”?
Obteve como resposta:
“Egoísmo, como
temos repetidamente lhe falado, pois é do egoísmo que
todo o mal provém. Por mais que luteis contra ele não
chegareis a extirpá-lo enquanto não o atacardes pela
raiz, enquanto não lhes houverdes destruído a causa.
Que todo os vossos esforços tendam para esse fim, porque nele
se encontra a verdadeira chaga da sociedade. Quem nesta vida quiser
se aproximar da perfeição moral deve extirpar do seu
coração todo sentimento de egoísmo, porque o
egoísmo é incompatível com a justiça,
o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades”.
Isso significa que o discurso dos espíritos era sempre ancorado
no princípio central da caridade, não somente com relação
às coisas materiais, mas com relação à muitas
outras coisas inclusive a pratica da mediunidade. Mas os Espíritos
de Kardec também denunciaram sexismo, racismo, pena de morte,
escravidão e qualquer outra forma de injustiça social
e preconceito como sendo contrários às Leis Divinas, mas
recomendavam liberdade de pensamento, liberdade de consciência,
igualdade de tolerância. Com efeito, o que estava sendo proposto
era um programa Espiritual que estava anos luz à frente do conservadorismo
da Igreja Católica.
O ponto de vista que analisaremos à seguir também representa
o que talvez seja a maior diferença entre o retrato que os Espíritos
de Kardec faziam da vida espiritual e as notícias enviadas por
outros. Rivail parecia somente estar interessado nos conceitos morais
e científicos da raça humana e conduzia suas perguntas
de acordo. Assim, o O Livro dos Espíritos não menciona
como eram as casas dos espíritos, etc., que é uma característica
comum da literatura espiritualista. O assunto principal é quase
totalmente orientado para o efeito que a conduta moral tem sobre o indivíduo,
tanto na Terra quanto no Além.
Encorajado pelo sucesso do O Livro dos Espíritos, Rivail decidiu
começar um jornal mensal. Incapaz de obter uma ajuda financeira
para essa empreitada ele pediu conselho de seus guias através
da mediunidade de Miss E. Dufaux e foi aconselhado à fundar o
jornal ele mesmo e não se preocupar com as conseqüências.
Sendo assim, a primeira edição de La Revue Spirit saiu
em primeiro de janeiro de 1858, e como aconteceu com o O Livro dos Espíritos,
seu sucesso suplantou as expectativas de Rivail. Ele também fundou
a Sociedade Parisiense de Estudos Psicológicos. Mas o seu trabalho
para o Espiritismo havia somente começado. Ele publicou o O Livro
dos Médiuns em 1861, que trata somente do ponto de vista dos
Espíritos sobre o desenvolvimento e o uso da mediunidade. Para
este e para outros trabalhos, ele usou mais médiuns que para
o O Livro dos Espíritos, empregando o mesmo método de
apresentação, isto é: Suas perguntas seguidas das
respostas dos Espíritos que eram suplementadas pelas suas próprias
observações e comentários.
Rivail rapidamente tornou-se a primeira autoridade em mediunidade na
França e foi homenageado pelos Espiritistas em sua cidade natal
de Lyon. Tanto que, em 1862 ele teve que pedir-lhes que não gastassem
mais dinheiro com homenagens, com banquetes, como haviam feito no ano
anterior.
Anna Blackwell menciona que ele constantemente recebia a visita de personalidades
influentes dos meios social, literário, artístico e científico
e que ele foi, por várias vezes, convocado pelo Imperador Napoleão
III, para responder perguntas sobre a doutrina do Espiritismo. Mas na
verdade, o sucesso crescente do Espiritismo em geral, não fez
muito para elevar Rivail ou o Espiritismo para um lugar de honra em
certos segmentos das Instituições Francesas. Até
entre os próprios Espíritas havia alguns que ressentiam
sua crescente influência no movimento Espírita. Esta oposição,
particularmente vinda da igreja, na verdade não causou muito
surpresa para Rivail. Mas pode-se imaginar quão penoso foi para
Rivail perceber a oposição dentro do Movimento Espírita.
De fato, ele já havia sido avisado de tudo isso pelos Espíritos
em 1856, bem antes de se tornar um campeão da causa Espiritista;
“Ódios terríveis
serão incitados contra você. Inimigos implacáveis
vão tramar a sua ruína. Você será exposto
à calúnia e a traição, até por
aqueles que mais parecem dedicados à você. Seus melhores
trabalhos serão rejeitados e negados”.
Esta comunicação foi dada pelo “Espírito
da Verdade”.
A Igreja católica, tanto na França quanto em toda parte,
estava particularmente ávida por desacreditar tanto o Espiritismo
quanto Rivail. David J. Hess, em seu livro: “Espíritos
e Cientistas: Ideologia, Espiritismo e a cultura Brasileira”,
menciona várias atitudes tomadas pela Igreja contra o novo movimento,
que era considerado pior que o Protestantismo. Antes da publicação
do “O Livro dos Espíritos” em 1856, o Santo Ofício,
sob as ordens do Papa Pio IX, proibiu a mediunidade e qualquer outra
superstição análoga, por serem “heréticas,
escandalosas e contrárias aos costumes honestos”. Mas em
1861 o Bispo de Barcelona tomou uma atitude mais direta. Ele ordenou
um auto de fé, conhecido como Decreto de Barcelona, contra trezentos
livros Espíritas, incluindo muitos de Rivail, que foram confiscados
e queimados em público. No entanto, a ação do Bispo
não fez mais que incitar o nacionalismo Francês e contribuiu
para o crescimento mais profundo do Espiritismo tanto na França
como na Espanha. Hess acrescenta que quando o Bispo morreu, nove meses
depois, seu espírito arrependido manifestou-se através
de vários médiuns franceses implorando pelo perdão
de Rivail que foi concedido. Na França, o diretor da Faculdade
de Teologia de Lyon começou a dar cursos de educação
pública contra o Espiritismo e Mesmerismo, isso em 1864. Os clérigos
escreviam que Espiritismo era a exaltação do demônio.
Rivail acusou a Igreja de incitar de uma maneira deliberada o ódio
contra o Espiritismo:
“Do púlpito, nós
Espiritistas temos sido chamados de inimigos da sociedade e da ordem
pública..... Em alguns lugares, os espiritistas eram censurados
ao ponto de serem perseguidos e injuriados nas ruas; as pessoas dignas
eram proibidas de alugar para Espiritistas, eram avisados para evitá-los
como pragas. As mulheres eram aconselhadas a se separarem de seus
maridos..... Caridade era recusada aos necessitados, trabalhadores
perderam sua subsistência somente por serem Espiritistas. Pessoas
cegas tiveram alta de determinados hospitais, contra suas vontades,
simplesmente por se recusarem a renunciar a suas crenças.”
Certos setores das Instituições Científicas Francesas
reagiram com bastante hostilidade à expansão do Espiritismo,
assim como na América e Grã-Bretanha. Hess menciona que
um membro da academia de Medicina, Dr. Dechambre, publicou uma crítica
do movimento em 1859, citando casos de insanidade, alegando que foram
causados pelo Espiritismo. Essas reportagens começaram a circular
em 1863. Na frança começou a circular uma teoria, que
se originou na América, dizendo que as batidas dos Espíritos
eram produzidas pelo estalar das juntas dos joelhos e dos dedos dos
pés. A variação francesa dessa teoria foi apresentada
à academia de medicina por um cirurgião, Dr. M. Jobert,
que atribuía barulhos à habilidade de se estalar o pequeno
tendão do músculo do peito do pé.
No entanto, de acordo com as predições dos Espíritos,
já mencionadas, Rivail também se deparou com a amarga
oposição interna do Espiritismo comentando a exatidão
dos avisos do “Espírito da Verdade”, ele escreveu
onze anos mais tarde:
“A Sociedade Espírita
de Paris tem sido um constante foco de intrigas, desfechadas justamente
por aqueles que me declaram amizade e lealdade, mas que na minha ausência
me caluniam. Eles dizem que aqueles que favorecem meu trabalho são
pagos por mim com dinheiro que recebo do espiritismo”.
Eu já mencionei antes que o endosso que Rivail dava à
teoria da reencarnação causou certo atrito com os seguidores
do mesmerista Alphonse Cahagnet. Também é fácil
imaginar que a proeminência que ele atingiu tão rapidamente
no movimento Espírita despertou muita inveja. Poucos esforços
humanos, até aqueles supostamente dedicados aos assuntos espirituais,
não estão totalmente livres de se envolverem em rivalidades
e controvérsias. Parece que, longe de ficarem gratos à
Rivail pela ampla expansão e divulgação que ele
conseguiu para o Espiritismo, alguns espiritistas ficaram ressentidos
pela sua influência.
Não é sem razão que podemos assumir que no caso
de Rivail, uma grande parcela do atrito que ele despertava era resultado
do modo como ele encarava a mediunidade. Como nós já vimos,
ele veio para o movimento espírita como um observador relativamente
desinteressado, com nenhum envolvimento emocional, nem idéias
pré concebidas sobre o assunto. Uma vez tendo chegado à
conclusão de que as comunicações eram na verdade
um trabalho das entidades desencarnadas, ele estava mais apto a julgar
objetivamente do que alguns médiuns em particular e seus seguidores,
os quais, como nos dias de hoje, poderiam estar ocasionalmente propensos
a sofrer a síndrome “Meu guia tem mais conhecimento que
o seu Guia”.
Eu dei uma idéia do modo como Rivail julgava o valor das afirmações
de natureza filosófica dos Espíritos. Mas ele também
adotava um critério para saber se um comunicante era mesmo a
pessoa que dizia ser. Trabalhando com o princípio de que “Semelhante
atrai semelhante”, e que todo ser humano tem alguma imperfeição
na sua natureza moral, ele não descartava a hipótese de
que até os melhores médiuns (especialmente os escreventes)
poderiam, em alguma etapa de sua carreira, caírem presas de personalidades
Espirituais que poderiam induzi-lo ao erro, simplesmente tomando emprestado
algum nome reverenciado “lisonjeando a vaidade do médium
para ganhar aceitação para os mais ridículos argumentos”.
Nesses casos, onde boa evidência da identidade poderia ser difícil
ou impossível de obter, ele recomendava que a comunicação
devia ser julgada de acordo com os sentimentos expressos, e com a maneira
como eles eram expressados: estariam de acordo com o que poderíamos
esperar da personalidade mencionada? Ainda assim, mesmo se essas condições
eram encontradas, ele somente aceitava (no máximo) a “probabilidade
moral” de que a identidade estava correta.
O O Livro dos Médiuns publicado em 1861, como
o título sugere, é totalmente dedicado à mediunidade.
É na verdade um guia para o desenvolvimento e uso apropriado
do "dom", e é ostensivamente escrito de acordo com
o ponto de vista dos espíritos comunicantes. Desnecessário
dizer que todos eram personalidades altamente evoluídas, alguns
bem conhecidos, outros anônimos. O material para o O Livro dos
Médiuns, e outros que se seguiram, foi conseguido em grande parte
através de médiuns de escrita automática na sociedade
Parisiense de Estudos Psicológicos de Rivail, e também
incluíam o trabalho de outros médiuns que lhe enviavam
comunicação de toda parte da França e do exterior.
Assim como no “O Livro dos Espíritos”
Rivail pretendia apresentar um ponto de vista considerado fidedigno
pois era obtido de uma grande variedade de fontes independentes, de
várias partes do mundo e que concordavam umas com as outras.
Uma espécie de consenso de opiniões entre os espíritos
avançados.
Todo aspecto considerável de todo tipo de mediunidade e manifestações
espíritas é tratado no “O Livro dos Médiuns”
(até o charlatanismo recebe um capítulo próprio).
Mas Rivail devotou atenção especial de como o caráter
e as idéias pré concebidas dos médiuns atrapalhavam
na habilidade com que os Espíritos podiam se comunicar efetivamente.
Ele identificou vinte e seis considerações que devem ser
levadas à sério ao se julgar o valor das comunicações,
e deu exemplos de alguns que não poderiam ser atribuídas
ao suposto autor. Um bom exemplo é a seguinte: “Vão
em frente crianças, marchem adiante com os corações
exultantes, cheios de fé; a estrada que vocês seguem é
muito linda. . .”. Esta comunicação, que continuava
sempre neste tom frívolo, banal, era assinada por “Napoleão”,
e trouxe o seguinte comentário de Rivail:
“Se havia um homem grave
e sério, Napoleão enquanto vivo, era um. Seu estilo
breve e conciso de se expressar é conhecido de todos, e ele
deve ter estranhamente se degenerado após sua morte, se ditou
uma comunicação tão prolixa e ridícula
como esta”...
Esta atitude com certeza deve ter ofendido certos médiuns e Grupos
Espíritas que tinham o hábito de aceitar comunicações
como essa como verdadeiras. O fato de Rivail referir-se a essas pessoas
com certo desprezo num capítulo sobre os perigos da obsessão
Espiritual, indica que ele estava muito inteirado do ridículo
que elas poderiam passar sob o crivo dos ávidos críticos.
A referência que Rivail faz aos “inimigos” do Espiritismo,
“aqueles que fingem ser amigos para na verdade injuriar deslealmente”.
Recomenda também que as Sociedades Espíritas se mantenham
pequenas porque “esses tipos de pessoas acham muito mais fácil
semear a discórdia entre grandes assembléias do que em
grupos menores nos quais todos os membros se conhecem”. Ele também
sugere que estava preocupado pois o movimento continha pessoas as quais
ele considerava estarem erradamente motivadas.
O O Livro dos Médiuns complementa o O Livro dos Espíritos
perfeitamente, no sentido de que ele proporciona um guia para as muitas
dificuldades que podem surgir durante a prática da mediunidade.
Em 1864, juntou-se à essas obras “O
Evangelho Segundo o Espiritismo” que contem os ensinamentos
dos Espíritos sobre o novo Testamento. Este trio de livros é
considerado pelos espiritistas como sendo a pedra angular sobre a qual
o moderno movimento foi construído. No entanto, Rivail publica
mais dois trabalhos sob o nome “Kardec”: O Céu
e o Inferno (1865), que foi baseado nos comentários
dos Espíritos sobre a natureza real destes, nos estados mental
e Espiritual; e “Gênesis” (1868)
que mostrava, a concordância da teoria dos Espíritos com
as descobertas da Ciência Moderna e o teor dos registros Mosaicos
explicados pelos Espíritos. Ele também publicou dois pequenos
tratados titulados “O que é Espiritismo”
(1859) que era um diálogo entre Rivail e três críticos
do Espiritismo: “O Crítico”,
“O Céptico”
e “O Padre”
e “Espiritismo" reduzido a sua mais simples
expressão” (1862).
Em 1868, com a publicação de “Gênesis”,
Rivail completou a série de livros que hoje são considerados
pelos Espiritistas mais evangelizados como “A terceira Revelação”
de Deus para a Humanidade. A primeira, seria os ensinamentos de Moisés
e a Segunda os ensinamentos de Jesus. Rivail não menciona que
o Espiritismo ou as comunicações dos Espíritos
eram a terceira Revelação, mas como quase todos os outros
aspectos dos ensinamentos de Kardec, essa idéia não surgiu
dele mas dos Espíritos comunicantes, sendo que um destes expressou-se
mais sucintamente no O Evangelho Segundo o Espiritismo:
“Moisés mostrou
à Humanidade o caminho; Jesus continuou o seu trabalho; O Espiritismo
veio finalizá-lo”.
Rivail escreveu sobre este aspecto
do Espiritismo:
“A Lei do Velho Testamento
foi personificada em Moisés: a do Novo Testamento em Cristo.
Espiritismo é então a terceira Revelação
da Lei de Deus. Mas não é personificada por ninguém
porque representa ensinamentos dados, não pelo Homem mas pelos
Espíritos que são as Vozes do Céu, para todas
as partes do mundo, através da cooperação de
inúmeros intermediários. Numa maneira de falar é
um trabalho coletivo formado por todos os Espíritos que trazem
esclarecimento à toda humanidade, fornecendo os meios de se
entender o Mundo e o destino que espera todo o indivíduo no
seu retorno ao mundo Espiritual.”
Já mencionei antes que
os professores de Kardec descrevem o mundo e a vida Espiritual quase
inteiramente em termos do efeito que a conduta moral do indivíduo
tem neste mundo e no outro. Rivail não tinha medo de mostrar
os dois lados da moeda. O O Céu e o Inferno
(1865) não era somente a descrição dos Espíritos
da real natureza desses estados, também incluía comunicações
de espíritos recém desencarnados de toda classe moral.
Do mais maldoso ao mais caridoso e bom. Cada tipo de personalidade descrevia
suas condições no momento e como as suas ações
na terra contribuíram para o seu deleite ou tristeza.
Ao contrário dos dogmas da Igreja Católica que pinta um
quadro de sofrimento sem fim até para aqueles cujo único
pecado foi simplesmente o de não serem católicos, os Espíritos
comunicantes mantinham a afirmação de que os sofrimentos
na próxima vida só perduram até o momento em que
o indivíduo se esforça para retificar a causa, e que a
todos é dada a oportunidade de conseguir isso.
Aqueles que têm experiências no campo difícil do
resgate devem ficar interessados no caso do assassino que havia sido
recentemente executado:
“um envenenador sistemático,
um médico que empregou sua posição profissional
para ter êxito em muitos assassinados horríveis pelos
quais ele havia sido executado. Este homem, se manifestou espontaneamente
numa sessão e apesar de reclamar que: “as luzes ofuscam
e penetram como flechas afiadas no íntimo do meu ser”
e tempestuosamente rejeitou a ajuda oferecida pelo círculo.
... ”Eu me basto; serei capaz de resistir à essa luz
odiosa”.
Rivail afirma no entanto, que
esse Espírito eventualmente começou a melhorar, progredir,
arrependeu-se e tornou-se o autor de “muitas comunicações
boas e sábias”.
Outros assassinos descreveram um estado de confusão e terror
ante o fato de terem que encontrar suas vítimas. Um deles descreveu
como tudo aconteceu e explicou porque isso lhe causava tanto sofrimento:
“___ P: O que você
sente ao vê-los”?
“___ R: Vergonha e Remorso. ... e eu ainda os odeio. Eles rezam
para eu expiar meus crimes. Você não pode imaginar que
tortura horrível é dever tudo àqueles que você
odeia”.
Haviam também comunicações
de muitos outros tipos de descrentes. Alguns, embora não tenham
cometido nenhuma maldade em suas vidas, também não fizeram
nada de bom e sentem remorso por isso.
Outros que levaram uma vida pautada no bem descrevem uma relativa felicidade
e a esperança de que possam continuar em serviço ao próximo
na nova vida. No entanto, o capítulo que muitos espiritistas
consideram bastante controverso é aquele no qual os Espíritos
descrevem suas “Expiações Terrestres” ou como
eles haviam expiado crimes do passado, retornando à Terra pela
reencarnação.
Um desses casos envolveu o Espírito de um jovem servente que
trabalhava para um conhecido de Rivail, que havia morrido subitamente
enquanto estava de licença. O Espírito contou à
Rivail que numa vida anterior havia sido uma criança rebelde,
filho de pais ricos que morreram e o deixaram órfão. Ele
foi então adotado por um amigo de seu pai que o tratou como seu
próprio filho, mas ele não reconheceu essa bondade e foi-lhe
muito ingrato. Para expiar essa falta, quando ambos reencarnaram ele
veio numa posição em que pudesse servir seu antigo guardião:
“Eu vim determinado à
expiar meu antigo orgulho nascendo numa posição servil
nesta atual existência; uma determinação que permitiu-me
provar minha gratidão à ele, que foi meu benfeitor na
encarnação passada. Eu até tive a oportunidade
de salvar sua vida. Esta existência humilde provou-se muito
útil para mim. Eu adquiri força de caráter suficiente
para evitar ser corrompido pelo contato do meio ambiente que é
quase sempre cheio de vícios; e eu agradeço à
Deus que agora adquiri a felicidade que desfruto”.
Rivail então questionou-o
quais foram as circunstâncias em que ele salvou a vida de seu
patrão, e recebeu o relato com detalhes que ele transcreve no
livro e que foi posteriormente verificada como verdade junto ao antigo
empregador do jovem.
É de se notar no entanto que muitos Espíritos interrogados
não se lembram de nenhuma existência anterior (outra além
da que ele acabou de deixar), ficando impossível saber que relevância
ela teve na presente circunstância em que eles se apresentam:
Os Espíritos explicam à Kardec, o porque dessa falha em
se lembrar da vida passada: essas lembranças só são
permitidas “se “ e “quando” elas podem servir
à algum propósito útil, e que essa memória
deve emergir gradualmente, talvez após um longo período
de tempo.
Qualquer que seja a última verdade à respeito da reencarnação,
permanece o fato de que ela é o meio pelo qual os Espiritistas
continuam a racionalizar moralidade e ética num contexto
de Justiça Divina. É também o caso que
o renascimento não é visto somente como um mecanismo para
se expiar as faltas passadas e nem é visto como compulsório.
Os professores de Kardec enfatizavam que a reencarnação
e usualmente um fator de escolha consciente após um intervalo
no mundo Espiritual que pode ser longo ou curto de acordo com as circunstâncias
individuais, e que ela freqüentemente ocorre porque um Espírito
deseja praticar algum ato de caridade para alguns menos afortunados
ou atuar em alguma missão Espiritual em particular. Então,
seria muito errado assumir que todos que sofrem na Terra estão
sendo “punidos” pelas faltas do passado e que merecem seus
sofrimentos. A versão dos Espiritistas da doutrina da reencarnação
requer que, mesmo que esse seja o caso, aqueles que sofrem por esse
motivo devem ser tratados com compaixão.
Como veremos, o fato dos Espiritistas acreditarem em reencarnação
não nos leva a justificar as injustiças sociais no Brasil,
como se pode ver no sistema de castas Hindu. Muito pelo contrário,
como podemos atestar na atuação maciça que o Espiritismo
nesse País tem na assistência social aos pobres e também
na contribuição que lá e dada ao tratamento das
doenças mentais.
Hess menciona que era um desejo especial de Rivail que a classe médica
desse atenção aos ensinamentos dos Espíritos sobre
insanidade, que eles explicavam que freqüentemente era causada
pela mediunidade que embora natural estava descontrolada e havia se
tornado uma forma de obsessão espiritual.
Em 1862 e 1863 ele dedicou uma série de artigos na Revue Spirite
aos pacientes do asilo de Morzines, os quais ele considerava como sendo
vítimas dessa condição infeliz, as quais eram algumas
vezes causadas pela atuação de personalidades Espirituais
malignas vingando-se de seus inimigos de uma existência anterior
e que já haviam reencarnado.
Infelizmente, as expectativas de Rivail para o Espiritismo não
se realizariam nem na sua existência nem em seu próprio
País. Eu mencionei antes a veracidade das predições
do “Espírito da Verdade” sobre as oposições
que ele enfrentaria tanto das Instituições francesas como
no seio do próprio Espiritismo. Rivail também havia sido
avisado de que o esforço de liderar o movimento teria um efeito
desastroso sobre sua saúde e que o levaria à desencarnar
mais cedo. Dez anos pós a predição, em 1867, ele
comentou:
___ “ Eu não tenho
encontrado paz e mais de uma vez quase sucumbi; sob esse excesso de
trabalho minha saúde tem deteriorado e minha vida tem sido
comprometida. .... Tudo que foi predito pelo Espírito da Verdade
está acontecendo “.
Em trinta e um de março
de 1869, tendo acabado de elaborar a constituição
de uma Sociedade que ele pretendia que levasse em frente seu trabalho,
Hippolyte Leon Denizard Rivail, mais conhecido como “Allan
Kardec” morreu, subitamente pela ruptura de um aneurisma
no coração, enquanto estava sentado em sua escrivaninha
ocupado em organizar uma pilha de papéis.
Rivail, foi enterrado no famoso Cemitério de Montmarte em Paris
e seu amigo, o eminente astrônomo e pesquisador científico
Camille Flammarion discursou em seu funeral. Hoje
seu túmulo é um lugar de peregrinação para
os Espiritistas de todo o mundo e onde é celebrada também
uma cerimônia anual em sua lembrança que é assistida
por centenas de pessoas. Mas essa adoração vem quase que
totalmente do exterior porque após a morte de Rivail o movimento
Espírita na França declinou ao ponto de hoje, quase não
existir.
Em 1873, no entanto, quatro anos após a morte de Rivail a Sociedade
de Estudos Espirituais foi formada no Rio de Janeiro, Brasil.
E foi a partir desta data que o Espiritismo iria crescer constantemente
até que viria a ocupar uma posição de liderança
que Rivail havia visualizado.
Alguns anos atrás, um amigo meu que havia demonstrado um certo
interesse na filosofia espírita pediu-me que lhe emprestasse
meu exemplar O Livro dos Espíritos (uma edição
antiga, “cheia de orelhas”). Logo após me devolver
o livro, ele embarcou para uma longa viagem de seis meses pela América
Latina. Por vários motivos, nós não tivemos tempo
de discutir o livro antes de sua partida. Esse colega deixou a Inglaterra
achando que havia somente acabado de ler um trabalho extremamente obscuro
apesar de interessante, elaborado por um esquecido francês do
século XIX.
Após seu retorno no entanto, ele me contou de sua surpresa ao
andar por uma rua no Brasil e deparar com um imponente edifício
adornado com o nome “Kardec”. Mais tarde, ele pode constatar
que praticamente quase todo brasileiro que ele encontrava conhecia Kardec,
e que alguns já haviam lido o O Livro dos Espíritos.
O Espiritismo cresceu em importância no Brasil desde que chegou
da França, ao ponto de ser parte integrante da vida brasileira
entre todas as classes sociais.
A influência de Kardec no movimento pode ser medida pelo fato
de que ele é freqüentemente chamado de Kardecismo. Isso
também serve para distinguir Espiritismo de Umbanda e Candomblé,
dois cultos que, apesar de serem baseados na mediunidade, têm
origens africanas.
O escritor Guy Lyon Playfair, que morou e trabalhou
no Brasil por muitos anos colocou em seu livro “O poder Desconhecido”
o resultado de uma pesquisa de opinião pública que uma
conceituada revista brasileira organizou em 1971: 70% dos brasileiros
declararam-se católicos contra somente 11% que se diziam Espíritas;
68% diziam que acreditavam no Espiritismo; 49% já haviam visitado
um Centro Espírita; 27% já sentiram a influência
dos Espíritos em suas vidas e 15% declararam que já se
comunicaram com desencarnados. Somente 1% dos que se disseram católicos
foram capazes de manter o princípios básicos de sua religião.
Isso levou Playfair a suspeitar que
“... Muitos brasileiros
são bons católicos nas manhãs de Domingo e bons
Espiritistas no resto da semana. .... Os brasileiros professam o catolicismo
porque seus pais o faziam, e o Espiritismo porque funciona para eles,
freqüentemente transformando suas vidas”.
É no trabalho prático que o Espiritismo faz no Brasil,
particularmente para os mais pobres e necessitados, que parece estar
a razão do sucesso do movimento. Esta era na verdade a prescrição
dos comunicantes de Kardec para o bem sucedido uso da mediunidade em
larga escala.
Apesar do fato de a literatura Espírita Brasileira ter sido acrescida
de muitos outros autores como Adolfo Bezerra de Menezes
(muitas vezes chamado de Kardec Brasileiro), os conceitos chaves de
Kardec sobre a caridade e a abordagem que ele faz da mediunidade estão
no coração do movimento.
Francisco Cândido (Chico) Xavier
é provavelmente o melhor exemplo
da mediunidade em ação, segundo abordagem Espiritista.
Apesar de ter recebido somente a instrução primária,
ele se tornou no Brasil o “autor” mais fecundo, que produziu
na média, três livros por ano desde 1932, em assuntos diversos
como filosofia Espírita, Literatura, História e Ciência.
Seus livros já venderam muitos milhões, e tem sido traduzidos
para muitas línguas, e seu nome é muito conhecido, familiar,
em seu País natal. No entanto, "escritor" seria provavelmente
um termo mais apropriado para o Chico, porque ele é um médium
de escrita automática que não recebe nenhum crédito
ou dinheiro por seu trabalho prodigioso. Ele trabalhou como um funcionário
humilde do governo até se aposentar em 1961 e ainda leva uma
vida extremamente modesta apesar dos "royalties" de seus livros
que são todos empregados em benefício dos pobres.
Playfair menciona um enorme conjunto de prédios construídos
pela Federação Espírita do Estado de São
Paulo (FEESP) chamado Casa Transitória que proporciona ajuda
às famílias carentes e educação para crianças
das favelas e também a Casa André Luiz em Guarulhos que
abriga 1.400 crianças retardadas. Na maioria das grandes cidades
brasileiras existe a assistência dos Espiritistas em Centros de
Treinamento, Orfanatos, Berçários, Hospitais e até
Hospícios; a Casa de Maria Madalena perto do Rio de Janeiro que
se dedica à cuidar dos doentes de AIDS sem recursos.
Eu já mencionei antes que existe evidências de que os trabalhos
de Kardec influenciaram alguns fundadores da moderna psicologia e psiquiatria,
e de que o próprio Rivail era um entusiasta de que o
Espiritismo deveria ter um papel no tratamento das doenças mentais.
Hess menciona as “dezenas de hospitais psiquiátricos, alguns
dos quais mantém convênios com sistema estadual de saúde,
que são de propriedade e mantidos por Espiritistas. Nesses Institutos
os pacientes recebem tratamento convencional dos psiquiatras e psicólogos
combinado com uma forma especializada de terapia chamada “desobsessão”,
que é aplicada em um Centro Espírita das redondezas.
No Brasil, o Espiritismo é um movimento religioso vibrante que
proporciona esperança, conforto e inspiração para
milhares de pessoas que de outra maneira não teriam alívio
para a pobreza que nesse País é muito grande. Mas isso
não seria possível, se o movimento não contasse
com a ajuda das classe profissionais e dos batalhões de pessoas
da sociedade que se unem a esse a trabalho conjunto de assistência.
Existem tantos Espíritas doutores na cidade de São
Paulo, que eles se uniram e formaram sua própria associação
Médica.
A grande consideração que esse movimento tem no País,
pode ser avaliada pelo fato de que existem três edições
separadas de selos postais trazendo a estampa de Rivail. O primeiro
foi em 1957 para celebrar o centenário do O Livro dos Espíritos.
Houve também uma cerimônia solene na câmara Legislativa
no Distrito Federal de Brasília, no dia 03 de outubro de 1995
para comemorar a data de nascimento de Rivail. O Sr. Jorge Cauhi,
representante da Câmara e o Sr. Divaldo Pereira Franco,
um médium muito conhecido, falaram sobre Rivail e a importância
do Espiritismo. Dois outros políticos fizeram um depoimento sobre
como o Espiritismo ajudou-os em suas vidas pessoais. Isso aconteceu
ao mesmo tempo em que delegados de trinta e quatro países encontraram-se
na cidade para o “Congresso Internacional de Espiritismo”.
Parece incrível, que o quarto maior País da Terra tenha
abraçado o Espiritismo como parte integrante de sua cultura,
sendo que os ensinamentos Espíritas foram dados à um intelectual
Francês, menos de dez anos após duas crianças americanas
iniciarem as comunicações mediúnicas (as quais
ele no começo negou veementemente).
O impacto que os ensinamentos de Kardec continuam a ter, simplesmente
não tem precedentes no “Espiritualismo” e o mais
impressionante é quando consideramos que eles foram coletados
logo após o fenômeno das batidas de Hydseville. No entanto,
certamente isso não quer dizer que todos os aspectos dos ensinamentos
de Kardec devem ser considerados inquestionavelmente corretos em todos
pontos. Hess observou que alguns intelectuais Espíritas brasileiros
reclamam que os membros mais evangélicos do movimento consideram
as obras de Kardec “quasi-sagrados”. Eles preferem considerar
os textos como “Algumas vezes falhos mas na maioria das vezes
verdadeiros, escritos por um brilhante pensador do século dezenove”.
A realização mais significativa de Rivail foi ter desenvolvido
um método sistemático de investigação das
comunicações mediúnicas de natureza filosófica
que resultaram num bloco de ensinamentos para satisfazer todas as necessidades.
A natureza igualitária que as mensagens transmitem naturalmente
atraem o apoio dos pobres pois lhes oferece conforto e esperança;
enquanto que os aspectos científicos dos ensinamentos, especialmente
aqueles que dão explicações sobre os fenômenos
Espíritas, interessam os mais informados e cépticos.
O resultado final foi uma visão das comunicações
Espíritas que tem feito consideráveis incursões
no pensamento estabelecido, nas Instituições, num País
que, sem dúvida desempenhará um papel central nos assuntos
mundiais num futuro próximo.
É também um fato que o Espiritismo que é muito
popular no México e em outros países da América
Latina, está vagarosamente estabelecendo bases sólidas
em toda parte, particularmente nos Estados Unidos, onde existem agora
Centros Espíritas sob o recém formado Conselho Espiritista
dos Estados Unidos da América.
Quão irônico é considerarmos que a mais antiga filosofia
Espírita pós Hydseville continua a ser a mais produtiva
e bem sucedida!
O autor deseja agradecer a Janet Duncan
do Grupo de Estudos Allan Kardec, pelo auxílio durante a preparação
deste artigo.