
Uma das dúvidas
existenciais mais inquietantes é saber se somos livres para
guiar as nossas vidas ou se apenas cumprimos um roteiro predeterminado.
Afinal, o destino pertence a Deus ou a nós?
A doutrina espírita e a filosofia de Léon
Denis nos trazem uma resposta libertadora, ao mostrarem que o destino
não é uma sentença definitiva, mas uma construção
moldada pelas nossas próprias escolhas a cada minuto.
Para entender essa dinâmica, precisamos compreender
que as leis divinas que regem o universo pertencem a Deus, mas a
jornada individual da compreensão e cumprimento dessas leis
pertence a cada um de nós.
Com leis sábias, eternas e misericordiosas,
baseadas no amor, Deus nos concede o livre-arbítrio, permitindo
que sejamos coparticipantes da Criação através
das nossas escolhas. Se o destino estivesse inexoravelmente pronto
e fechado, o homem não teria mérito pelo bem que pratica
e nem responsabilidade pelos erros que comete.
Allan Kardec investigou bem como funcionaria essa
engrenagem, depois de ter analisado a caminhada de diversos espíritos,
através de relatos observados em comunicações
mediúnicas (veja o livro O céu e o inferno).
Depois, esses dados de experiências particulares foram passados
pelo crivo da razão e da lógica para a formulação
de uma teoria geral, a filosofia espírita publicada em O
livro dos espíritos.
Na questão 851 da obra, ao indagar sobre
a existência de uma fatalidade nos acontecimentos da vida,
os espíritos respondem: “A fatalidade existe unicamente
pela escolha que o espírito fez, ao encarnar, desta ou daquela
prova para sofrer. Escolhendo-a, traça para si uma espécie
de destino...”
Somos nós, portanto, que escolhemos as tendências
e os desafios da nossa jornada terrena antes de reencarnar, visando
o nosso próprio aprendizado para as conquistas morais. Todavia,
a escolha das provas representa o “cenário” e
não o desfecho da história, tendo em vista que podemos
mudar o roteiro inicial, que não pode ser entendido como
uma condenação determinista, definitiva, imutável.
Kardec reforça essa flexibilidade no comentário
da questão 872, ao explicar que os nossos atos cotidianos
não se submetem a linhas invioláveis: “Pode
deixar de haver fatalidade no resultado de tais acontecimentos,
visto ser possível ao homem, pela sua prudência, modificar-lhes
o curso...”
Isso significa que o bem que praticamos hoje, o
nosso esforço sincero pela mudança de atitudes e a
nossa determinação em vencer os maus instintos têm
o poder de atenuar ou desviar as coisas negativas que nós
mesmos criamos no passado.
O que acontece é que, se o espírito
absorve a lição moral através do esforço
próprio na prática do amor, a dor perde a sua razão
de ser pedagógica. A lei de Deus não é de castigo,
mas de evolução. É assim que mudamos o nosso
destino, como na escola, que, ao fecharmos as médias pelo
nosso bom desempenho durante o ano, ficamos livres dos exames finais.
Léon Denis, em sua obra clássica O
problema do ser, do destino e da dor, aprofunda essa realidade
com imensa sensibilidade filosófica e rigor conceitual. No
capítulo 22, define o destino, integrando as nossas ações
passadas e presentes em um mesmo pacote de responsabilidade individual:
“O destino é a lei da nossa vida, mas essa lei fomos
nós mesmos que a fizemos por nossas manifestações
anteriores, e nós a podemos modificar ainda por nossa ação
presente.”
O destino, para Denis, se dobra diante de uma vontade
firme e voltada para o bem. Ele explica que o passado nos impõe
certas condições e limitações que muitas
vezes rotulamos erroneamente como “fatalidade”, mas
a nossa alma guarda uma força renovadora capaz de alterar
o amanhã. Modificando o nosso panorama íntimo pelo
estudo e pelo trabalho, alteramos a nossa vibração
psíquica, atraímos melhores influências espirituais
e transformamos, gradativamente, o ambiente e os acontecimentos
ao nosso redor.
Em resumo, se o destino estivesse exclusivamente
nas mãos de Deus, Ele seria também o responsável
direto pelas nossas falhas, pelas quedas humanas e pelas desigualdades
do mundo. A beleza da revelação espírita reside
justamente em nos devolver o leme da existência para, pelos
nossos esforços, resgatarmos a qualquer tempo o despertar
espiritual em busca de uma vida cada vez melhor.