Seguindo as tradições da
ciência mecanicista o ser humano foi tomado como uma mera máquina
biológica, um organismo complexo com sistemas de funções
específicas.
É Tempo de SORRIR!!!
Reserve tempo para trabalhar
Este é o preço do êxito
Reserve tempo para pensar
Esta é a fonte do saber
Reserve tempo para divertir-se
Este é o segredo da juventude
Reserve tempo para ser amigo
Este é o caminho da felicidade
Reserve tempo para sonhar
Este é o meio de ligar uma estrela a sua vida
Reserve tempo para amar
Este é um privilégio concedido por Deus
Reserve tempo para ser útil
ao próximo
Pois a vida é demasiadamente curta para sermos egoístas
Reserve tempo para sorrir
Esta é a música da alma.
Tempo é questão de preferência...
A Visão Espírita do Homem
“...Eis o Homem!”
- Pilatos
(João, 19:5)
Quem somos?
“O milagre
dos milagres é que de um monte de barro Deus fez um homem hoje!...”
Motel Kamsoy - No filme The Fiddler on
the Roof
A Natureza tem sido objeto das reflexões
do homem desde que a linguagem iluminou-lhe o cérebro com o magnífico
poder da representação. O mito nos permitiu apreender
conteúdos da realidade e tão logo construímos uma
história da natureza buscamos construir nela a história
de nós mesmos.
Afinal, quem somos? - tornou-se a pergunta central do
homem que percebia a si mesmo como único, distinto mesmo de seus
semelhantes, idiossincrático, singular...
As tradições mitológicas das civilizações
antigas apontam para a herança divina que portamos. Cada mito
da criação humana encerra uma representação
de conceitos construídos a partir da percepção
da natureza das coisas acrescida do poder criativo que a linguagem lhe
proporcionava.
Muitos séculos depois, a questão de nossa
identidade permanece tão válida como outrora. Mais até...
Reconhecer nossa verdadeira natureza torna-se na atualidade a questão
fundamental de cuja resposta derivam nossas ações, nossa
ética, nossos ideais.
O homem é o que ele faz de si. E ele faz aquilo que acredita
ser.
Máquinas? Deuses? Réprobos? Afinal, quem somos?
O presente trabalho pretende elucidar particularidades
desta questão. Traremos à baila conceitos que grassam
na cultura ocidental. E embora influenciados por correntes do pensamento
oriental, este não será objeto direto de nossas cogitações.
A filosofia espírita servirá como pano de fundo para o
desenvolvimento de nossas idéias. Sobre os seus postulados analisaremos,
construiremos e refutaremos conceitos acerca da natureza do homem.
Nosso propósito? Edificar, com os elementos ora
existentes, uma concepção abrangente acerca da natureza
humana. Uma concepção conspirante. Erguida contra as noções
estabelecidas que apresentam o homem como um objeto, máquina
ou complexo exclusivamente material. Pretendemos incendiar a apatia.
Lutamos por entronizar o conceito de que somos um projeto de transformação,
somos um processo em construção; somos um devir. A filosofia
espírita, respaldada na ciência emergente do espírito,
serve-nos de base fundamental para propor e desenvolver uma nova, desafiante
e transformadora idéia: A VISÃO ESPÍRITA DO HOMEM.
Visões da Antropologia
“A
antropologia é a ciência do fenômeno humano. Em contraste
com as disciplinas que limitam porções de entendimento
no fenômeno, a antropologia considera a história, a psicologia,
a sociologia, a economia, etc., não como domínios, mas
sim como componentes de um fenômeno global.
Edgar Morim em O Homem e a Morte.
Como estudo do fenômeno humano, a antropologia se propõem
a estudá-lo em todas as suas dimensões. Aqui encontramos
conflitos entre as diversas visões sobre a natureza humana. Ora
visto como um complexo puramente biológico, outras, como um diáfano
componente espiritual que milagrosamente se mostra pela vontade misteriosa
de Deus, o problema do ser humano tem merecido a atenção
de diversas escolas do pensamento. Poderemos agrupar tais visões
— conforme proposta do prof. J. Herculano Pires [1]
— da seguinte forma:
A Antropologia Materialista
Reduzindo o homem a um complexo físico-químico
e apresentando o Espírito como um epifenômeno, esta abordagem
busca equacionar a questão humana dentro da lógica mecanicista
buscando na fisiologia cerebral a explicação última
da realidade humana.
A Antropologia Espiritualista
Propõem um Ser Espiritual cuja existência
estende-se para além da vida física; porém, negligencia
aspectos importantes acerca do mundo material por considerá-lo
de menor importância.
Uma nova antropologia...
A visão espírita do homem propõem
uma nova antropologia — talvez a retomada do conceito fundamental
dela. Reconhecendo as dimensões espiritual e material do ser
humano, propõem-se a um estudo abrangente acerca da natureza
humana. Transformando o antropus num conceito espiritual, num processo
de desenvolvimento de um ser bio-psico-sócio-espiritual, a nova
antropologia Aproxima-se do o Espiritismo já que este é
definido como o “a ciência que estuda a origem, natureza
e destinação dos Espíritos, bem como suas relações
com o mundo corporal.” — conforme o assinala seu codificador.
O homem como conceito
“...o entendimento da
natureza tem sua finalidade dirigida ao entendimento da natureza humana,
e da condição humana enquanto natural.”
Jacob Bronowski - em A Escalada Humana
A linguagem é uma das grandes conquistas humanas. Através
dela representamos e significamos o mundo. Utilizamo-la como instrumento
de acesso à realidade das coisas e mesmo de acesso à nós
mesmos. Falar de conceitos significa articular símbolos. É
disto que trataremos agora. Diversos símbolos dispostos de forma
organizada, estruturados dentro de um contexto cultural específico
e que pretendem a representação, ainda que parcial, daquilo
que fomos, somos ou viremos a ser. Aqui nos tornamos sujeitos e objetos
de nossas próprias definições.
Conceito Biológico
Seguindo as tradições da ciência
mecanicista o ser humano foi tomado como uma mera máquina biológica,
um organismo complexo com sistemas de funções específicas.
O grande elemento capaz de diferenciar o homem de outros
organismos superiores era justamente a incrível complexidade
de seu cérebro, tomada então como a máquina central
do complexo biológico humano. Explicar o cérebro significava,
em última instância, explicar o homem. Mesmo os conceitos
de consciência e mente encontravam, no paradigma materialista,
a solução de continuidade suposta na explicação
do mecanismo cerebral.
A esse respeito, Jonh Eccles — eminente neurofisiologista
— se pronuncia nos seguintes termos:
“É essencial que todas as considerações
sobre o problema mente-cérebro se fundamentem no conhecimento
da compreensão científica do cérebro e nas várias
atividades que são tidas como envolvidas na produção
da experiência consciente” [2]
O conceito biológico do homem-cérebro
deu origem à concepção de um ser mecânico
cuja existência estava passível de explicação
pelo modelo computacional de Von Neuwman:
PROCESSADOR + MEMÓRIA + SISTEMAS DE ENTRADA E SAÍDA DE
INFORMAÇÕES
Nesta concepção a mente humana aparecia como um epifenômeno
cuja existência era derivada da manutenção da memória
que possibilitava, mediante o condicionamento, automatizar respostas
para os eventos ocorridos no mundo externo, primeiramente, e no mundo
interno após um certo desenvolvimento. Assim, cada parte da memória
humana, estaria gravada em algum lugar específico do cérebro,
segundo a concepção de algumas correntes do pensamento.
A especialização cerebral — entre o lado direito
e esquerdo do cérebro — apresentam na atualidade o desenvolvimento
contemporâneo de tais concepções.
Uma das mais eminentes personalidades no desenvolvimento
destes conceitos foi o neurocirurgião canadense Wilder
Penfield. Nos anos 20, com experiência envolvendo epilépticos,
Penfield descobriu que ao estimular determinadas regiões do cérebro,
seus pacientes recordavam-se de fatos específicos em suas memórias.
A repetição do estímulo ocasionava a lembrança
detalhada dos mesmos episódios.
A este respeito ele escreveria em 1975:
“De imediato, ficava evidente que não
se tratavam de sonhos. Eram ativações elétricas
de um registro seqüencial de consciência, um registro que
tinha sido formulado durante a experiência anterior do paciente.
Este revivia tudo aquilo de que tinha consciência naquele período
de anterior como num flashback cinematográfico.” [3]
A idéia de uma máquina biológica
consolidava-se a pouco e pouco. A expressão vida vegetativa utilizada
para pessoas com acidentes cerebrais irreversíveis, denota a
crença materialista de nossa cultura ao supor esteja o indivíduo
encerrado em seu complexo aparelho cerebral.
Porém, este mesmo paradigma encontra dificuldades
na explicação de inúmeros fenômenos da realidade.
Voltemos às idéias de Sir John Eccles. Na mesma obra citada
ele desenvolve a tese de uma hipótese que:
“...considera que a mente autoconsciente é
uma entidade independente que está ativamente engajada em ler
na multidão de centros ativos dos módulos da áreas
de ligação do hemisfério cerebral dominante.
A mente autoconsciente seleciona desses centros, de acordo com sua
atenção e seus interesses, e integra o que selecionou
para nos fornecer a cada momento a unidade de experiência consciente.”
[4]
E mais adiante:
“...acredito que a estratégia reducionista
não terá sucesso na tentativa de explicação
dos níveis mais elevados do desempenho consciente do cérebro
humano” [5]
Tais visões trariam implicações
para um conceito biológico mais abrangente acerca do ser humano.
Aceitando de forma clara, a existência de uma dimensão
biológica do homem somos conduzidos a uma visão mais abrangente
de sua própria estrutura.
A filosofia espírita reconhece esta dimensão
biológica, embora não se restrinja a ela. Diz-nos o Prof.
J. Herculano Pires:
“Cada criatura humana é um ser espiritual,
mas é também um ser físico ou um ser corporal
(biológico diríamos nós). [6]
Prossegue Herculano agora citando O Livro dos Espíritos
- obra primeira da Filosofia Espírita:
“Se o homem não possui uma alma animal,
que por suas paixões o rebaixe ao nível dos animais,
tem seu corpo, que freqüentemente o rebaixa a este nível,
porque o corpo é um ser dotado de vitalidade, que possui instintos,
mas não inteligentes, limitados aos interesse de sua conservação.”[7]
Vendo a dimensão biológica do homem, atribuindo
extrema importância mesmo à esta dimensão, o Espiritismo
antecipa a derrocada da concepção materialista do homem.
Para falarmos em conceitos específicos, visitemos
Stanislav Grof em “Além do Cérebro” quando
ele escreve:
"O último desafio sério ao pensamento
mecanicista é a teoria do biólogo e bioquímico
britânico,, Rupert Sheldraker, em seu livro revolucionário
e altamente controvertido, Uma Nova Ciência da Vida (1981) Sheldraker
fez uma crítica brilhante das limitações da força
explanatória da ciência mecanicista e sua inabilidade
para encarar problemas de significância nas áreas de
da morfogenia, durante o processo individual e a evolução
das espécies, da genética ou de formas instintivas e
mais complexas de comportamento. A ciência mecanicista trata
apenas do caráter quantitativo dos fenômenos, com aquilo
que Sheldraker chamou de 'causação formativa'. Ainda
segundo Sheldraker, os organismos vivos não são apenas
máquinas biológicas complexas e a vida não pode
ser reduzida a reações químicas." [8]
É assim que nos aliamos a uma visão moderna
do homem encarado como um organismo biológico de extrema complexidade,
porém não encerrado nesse mesmo organismo. Antes, enxergamos
no biológico uma de suas dimensões constitutivas.
É assim que em 1959, encontramos nos escritos
de Will Durant um desabafo sob o qual vale a pena refletir:
“Talvez a biologia venha a rebelar-se com o
domínio dos métodos e conceitos da física; e
descubra que a vida se aproxima mais das bases da realidade do que
a ‘matéria’ dos físicos e dos químicos.
E quando a biologia se libertar da mão cadavérica do
método mecanístico, sairá dos laboratórios
para o mundo, começará a transformar os propósitos
humanos, como a física transformou a face da terra; e porá
fim à brutal opressão da maquinaria sobre o gênero
humano. Ela revelará, até para os filósofos que
a duzentos anos vivem escravizados aos matemáticos e físicos,
a unidade diretiva; a criatividade protéica e a magnificente
espontaneidade da vida” (DURANT, Will.
Em Filosofia da Vida. pp. 76. ed. 11ª. Companhia Editora Nacional.
São Paulo. 1959.)
Conceito Social
O homem é uma unidade social. Está na
natureza humana a necessidade da vida em sociedade. Estruturamos, desde
a grei primitiva até a sociedade globalizada de hoje, uma civilização
centrada na conquista social. Mesmo quando insistimos em privilégios
para o indivíduo, temos no contexto da desigualdade social a
estrutura viabilizadora deste aborto social.
O homem é um animal social
- insistia Aristóteles.
Somos mais. Necessitamos da vida em sociedade como elemento capaz de
nortear o processo de desenvolvimento de nossa cultura. Somente em sociedade
os homens podem desenvolver os limites de suas potencialidades.
A sociedade estabelece estruturas de relações
que possibilitam a estruturação do indivíduo mediante
o processo de aprendizado e adaptação. Aqui, a família
desempenha papel crucial como o elemento diretor do processo de aculturação
do indivíduo, responsável que é pela introdução
da linguagem e da ética social, elementos primários da
civilização individual.
Lev Semyonovich Vygotsky, psicólogo russo, propõem
em seus escritos que é a sociedade a responsável pelo
desenvolvimento da mente humana.
Assim se pronunciam alguns estudiosos (Michael Cole
e Sylvia Scribner):
“Os sistemas de signos (a linguagem, a escrita,
o sistema de números), assim como o sistema de instrumentos,
são criados pelas sociedade ao longo do curso da história
humana e mudam a forma social e o nível de seu desenvolvimento
cultural. Vygotsky acreditava que a internalização dos
sistemas produzidos culturalmente provoca transformações
comportamentais e estabelece um elo de ligação entre
as formas iniciais e tardias do desenvolvimento individual. “
( VYGOTSKY, L.S. em “A Formação
Social da Mente”. p. 8. 4ª ed. Ed. Martins Fontes. São
Paulo. 1991)
E nas próprias palavras de VYGOTSKY:
“...o momento de maior significado no curso
do desenvolvimento intelectual, que dá origem às formas
puramente humanas de inteligência prática e abstrata,
acontece quando a fala e a atividade prática, então
duas linhas completamente independentes de desenvolvimento, convergem.”
(idem. pp. 27)
E mais adiante:
“... Signos e palavras constituem para as crianças,
primeiro e acima de tudo, um meio de contato social com outras pessoas.
As funções cognitivas e comunicativas da linguagem tornam-se,
então, a base de uma forma nova e superior de atividade nas
crianças, distinguindo-as dos animais."
Ao analisarmos a questão do ponto de vista espírita
- pelo que recomendamos o estudo de todo o capítulo VII da parte
terceira de O Livro dos Espíritos, que trata Da lei de Sociedade
— vemos a questão 766, onde Kardec interroga:
“766. A vida social está em a Natureza?
“Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade. Não
lhe deu inutilmente a palavra e todas as outras faculdades necessárias
à vida de relação.”
Os escritos de Vygotsky — que era materialista
dialético e cujo trabalho fundamenta a teoria psicológica
do marxismo — foram levados a efeito entre 1924 e 1934, mas constituem
a confirmação da posição espírita
- exposta em 1857 — com relação ao conceito social
do homem; ressalvado o fato de que suas percepções se
limitam a uma existência do indivíduo, ao passo que o Espiritismo
considera estas relações antes, durante e depois da existência
física.
Do item 676 de O Livro dos Espíritos extraímos
a afirmação: “Sem o trabalho o homem permaneceria
sempre na infância quanto à inteligência.”
Avaliando a abrangência desta afirmativa, identificamos no processo
social de luta pela sobrevivência, no qual o homem transforma
a realidade e é por ela transformado, o elemento condutor da
filosofia espírita no tocante ao desenvolvimento do ser humano.
Estabelecido o progresso intelectual - para o qual o trabalho é
condição precípua - dele decorre naturalmente o
progresso moral, embora não imediatamente.
Analisando, então, o homem no contexto social,
vemo-lo como um manipulador de instrumentos e símbolos. Identificamo-lo
como ser passível de transformação e como agente
transformador. Temos nele o elemento que cria, elabora e se modifica
através da realidade social. O instrumento como elemento viabilizador
de seu trabalho na transformação da natureza; o símbolo
como elemento interno, fruto da convivência social e capaz de
lhe redimensionar os limites internos numa nova compreensão da
realidade e que o transforma efetivamente.
Herculano Pires propõem uma interpretação
mais abrangente do conceito social espírita no que toca às
relações sociais. Identificando, graças à
interação Homens / Espíritos pelas vias mediúnicas
e intuitivas (vide o cap. IX da segunda parte de O Livro dos Espíritos
- Da intervenção dos Espíritos no Mundo Corporal
- particularmente os item 459 a 472) o conceito de uma Cosmossociologia.
Ao encarar o fato de ser o homem um membro das Sociedade Cósmica
o Espiritismo nos remete à uma instância superior da análise
sociológica. Tal análise nos remete à uma nova
ordem de idéias de cuja abrangência extraímos: o
processo reencarnatório, a participação na sociedade
terrena e espiritual, o trabalho dentro e fora do corpo físico
- como experiências de aprendizagem através das quais o
ser edifica-se a si mesmo pela convivência social.
Conceito Psicológico
O homem é um ser psicológico. Guarda em
si mesmo um universo inteiro a ser explorado. Seus motivos, suas pulsões
e mesmo sua vontade apresentam-se como variáveis complexas que
lhe determinam o caráter. A psicologia — ou o estudo da
alma — propõem-se a elucidar os movimentos ou processos
ocorridos no contexto da mente. Fundamentando o estudo desses processos
mentais, essa ciência da alma consolidou-se nos trabalhos de Sigmund
Freud, psiquiatra tcheco que em 1900, com a obra “A Interpretação
do Sonhos”, inaugura um novo capítulo no livro da história
do pensamento humano.
A composição do pensamento humano norteia-se
por padrões que nos são acessíveis ao conhecimento
imediato e que compõem nossa consciência. Freud foi o primeiro
a identificar que, no entanto, além dos motivos e padrões
da consciência, influenciam-nos sobremaneira outros motivos e
outros padrões existente num plano mental distinto a que ele
denominou inconsciente. A psicologia passou a ver o complexo humano
como um conjunto de forças e definiu seus objeto de pesquisa
— a psicologia humana — como o esforço para representar
e equacionar tais forças de modo a oferecer um nítida
compreensão do homem e de seus comportamentos.
Apesar das diversas visões da psicologia —
adiante, no item A PSICOLOGIA HUMANA, veremos um conjunto de escolas
psicológicas — é fácil notar a importância
do conceito psicológico do homem como o elemento representativo
dos movimentos da alma humana, movimentos estes responsáveis
por suas pulsões, seus interesses e mesmo suas vontades.
Conceito Espiritual
A crença na imortalidade
da alma é o fundamento mais antigo de que o homem via a si próprio
como algo mais além do corpo. Tal crença mistura-se com
a própria história da cultura humana..
O conceito espiritual apresenta-se nas diversas representações
que o homem fazia de si. Porém, com o advento do paradigma mecanicista
o aspecto espiritual foi extremamente relegado. Primeiro com a divisão
cartesiana de corpo e alma, que deixou para a ciência o estudo
do corpo e para a religião o estudo do espírito, tido
como elemento sobrenatural. O estabelecimento da premissa materialista
como fundamento da explicação da natureza — inclusive
a humana — proposta por Tomas Hobbes, no século XVII trouxe
força incomensurável ao conceito do homem como máquina
e inaugurava o moderno esforço de explicar o homem como um conjunto
de causas e efeitos fisiológicos a lhe determinarem a existência.
Caberia ao século XIX a definição
de um novo paradigma no contexto da ciência. Derivado das pesquisas
com os fenômenos mediúnicos, o prof. H. Denizard Rivail
viria propor a adoção do Espírito como uma das
potências da Natureza, retirando-lhe o caráter de sobrenatural
e resolvendo a descontinuidade existente entre matéria e espírito.
Publicando a obra “O Livros dos Espíritos" —
em 1857, com o pseudônimo de Allan Kardec — restabelecia
no homem sua dimensão espiritual ao passo em que dispunha essa
dimensão para o estudo da ciência. E além disso
propôs que:
“O Espiritismo é uma ciência que
trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos,
e das suas relações com o mundo corporal.” - Allan
Kardec [9]
Vale salientar que a visão espírita não
contrapõem corpo e alma, conforme podemos encontrar em O
Livro dos Espíritos - item VI da Introdução:
“Há no homem três coisas:
1º, o corpo ou ser material análogo aos animais e animado
do mesmo princípio vital;
2º a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo;
3º, o laço que prende a alma ao corpo, princípio
intermediário entre a matéria e o Espírito.”
Com esta visão o Espiritismo recolocaria o Espírito
como elemento natural, passível de pesquisa pela ciência
— embora não acessíveis aos métodos científicos
de então.
O conceito espiritual do homem se propõem a representar
o homem como tendo uma dimensão pronunciada que lhe extrapola
o corpo físico, antecedendo e sobrevivendo a ele. Esta perspectiva
tem aos poucos se consolidado como uma visão científica
moderna. O declínio dos conceitos newtonianos-cartesianos - fundamentalmente
mecanicistas — deu azo ao surgimento de novas visões que
hoje consolidam tal aspecto espiritual do ser humano. Os esforços
de Stanislav Grof, Roberto Assaglioli, Pierre Weil, Elizabeth Kübbler-Ross,
Hellen Wambach, Raymond Moody Jr., Carlis Osis, Ian Stevenson, Hernani
Guimarães Andrade — entre outros — no sentido da
pesquisa moderna do Espírito, tem surtido efeito e incomodado
a visão materialista do homem colocando-a em posição
insustentável.
A Revolução Espiritual
O Homem, a Mesa e os Espíritos
Quando o conceito do homem animal - puro complexo bio-físico-químico
— se estabelecera no século XIX, um conjunto de fenômenos
extraordinários solaparam a cultura materialista vigente. As
chamadas danças das mesas — fenômeno no qual um grupo
de pessoas em torno de uma mesa a viam levantar-se, mover-se e mesmo
responder perguntas através de pancadas e movimentos —
veio despertar o interesse de inúmeros pesquisadores. Entre eles
o Prof. Hippolyte Léon Denizard Rivail.
As pesquisas do Prof. Rivail culminaram em 1857 com
o lançamento de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, o qual ele assinava
com o pseudônimo de Allan Kardec.
Na obra o Sr, Rivail propunha uma revisão radical
em torno do conceito do homem, de sua existência, de seus propósitos
e conceitos em torno da vida.
A mudança conceitual
A primeira mudança se deu na própria colocação
do problema. Até então as questões pertinentes
aos Espíritos residiam na alçada exclusiva da religião,
e desde Tertuliano, a premissa religiosa era “crer por ser impossível”.
O maravilhoso e o sobrenatural grassavam ameaçados num mundo
em que a Ciência estabelecia seus domínios...
O Sr. Rivail, contudo, propunha que o Espírito
não era um ente sobrenatural. Estava na natureza das coisas e
era passível de pesquisa. E como uma das primeiras conclusões
extraídas de suas pesquisas viu nos Espíritos nada mais
do que os próprios homens despidos do corpo físico.
O estudo do fenômeno mediúnico —
curiosamente iniciado com a dança das mesas — culminou
com a definição de uma nova visão em torno da natureza
e do homem.
Existência e Imortalidade
A proposta filosófica do Espiritismo, ao abordar
a questão é colocada nos seguintes termos:
1. Existe alma? — aqui entendida como algo além
da simples estrutura biológica do cérebro.
2. Esta alma sobrevive à morte do corpo?
Estes termos nos levam a uma abordagem meticulosa do
problema humano.
A própria pesquisa espírita, já
no século XIX, respondia afirmativamente a ambas as interrogações,
mas somente a partir de 1932, com a publicação da obra
Novas Fronteiras da Mente, de autoria do professor Joseph B. Rhine —
o pai da parapsicologia moderna, a ciência oficial despertou para
tratar o assunto com a seriedade merecida. O objetivo da obra do prof.
Rhine era apresentar como suas pesquisas — utilizando o método
estatístico — demonstravam a existência no homem
de percepções extrasensoriais. Tais faculdades indicavam
a possibilidade de existência, no homem , de algo além
da matéria.
Na década de 80, uma obra de extrema curiosidade
— O EU E O SEU CÉREBRO — assinada pelos eminentes
pesquisadores Karl Raimund Popper, filósofo, e John Eccles, neurofisiologista,
advogavam a real existência de um EU, distinto do cérebro.
As pesquisas sobre as potencialidades da alma eclodiram
com força total a partir da década de 70. Em particular,
o surgimento da Psicologia Transpessoal, a imortalidade deste EU ficou
patenteada através das pesquisas com a reencarnação
e as experiências de quase morte.
A proposta de abordagem do Espiritismo mostrou-se acertada
para o caso.
Dimensões e abrangências
do ser humano
O Ser bio-psico-sócio-espiritual
Á luz do pensamento espírita, encaramos
o homem como um complexo bio-psico-sócio-espiritual que se manifesta
em múltiplas experiência de aprendizagem reencarnatória
com vistas ao desenvolvimento de suas potencialidades morais e intelectuais.
Tais dimensões humanas não podem ser descaracterizadas
sob pena de obter-se uma pálida representação do
homem. O entendimento do ser humano passa, portanto, pelo entendimento
de suas dimensões múltiplas e, particularmente, pelo reconhecimento
de suas dimensão espiritual - responsável pela perenização
de sua individualidade evolutiva a expressar-se em múltiplas
existências dentro e fora da experiência carnal.
Há um ponto que merece esclarecimento particular.
Trata-se da dimensão biológica humana, muitas vezes associada
exclusivamente á vida encarnada.
Através do estudo do corpo espiritual - ou perispírito
— somos forçados a reconhecer uma dimensão biológica
espiritual(!). Assim como poderemos pensar em dimensões sociais
espirituais, e psicológicas espirituais. A dimensão espiritual
aparece como um elemento de destaque para acentuar que as dimensões
bio-psico-sociais NÃO ESTÃO RESTRITAS A UMA EXISTÊNCIA
FÍSICA!!! Mas estendem-se por toda a história espiritual
do ser. A vida possui uma abrangência incomensurável a
desdobrar-se em cadeias evolutivas que integram o mundo espiritual e
material.[10]
O Ser Agente e o Ser Paciente
A epopéia da existência humana desdobra-se
através de uma seqüência evolutiva curiosa. Primeiro
é a Natureza que, ao formar e transformar a espécie humana,
dota-a do aparelho mental, que lhe possibilita compreender a si próprio
e à Natureza. Depois vem o esforço humano de mudar o meio
em que está; o que resulta na aceleração do processo
de mudança de si mesmo mas agora seguido pela efetiva transformação
do meio onde está...
Temos assim a dupla natureza humana ora AGENTE ora PACIENTE....
Da interação entre estes aspecto temos como resultado
o PROCESSO EVOLUTIVO HUMANO.
A capacidade de transformar a si mesmo quer como agente,
quer como paciente, traz ao homem uma abrangência notável
uma vez que o coloca acima se si mesmo, para além do que existe
no presente. Esta abrangência lhe caracteriza o projeto existencial.
o homem aparece como uma atualização de si próprio,
como a melhoria daquilo que já foi. Este processo desenvolve-se
não apenas em uma experiência existencial, mas na multiplicidade
das encarnações.
Agindo, o homem aciona o meio externo. Sofrendo as conseqüências
dos seus atos, o homem sente a natureza agindo sobre si, transformando-o.
Este é o referencial educativo da vida. O pensamento espírita
denomina-lhe LEI DE CAUSA E EFEITO. Esta lei não determina quais
serão as conseqüências das atitudes humanas mas estabelece
que elas virão de modo que, através delas, o homem seja
transformado pelo aprendizado de novos valores, pensamentos e atitudes.
A integração existencial
Em sua magnífica obra TIPOS PSICOLÓGICOS,
o psicólogo Carl G. Jung define a individuação
[11]:
“De modo geral, pode-se dizer que a individuação
é o processo de constituição e particularização
da essência individual, especialmente, o desenvolvimento do
indivíduo — segundo o ponto de vista psicológico
— como essência diferenciada do todo, da psicologia coletiva”
Se estendermos este processo de individuação
para a realidade reencarnatória observaremos que o processo reencarnatório
é, de fato, um processo de individuação. Porém,
a cada nova existência não somos remetidos ao ponto zero!
Antes, cada experiência de vida está integrada de modo
a possibilidade do desenvolvimento integral do Ser, tanto do ponto de
vista moral quanto intelectual.
Acerca do assunto afirma Allan Kardec [12]:
“A vida do Espírito,
pois, se compõem de uma série de existências corpóreas,
cada uma das quais representa para ele uma ocasião de progredir(...)”
E recentemente, analisando o mesmo problema escreveu
o físico Patrick Drouot [13]:
“Durante meus anos de pesquisa, pude constatar
que as vidas passadas não estão separadas umas das outras.
Estão ligadas por uma espécie de fio condutor, que se
desenrola incansavelmente além do tempo e do espaço.”
Isto porque, as diversas experiências reencarnatórias,
promovem o desenvolvimento dos potenciais do ser espiritual, que, embora
evolutivo, guarda sua integridade psicológica, algo a que podemos
chamar de INDIVIDUALIDADE ESPIRITUAL. Cada encarnação
possibilita a expressão desta individualidade ao mesmo tempo
que lhe promove o desenvolvimento.
Importa considerar que este desenvolvimento não
ocorre apenas no plano subjetivo. Na medida em que se desenvolve o indivíduo
espiritual manifesta potencialidades mais aprimoradas para agir no meio
em que vive. Seu vigor intelectual e afetivo manifestam-se em ondas
de influenciação e forças de mudança, que
tocam os seres e as coisas de sua convivência. A convivência
social — no sentido mais amplo possível — promove,
ao longo do tempo, a melhoria de todos os envolvidos no processo, constituindo-se
este desenvolvimento no propósito da vida. A este processo denominamos
INTEGRAÇÃO EXISTENCIAL.
A Psicologia Humana
“Uma
imagem nova da psique humana tem sido das mais significativas contribuições
da moderna pesquisa da consciência à emergente visão
científica do mundo.
Stanislav Grof - Em Além do Cérebro
O propósito da representação de uma psicologia
humana vem de encontro aos nossos anseios de compreender a complexidade
do ser humano. Os modelos ora representados constituem — em nossa
opinião particularíssima — as grandes vertentes
do pensamento psicológico vigente. Apresentamo-los sob a epígrafe
de cartografias por entendê-los como mapas de representação
da estrutura psicológica humana.
Destacamos, porém, que foge ao escopo deste trabalho
uma análise minuciosa de cada modelo apresentado, excetuando-se
obviamente, o modelo espírita. [14]
A cartografia de S. Freud
Com base no pressuposto de um determinismo psíquico
— no qual se admite não haver descontinuidade na vida mental
já que para cada pensamento, memória revivida, sentimento
ou ação, podemos encontrar uma causa — Freud estabeleceu
a existência na psique humana dos seguintes processos:
Consciente — “uma pequena parte da mente,
incluí tudo do que estamos cientes num dado momento” [15]
Inconsciente — onde “estão elementos
instintivos, que nunca foram conscientes e que não estão
acessíveis à consciência”
[16]
Pré-consciente — “uma parte do inconsciente,
mas uma parte que pode tornar-se consciente com facilidade.” [17]
E com base neles estabeleceu a primeira cartografia
da psique. A estrutura da personalidade aparece em Freud composta por
três instâncias:
ID — onde estão os instintos básicos
da organização biológica e que se manifestação
de modo desconhecido;
EGO — o elemento de contato com a realidade das
coisas, onde se desdobram os processos conscientes. Funciona como uma
“camada” que dá forma e direção às
forças propulsoras do ID, de onde ele retira as energias de realização.
SUPEREGO — “É o depósito dos
códigos morais, modelos de conduta e dos constructos que constituem
as inibições da personalidade.” [18]
Freud identifica uma cadeia de extrema vinculação
biológica com relação aos processos mentais. Estabelece
o conceito das pulsões de vida (libido) e de morte (que não
recebeu denominação específica) como energias propulsoras
das atividades de formação e desenvolvimento da personalidade.
A cartografia de C. J. Jung
Para Jung os arquétipos desempenham papel fundamental
na compreensão do ser humano. Em sua cartografia da psique humana
Jung retrata cinco arquétipos:
PERSONA — A forma através da qual nos apresentamos
no palco da vida. Segundo a definição do próprio
Jung[19]:
“(...) um complexo funcional a que se chegou por
motivos de adaptação ou de necessária comodidade”
EGO — É “(...) o centro da consciência
e um dos maiores arquétipos da personalidade. Ele fornece um
sentido de consistência e direção em nossas vidas
conscientes.[20]”
SOMBRA — uma parte do inconsciente na qual residem
aspectos inaceitáveis, até para nós mesmos, de
nossa individualidade.
ANIMA ou ANIMUS — aparece como uma parcela complementar
de nossa individualidade. Apresenta-se como um elemento do inconsciente
com as tendências complementares às apresentadas pelo EGO.
SELF — aparece como o nosso EU INTEGRAL, um elemento
norteador de nosso processo de individuação. Na definição
de Jung [21]: “consciente e inconsciente
não estão necessariamente em oposição um
ao outro, mas complementam-se mutuamente para formar uma totalidade:
o SELF.”
A cartografia de B. F. Skiner
CONDICIONAMENTOS — para a psicologia behaviorista
radical de Skiner, o corpo apresenta-se como a totalidade do ser. As
experiências sensórias edificariam, através de um
processo de CONDICIONAMENTO as ações, pensamentos, associações
e motivos da personalidade humana. A estrutura mental edifica-se e reforma-se
com base nos estímulos ou repressões repetidas. O homem
apresenta-se como resultado de sua história, sendo possível
modifica-lo através de novos estímulos.
A cartografia de S. Grof
Barreira Sensorial — os elementos vinculados à
própria biologia humana. Sensações e formas relacionadas
às disposições de nossos órgãos sensoriais.
Inconsciente Individual — o nível da biografia
individual onde residem todas as experiências de nossa história
de vida.
Nível de Nascimento e Morte — onde são
encontradas e interrelacionadas as experiências psíquicas
relacionadas aos fenômenos da morte e do nascimento. Aqui encontramos
matrizes psicológicas cujo arcabouço reflete, em parte,
os arquétipos coletivos referentes aos episódios de nascimento
e morte.
Domínio Transpessoal — onde as experiências
transpessoais se manifestam. Analisando essas experiências ou
fenômenos transpessoais, o Dr. Grof assinalou [22]:
“O denominador comum desses fenômenos,
de outra maneira ricos e ramificados, é a sensação
vivida pelo sujeito de que sua consciência expandiu-se além
das comuns limitações do EGO e transcendeu os limites
do tempo e do espaço.”
A cartografia Espírita
O Espiritismo, ao propor a compreensão do homem
em sua totalidade identifica - conforme citado anteriormente - que:
“Há no homem três coisas:
1º, o corpo ou ser material análogo aos
animais e animado do mesmo princípio vital;
2º a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado
no corpo;
3º, o laço que prende a alma ao corpo, princípio
intermediário entre a matéria e o Espírito.”
A Doutrina reconhece no homem a existência de
um corpo biológico:
“(...) o corpo é um ser dotado de vitalidade,
que possui instintos, mas não inteligentes, limitados aos interesse
de sua conservação.” [23]
Este corpo estabelece um nível da consciência
humana. Mais além dele identificamos o perispírito como
a matriz de toda a memória do Ser, o elemento responsável
— porquanto indissociável do Espírito, propriamente
dito — pelo armazenamento de toda a memória do Ser. Nele
encontramos o registro de TODAS as experiências encarnatórias
do Espírito. E finalmente temos o Espírito como o elemento
fundamental do Ser, aquele que lhe confere individualidade. O Espírito
mostra-se como um princípio inteligente individualizado e passível
de progresso.
Formulando uma compreensão específica
da cartografia espírita, o Espírito André Luiz,
em sua obra No Mundo Maior, no capítulo “A CASA MENTAL”,
introduz uma extrapolação da teoria freudiana ao propor
a casa mental dividida em três módulos:
O Inconsciente — onde se encontra toda a experiência
da vida pretérita do indivíduo — inclusive as experiência
em vidas passadas;
O Consciente — onde repousam as experiências
acessíveis pela mente no presente; e
O Superconsciente — a porção de
nossa mente onde se encontram as nossas promessas e ideais de melhoria
individual.
A representação da psique humana, à
luz do Espiritismo faz-nos ver que as abordagens tradicionais no campo
da psicologia não são antagônicas, mas complementares.
A existência e imortalidade da alma fornecem a chave para a compreensão
de um conjunto de problemas acerca do homem que nenhum outro preceito
permite. Vemos que o condicionamento behaviorista de fato ocorre a nível
no corpo, nos limites das barreiras sensoriais que se consolidam na
forma de elementos simbólicos na mente, através de reflexos
condicionados e condicionantes, mas percebemos que ao longo do tempo,
nos recessos de nossa alma, desenvolvemos igualmente aspectos particularíssimos
a se expressarem na forma dos arquétipos Junguianos. Reconhecemos
a similitude do ID, do EGO e do Superego com as estruturas criadas pela
experiência multiexistêncial, a exprimir-se em várias
reencarnações, desde o princípio inteligente original
(o ID) que pela experiência na matéria desenvolve um individualidade
(EGO) a submeter-se ao processo evolutivo mediante o desenvolvimento
de referenciais superiores acerca de si mesmo (SUPEREGO).
A compreensão da psicologia Transpessoal —
que tem sua definição em GROF — aproxima a pesquisa
científica oficial do modelo proposto pelo Espiritismo, embora
não se identifique a ele.
Ser e Significado: Análise da perspectiva humana
“Pode
surpreender que eu diga, baseado em minha prática profissional,
assim como na de meus colegas psicólogos e psiquiatras, que o
problema fundamental do homem, em meados do século XX, é
o vazio. Com isso quero dizer não só que muita gente ignora
o que quer. mas também que freqüentemente não tem
uma idéia nítida do que sente.”
Rollo May em O Homem à
Procura de Si Mesmo.
O Sentido da Vida em Frankl
O Dr. Viktor Frankl é um dos sobreviventes de
Auschwitz. Responsável pelo desenvolvimento de uma nova linha
de terapia à qual ele denominou LOGOTERAPIA
— ou a terapia do sentido.
Na primavera de 1977 o Dr. Frankl escreveu [24]:
“(...) o homem não pode mais ser considerado
apenas como uma criatura cujo interesse fundamental é o de
satisfazer as pulsões, de gratificar os instintos, ou então,
dentro de certos limites, reconciliar entre si o ID, o EGO e o Superego,
nem a presença humana pode ser entendida simplesmente como
o resultado de condicionamentos ou de reflexos condicionados. Neste
âmbito, ao contrário, o homem se revela como
um ser em busca de um sentido.”
Esta busca de um sentido resulta na transformação
da experiência de vida num processo de realização
real; de autorealização e autoatualização.
O Espiritismo destaca este aspecto como sendo fundamental
para o equilíbrio humano: a necessidade de um sentido para a
vida. E nesse particular, na medida em que estende a vida para além
das fronteiras da morte e estabelece uma cadeia de desenvolvimento ontológico,
a Doutrina Espírita viabiliza a integridade do equilíbrio
pela extrapolação da perspectiva humana dando ao ser um
significado real para sua vida: a construção de si mesmo!
May e o Homem a procura de Si
Mas quem é este homem?
Em 1969 o Dr. Rollo May, psicólogo
norte-americano publicou uma obra que guarda interesse até os
presentes dias: O HOMEM A PROCURA DE SI MESMO. Nesta obra o Dr. May
estabelece que o grande conflito da era moderna foi a perda de si mesmo.
Estabelecendo a rotina, a angústia, o medo e
a solidão como os elementos responsáveis pela neurose
contemporânea, propõem que o (re)conhecimento de si mesmo
seja a via de recuperação da integridade humana na atualidade.
No item 919 de O Livro dos Espíritos,
encontramos a preocupação dos prepostos espirituais no
sentido de efetivar a transformação humana:
“919. Qual o meio prático mais eficaz
que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração
do mal?
- Um sábio da antigüidade vo-lo disse: Conhece-te a ti
mesmo.”
Assim, o Espiritismo propõem a estruturação
de um processo contínuo de conhecimento e auto-avaliação
com fins de melhoria continuada acerca daquilo que somos intelectual
e moralmente.
A Verdade e a Vida no Caminho de
Jesus
625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido
ao homem para lhe servir de guia e modelo?
R. - Jesus.
"O LIVRO DOS ESPÍRITOS" item 625.
A mensagem do Cristianismo permanece um convite para o desenvolvimento
das potencialidades humanas mais profundas. Desde o “amar a Deus
sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” e passando
pelo “Conhecereis a verdade e ela vos tornará livres”,
vemos Movimento Cristão uma proposta de transformação
no homem.
“Vós sois deuses!”
— asseverava Jesus.
Convocando-nos para iniciar o nosso processo de melhoria
pessoal, o Cristianismo nos faz ver a nós mesmos como uma promessa
de evolução. Crer que a mensagem de Jesus reveste de caráter
passivo, indutora de um estado de expectativa inoperante face à
vida, é ignorar a essência mesma do Cristianismo: o esforço
de melhoria íntima na direção de promover o amor
a si; ao próximo e a Deus.
O homem como fenômeno, agente e projeto
O Projeto Existencial
O homem se mostra na visão espírita, como
um projeto de si mesmo. Um arcabouço iniciado pela natureza;
dotado de consciência e responsabilizado pelo seu próprio
desenvolvimento ulterior.
Através das experiências reencarnatórias
vai ele adquirindo novas compreensões sobre a natureza de si
e das coisas; vai efetuando suas mudanças de comportamento, melhorando-se,
expandindo-se...
Edificação de Si...
Aparecendo como um fenômeno da natureza, o homem
se transformou num agente de destaque capaz de mudar as coisas e a si.
Na condição de agente de transformação
o trabalho desempenha para ele um papel fundamental. É pelo trabalho
que o homem age no meio e o meio lhe transforma. Por esse motivo o destaque
dado por Kardec no tocante à necessidade do trabalho, mesmo quando
o indivíduo não dependa economicamente dele.
O homem para além de si
“É
tempo que o homem tenha um objetivo.
É tempo que o homem cultive o germe de sua mais elevada esperança.”
Zaratustra, Em Assim Falava Zaratustra de F. Nietzsche.
O conceito do Além do Homem em Nietzsche
Friedrich Nietzsche, o filósofo poeta desesperado,
autor da morte de Deus na modernidade, ao analisar o homem em sua totalidade
chegou à conclusão que o tempo do homem havia passado.
Foi o primeiro a desenvolver uma filosofia centrada no conceito da seleção
natural, na sobrevivência natural do mais forte e aplicá-la
ao tipo humano. Propondo que o homem é uma ponte entre o animal
e o Além-do-Homem, Nietzsche estabelece um convite para que o
homem ultrapasse seus limites e desenvolva a integralidade de seus potenciais.
Embora os pressupostos de Nietzsche sejam mais poéticos
que filosóficos, somos tentados a concordar com suas idéias
em torno da necessidade do advento de um Além-do-Homem, caracterizado
essencialmente pelo esforço de superação da humanidade,
pela busca mesmo dela.
O homem como devir
Simone de Beauvoir define o homem não como um
processo, mas como um devir, um constante vir a ser. Tal compreensão
sobre a natureza humana nos permite idealizar o que há de mais
profundo na existência humana: a capacidade de continuamente se
superar, de melhorar a si próprio; de se reconstruir e de (re)significar-se.
A humanidade e pós-humanidade em Jesus
O homem é um mistério a ser desvendado
diariamente, por si mesmo. Constituímo-nos naquilo que nos esforçamos
por ser, ou naquilo que permitimos à vida nos edificar. Somos
produtos e agentes de nossos próprios esforços, de nossas
próprias ações.
Afinal, o que seremos?
Seremos o que nos projetarmos. Seremos frutos de nossos
pensamentos, de nossos atos.
À luz da Doutrina Espírita verificamos
nossa condição de viajores de nossa existência,
de construtores de nosso destino. Impelindo-nos a realizar nosso progresso
intelecto-moral, o Espiritismo nos lança no desafio de construir
em nós o Além-do-Homem.
E neste contexto, ao perceber a indecisão em
somos por vezes lançados, a superação de nós
mesmos é estabelecida pela recomendação cristã:
“Sede perfeitos...”
De modo que não nos restasse dúvidas em
torno do roteiro a seguir, interrogou Kardec aos prepostos da Espiritualidade
Maior:
625 - Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido
ao homem para lhe servir de guia e modelo?
R. Jesus.
NOTAS:
1- PIRES, J. Herculano. PARAPSICOLOGIA HOJE E AMANHÃ. pp 13 a
17. 9ª ed. Edicel. São Paulo. 1987.
2- POPPER, Karl Raimund e Eccles John
C. “O EU E O SEU CÉREBRO”. pp. 284. Ed. Papirus,
Brasília. 1991
3- Citado por TALBOT, Michael. O UNIVERSO
HOLOGRÁFICO. pp. 30. Editora BestSeller. São Paulo. Traduzido
de The Holographic Universe [1991]
4- (idem pp. 435)
5- (idem pp. 439)
6- PIRES, J. Herculano. em INTRODUÇÃO
À FILOSOFIA ESPÍRITA. pp. 62. Ed. Paidéia. 1ª
ed. São Paulo. 1983
7- KARDEC, Allan, O LIVRO DOS ESPÍRITOS.
item 605a. pp 298. FEB.
8- GROF, Stanislav. Em “Além
do Cérebro - Nascimento, Morte e Transcendência em Psicoterapia”.
pp.43 Editora MacGraw-Hill. São Paulo. 1987
9- KARDEC, Allan - O QUE É O ESPIRITISMO.
I.D.E. pp. 10 15ª ed. São Paulo. 1983.
10- Para maiores detalhes em torno da
questão sugerimos o estudo da obra EVOLUÇÂO EM DOIS
MUNDOS do espírito André Luiz - psicografia Waldo Vieira
e Frnacisco Cândido Xavier editado pela FEB.
11- JUNG, Carl Gustave, TIPOS PSICOLÓGICOS.
pp.525. 4ª ed. Guanabara Koogan. Rio de Janeiro. 1987.
12- KARDEC, Allan. O LIVRO DOS ESPÍRITOS.
pp.129. 57ª ed. FEB. Rio de Janeiro
13- DROUOT, Patrick. SOMOS TODOS IMORTAIS.
pp. 59. 3ª ed. Ed. Record . Rio de Janeiro. 1995.
14- Para uma análise mais didática
da questão sugerimos - na condição de não-especialista
na área - o livro TEORIAS DA PERSONALIDADE de Fadiman e Frager
- para uma análise de Freud, Jung e Skiner. Para Grof, sugerimos
sua obra ALÉM DO CÉREBRO, e para Vygotsky, A FORMAÇÃO
SOCIAL DA MENTE.
15- FADIMAN, James e FRAGER, Robert. Teorias
da Personalidade. pp. 7. Ed. Habra. São Paulo. 1986.
16- Idem.
17- Idem.
18- Idem. pp. 12.
19- JUNG, Carl Gustave, TIPOS PSICOLÓGICOS.
pp.478. 4ª ed. Guanabara Koogan. Rio de Janeiro. 1987
20- FADIMAN, James e FRAGER, Robert. Teorias
da Personalidade. pp. 53. Ed. Habra. São Paulo. 1986
21- Idem. pp. 56 (citado por)
22- GROF, Stanislav. Em “Além
do Cérebro - Nascimento, Morte e Transcendência em Psicoterapia”.
pp.97. Editora MacGraw-Hill. São Paulo. 1987
23- [23] - KARDEC, Allan, O LIVRO DOS
ESPÍRITOS. item 605a. pp 298. FEB.
24- [24] - FRANKL, Viktor. UM SENTIDO
PARA A VIDA. pp 11. 6ª ed. Ed. Santuário. São Paulo.
1989.
André Henrique
Natal, 8 de julho de 1996
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