Conceitos e Evidências da Cura por
Meios Paranormais
MEDNESP 95 - Boletim Médico-Espírita
n ° 10
Para compreendermos o conceito de cura paranormal, é necessário
definir fenômeno paranormal. Denominamos de psi ou
paranormal todo o fenômeno que, tendo o homem como
elemento deflagrador, apresenta as seguintes características:
modalidade de conhecimento que uma pessoa demonstra
de fatos físicos e/ou psíquicos relativos ao passado,
presente ou futuro, sem a utilização (aparente)
dos sentidos e da razão, assim como habilidades que não
resultem de prévio aprendizado;
ação física que uma pessoa exerce sobre os
seres vivos e a matéria em geral, sem a utilização
de qualquer extensão ou instrumento de natureza material
(1).
Postulamos a existência de duas funções
psíquicas eferentes: a função pi e a função
tau (2).
A função pi é um mecanismo
psíquico pelo qual impulsos eferentes do organismo são
inibidos. Estes podem ser de natureza endógena (secreção
glandular, impulsos eferentes para a musculatura lisa etc.) ou exógena
(atividade motora estriada). Sem essa função inibidora,
estaríamos em permanente estado de espasticidade, secreção
endógena etc. A função pi seleciona as atividades
efetoras que devem ser exercidas pelo organismo.
A função pi apresenta as seguintes características:
a) controla ou suprime a atividade eferente excitatória;
b) age nas vias eferentes do sistema nervoso; c) é desempenhada
pelo córtex motor, gânglios da base, cerebelo, hipotálamo
e sistema límbico.
Outrossim, o sistema nervoso também possui
uma tonicidade intrínseca que deve ser bloqueada por algum
mecanismo, ao qual denominamos de função tau. Essa
função inibe a atividade efetora paranormal. Dessa
maneira, parece existir um link entre a mente e a matéria
promovendo a produção de uma interação
não local. O bloqueio desse link, exercido pela função
tau, interrompe essa interação, impedindo a consecução
da psicocinesia.
Quando a extremidade receptora do fluxo psi energético
for um organismo vivo, poderemos observar um fenômeno de cura
por meios paranormais, desde que ocorra um "efeito psicocinético
sobre o tecido ou a matéria orgânica que a ajude a
recuperar-se de doença ou lesão biológica.
Se a psicocinesia pode mover um objeto ou perturbar um processo
quântico, parece lógico presumir que seja capaz de
rearrumar células e tecidos ou apressar as capacidades regenerativas
do próprio corpo (3)".
A função de repressão tau apresenta
as seguintes características:
a) é de natureza neurológica ou psíquica;
b) impede a atualização das interações
universais entre o psiquismo e o mundo físico;
c) é exercida pela própria atividade eferente, através
de estruturas neurais superiores.
Podemos definir a cura por meios paranormais como
uma ação física da mente sobre os seres vivos,
sem a utilização de qualquer extensão ou instrumento
de natureza material, que produz o restabelecimento da saúde
a esse sistema,
O Dr. Bernard Grad, do McGill University's Aliem
Memorial Institute, em 1916, realizou uma experiência que
afasta a possibilidade da ação curativa ocorrer,-
em alguns casos, por um fator sugestivo, sendo necessário
acrescentar a hipótese de um fenômeno de natureza paranormal.
Nessa experiência, em que o "sujeito" foi o coronel
Oskar Estebany, utilizou como objeto experimental um conjunto de
camundongos, dos quais foram retirados (com anestesia) pedaços
de pele e em seguida, foram mensurados os tamanhos das feridas causadas.
As 48 fêmeas foram divididas em três grupos, o primeiro
sofreu a ação do coronel. O segundo grupo foi submetido
à atuação de uma outra pessoa. Finalmente,
o terceiro grupo foi aquecido a uma temperatura análoga a
que foram submetidos os camundongos dos outros dois grupos. As feridas
eram medidas de 20 em 20 dias. Observou-se que as feridas dos animais
submetidos à ação do curandeiro eram muito
menores do que as apresentadas pelos outros grupos (4).
Inúmeras experiências realizadas por
ele e por outros pesquisadores, bem como paranormais, levaram à
conclusão de que parece existir uma interação
curandeiro-ser vivo, de natureza paranormal.
Cirurgias Psíquicas
Curandeiros que se utilizam de instrumentos materiais ou das próprias
mãos praticam sugestão dramatizada. Por utilizarem
objetos cortantes para realizar suas cirurgias, a expressão
"cirurgião psíquico" é inadequada.
Caso fossem paranormais, promoveriam a extração de
tumores, corpos estranhos, cálculos etc., através
de metafanismo, sem que fosse necessária a realização
de incisões (5).
O material retirado é víscera de animal,
cabelo, sangue não-humano, entre outros, demonstrando a natureza
fraudulenta da maioria dessas intervenções. Comumente
essas cirurgias limitam-se a lesões superficiais e apresentam
uma técnica primitiva.
Três elementos são geralmente indicados
como demonstrativos da natureza paranormal dessas intervenções:
ausência de dor, ausências de infecção
e hemostasia.
A dor nem sempre está ausente e, quando isso
ocorre, podemos interpretar como um efeito de natureza hipnótica.
A hipnose pode ser compreendida como um estado emocional intensificado,
sendo do tipo trofotropa (emoção tranqüilizadora,
calmante) ou ergotropa (emoção desestabilizadora,
irritante). As sugestões hipnóticas podem estar implícitas.
Assim, o desejo e a crença em curar-se mediante o toque ou
a presença do curandeiro são fatores suficientes para
mobilizar o organismo no sentido da cura.
Quanto à ausência de infecção
pós-cirúrgica, podemos argumentar que o sistema imunológico
tem sua atividade exacerbada por influência do psiquismo,
podendo, dessa maneira, debelar ou diminuir a disseminação
da infecção. As "cirurgias psíquicas"
são potencialmente contaminadas (risco de infecção
de 10%) e contaminadas (risco de 20%). A informação
de que não ocorre a prescrição de antibióticos
é falsa. Além disso, é conhecido o fato de
que não devemos utilizar antibioticoterapia profilática
em feridas potencialmente contaminadas, que é o caso de grande
parte das intervenções desse tipo.
A tudo isso, acrescentamos que a maioria das complicações
pós-cirúrgicas só ocorrem dias após
as intervenções, sendo necessário um acompanhamento
minucioso do paciente após a sua alta, durante vários
dias, para podermos garantir a ausência de complicações.
Este é um problema bastante comum, comumente esquecido pela
Medicina acadêmica.
Finalmente, lembrem os que as feridas podem cicatrizar-se
por segunda intenção, em que não é realizada
a sutura, deixando-se a ferida aberta.
Nesse caso, há intensificação
da epitelização e contração da ferida,
bem como maior resistência à instalação
de infecção (6).
As "cirurgias psíquicas" cicatrizam-se
por segunda intenção e, dessa maneira, são
menos propensas a sofrer infecções.
Por sua vez, a hemostasia pode ser obtida por processos
hipnóticos, em que a ação do psiquismo promove
uma vasoconstrição diferenciada, impedindo, dessa
maneira, a hemorragia (7). Assim, a
presença de hemostasia também não é
um indício contundente da natureza paranormal do fenômeno.
Concluímos, assim, que as chamadas "cirurgias
psíquicas" não são de natureza paranormal,
além de apresentarem resultados muito inferiores ao da medicina
tradicional.
Abordagem Médico-Legal
Qualquer pessoa pode dedicar-se a uma profissão, desde que
tenha obtido capacidade e habilidade legal para exercê-la
(8).
A profissão médica no Brasil é
regulada pelo Decreto 20.931, de 11 de janeiro de 1932, ainda em
vigor, que exige uma habilitação profissional e outra
legal. Aquela é obtida nas universidades, através
dos currículos das escolas médicas reconhecidas; esta,
pela posse e registro de título idôneo no Conselho
Regional de Medicina correspondente.
As pessoas não formadas em Medicina não
podem exercer a profissão médica, salvo em situações
inadiáveis e imprescindíveis, que o estado de necessidade
reconhece como lícito. O que se tenta impedir é a
ameaça da saúde pública por indivíduos
não qualificados.
O Código Penal pune, com detenção
de, no máximo, dois anos e o pagamento de cinco a quinze
dias-multa, se praticado com fim lucrativo, o indivíduo que
"exercer, ainda que a título gratuito, a profissão
de médico, de dentista ou de farmacêutico sem autorização
legal ou excedendo-lhe os limites".
O charlatanismo pode ser entendido como cura inculcada
ou anunciada, através de meios infalíveis e secretos,
de tratamento simulado, diagnóstico e prognóstico
falhos ou curas sensacionais e extraordinárias.
Entendemos que o charlatanismo é privativo
dos médicos.
Inculcar significa aconselhar, recomendar, elogiar,
apregoar, enquanto anunciar é a maneira de divulgar e disseminar
por qualquer meio (rádio, televisão, jornais etc.).
Não se faz necessária a habitualidade nem a factualidade,
bastando a possibilidade de enganar.
O Decreto-Lei 4,113, de 14 de janeiro de 1942, em
seu artigo 1ú, disciplina a propaganda dos médicos,
dentistas e farmacêuticos, proibindo que seja anunciada cura
de doenças para os quais, atualmente, não há
tratamento adequado pela ciência oficial.
O médico não pode anunciar atendimento
gratuito, pois caracteriza uma pseudocaridade, com a finalidade
de obter clientela.
O curandeirismo, por sua vez, também é
crime de perigo abstrato, bastando que haja fisco para caracterizá-lo,
mesmo sem a concreta produção de dano ao indivíduo.
Não são usados procedimentos médicos, mas informações
empíricas e condutas que supõem o sobrenatural. José
Duarte (9) comenta:
"É, pois, uma prevenção
moral e higiênica porque, muitas vezes, as bruxarias, os
sortilégios, a magia negra e práticas semelhantes
produzem nos espíritos fracos impressões nocivas
que perturbam a própria mente e comprometem a saúde.
São, às vezes, pequenas fraudes, mistificações
ridículas, revestindo um caráter aparentemente inofensivo,
sem visos de chantagem. Mas contêm a ameaça de um
grande perigo, dada a influência que exercem na gente inculta,
simplória e crédula".
O curandeiro, não tendo capacitação
nem habilitação legal, exerce suas atividades de pretensas
curas que podem se enquadrar em um dos grupos seguintes:
prescrever, ministrar ou aplicar habitualmente qualquer
substância;
usar gestos, palavras ou qualquer outro meio (benzeduras, rezas
etc.) ;
realização de diagnóstico.
Observamos que a habitualidade é fator necessário
para a caracterização desse crime. Quando ocorrer
mediante pagamento, a penalidade é maior, Entretanto, é
importante destacarmos que muitos curandeiros utilizam-se de meios
indiretos de ganho, seja através de recebimento de presentes,
muitos de alto valor, seja através de uma rede comercial
constituída de farmácias, hotéis etc., montados
na região, comumente por familiares que, indiretamente, promovem
uma confluência de riquezas para o curandeiro.
Há quem defenda a legalização
do curandeirismo, como o professor de Direito e promotor público
Djalma Gabriel Barreto, baseado na possibilidade de ocorrência
da integração mente-organismo vivo e, conseqüentemente,
do retomo à condição de hígido. Admite
seu exercício, desde que acompanhado por profissional médico
(l0). Esta é uma questão bastante polêmica,
merecendo, por parte de todo médico, uma reflexão
profunda para que não ocorra agressão ou prejuízo
à população.
A "cirurgia psíquica",
já comentada anteriormente, requer uma maior atenção,
haja vista que:
a) apresentam técnicas primitivas;
b) não é feito um acompanhamento adequado das complicações
pós-cirúrgicas;
c) não são realmente psíquicas, já
que se utilizam de instrumentos materiais;
d) colocam em fisco a integridade física, e até
mesmo psíquica, do paciente;
e) apresentam resultados muito aquém da medicina tradicional;
f) não possuem nenhum embasamento de natureza científica.
Como vemos, esse é um campo altamente complexo, que requer
bastante cuidado e precauções na sua abordagem.
Conclusão
A ciência, sendo incapaz de lidar diretamente com a realidade,
busca a elaboração de representações
de modelos que mais fielmente explicitem a dinâmica dos fenômenos
da natureza. Dentro de sua metodologia, procura trabalhar com modelos
mais simples, com a menor quantidade de suposições
possíveis.
A mente humana parece possuir o potencial de agir
sobre o seu próprio organismo, bem como sobre objetos externos.
Através de sugestões, de uma crença em determinado
fato, somos capazes de mobilizar reservas internas que incrementam
nossas defesas contra agentes agressores; além disso, podemos
provocar alterações fisiológicas que permitem
o desaparecimento ou diminuição das sensações
nociceptivas e a produção de hemostasia. Todos esses
fenômenos favorecem o restabelecimento da saúde sem
que se faça necessária a utilização
de hipóteses mais complexas.
Em alguns casos, a ação do psiquismo
sobre o próprio organismo do indivíduo não
é suficiente para explicar o conjunto de fenômenos
observados, sendo necessário acrescentar a hipótese
do fenômeno paranormal. É o que ocorre, por exemplo,
na ação de curandeiros sobre animais e plantas, que,
teoricamente, não são sugestionáveis.
É importante, também, que destaquemos
o aspecto do exercício legal da profissão médica,
tanto no que se refere à capacitação quanto
ao registro em órgão oficial de regulamentação
do exercício da Medicina.
A prática do curandeirismo, principalmente
no caso das chamadas "cirurgias psíquicas", deve
ser desestimulada, pelo risco que envolve e pelo resultado inferior,
ou, no máximo, igual ao das terapêuticas convencionais.