Andriolli Costa e Ricardo Machado entrevistaram
Eliane Cristina Deckmann Fleck
A historiadora Eliane Fleck apresenta um panorama
da contribuição jesuítica para as ciências
naturais e as práticas de cura na historiografia ocidental
Durante muito tempo, a atuação do
Tribunal do Santo Ofício – a conhecida Inquisição,
da Igreja Católica – promoveu um imaginário
negativo da relação entre a religiosidade e as ciências.
Acreditava-se, portanto, que as censuras inquisitoriais obstruíram
o pensamento científico, especialmente nos países
e regiões de colonização ibérica. No
entanto, a historiadora Eliane Cristina Deckmann Fleck alerta: esta
visão minimiza “o importante papel desempenhado pela
sensibilidade científica barroca própria do período
– que conjuga a intervenção divina com o experimentalismo
– para a ‘formulação de modelos explicativos
com validade universal’”.
Em entrevista concedida por e-mail à IHU
On-Line, a professora elenca os modos como os jesuítas conseguiram
realizar uma harmoniosa síntese entre ciência e religião,
dedicando-se à astronomia, à cartografia, à
botânica médica, à física experimental
e à história natural. Produzindo, mas palavras do
historiador e filósofo da ciência argentino Miguel
de Asúa, “uma ciência basicamente barroca com
relações tardias com a ciência ilustrada do
século XVIII, que esteve a serviço do projeto religioso
da Companhia de Jesus”.
As ciências produzidas pelos jesuítas,
especialmente aquela voltada para a medicina e a farmacologia, não
podem ser consideradas “precursoras deficientes das ciências
atuais ou como cópias insuficientes dos modelos europeus”.
Em verdade, são formas independentes e singulares, que surgem
do contato direto com a experiência vivida. Assim, ao construir
retratos da morte e das doenças, os inacianos tensionam saberes
puramente teóricos, “que não puderam escapar
à ‘efervescência do contato’”.
Eliane Cristina Deckmann Fleck é graduada
e mestre em História pela Universidade do Vale do Rio dos
Sinos – Unisinos. Cursou doutorado em História pela
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul – PUCRS, com a tese Sentir, adoecer e morrer –
sensibilidade e devoção no discurso missionário
jesuítico do século XVII. Ex-coordenadora do
curso de História da Unisinos, é docente na mesma
universidade. É ainda coordenadora do Convênio de
Cooperação Acadêmica entre Grupos de Estudos
de Historia do Brasil e Portugal (GEHBP), firmado entre a Universidad
de Buenos Aires e a Unisinos.
A professora coordenou o seminário A fé e a
ciência nas fronteiras: a Companhia de Jesus e as contribuições
para uma cultura científica na América, que
aconteceu no IHU. O evento faz parte da programação
do XVI Simpósio Internacional IHU: A Companhia de Jesus
da Supressão à Restauração
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Por que só recentemente
a imagem negativa do colonialismo ibérico vem sendo desconstruída?
Por que havia essa má impressão até o começo
da última década do século XX?
Eliane Fleck - As reflexões
em torno das múltiplas atividades exercidas pelos membros da
Companhia de Jesus sempre dividiram as opiniões dos historiadores.
Por mais de quatro séculos, recaiu sobre a Ordem uma apreciação
negativa, associando-se a ela a oposição a qualquer
inovação no campo da ciência moderna. Segundo
Iris Kantor, entre os principais efeitos da difusão de imagens
negativas do colonialismo ibérico difundidas pela historiografia
antijesuítica dos séculos XVIII e XIX está a
percepção de que a censura inquisitorial, o catolicismo
e a Companhia de Jesus obstruíram “o pensamento científico
nos países e regiões de colonização ibérica”.
Uma posição que acabou por reforçar a existência
de uma dicotomia entre prática científica e cultura
católica e minimizar o importante papel desempenhado pela sensibilidade
científica barroca própria do período –
que conjuga a intervenção divina com o experimentalismo
– para a “formulação de modelos explicativos
com validade universal” (KANTOR, 2010, p. 295-296). Esta tradição
historiográfica se alterou significativamente a partir dos
anos noventa do século passado, em decorrência de uma
série de investigações que, com base em documentação
acessada nos arquivos da Companhia de Jesus em Roma ou em arquivos
latino-americanos como os de Buenos Aires, Córdoba e Santiago
do Chile, têm contribuído para evidenciar o inegável
o papel desempenhado pelos jesuítas na história intelectual
do Renascimento e dos inícios da era moderna, bem como para
a implantação de uma cultura científica na América,
evidência inquestionável do enlaçamento de mundos
que a Companhia de Jesus promoveu.
IHU On-Line – De que forma
os jesuítas contribuíram para a cultura científica
no continente americano?
Eliane Fleck - Em artigo de 2005, Antonella Romano
já referia a importância do mundo iberoamericano para
a história das ciências, ressaltando que a atividade
científica da Companhia de Jesus [nos espaços extra-europeus]
não se restringiu ao Oriente. Destacou, ainda, quão
fundamental era inscrever as atividades da Companhia no mundo americano
em uma reflexão sobre a natureza da Ordem e do apostolado missionário.
De acordo com Romano, as atividades intelectuais e as ligadas às
ciências não são constitutivas da identidade jesuíta,
mas um elemento contingente da mesma, devido às interpretações
abertas do princípio inaciano de atuar no século. As
atividades da Companhia exigiram, sim, “competências científicas”,
tanto aquelas que a Ordem viesse a solicitar explicitamente, quanto
as que os missionários viessem a acionar nos marcos de seu
apostolado (ROMANO, 2005, p. 93-118).
Para o historiador e filósofo da ciência
argentino Miguel de Asúa, os jesuítas conseguiram realizar
uma harmoniosa síntese entre ciência e religião,
dedicando-se à astronomia, à cartografia, à botânica
médica, à física experimental e à história
natural e produzindo “uma ciência basicamente barroca
com relações tardias com a ciência ilustrada do
século XVIII, que esteve a serviço do projeto religioso
da Companhia de Jesus” (ASÚA, 2010, p. 472). De acordo
com Asúa, os jesuítas teriam ocupado “o cenário
cultural e científico do Rio da Prata [...] antes da expulsão
da Companhia em 1767”, e desenvolvido, especialmente, nas reduções
jesuíticas, uma “interessante atividade científica”,
como atestam “as histórias naturais do Novo Mundo e os
manuscritos de matéria médica”, evidências
de que a Companhia de Jesus era “a frente mais avançada
da ciência no Rio da Prata” (ASÚA, 2010, p. 192-193).
A historiadora mexicana Ivone Del Valle, por sua vez, tem ressaltado
o papel que os jesuítas desempenharam na criação
de redes de conhecimento e na formação de uma epistemologia
muito particular no século XVIII (DEL VALLE, 2009, p. 240),
e, em especial, a importância dos colégios da Companhia
de Jesus para a circulação de ideias e para a realização
de experimentalismos, das quais resultou tanto a validação,
quanto a contestação de práticas e saberes consagrados
na Europa. Este aspecto é também destacado por Ledezma
e Millones Figueroa, para quem durante o século XVII e o XVIII,
o projeto científico da Companhia de Jesus se constituía,
efetivamente, em uma alternativa clara e influente no mapa cultural
europeu, na medida em que “as mais reconhecidas figuras da intelligentsia
jesuíta na Europa refletiram sobre a natureza do Novo Mundo”,
a partir das informações que recebiam “dos irmãos
e padres jesuítas que atuavam nas áreas coloniais periféricas”,
os quais, além de integrarem um grupo “qualificado e
confiável [...] ao redor do mundo”, constituíam
uma notável rede de “agentes viajantes da Companhia”
(MILLONES FIGUEROA, 2005, p. 27-28).
Para além deste aspecto, cabe destacar inúmeras
as referências que encontramos nas Cartas Ânuas a obras
clássicas de Medicina e a Tratados de Cirurgia, as quais, com
certeza, deviam integrar os acervos das bibliotecas de algumas Reduções
e de alguns Colégios jesuíticos, com destaque para a
Farmacopea, de Palácios; Opera Medica de Hotosmani; dois tomos
médicos de Carlos Muretano; Opera Medica e Diccionario Medico,
de Ribera; Cirugía, de Robledo; Postemas, de López;
Medicina, de Guadalupe; Cirugía, de Vigo; Farmacopea Matricense;
Farmacopea, de Ceci; Cirugía, de Vigo e Opera Medica, de Syderas.
Vale ressaltar que havia um Catálogo de livros que podiam ser
vendidos e enviados às chamadas Indias Ocidentales e no qual
constavam obras como Disputaciones de Medicina, de Garcia; De Corpore
humana, de Valverde; Cirugía, de Redondo; De morbo galico,
de Duarte Madeira; Cirugía, de Borbon, bem como o Promptuario,
de Remigio e o Promptuario, de Salazar. A Biblioteca da Universidade
de Córdoba contava com obras como Tesoro de Medicina, de Egidio
de Villalón; Cirugía Universal, de Calvo; El Tratado
de todas las enfermedades, de Francisco Diaz; Tratado de Medicina,
de Juan Amato e Los Principios de Cirugía, de Ayala.
Inventário
O Inventário da botica do Colégio de
Córdoba – realizado em fevereiro de 1768, portanto, logo
após a expulsão da Companhia de Jesus dos territórios
de domínio espanhol – parece confirmar esta afirmação,
ao relacionar “‘vinos’, ungüentos, lameadores,
aceites, esencias, ‘espíritus’, bálsamos,
tinturas y elixires, sal volátil, emplastos, ‘confecciones’,
preparaciones y polvos, píldoras, polvos cordiales, harinas,
raíces, gomas, suecos, flores y aguas”. Ao lado de preparados
à base de nitro-ácido e amoníaco, como os ‘vinos’
e de águas, como a rosada, de melissa e de canela, encontravam-se
os polvos extraídos da ipecacuanha, planta medicinal americana.
(PAGE; FLACHS, 2010, p. 123). As menções feitas por
Pedro de Montenegro – a Riveiro, a Pedro Andrés Mathiolo,
a Andrés de Laguna e a Dioscórides e a aplicação
de alguns de seus pressupostos, especialmente, nos três primeiros
capítulos da Materia Medica Misionera, parecem confirmar o
acesso e a leitura destas obras médicas de referência
pelos jesuítas em missão na América.
IHU On-Line – A preocupação
que os jesuítas demonstraram ter em relação à
saúde dos indígenas tratava-se de uma contrapartida
da Companhia de Jesus aos habitantes locais, isolados das doenças
tipicamente europeias? Por que tinham este cuidado?
Eliane Fleck - É curioso observar que, apesar
de os jesuítas terem se dedicado ao alívio dos doentes,
tanto na Europa, quanto na América, nem o Direito Canônico,
nem as Constituições da Companhia de Jesus consideravam
esta atividade como própria de religiosos . Foi somente em
1576, que o Papa Gregório XIII outorgou à Companhia
de Jesus permissão para a prática da medicina em regiões
onde faltassem médicos e pudessem ser úteis também
para os corpos e não somente para as almas . Apesar da proibição
do exercício da medicina, as Constituições da
Ordem previam que os noviços deveriam fazer estágios
em hospital durante um mês, como exercício de humildade
e caridade e que fossem nomeados os mais aptos para instalarem farmácias
e enfermarias.
A situação com que se defrontariam os
missionários jesuítas ao se instalarem na Província
Jesuítica do Paraguai – que não contava com Protomedicato
e, portanto, médicos – seria descrita da seguinte forma
pelo padre jesuíta Marcial de Lorenzana, em carta de junho
de 1610, dirigida ao Padre Diego de Torres Bollo: “é
terra miserável e faltam todas as coisas. Fora raízes
de totora e pescado não existem outros alimentos. Os mosquitos
são sem conta... nem de dia nem de noite deixam sossegar os
homens, por conta disto minhas mãos e meu rosto parecem de
um sarnento ou leproso. Certas vezes, passo um pouco de maçamora
de maíz por não haver outra coisa” (C. A. 1610
In: D.H.A., 1927, Tomo XX, p. 65).
Alguns registros do século XVII dão
conta de que os missionários passaram a estabelecer relação
direta entre as condições do ambiente em que haviam
sido instaladas as missões, a alta concentração
demográfica e as epidemias que atingiam as populações
indígenas em processo de civilização e conversão.
Muitos deles chegaram a afirmar que as terras pantanosas e com lagunas
– mais sujeitas a enchentes e mosquitos – faziam com que
muitos padecessem de enfermidades e, ainda, que as igrejas não
deveriam servir de cemitérios – como era costumbre general,
en no pocas ciudades europeas –, pois, por mais amplas e ventiladas
que elas fossem, o enterramento em seu interior era anti-higiênico
e favorecia a proliferação de doenças.
Jesuítas, a doença e a morte
Os missionários também não descuidaram
de registrar – de forma bastante detalhada – o processo
de evolução das doenças, desde o contágio
até as tentativas de cura – empíricas ou mágico-curativas
– mais freqüentes nas reduções, como a disenteria,
a lepra, o sarampo, a gripe, o tifo e a varíola. Nas descrições
que recolhemos nas Ânuas é possível identificar
não só a preocupação com o detalhamento
da evolução e das medidas de controle das epidemias,
como também a percepção ocidental de doença
através das imagens que constroem “el retrato de la muerte”.
No Setecentos, os missionários passaram a adotar,
também, algumas medidas de caráter profilático,
como o isolamento de doentes, o adequado enterramento e a assepsia
dos ambientes. Segundo a Carta Relação de 1747, do Padre
José Cardiel, durante uma epidemia de varíola, foram
construídas duas cabanas (que funcionariam como hospital) –
distantes da missão – uma para aqueles que apresentavam
alguns sintomas e outra para aqueles que já se encontravam
em estado adiantado da enfermidade. Referindo-se a uma epidemia de
sarampo, Cardiel defendeu que, para que fosse conservada a limpeza
da igreja e evitado o mau cheiro, apenas os padres, os corregedores
e os membros do presbitério deveriam ser nela enterrados, ressaltando
que o enterramento deveria observar cinco ou seis pés de profundidade
e o defunto deveria ser posto num caixão.
Empenhados em garantir a saúde das almas e
dos corpos, os missionários jesuítas, como se pode observar
nestes registros, acabariam por conferir uma incontestável
originalidade à Companhia de Jesus nos séculos XVII
e XVIII, como se pode constatar no conhecimento médico e farmacêutico
que produziram e fizeram circularam pelos vários continentes.
As Materias Medicas escritas por padres ou irmãos jesuítas
se constituem, em razão disso, em fonte privilegiada para a
análise do embate em torno das concepções de
saúde e doença e da gradativa incorporação
da farmacopéia nativa e de terapêuticas curativas indígenas
que estes religiosos vivenciaram na América hispânica
e portuguesa. Apesar de estes saberes e procedimentos terem sido,
inicialmente, alvo de depreciação ou de enfática
condenação – por sua eficácia mágico-ritual
– os registros jesuíticos dão conta de sua utilização,
bem como de experiências com medicamentos feitas por alguns
missionários, atestando que as epidemias – e a conseqüente
busca pela cura – determinaram uma observação
cada vez mais racional da natureza, a sistematização
desse conhecimento e sua aplicação prática nas
aldeias, reduções e nos povoados próximos aos
colégios jesuíticos instalados na América.
Cartas Ânuas
As Cartas Ânuas jesuíticas, por sua vez,
referem a existência de enfermarias e de hospitais, bem como
de herbários e boticas nos colégios e nas reduções
jesuíticas, atestando tanto a aplicação, quanto
a produção e a circulação de conhecimentos
médicos e farmacêuticos, visando ao combate das epidemias
que atingiam indistintamente indígenas e europeus e ao atendimento
dos doentes que buscavam os remédios e o consolo espiritual
que somente os padres poderiam lhes dar. Da preocupação
em melhor atender os doentes, resultaram algumas iniciativas de coleta
e de experimentos com plantas existentes nas imediações
dos colégios e das reduções – favorecendo
a instalação de herbários e de boticas –
e investimentos feitos na aquisição de receituários
e de obras de medicina e cirurgia.
Apesar de não serem “especialistas en
la ciencia de Galeno y en Farmacopea”, os jesuítas –
dada a sua atuação como médicos e boticários
– seguramente procuraram suprir a falta de conhecimentos, importando
livros editados na Europa e incorporando-os as suas bibliotecas, como
atestam tanto as Cartas Ânuas, quanto os inventários
dos bens da Companhia de Jesus na América após sua expulsão.
Também os conhecimentos obtidos a partir de experimentos, especialmente,
sobre o preparo de medicamentos e a adoção de medidas
profiláticas, foram compartilhados através da intensa
correspondência que os missionários mantiveram entre
si ou das cópias dos catálogos e receituários
que fizeram circular entre as reduções e os colégios
das Províncias Jesuíticas da América meridional
e aqueles instalados na Europa – em especial, com a farmácia
do Colégio Romano – e também no Oriente. (ANAGNOSTOU,
2000) Algumas boticas – como a do Colégio San Pablo,
de Lima – transformaram-se, com o passar do tempo, em centro
de referência, enviando medicamentos – como o bezoar peruano,
a ambrosia mexicana e a quina – para estabelecimentos da Companhia
de Jesus no Chile, Paraguai, Argentina, Equador, Panamá e no
Velho Mundo, atestando a intensa circulação de saberes,
medicamentos e práticas curativas.
IHU On-Line – Qual foi a principal contribuição
dos jesuítas à ciência moderna, principalmente
à medicina e à farmacologia? Quais as especificidades
no contexto latino-americano?
Eliane Fleck - No que se refere, especificamente,
ao apostolado na América portuguesa e na espanhola, é
preciso considerar que os missionários se defrontaram com questões
que tiveram de ser resolvidas localmente, e que deste processo de
contato resultaram alterações em suas concepções
teológicas e “científicas” – com as
quais, seguramente, entraram em contato durante seu período
de formação –, que não puderam escapar
à “efervescência do contato”. Haddad propõe
que muitos jesuítas estiveram muito mais próximos do
que se definiu como “missionário típico”,
aquele que enfrentou “os problemas concretos da alteridade,
da conversão e da própria construção dos
impérios com o material que tinha efetivamente à sua
disposição” (HADDAD, 2014, p. 13). O historiador
equatoriano Jorge Cañizares Esguerra, por sua vez, propõe
que tomemos estes irmãos e padres da Companhia como “pensadores”,
que, apesar de habitarem regiões marginais no cenário
intelectual do período - áreas tidas como receptoras
de conhecimentos produzidos em outras partes do mundo –, foram
decisivos na construção de determinados conhecimentos.
Neste processo, muito contribuíram as bibliotecas
e as boticas instaladas nos colégios, reduções
e fazendas da Companhia de Jesus, que não apenas evidenciariam
a penetração e a apropriação de ideias,
como também o diálogo que os membros da Ordem mantinham
com a ciência e a filosofia modernas, em sintonia com “o
gosto e o respeito pelo trabalho intelectual [...], segundo um ‘modo
de proceder’ [...] que marcou suas atuações e
no qual se inscreveu um ‘dever de inteligência”
(GIARD, 2005, p. 14). As epidemias – e a conseqüente busca
pela sua cura – determinaram, sem dúvida, uma observação
cada vez mais racional da natureza, a sistematização
desse conhecimento e sua aplicação prática tanto
nas reduções, quanto nos povoados próximos aos
colégios jesuíticos.
Providências como o treinamento de enfermeiros
e a confecção de instrumentos cirúrgicos, além
de medidas como o isolamento de doentes, o adequado enterramento e
a assepsia dos ambientes das enfermarias e hospitais também
foram tomadas pelos missionários jesuítas nas reduções
da Província do Paraguai. Considerando-se, especificamente,
as contribuições de religiosos jesuítas à
Medicina e à Farmácia, cabe destacar as Materias Medicas
escritas por Pedro Montenegro e Segismund Asperger, que foram, inegavelmente,
os pioneiros no levantamento das virtudes terapêuticas e na
aplicação da farmacopéia nativa no século
XVIII, do que resultou a introdução do uso de ervas,
resinas e folhas como “la jalapa, la quina, la coca, el bálsamo,
la poligala, la zalzaparilla.”
IHU On-Line – Quais são os principais
nomes da Companhia de Jesus que contribuíram para a ciência
no continente sul-americano? Por que seus trabalhos se tornaram notáveis?
Eliane Fleck - Para além da Medicina e da Farmácia,
alguns religiosos jesuítas se dedicaram também à
Astronomia. Dentre eles, podemos destacar o padre Nicolas Mascardi,
que não apenas se dedicou ao estudo de fenômenos naturais
explicados pela Astronomia – como os eclipses lunares e solares,
os solstícios e as marés – nas reduções
e no colégio em que atuou, mas também compartilhou suas
observações com outros jesuítas ou cientistas,
através de cartas escritas durante o período de sua
experiência americana. Para além das observações,
das aferições através de instrumentos e dos registros
destes fenômenos, o missionário Mascardi também
teceu considerações sobre a cosmogonia dos Mapuches,
indígenas com os quais ele conviveu enquanto atuou na Vice-Província
Jesuítica do Chile, e sobre a dos Poyas e Puelches, grupo que
ele contatou durante as explorações que realizou pela
atual Patagônia argentina. [pesquisa que se encontra em andamento]
Além das viagens exploratórias empreendidas pelo Chile,
que se estenderam pelas atuais regiões da Araucanía,
Los Rios e Los Lagos, somam-se ainda ao menos quatro viagens pela
atual Patagônia argentina, alimentadas pela busca a Cidade dos
Césares.
De acordo com Artur Barcelos, noticias sobre a existência
desta cidade fantástica circulavam entre os jesuítas
já desde o século anterior, tendo o Padre Nicolas Marcardi
recebido informações sobre sua localização
através da filha de um cacique Poya da região, capturada
pelos brancos em 1649. Em busca dos “césares”,
Mascardi viajou para a área do lago Nauel Huapi em 1669, onde
estabeleceu a missão de Nuestra Señora de los Poyas
del Nahuel Huapi, que passou a ser um centro, ainda que precário,
para a evangelização dos grupos da região (BARCELOS,
2006, p. 228). Ao transitar por esta vasta região, que hoje
forma a Patagônia, Mascardi esteve em contato com diversos grupos
nativos. Podemos citar os Mapuches nas missões de Arauco, os
Hulliches e os Chonos em Chiloé e no Arquipélago dos
Chonos, respectivamente.
Buenaventura Suárez
É importante também destacar a atuação
do padre Buenaventura Suárez. Filho de uma família criolla
abastada, Suárez nasceu em Santa Fé, a 14 de julho de
1679, e faleceu em 1750. Sabe-se que ingressou na Companhia de Jesus
em 1706 e que, aos 22 anos, já era sacerdote, tendo atuado
em várias reduções, nas quais construiu instrumentos
para observações astronômicas. Consta que diante
da falta de vidro para as lentes de aumento dos telescópios,
ele teria recorrido a cristais de quartzo polido, os quais, segundo
Tavares & Araújo (2012, p. 114), possuíam propriedades
ampliadoras muito semelhantes as que eram largamente empregadas dentro
dos mosteiros na Europa. Neles, o berilo, quartzo e outras pedras
preciosas eram lapidados e polidos, a fim de produzir a chamada “pedra-de-leitura”,
um tipo de lupa muito simples.
Além do auxílio na procura por recursos
locais, Suárez também deve ter recorrido aos indígenas
para auxiliá-lo na construção e no manejo dos
equipamentos – que tinham entre 2,2 e 4,6 metros de comprimento
(KRIEGLER & VILLEGAS) –, o que parece sugerir que possa
tê-los treinado também na coleta de dados astronômicos.
No ano de 1745, a ordem chegou a enviar o que havia de mais moderno
à época em equipamentos para que Suárez pudesse
continuar com suas observações astronômicas, que
resultaram no Lunario de un siglo. (LONCARICA; BORTZ, 2005), obra
de 1748, na qual ele chegou a afirmar que: “Hize este Lunario,
util para la Agricultura, y la Medicina” (SUÁREZ, 1752,
p. A4). Estes registros, contudo, implicam uma necessária a
reflexão sobre o envolvimento de indígenas na construção
destes aparelhos e nas observações astronômicas,
considerando-se os registros que os missionários nos deixaram
sobre a cosmogonia e cosmologia dos grupos indígenas com os
quais conviveram.
Se, como disse a antropóloga Branislava Susnik
(1985, p. 26), referindo-se aos grupos chaquenhos, os indígenas
davam “vida” e “alma” aos fenômenos
meteorológicos, cabe-nos ainda avançar muito nas nossas
reflexões sobre as trocas de saberes relativos à astronomia
entre ocidentais e nativos, pensando-as como uma relação
complexa e instável, constituída por momentos de aproximação/apropriação
e outros de retração/negação, em muito
semelhantes aos momentos que caracterizaram as experiências
jesuíticas no território americano. Já os manuscritos
de medicina, como o escrito pelo irmão Pedro Montenegro, que
analisamos mais detidamente, parecem, efetivamente, apontar para a
conformação, já nas primeiras décadas
do século XVIII, de uma epistemologia particular nas denominadas
“zonas periféricas” dos impérios ibéricos.
Uma “escritura liminal”, que ocuparia “un lugar
intermedio entre el orden letrado y las fronteras” (DEL VALLE,
2009, p. 14-15).
IHU On-Line – Em que medida o conhecimento
médico e farmacêutico estudado e catalogado pelos jesuítas
resultava, também, de uma apropriação dos habitantes
locais? Qual foi a contribuição dos indígenas
nesse processo?
Eliane Fleck - Em artigo publicado em 2011, a doutora em Farmácia
Sabine Anagnostou afirma que se, por um lado, “a história
natural e a farmácia missioneira podem ser consideradas como
as duas facetas principais do naturalismo jesuítico na América
do Sul”, por outro, não devem ser percebidas como “precursoras
deficientes das ciências atuais ou como cópias insuficientes
dos modelos europeus, mas como formas independentes e singulares da
história da ciência.” (ANAGNOSTOU In: WILDE, 2011,
p. 175). Esta singularidade, segundo ela, fica evidenciada na “experimentação
e na incorporação do saber etnofarmacêutico indígena”,
que decorreu da “posição relativamente imparcial
e aberta dos jesuítas frente aos indígenas, baseada
na espiritualidade inaciana”, que possibilitou “um intercâmbio
intenso e persistente no campo da medicina.” (ANAGNOSTOU In:
WILDE, 2011, p. 190).
Encarregados também das cópias de cartilhas
com orientações para evitar ou minimizar os efeitos
do contágio durante epidemias, de fórmulas de medicamentos,
recolhidas diligentemente em receituários, e de obras de botânica,
medicina e cirurgia, muitos destes indígenas copistas tornaram
possível a troca e a disseminação de uma série
de saberes e práticas de cura entre as distintas e distantes
terras de missão da Companhia de Jesus. Já a historiadora
argentina Maria Silvia Di Liscia ressalta que a incorporação
dos conhecimentos indígenas pelos jesuítas consistiu
num “processo de grande complexidade, iniciado com a aprendizagem
das línguas indígenas, dos costumes e do entorno, da
conservação das plantas e de seu cultivo em herbários
anexos às reduções e aos colégios jesuíticos
[…] até chegar à experimentação
de determinados compostos nos pacientes e, na sequência, à
sistematização de toda a informação por
escrito.” (DI LISCIA, 2002a, p. 49).
A estreita relação entre saberes indígenas
e a ciência da Ilustração pode ser, segundo ela,
constatada em obras escritas por missionários jesuítas,
como o irmão Pedro Montenegro e os padres Sanchez Labrador,
Martin Dobrizhoffer e Florián Paucke. Nesta perspectiva, a
análise das trajetórias de vida de jesuítas que
se dedicaram à ciência e de obras como, por exemplo,
a Materia Medica Misionera, de 1710, atribuída ao irmão
Pedro Montenegro, permite não apenas a reconstituição
do conhecimento científico difundido e produzido ao longo do
século XVII e nas primeiras décadas do século
XVIII na América platina (LEDEZMA; MILLONES FIGUEROA, 2005,
p. 10), mas também a avaliação da apropriação
de saberes e de práticas das populações nativas
americanas, que pode ser constatada nos receituários e nos
catálogos de plantas medicinais, que nos oferecem uma sistematização
da farmacopéia americana.
IHU On-Line – Como os estudos dos jesuítas
foram preservados durante o período de supressão da
Companhia de Jesus? Por outro lado, é possível estimar
o que foi perdido nesse período?
Eliane Fleck - Pode-se ter uma ideia das atividades
científicas que os jesuítas desempenharam e do conhecimento
que produziram e fizeram circular através da análise
dos inventários dos bens realizados após a expulsão
da Ordem dos domínios coloniais ibéricos, e nos quais
se encontram relacionados não apenas remédios, mas também
instrumentos cirúrgicos, livros – impressos e manuscritos
– e receituários. Considerando-se, especificamente, o
Inventário formado por Lorenzo Infante Boticário en
la Ciudad de Córdoba de los bienes medicinales, Julio de 1772,
que se encontra no Archivo Histórico de la Universidad Nacional
de Córdoba, Argentina. Documentos de la Junta de Temporalidades
de Córdoba. Caja 10, legajo 2, nº 27, fólios 4533r-4628
r., encontramos uma grande quantidade de fármacos, o que nos
permite especular que a botica do Colégio de Córdoba
e seus encarregados tinham, não só a sua disposição
medicamentos químicos importados da Europa, como também
manuais de química farmacêutica – que tiveram grande
circulação na Europa já nas primeiras décadas
do século XVIII – e, muito provavelmente, condições
[equipamentos e, até mesmo, um laboratório] para o preparo
de remédios que exigissem manipulação química.
IHU On-Line – A que se dedicaram os jesuítas
responsáveis pelos escritos científicos latino-americanos
durante a supressão? Como e onde viveram?
Eliane Fleck - Considerando, especificamente, o projeto
de pesquisa que venho desenvolvendo atualmente junto ao Programa de
Pós-Graduação em História da UNISINOS,
destaco os estudos sobre a flora e a fauna americana realizados, ainda
no século XVIII, pelo padre José Sánchez Labrador,
autor do Paraguay Natural Ilustrado, que foi escrito entre 1771-1772,
durante seu exílio em Ravena, na Itália, portanto, após
a expulsão da Companhia de Jesus dos domínios coloniais
ibéricos. Esta obra, que se encontra sob a guarda do Arquivo
Romano da Sociedade de Jesus (ARSI), em Roma, e permanece ainda inédita,
se subdivide em seis tomos que reúnem informações
sobre zoologia e botânica da vasta região que compreendia
a Província Jesuítica do Paraguai. Também a obra
Historia de Los Abipones. Una Nación Ecuestre y Belicosa de
Paracuaria, do padre Martin Dobrizhoffer, foi escrita entre 1777 e
1782, durante o exílio, em Viena. A obra foi publicada originalmente
em latim, em 1784, e conta com três volumes. O primeiro faz
um apanhado geral sobre a Província Jesuítica do Paraguai,
trazendo elementos sobre a fauna e flora da região, e também
sobre o curso dos rios e sobre diversas cidades locais.