Minha filha, venho dar um ensino médico aos
Espíritas. A astronomia, a filosofia têm aqui eloqüentes
intérpretes: a moral conta tanto escritores quanto médiuns;
por que a medicina, em seu lado prático e fisiológico,
seria negligenciada? Fui o criador da renovação médica
que penetra hoje até nas classes dos sectários da antiga
medicina; ligados contra a homeopatia, acharam bom criar-lhe diques
inumeráveis, acharam bom de exclamar: "Não irás
mais longe!" a jovem medicina, triunfante, venceu todos esses
obstáculos; o Espiritismo ser-lhe-á um poderoso auxiliar;
graças a ele, ela abandonará a tradição
materialista que, há muito tempo, retardou o seu vôo.
O estudo médico está inteiramente ligado à procura
das causas e dos efeitos espiritualistas; disseca os corpos, e deve
também analisar a alma. Deixai, pois, um velho médico
justificar os fins e o objetivo da doutrina que propagou, e que vê
estranhamente desfigurada nesse mundo pelos nobres, e no alto pelos
Espíritos ignorantes que usurpam seu nome. Gostaria que minha
palavra escutada tivesse o poder de corrigir os abusos que alteram
a homeopatia e a impedem de ser tão útil quanto o deveria.
Se falasse num centro prático, onde os conselhos pudessem ser
ouvidos com fruto, levantar-me-ia a contra a negligência de
meus colegas terrestres, que desconhecem as leis primordiais do Organon,
exagerando as doses, e sobretudo não trazendo à trituração
tão importante dos medicamentos os cuidados que indiquei. Muitos
esquecem que cem e, freqüentemente, duzentos golpes são
absolutamente necessários ao desligamento do princípio
médico apropriado a cada uma das plantas ou venenos que formam
nosso arsenal curador. Nenhum remédio é indiferente,
nenhum medicamento é inofensivo; quando o diagnóstico
mal observado o faz dar fora de propósito, ele desenvolve os
germes da doença que estava chamado a combater.
Mas deixo-me arrastar pelo meu assunto, e eis-me no pendor de fazer
um curso de homeopatia a um auditório que não pode se
interessar por essa questão. No entanto, não creio inútil
iniciar os Espíritas nos princípios fundamentais da
ciência, a fim de premuni-los contra as decepções
que sofrem, seja da parte dos homens, seja mesmo da dos Espíritos.
SAMUEL HAHNEMANN.
Nota. - Esta dissertação foi motivada
pela presença, na sessão, de um médico homeopata
estrangeiro, que desejava ter a opinião de Hahnemann sobre
o estado atual da ciência.
Faremos observar que foi dada por intermédio
de uma jovem senhora que jamais fez estudos médicos, e à
qual, necessariamente, muitos termos especiais são estranhos.