Há mais de um século
a injustiça impera na ciência biológica, afinal
você não estudou Alfred Russel Wallace na escola, não
é?
A mais simples
estrutura natural, como uma folha ou uma mosca, revela uma combinação
de alta tecnologia e o uso profundamente inteligente das leis naturais,
ofuscando o mais avançado computador. Entretanto, nos últimos
dois séculos, milhares de cientistas lutam desesperadamente
para afastar da Humanidade a idéia da existência de
Deus. Como disse Herculano Pires:
“A
inteligência da natureza contrasta chocantemente com a estupidez
do homem”.
Mirabolantes
teorias afirmam uma tremenda coincidência em que apenas o
acaso criou a formidável combinação da Natureza,
desde o simples átomo até mesmo a consciência
humana.
A ciência materialista surgiu
para afastar a razão da hipótese dogmática
da Igreja. Segundo a interpretação dos homens sacerdotes,
Deus miraculosamente intervêm nos mínimos detalhes,
adaptando as circunstâncias aos seus interesses. As confirmações,
pela ciência, das leis eternas e imutáveis no Universo,
sujeitariam os cientistas a aceitar miraculosas intervenções,
subvertendo as leis rejeitadas pela razão.
Mas existe uma terceira alternativa.
Ela ao mesmo tempo se submete à prova da experimentação
e da pesquisa científica, pois é científica.
E, ao mesmo tempo, respeita as exigências lógicas da
filosofia, admitindo a causa primária para a Natureza. A
teoria da seleção natural segundo o naturalista Alfred
Russel Wallace leva em consideração a existência
de um mundo espiritual material, etéreo e, até agora,
não diretamente perceptível para nós. Seres
humanos superiores, e mais antigos que nossa civilização,
conduzem a evolução das espécies, respeitando
as leis naturais para o surgimento da raça humana. No entanto,
por seu caráter espiritualista, sofreu o preconceito e a
discriminação dos materialistas, e tem suportado um
impiedoso desprezo e esquecimento da comunidade científica.
Para recuperá-la é
preciso fazer um resgate do que podemos chamar de “a história
não contada da evolução das espécies
pela seleção natural”.
QUEM DESCOBRIU A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL?
Ao se perguntar
quem descobriu a teoria da evolução por seleção
natural, invariavelmente se ouvirá como resposta que foi
o naturalista inglês Charles Darwin. Contudo, pesquisas historiográficas
recentes têm revelado outra versão.
A doutrina espírita teve
início com a publicação de o Livro dos Espíritos,
em 18 de abril de 1858. Nele os espíritos afirmaram, sobre
as relações entre as espécies:
“Tudo na Natureza é
transição, por isso mesmo que uma coisa não
se assemelha a outra e, no entanto, todas se prendem umas as outras”.
Entretanto, os homens iriam conhecer
formalmente a teoria da seleção natural e a origem
das espécies somente no ano seguinte, 1858, com a apresentação
formal do bem elaborado artigo de Alfred Russel Wallace no Jornal
de Sociedade Lineana de Londres, no artigo intitulado Da tendência
das espécies em se afastarem indefinidamente das que as originaram
– On the tendency of varirties to depart indefinitely from
the original type.
Darwin era um homem honesto e de
bom coração, mas não estava preparado para
abrir mão de seu pioneirismo em relação à
teoria da seleção natural. Seu grande amigo, conselheiro,
crítico e divulgador Joseph Dalton Hooker já havia
feito uma visita para informá-lo que um naturalista inglês,
Alfred Russel Wallace, até então desconhecido, havia
publicado em 1855 um artigo, Sobre a lei que regulou a introdução
de novas espécies, que ia no caminho da sua teoria. Wallace
estudava a distribuição geográfica dos animais
e plantas da Malásia e concluiu que “todas as espécies
haviam surgido coincidentemente, no tempo e no espaço, com
alguma espécie preexistente e estreitamente aliada”.
O naturalista Charles Lyel, outro
importante conselheiro de Darwin, insistiu para que o amigo publicasse
logo para não ficar para trás. Darwin escreveu em
1856:
“Na verdade, detesto a idéia
de escrever almejando a prioridade, mas decerto ficaria aborrecido
se viessem a publicar minhas teorias antes de mim”.
Nessa época ele achava seu
livro infindável: “Espero viver para terminá-lo”.
Darwin começou a se corresponder com Wallace, que estava
pesquisando nas ilhas da Indonésia. E chegou a receber contribuições
teóricas e, inclusive, animais enviados por Wallace, para
auxiliar suas pesquisas. Em 1857, Darwin chegou a confidenciar para
Wallace:
“No momento estou preparando
meu trabalho para publicação, embora eu tenha redigido
muitos capítulos, não creio que possa levá-los
ao prelo em menos de dois anos”. É importante destacar
que, em nenhum momento, Darwin e Wallace conheciam a extensão
e detalhes da pesquisa um do outro.
WALLACE CONCLUI SUA PRIMEIRA DESCOBERTA
Wallace havia feito sua descoberta independente da pesquisa do naturalista
Charles Darwin. Este tinha pesquisado o assunto nos vinte anos anteriores,
sem conseguir concluir uma apresentação formal de
sua teoria. Nada havia publicado até então. Quando
Wallace terminou sua pesquisa, elaborou sua tese e concluiu seu
artigo. O enviou para Darwin, pedindo que fosse apresentado ao famoso
naturalista – protetor de Darwin – Charles Lyell. Escreveria
então Darwin a Lyell:
“Parece-me muito digno de
ser lido. Tuas palavras, quando disseste que alguém se
anteciparia a mim, confirmaram-se num grau incomum. Nunca vi coincidência
mais impressionante. É claro que escreverei de imediato
e me oferecerei a enviá-lo a qualquer periódico.
Portanto, toda a minha originalidade, importe ela no que importar,
estará arruinada”.
Entretanto Darwin não conseguiu
se conter. Uma semana depois ele escreveu novamente a Lyell:
“Há mais ou menos
um ano, enviei um pequeno resumo de minhas idéias, do qual
tenho uma cópia, a Asa Gray de modo que poderia afirmar
e provar que não tirei nada de Wallace. Eu ficaria extremamente
feliz, neste momento, em publicar um esboço de minhas concepções
gerais, com cerca de dez páginas. Mas não consigo
convencer-me de que possa fazê-lo de forma honrada. Mas,
visto que eu não tencionava publicar nenhum resumo, será
que posso fazê-lo honradamente, pelo fato de Wallace me
haver remetido um esboço de sua Doutrina? Não creio,
minimamente, que ele tenha concebido suas idéias a partir
de nada que eu possa ter-lhe escrito (...) estou exausto de tanto
meditar”.
UMA SOLUÇÃO DE DUVIDOSA
HONRADEZ
Alguns dias depois, seguindo as sugestões
insinuadas por Charles Darwin, Hooker e Lyell sugeriram que o artigo
de Wallace fosse apresentado à Sociedade Lineana de Londres,
juntamente com a carta de Darwin ao naturalista botânico norte-americano,
Asa Gray, e ainda com um resumo escrito por Darwin em 1844. Apesar
de os textos serem incompletos e não elaborados para essa
finalidade, Darwin enviou o documento para Hooker.
“Envio
o esboço de 1844 unicamente para que possas ver, por tua
própria letra que de fato o leste. Na verdade não
suporto olhar para ele. Não desperdices muito tempo. É
reles de minha parte dar qualquer importância a prioridade.
Eu faria um esboço semelhante, porém mais curto
e mais preciso para o Jornal Lineana de Londres. Farei qualquer
coisa”.
Lyell e Hooker apresentaram à
Sociedade Lineana de Londres a carta de Darwin junto ao artigo de
Wallace. Dias depois escreveria Darwin a Hooker (13 de julho de
1858):
“Sempre julguei muito possível
que alguém se antecipasse a mim, porém imaginava
ter uma alma suficientemente nobre para não me importar;
entretanto descobri-me equivocado e punido. Apesar disso eu estava
bastante resignado e já escrevera metade de uma carta a
Wallace para lhe conceder toda a prioridade e decerto não
a teria modificado, não fosse pela extrema bondade tua
e de Lyell. Estou muito mais do que satisfeito com o que aconteceu
na Sociedade Lineana de Londres. Eu havia suposto que tua carta
e a que eu escrevi a Asa Gray seriam apenas um apêndice
do artigo de Wallace”.
Imediatamente Darwin começou
a trabalhar num resumo não tão completo e fundamentado
como desejava.
Enquanto tudo isso acontecia, Wallace
continuava suas pesquisas na Indonésia. Espírito desprendido
e cordial, não se importou, e se declarou satisfeito com
a decisão da apresentação formal na Sociedade
Lineana de Londres. Em janeiro de 1859, Darwin ainda escreveria
a Wallace dizendo, politicamente:
“Embora eu não tenha
tido nada, absolutamente nada, a ver com o que levou Lyell e Hooker
ao que eles julgaram ser o curso de ação correto,
é natural que não pudesse deixar de me sentir ansioso
de saber qual seria a vossa impressão (...). Todas as pessoas
com quem estive julgaram vosso artigo muito bem redigido e interessante.
Ele deixa ofuscados os meus excertos (escritos em 1839, já
se vão vinte anos!), os quais, devo dizer à guisa
de desculpa, nunca foram, nem por um instante, destinados à
publicação”.
No entanto, registrou a história,
o foram.
Somente em novembro de 1859, Charles
Darwin apressaria a impressão de um único volume,
"A Origem das Espécies", em vez de publicar o longo
tratado que havia planejado. No entanto, o livro de Darwin, apesar
de seu título, em nenhum momento tratou da origem das espécies!
Como afirmou Camille Flammarion:
“Contenta-se em explicar
a variabilidade possível de um certo número de tipos
primitivos, e é uma nota no mínimo singular, que,
em obra tão volumosa e opulenta sobre a origem dos seres,
não se trate absolutamente dessa origem!”.
MATERIALISTAS IGNORAM WALLACE
Pode-se perguntar
então o motivo de os livros e publicações,
ignorando tantas evidências históricas, manterem no
anonimato a carreira e a descoberta de Wallace, exaltando, por outro
lado, a pesquisa de Darwin isoladamente. Uma hipótese muito
provável está relacionada com as pesquisas posteriores
dos dois naturalistas, na divulgação e elaboração
das conseqüências de suas descobertas. Darwin, do dogmatismo
religioso caminhara para uma explicação materialista,
apesar de continuar a acreditar em Deus. E Wallace, de materialista
convicto tornara-se espírita! Essas suas convicções
influenciaram a conclusão de suas pesquisas e determinaram
também o destino de suas carreiras, quando submetidos aos
caprichos da nascente ciência materialista.
Darwin, apesar de acreditar em
Deus como causa primária de tudo, em seu livro "A Origem
das Espécies" ofereceu embasamento teórico para
os materialistas, principalmente os alemães, na mesma época
em que surgia o Espiritismo na França.
Por sua vez, Wallace caminhava
na direção oposta, quando, referindo-se aos fenômenos
espíritas, declarou:
“Eu era um materialista
tão completo e convicto que não podia haver no meu
espírito lugar para existência espiritual e para
qualquer outro agente universal, senão a matéria
e força. Os fatos, porém, são coisas bem
teimosas. A minha curiosidade foi, a princípio despertada
por alguns fenômenos ligeiros, mas inexplicáveis,
que se produziam numa família de minhas relações,
e o meu desejo de saber e o amor pela verdade forçaram-me
a prosseguir nas investigações. Os fatos tornaram-se
cada vez mais exatos e variados, e ao mesmo tempo distantes de
tudo que a Ciência moderna ensina e de todas as especulações
da filosofia atual. Os fatos venceram-me!”.
Wallace, na busca da verdade, a
encontrara nos fenômenos do magnetismo animal, do sonambulismo
provocado e da mediunidade no espiritualismo moderno.
DARWIN ERA EVOLUCIONISTA ATORMENTADO E
INSEGURO
A insegurança de Darwin em publicar
suas idéias tinha um motivo. Darwin quase chegara a se tornar
um pregador anglicano. Seu pai, um famoso e rico médico queria
que ele seguisse a sua profissão. Entretanto Darwin não
suportava o ambiente médico da época. Numa ocasião
fugira repentinamente quando assistia a uma operação
de amputação de uma criança, naquela época
feita sem anestesia. A outra opção ofertada por seu
pai havia sido a, também lucrativa, carreira eclesiástica.
Essa opção era exclusivamente financeira, pois seu
pai chegava mesmo a duvidar dos postulados cristãos. O irmão
de Darwin, seu avô e outros componentes de sua família
também eram avessos ao dogmatismo religioso. No entanto,
ele não chegou a abraçar a carreira. Cursou teologia
sem muito interesse e logo iniciou suas viagens de pesquisa. Seu
desejo era o de seguir como pesquisador independente de ciência
natural, como seu irmão Erasmus.
Em sua autobiografia Darwin afirmou:
“Eu era ortodoxo na época
em que estive a bordo do navio Beagle. Lembro-me de provocar gargalhadas
em vários oficiais por citar a Bíblia como uma autoridade
incontestável”.
Entretanto sua crença ingênua
e cega na interpretação dogmática das Escrituras
foi sendo abalada conforme ele estudava biologia. Sigilosamente
foi escrevendo um livro secreto sobre suas idéias. Darwin
tinha casado com sua prima Emma e passou a ter em casa uma rigorosa
vigilante religiosa. Todavia, continuava em sua autobiografia:
“Eu não estava disposto
a desistir de minha crença com facilidade. Mas eu tinha
uma dificuldade cada vez maior, soltando as rédeas de minha
imaginação, de inventar provas suficientes para
me convencer. Fui tomado lentamente pela descrença, que
acabou sendo completa. A lentidão foi tamanha que não
senti nenhuma aflição, e desde então, nunca
duvidei de que minha conclusão foi correta. Aliás,
mal consigo entender como alguém possa desejar que o Cristianismo
seja verdadeiro”.
Os dogmas tomaram um caráter
irracional, afinal Deus devia governar por leis e não por
meio de intervenções incompreensíveis.
“Podemos permitir que satélites,
planetas, sóis, o Universo e ainda sistemas inteiros de
universos sejam governados pr leis, mas querem que o menor inseto
seja criado imediatamente por um ato especial”, refletia
Darwin.
A interpretação literal
de Bíblia, inaceitável pelo pensamento racional de
Darwin, estava levando-o a se tornar um atormentado e confuso pensador
sobre religião e a origem da vida.
“Se o Cristianismo fosse
verdadeiro, a linguagem clara do texto parece mostrar que os homens
que não tem fé serão eternamente castigados.
Isso incluiria, por exemplo, meu pai, meu irmão e quase
todos os meus melhores amigos. Essa é uma doutrina execrável”.
A imposição dogmática
causava a destruição de suas convicções
quando confrontada com a razão, abrindo caminho para a incredulidade.
Todavia Darwin não se interessou
pelo estudo científico do espiritualismo. Numa carta endereçada
a seu primo, Willian Darwin Fox, ele comentou:
“Falaste da homeopatia,
que é um assunto que me deixa mais irado até mesmo
do que a clarividência: a clarividência transcende
a fé a tal ponto que as faculdades comuns do indivíduo
são postas fora de discussão, mas, na homeopatia,
o bom senso e a observação corriqueira entram em
jogo, e ambos estão fadados a se desperdiçar, para
que aquelas doses infinitesimais surtam o menor efeito”.
Ele considerava seu médico
pessoal um crédulo ingênuo, quando fez uso de uma vidente,
um magnetizador mesmerista e da homeopatia para recuperar a saúde
de sua filha. No entanto, quando a própria filha de Darwin
teve os seus problemas físicos em ternos descritos minuciosamente
pela vidente sonâmbula, imaginou “alguma insinuação
inconsciente” provocada pela presença de seu médico.
Na sua autobiografia seu conflito íntimo é evidente:
“No passado, tinha firme
convicção da existência de Deus e da imortalidade
da alma. Lembro-me de minha convicção de que existem
mais coisas no homem do que a mera respiração de
seu corpo”.
Mas enfim ele chegou a definir ao
que se reduzira a crença:
“Sito-me obrigado a buscar
uma causa primária, dotada de uma mente inteligente e até
certo ponto, análoga a do homem, e mereço ser chamado
de teísta” (crença em qualquer deus).
Definitivamente Darwin acreditava
numa causa primária. No entanto não via como provar
a sua convicção cientificamente. Não encontrava
meios de expor o espiritualismo positivamente. E então concluiu:
“Não tenho a pretensão
de lançar luz sobre esses problemas obscuros. O mistério
do início de todas as coisas nos é insolúvel.
Devo contentar-me em permanecer agnóstico”.
Ou seja, não acreditava ser
possível confirmar positivamente a existência de Deus
e da alma.
POR QUE DEUS CRIOU A LEI DA SELEÇÃO
NATURAL?
Duas questões haviam ficado
em aberto depois da publicação dos trabalhos de Darwin
e Wallace. Qual a finalidade, o propósito, da lei de seleção
natural e qual a posição da espécie humana
quanto à sua origem: era um caso especial na Natureza ou
uma espécie criada pelo acaso, entre tantas outras? Essas
duas questões definiram claramente os caminhos seguidos pelos
dois naturalistas descobridores da teoria, e das conclusões
finais de suas pesquisas. A fuga dos dogmas religiosos, no início
da formação da ciência, oferecia dois caminhos
opostos: o materialismo e o espiritualismo científico. Darwin
foi arrebatado pelo primeiro e Wallace convencido, por sua razão,
pelo segundo.
Segundo Wallace, a seleção
natural foi criada por Deus como instrumento para o surgimento da
raça humana. Para isso, no entanto, não haveria uma
intervenção direta de Deus na matéria para
corrigir os desvios causados pelo acaso, isso teria feito por espíritos
superiores, habitantes de outros universos materiais compostos por
fluídos etéreos. O homem é, na visão
de Wallace, um ser especial, destinado por Deus para uma evolução
espiritual até que possa cumprir sua missão como co-criador
do Ser Supremo. Wallace chegou a essas conclusões por meio
de suas pesquisas sobre o mesmerismo, sonambulismo provocado e espiritualismo
moderno. Muitas de suas idéias foram inspiradas pela investigação
sobre as declarações dos espíritos comunicantes
em sessões espíritas.
Já Darwin, como fruto de
seu conflito, titubeava em explicações contraditórias,
tentando conciliar sua crença religiosa natural com o assédio
dos materialistas ateus, que repudiava. Entretanto, homens como
o médico e pensador alemão Ludwig Büchner, Carl
Vogt e Ernest Haekel eram ávidos em colocá-lo como
mentor de suas conclusões materialistas.
OS CAMINHOS DA FILOSOFIA E DA CIÊNCIA
A ciência
do século 18 era predominantemente metafísica. E foi
apenas no século 19 que começou a prevalecer a hipótese
materialista mecanicista. Na mesma época em que Kardec desenvolvia
a doutrina espírita em seus aspectos filosóficos,
científicos e religiosos na França – dando sanção
ao pensamento científico espiritualista do século
anterior – surgia na Alemanha um grupo de pensadores materialistas
portadores de um programa que, coincidência ou não,
combatia todos os postulados básicos da filosofia espírita.
Esses homens foram os fundadores da ciência materialista dogmática
que impera desde então, e ainda hoje, nos meios acadêmicos
e científicos.
Naquela época, pensadores
como o alemão Ernest Haekel, lutavam radicalmente contra
a Igreja, e com isso eliminavam tudo o que para eles nascia dos
dogmas. “O dogma antropocêntrico tem por ponto culminante
que o homem é o centro, o alvo final previamente consignado
a toda a vida terrestre”, disse o alemão. Para ele,
também eram dogmas a crença da criação
do Universo, a imortalidade da alma, o fluído vital, o livre-arbítrio
do homem, as idéias inatas, a alma dos animais. Entretanto,
não expôs em suas obras refutações racionais,
limitando-se basicamente a simplesmente negar.
A Igreja, todavia, pouco tinha
a argumentar contra a investida dos materialistas. “Uma das
acusações perpétuas da Igreja contra a ciência,
é que esta é materialista. Eu desejaria fazer notar
de passagem que a concepção eclesiástica da
vida futura foi sempre e é ainda o materialismo mais puro,
o corpo material deve ressuscitar e habitar um céu material”,
afirmou Savage (citado por Haelkel).
Quando Haekel analisou a reencarnação,
o corpo espiritual e os fenômenos sonambúlicos, em
seu livro Os Enigmas do universo, considerou apenas negativas e
desconsiderações, sem nenhuma argumentação
lógica. Quanto a reencarnação: “O que
há de infantil e de ingênuo nessas teorias da alma,
salta aos olhos. Mencioná-los somente aqui, porque, apesar
do seu absurdo, exerceram maior influência sobre a história
do pensamento”. E é só! Quanto à imortalidade
da alma faz ele apenas uma conclusão: “A crença
na imortalidade da alma humana é um dogma, que se encontra
em contradição insolúvel com os dados experimentais
mais certos da ciência moderna”. Mas não fez
uso de nenhuma pesquisa ou fundamentação científica
para fundamentar sua opinião.
Contudo, Camille Flammarion demonstra
a ligação entre a pesquisa de Darwin (mesmo contra
sua vontade) e os materialistas. O físico inglês Isaac
Newton havia afirmado que a descrição anatômica
do globo visual, pela sua complexidade, demonstrava a existência
de uma inteligência conhecedora da ótica. Por sua vez,
Darwin acreditava que somente o acaso tinha criado o mecanismo da
visão. “O olho formou-se por si ´mesmo!”,
disse ele.
Mas para Flammarion, essa conclusão
era ingênua e oferecia subsídios para a argumentação
materialista de Büchener. “Este fato importante é
a aquisição dessa meia-ciência, realizada em
duas fases, a primeira com Darwin e a segunda com Büchner.
Este nos diz que ao escrever, há sete anos, sobre a inexistência
de Deus, não esperava que os progressos constantes da Natureza
lhe fornecessem, tão cedo, provas tão exatas e convincentes,
em apoio de sua doutrina; e essas provas é Darwin que se
encarrega de as editar. ‘Está enfim provado (?) que
o olho, órgãos dos mais perfeitos do corpo animal
desenvolveu-se insensivelmente de uma simples nervo sensitivo!’.
O senhor Büchner exulta de alegria com esse feito, ou por melhor
dizer, com essa teoria que lhe prova, ao seu ver, a inexistência
de Deus”.
UMA VISITA INCONVENIENTE
Em 1881, Charles Darwin recebeu
um telegrama secreto dizendo que o doutor Büchner estava em
Londres e desejava ter a honra de visitá-lo. Isso causou
uma perturbação na família. Darwin assumira
uma posição heróica. Büchner julgava estar
saudando um nobre aliado. Darwin ficou constrangido. Sua esposa
Emma, estarrecida, propôs convidar um pastor amigo da família
para conter a conversa dos ateus. Na conversa após o jantar,
Darwin diria a Büchner: “Por que você deveria ser
tão agressivo? Diz respeito a impor novas idéias às
pessoas?”.
Darwin passou a acreditar que todos
os órgãos corporais e mentais de todos os seres foram
desenvolvidos através de uma seleção natural.
Nesse sentido o pensamento seria fruto do uso do cérebro.
Não imaginava como poderia existir uma realidade extra-física.
Sua formação o afastava de tudo o que considerava
sobrenatural, irracional. Darwin não tolerava o espiritualismo.
Ele chegou a participar de uma sessão de efeitos físicos.
Sentou-se ao lado do médium, segurando sua mão e apoiando-se
sobre seu pé. Quando iriam iniciar os fenômenos surpreendentemente
deixou a mesa e recolheu-se aos seus aposentos. Logo após,
a mesa flutuaria pela sala e flores se materializariam sem contar
com o seu testemunho. Quando Wallace afirmou: “Espero que
não tenhas assassinado totalmente o teu e o meu filho”.
Mas o naturalista Alfred Wallace
estava bastante consciente dos resultados de suas pesquisas científicas
e espíritas. Colocava sua convicção racional
acima das perseguições que sofria. “Não
é exagero afirmar que os fatos principais da realidade espiritual
estão hoje tão bem caracterizados e são também
tão facilmente verificáveis quanto quaisquer outros
fenômenos excepcionais da Natureza, ainda não reduzidos
a uma lei”, afirmou em 1874.
Wallace já conhecia o sonambulismo
provocado e estudara os livros de Mesmer, Puységur e outros
pesquisadores da ciência do magnetismo animal. Fazia experimentações
sonambulisando seus alunos e, quando de sua passagem pelo Brasil,
levou ao transe índios do Belém do Pará. Em
busca de compreender a natureza do ser humano, empreendeu investigações
e pesquisas sobre a mediunidade em todas as suas modalidades. Cada
vez mais esclarecido, estudou as declarações dos espíritos
e chegou a formular uma união de sua descoberta sobre a evolução
das espécies com as revelações espirituais,
sem, no entanto, conhecer a filosofia espírita de Kardec:
“Deve existir um mundo invisível do espírito
que faz com que ocorram mudanças no mundo da matéria;
e a evolução deste planeta deve receber orientação
e auxílio externos, de inteligências superiores e invisíveis,
às quais o homem é suscetível enquanto ser
espiritual. Além disso, essas inteligências muito provavelmente
existem em seres de grau superior a nós”, explicou
Wallace em sua obra The World of Life.
A ORIGEM DO HOMEM
Em setembro de 1857, alguns meses
depois do lançamento de o Livro dos Espíritos, Wallace
perguntou se Darwin iria discutir o homem em seu trabalho. Darwin
respondeu-lhe: “Creio que evitarei todo esse assunto, por
ser muito cercado de preconceitos, embora reconheça plenamente
que ele é o problema supremo e mais interessante para um
naturalista”. Realmente, em seu livro Origem das Espécies,
Darwin apenas citou, num dos últimos parágrafos, que
“nova luz será lançada sobre o problema da origem
do homem e de sua história” e nada mais.
Já Alfred Russel Wallace
fez uso de seu notável senso científico mergulhando
numa extensa, detalhada e fundamental pesquisa do Espiritismo científico,
filosófico e religioso. A publicação de sua
obra The scientific aspect os supernatural (O aspecto científico
do sobrenatural[1] - Ver nota), em 1866, despertou o preconceito
da ciência materialista. Sua pesquisa se estendeu até
as conseqüências morais da filosofia espírita:
“Após a morte, o espírito humano sobrevive em
um corpo etéreo, dotado de novas capacidades, mas sendo mental
e moralmente o mesmo indivíduo que era quando vestido de
carne: que ele inicia, a partir de certo momento, um curso de progressão
aparentemente sem fim cuja velocidade está na medida que
as suas faculdades mentais e morais são exercitadas e cultivadas
enquanto se acha na Terra; que suas alegrias ou suas misérias
relativas irão depender inteiramente dele mesmo”.
Somente em 1871, Darwin trataria
do assunto. Publicou, então, um enorme tratado denominado
A origem do homem e a seleção sexual, na qual chegou
à conclusão oposta de Wallace. “A diferença
entre o homem e os animais superiores, por maior que seja, certamente
é de grau e não de gênero (...). Poderíamos
traçar um gráfico, partindo da mente de um homem completamente
idiota, que fica mais embaixo na escala do que aquela do mais primitivo
dos animais, até chegar a mente de um Newton”, exemplificou
Darwin. Entretanto os espíritos já haviam afirmado,
há mais de uma década, em O Livro dos Espíritos.
“Há entre a alma dos animais e a do homem distância
equivalente à que medeia entre a alma do homem e Deus”.
Em sua obra A Gênese, publicada
em janeiro de 1868, Allan Kardec consideraria a hipótese
da evolução da raça humana a partir da encarnação
de espíritos em corpos animais, confirmando a hipótese
de Wallace: “Da semelhança, que há, de formas
exteriores entre o corpo do homem e do macaco, concluíram
alguns fisiologistas que o primeiro é apenas uma transformação
do segundo. Bem pode dar-se que corpos de macaco tenham servido
de vestidura aos primeiros espíritos humanos. (...) Vestiu-se
então da pele do macaco, sem deixar de ser espírito
humano, como o homem não raro se reveste da pele de certos
animais sem deixar de ser homem. (...) A semelhança do corpo
do homem com o do macaco não implica paridade entre seu espírito
e o do macaco”. Nesta citação poderíamos
substituir “macaco” por “primata ancestral”.
A história da ciência
tem sido contada pelo ponto de vista materialista desde o último
século. A ciência materialista só vê um
lado das coisas. No entanto, não é a única
maneira de se compreender a Natureza. Nem mesmo será a última.
Podemos afirmar que o materialismo e mesmo o positivismo são
apenas “uma das fórmulas temporárias da evolução
filosófica, pois os séculos não sucederam aos
séculos, não se acumularam as obras dos sábios
e dos filósofos para tudo ficar limitado à teoria
do desconhecido. O pensamento humano avança, desenvolve-se
e, dia a dia, penetra mais além. O que hoje é ignorado
não o será amanhã. A carreira do espírito
humano não está terminada. Fixar-lhe um limite, é
desconhecer a lei do progresso, é falsear a verdade”,
afirmou Léon Denis em Depois da morte.
E então concluímos
com o raciocínio lúcido de Léon Denis: “Tempo
chegará em que todos esses vocábulos: materialista,
positivista, espiritualista, perderão sua razão de
ser, porque o pensamento estará livre das peias e barreiras
que lhe impõem escolas e sistemas. Quando perscrutarmos o
fundo das coisas, reconhecemos que matéria e espírito
não passam de meios variáveis e relativos para expressão
do que existe unicamente de positivo no universo, isto é
– a força e a vida, que, achando-se em estado latente
no mineral, se vão desenvolvendo progressivamente do vegetal
ao ente humano, e, mesmo acima deste, nos degraus inumeráveis
da escala superior”.
No entanto, é importante
ressaltar que não nos cabe aguardar pela nossa evolução,
mas sim construí-la.
PARA SABER MAIS
- Origem das espécies, Charles Darwin. Editora
Itatiaia
- As cartas de Charles Darwin: uma seleta, 1825-1859. Editora Unesp
- Autobiografía, 1809-1882, Charles Darwin. Contraponto
- Darwin, a vida de um evolucionista atormentado, Adrian Desmond
e James Moore. Geração Editorial
- Deus na natureza, Camille Flammarion. FEB http:///www.wku.edu/~smithch/index1.htm.
Um site completo com textos originais, biografia, fotografias, todo
sobre Alfred Russel Wallace. Em Inglês.
Quadro 1
TEORIA DA EVOLUÇÃO
DAS ESPÉCIES
A teoria da evolução das espécies teve como
primeira alternativa, ao criacionismo, as idéias de Jean
Baptista Lamarck (1774-1829). Em 1809 ele publicou o livro Filosofia
Zoológica, no qual a evolução se dava por duas
leis fundamentais: o princípio do uso e desuso, e o da transmissão
de caracteres adquiridos. A primeira, afirmava que o uso intensivo
de determinadas partes do corpo do organismo, fariam com que estas
se desenvolvessem; já o desuso, as atrofiariam. E a segunda
se dava pela transmissão das características que haviam
sido alteradas pelo uso e desuso, aos descendentes. As girafas,
por exemplo, teriam o pescoço longo, porque seus ancestrais,
de pescoço curto, precisaram buscar alimentos em folhagens
cada vez mais altas. O esforço para buscar comida, de geração
em geração, esticou o pescoço. Esse alongamento
chegou às atuais girafas. Uso e desuso e transmissão
de características. Essa teoria não é mais
aceita pela simples comprovação de que as características
adquiridas não são hereditárias. A biologia
verificou que as alterações nas células somáticas
(do corpo) dos indivíduos não interferem nas informações
genéticas das células germinativas (do óvulo
e espermatozóide).
Em 1858, é colocada em pauta,
por Wallace e Darwin, a teoria atual da evolução das
espécies. Diferente proposta de Lamarck, a teoria demonstra
uma competição acirrada entre os organismos de uma
mesma espécie; esses indivíduos apresentam variações,
não sendo idênticos em suas características.
Só o mais forte sobrevive, originando filhos mais capazes
de se adaptar ao meio ambiente. Os princípios se dão
por alguns termos. Todo organismo tem grande capacidade de reprodução,
produzindo muitos descendentes. Contudo apenas uma pequena parte
destes chega à idade adulta. Os que alcançam a maturidade
são aqueles com condições mais favoráveis
de adaptação no meio em que vivem. Esses organismos
adultos, com essas variações vantajosas, produzem
descendentes. As características hereditárias são,
então, transmitidas de pais para filhos e por isso os filhotes
apresentam as variações. A nova geração
passa pelo mesmo processo, e assim sucessivamente. É um ciclo
interminável, cada geração é bem mais
preparada que a anterior. Vejamos o exemplo das girafas. Neste caso
haviam animais de pescoço curto e longo e suas características
eram transmitidas a seus filhos. Mas as de pescoço mais longos
sobreviviam em maior número, pois conseguiam se alimentar
melhor. De geração a geração, as de
pescoço curto foram se extinguindo. Na luta pela vida, só
as de pescoço alongado sobreviveram; afinal, para elas não
faltava alimento. Ocorreu a seleção natural.
Quadro 2
CHARLES ROBERT DARWIN
O inglês nasceu na cidade de Shrewsburry, no dia 12 de fevereiro
de 1809. Quinto filho de uma família aristocrata fazia seu
pai, Robert Darwin, um bem sucedido médico, ficar horrorizado
com sua coleção de besouros e sua “caça
aos ratos”. Robert desejava que Darwin seguisse a mesma carreira
que ele e seu pai, fazendo uma terceira geração de
médicos. E lá foi em 1925, para Edimburgo estudar
medicina. Sua paixão pelas ciências naturais, foi despertada
com toda força. Contudo, após dois anos de estudo,
ao observar a operação de um paciente sem anestesia,
Darwin descobriu que não tinha vocação para
a área médica. Seu pai logo o incentivou a uma outra
carreira: a eclesiástica, pela Igreja Anglicana. E novamente,
a ciência natural, veio ao seu encalço. Teve como professor
o botânico John Stevens Henslow e como amigo o geólogo
Adam Sedgwick. O primeiro lhe incentivou a exercer seu dom para
o naturalismo, explicando a importância da observação
e o recolhimento de espécies para estudo. Já o segundo
lhe ensinou a analisar as rochas e os solos. E foi seu professor
que conseguiu embarcar Darwin no navio de investigação
cartográfica e exploratória, HMS Beagle. Era 1831,
Darwin havia acabado de se formar e pôde praticar seus conhecimentos
em todos os Continentes. Foram cinco anos de viagens ao redor do
mundo. Nesse período, ele veio ao Brasil mais de uma vez.
Ao voltar para a Inglaterra, em 1836, tinha coletado mais de 1500
espécies. Suas considerações foram publicadas
com o título de Zoologia no Beagle. A partir desse momento
Darwin inicia sua procura pela prova que conferia a mudança
das espécies, pois observou em sua viagem que os mesmos animais
apresentavam características distintas conforme o local onde
habitavam. Em 1939, casou-se com sua prima Emma, com quem teve dez
filhos. Nesse período, os primeiros sintomas de Chagas começaram
a se manifestar, ele havia sido picado em sua extensa viagem. Também
nessa época, ele escreveu diversos tratados geológicos,
sendo o mais importante deles a explicação sobre o
bosque petrificado dos Andes.
Após ser pressionado para
publicar suas hipóteses antes de outro pesquisador que chegara
a conclusões semelhantes, lançou em 1859, A Origem
das Espécies. A obra, revolucionária, para a época
que tinha o criacionismo como idéia da origem da vida, levou
Darwin a diversos debates e polêmicas, criando inimizades,
principalmente dentro da Igreja. Para fundamentar sua teoria, Darwin
escreveu mais três livros sobre o assunto. Faleceu de um ataque
cardíaco em 1882.
Quadro 3
ALFRED RUSSEL WALLACE
A pesquisa científica sobre as comunicações
com os espíritos para provar os fenômenos mediúnicos
tornou Wallace alvo do preconceito da comunidade científica
materialista, sendo injustamente colocado, por décadas, à
margem da história da ciência. Com sua irmã
Fanny, ele freqüentava sessões mediúnicas, nas
quais os espíritos demonstravam materializações,
transporte de objetos, escrita direta sobre pranchetas e se comunicavam
por meio de batidas e psicografia. Os mais renomados médiuns
daquela época passaram pelo seu senso crítico. Wallace
desenvolveu um sistema metodológico para dar estrutura à
pesquisa da nova fenomenologia. Sua crença impediu por muito
tempo seu acesso a cargos públicos e pensões, apesar
de ser merecedor por seus trabalhos científicos.
Alfred Russel Wallace, nasceu em
Usk, Monmouthshire, País de Gales, no dia 08 de janeiro de
1823. Inicialmente interessado por botânica, passou ao estudo
dos insetos e animais por influência do naturalista britânico
Henry Walter Bates. Em 1848, ambos empreenderam uma expedição
pela Amazônia, que durou dois anos, sobre a qual Wallace escreveu
o livro Narrative of travels on the Amazon and Rio Negro, publicado
em 1853. No seu retorno à Inglaterra, o navio em que viajava
incendiou e afundou. Apesar de ter perdido as diversas espécies
que havia coletado durante a viagem, Wallace e a tripulação
do navio conseguiram escapar e foram recolhidos por um outro barco,
nove dias depois.
Após a ida à Amazônia,
Wallace foi explorar o Arquipélago Malaio (atual Indonésia),
onde permaneceu de 1854 a 1862, realizando um extraordinário
trabalho de observações e de coleta. Ele recolheu
cerca de 124.000 espécimes, na sua grande maioria insetos,
dos quais milhares eram desconhecidos pela ciência. Depois
dessa viagem voltou definitivamente para a Inglaterra. Entre vários
livros importantes devem ser lembrados O Arquipélago Malaio
(1869), Os Milagres e o Espiritualismo moderno (1875), Distribuição
Geográfica dos animais (1876) e a sua autobiografia Minha
Vida (1905).
Os temas sociais também preocupavam
Wallace. Manifestou-se contra os cercamentos na Inglaterra e, na
política, defendeu o voto feminino. Escreveu um visionário
plano de manejo da floresta Epping, uma das últimas reservas
naturais dos arredores de Londres, que estava sendo destruída
pelos loteamentos – pelo qual ele bem poderia receber o título
de fundador do ambientalismo moderno. Também defendeu a nacionalização
das ferrovias e o socialismo. No final da vida estava estudando
astronomia para provar sua tese sobre a intervenção
de uma inteligência superior na evolução das
espécies, contra a tese de Darwin, que impugnava ao acaso.
Segundo o professor Charles Snith,
na época de seu desencarne (1913), Wallace era o mais famoso
cientista do mundo. A imprensa o denominava como: “O maior
naturalista inglês vivo”; “Uma das duas mais importantes
e significativas figuras do século 19”; “Uma
figura que pode se chamar única”; “O último
dos gigantes ingleses da ciência do século 19”.
Quadro 4
ALLAN KARDEC CONSIDERA A EVOLUÇÃO
DA ESPÉCIE HUMANA
Em 1868, a sociedade mundial ainda
discutia a teoria da evolução. Ao publicar A Gênese,
Allan Kardec considerou a tese de Wallace e Darwin, conforme descrito
no XI capítulo dessa obra, no subtítulo hipótese
sobre a origem do corpo humano. Acompanhe um trecho:
“Da semelhança, que
há, de formas exteriores entre o corpo do homem e do macaco,
concluíram alguns fisiologistas que o primeiro é apenas
uma transformação do segundo. Nada aí há
de impossível, nem o que, se assim for, afete a dignidade
do homem. Bem pode dar-se que corpos de macaco tenham servido de
vestidura aos primeiros espíritos humanos, forçosamente
pouco adiantados, que viessem encarnar na Terra, sendo essa vestidura
mais apropriada às suas necessidades e mais adequadas ao
exercício de suas faculdades, do que o corpo de qualquer
outro animal. Em vez de se fazer para o espírito um invólucro
especial, ele teria achado um já pronto.
Vestiu-se então na pele do
macaco, sem deixar de ser espírito humano, como o homem não
raro se reveste da pele de certos animais, sem deixar de ser homem.
Fique bem entendido que aqui unicamente
se trata de uma hipótese, de modo algum posta como princípio,
mas apresentada apenas para mostrar que o origem do corpo em nada
prejudica o espírito, que é o ser principal, e que
a semelhança do corpo do homem com o do macaco não
implica paridade entre o seu espírito e o do macaco.
Admitida essa hipótese, pode
dizer-se que, sob a influência e por efeito da atividade intelectual
do seu novo habitante, o envoltório se modificou, embelezou-se
nas particularidades, conservando a forma geral do conjunto. Melhorados,
os corpos, pela procriação, se reproduziram nas mesmas
condições, como sucede com as árvores de enxerto.
Deram origem a uma espécie nova, que pouco a pouco se afastou
do tipo primitivo, à proporção que o espírito
progrediu. O espírito macaco, que não foi aniquilado,
continuou a procriar, para seu uso, corpos de macaco, do mesmo modo
que o fruto da árvore silvestre reproduz árvores dessa
espécie, e o espírito humano procriou corpos de homem,
variantes do primeiro molde em que ele se meteu. O tronco se bifurcou:
produziu um ramo, que por sua vez se tornou tronco.
Como na Natureza não há
transições bruscas, é provável que os
primeiros homens aparecidos na Terra pouco deferissem do macaco
pela forma exterior e não muito também pela inteligência.
Em nossos dias ainda há selvagens que, pelo comprimento dos
braços e dos pés e pela conformação
da cabeça, tem tanta parecença com o macaco, que só
lhes falta ser peludos, para se tornar completa e semelhante.
Quadro 5
TEORIA ANTES DA EVOLUÇÃO
Até o século 19 a teoria para a origem das espécies
era criacionista/catastrofista. Assim como está descrito
na Bíblia, todas as espécies foram criadas de uma
só vez pelo Senhor Supremo, Deus. É nisso que acreditavam
a maioria dos cientistas da época. E baseavam sua tese com
o catastrofismo, dessa forma explicavam as mudanças na formação
básica da Terra, já observada, e mostravam que a Terra
teria sofrido diversas criações de vida animal e vegetal,
por causa das catástrofes sucessivas. A última delas
havia sido o dilúvio universal, só sobrevivendo a
ele as espécies que estavam na Arca de Noé.
Agora imagine aparecer uma
teoria que ausentava Deus das modificações sofridas
por organismos vivos. O retirava da intervenção nas
transformações das espécies, nas coisas do
mundo, diminuindo seu “poder supremo”. Realmente foi
uma revolução. Para se ter idéia, a teoria
da evolução só foi aceita, após admitir
as idéias de Mendel, que em 1965 apresentou a tese da característica
hereditária, aceita 30 anos depois, em 1905. (ATENÇAO
PARA ESSAS DATAS, NÃO SERIA 1875 E 1905? Fiquei em dúvida,
por isso não corrigi)
Foi somente em 1997 que a Igreja Católica, pelo Papa João
Paulo II, acatou a teoria da evolução das espécies.
Quadro 6
O ASPECTO CIENTÍFICO
DO SOBRENATURAL
[1] Alfred Russel Wallace – Publicações Lachâtre
– O primeiro contato do autor com os fenômenos espiritualistas
aconteceu com 21 anos, em 1844, quando lecionava numa escola em
Midland – Inglaterra. Naquele ano, ele assistiu as conferências
do escritor Spencer Hall sobre o mesmerismo. Spencer havia aprendido
a sonambulizar com o famoso pesquisador do magnetismo animal, Lafontaine,
e passou a viajar pela Inglaterra divulgando o assunto. A partir
dessa época, Wallace aprofundou suas pesquisas sobre o naturalismo
e espiritualismo. Sua primeira obra a respeito de fenômenos
do magnetismo animal da clarividência e do espiritualismo
moderno, foi publicada em 1866, The scientifc aspect of the supernatural.
Apesar de ter tratado o assunto com rigor científico, e de
já ser conhecido como destacado naturalista, a obra foi recebida
com desprezo pela comunidade científica inglesa. Até
os últimos anos de vida, Wallace publicou centenas de artigos
e livros, como o clássico: Os milagres e o espiritualismo
moderno; tornando-se um importante divulgador da ciência espírita.
A edição revisada e aumentada por Wallace, em 1875,
acaba de ser publicada, traduzida para a língua portuguesa
com o título: O aspecto científico do sobrenatural.
Esse livro é um importante passo para romper o silêncio
criado pelos historiadores da ciência e revelar a profundidade
e seriedade da pesquisa do autor sobre o espiritualismo.