A. Groisman
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis (SC),
Brazil
Abstract
Reflections on mediunship in the social sciences
have often been constructed inconsistently. It seems that this inconsistency
is linked to an epistemo-methodological conviction, namely, that mediumship
is a “phenomenon” of the “other”, of the one
who “believes in spirits”. In fieldwork on spiritualists
collectivites it is not rare to came across a statement that argues
that an ethnographer is also a medium, whether he wants or admits
to be or not. An unwillingness to accept this theo-cosmological principle
is often motivated by the implications of peer prestige. The article
analytically tries to address an event that occurred in a fieldwork
among daimistas in the late 1980s, when I incorporated an entity.
The purpose of the article, therefore, is to explore the analogy “medium-ethnographer”,
particularly by addressing issues raised by a critical allusion to
anthropologist “formation” and the experience of “ethnographic
incorporation”. From the experience, I gradually elaborated
and began to live with what I would call a (re-)flexible(-ive) ontology.
Resumo
(tradução por IA)
As reflexões sobre a mediunidade nas ciências
sociais têm sido frequentemente construídas de forma
inconsistente. Parece que essa inconsistência está ligada
a uma convicção epistemo-metodológica, a saber,
a de que a mediunidade é um “fenômeno” do
“outro”, daquele que “acredita em espíritos”.
Em trabalhos de campo sobre coletividades espiritualistas, não
é raro encontrar afirmações que argumentam que
um etnógrafo também é um médium, quer
ele queira ou admita sê-lo ou não. A relutância
em aceitar esse princípio teo-cosmológico é frequentemente
motivada pelas implicações que isso pode acarretar para
o prestígio entre os pares acadêmicos. O presente artigo
busca analisar um evento ocorrido durante um trabalho de campo realizado
entre daimistas no final da década de 1980, quando incorporei
uma entidade espiritual. O objetivo do artigo, portanto, é
explorar a analogia “médium-etnógrafo”,
particularmente abordando questões levantadas por uma alusão
crítica à “formação” antropológica
e à experiência de “incorporação
etnográfica”. A partir dessa experiência, elaborei
gradualmente e passei a conviver com o que denomino uma ontologia
(re)flexível/(re)flexiva.
Introdução
A difusão da noção de “antropologia
simétrica” (Latour, 1994) teve grande repercussão
nas ciências sociais contemporâneas, pelo menos no Brasil.
Um dos aspectos por ela abordados foi o problema das relações
de poder entre “antropólogos” e “nativos”.
O que estava em jogo era o “direito” dos antropólogos
de formular generalizações culturalistas sobre os nativos,
tais como “eles são assim”, “eles pensam
assim”, “eles agem assim”, etc. A principal implicação
era que reivindicar para si a posição de “autoridade”
sobre a cultura dos outros poderia constituir um resquício
da ligação entre a antropologia e o colonialismo. Isso
implicava abrir espaço para refletir sobre a ideia de ontologia.
Em meados da década de 2010, Descola (2013) e Latour (2013)
retomaram esse debate ao propor a ideia de pluralismo ontológico
como um alívio para os dilemas enfrentados pelos antropólogos
diante da convivência com as ontologias dos “outros”
e da necessidade de abordá-las. Trata-se das ontologias dos
“outros” encontradas na produção etnográfica,
sem deslegitimá-las como formas consistentes de compreender
o mundo.
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