1) Introdução
1.a) Sobre o tema
Este trabalho nasce pela força
do tema em si. De nada valem explicações e justificativas.
Não, o próprio sentido polêmico do tema dispensa
qualquer justificativa. Não há quem não se posicione
ante a provocação deste antagonismo. Mesmo que esse
posicionamento seja até para negar a existência do próprio
antagonismo.
Acontece que estamos diante de duas idéias distintas.
A grande questão que o tema suscita é a seguinte: onde
se encontra o eixo das decisões da vida do homem ?
Os defensores do determinismo atribuem ao destino, uma entidade exterior
ao homem, tal prerrogativa.
Os livre-arbitristas dizem estar no próprio homem, em sua vontade
soberana, o núcleo de suas decisões.
Onde a razão é mais
forte? A leitura do trabalho, somada a uma série de reflexões
poderá trazer indicativas ao raciocínio do leitor, assim
o espero.
Estarei tratando do livre arbítrio,
no estrito âmbito das decisões do espírito em
sua jornada, e buscando dentro do possível, adotar uma perspectiva
filosófica.
Importa neste texto é que lhe retiremos as idéias, buscando
uma reflexão interna, individual, acerca do que seja este patrimônio
chamado tempo, a se espraiar num patrimônio maior chamado vida.
Essa vida que é essencialmente livre. Se não a conseguimos
compreender dessa maneira, isto se deve a uma carga herdada de concepções
antigas, onde o homem era joguete das instâncias de poder. Concepções
estas enraizadas no movimento espírita tradicional, e espelhadas
ao longo dos diversos recantos deste país, e poderíamos
dizer de todo o continente.
Levando em consideração a amplitude do tema, seria este
questionamento um projeto grandioso ? Não, encaremos apenas
como uma contribuição. Este é, entre tantos,
um tema que foi tratado de forma pontual e esporádica, que
recebeu contribuições aqui e ali, mas que não
calou fundo no todo do movimento espírita constituído.
Que este texto possa, de alguma forma colaborar com as pessoas e com
o próprio Espiritismo.
1.b) sobre a construção do trabalho
A partir de uma proposta de projeto
apresentada ao CPDoc – Centro de Pesquisa e Documentação
Espírita, me valendo das sugestões pelo grupo apresentadas,
construí a estrutura deste trabalho. E, muitas das idéias
aqui abordadas tiveram a origem nas discussões levadas a efeito
nesse grupo.
A Internet, como ferramenta de pesquisa e de ampliação
das possibilidades de raciocínio foi outro elemento que muito
me ajudou no processo de elaboração do tema. Em lugar
de me centrar na obra espírita, busquei ampliar o leque de
opções oferecidos pela rede. Se em muitos momentos o
volume de informações nos atordoa, por outro lado, podemos
achar ali, informações com as quais não contávamos,
tal como aconteceu no que diz respeito às possíveis
visões do tema em questão.
2) Delimitando
Qualquer discussão de cunho
filosófico como esta, impõe o estabelecimento de certas
limitantes. Dessa forma, nosso raciocínio não enveredará
por inúmeros caminhos outros, a ponto de perder o foco central
da proposta temática.
À guisa de melhor usar o tempo do leitor e na busca de fixação
do tema estarei eliminando a priori alguns tópicos, usando
como critério maior para sua supressão a carga de volatilidade,
ou fluidez do conceito, além do universo de possibilidades
que estariam necessariamente presentes com a sua inserção.
Entre estes temas destaco:
a) Liberdade
Efetivamente falar de Livre Arbítrio
sem falar de liberdade parece um contra-senso, e é. Tanto é
que esta aparecerá no bojo do texto, mas sempre como elemento
interveniente no processo decisório.
O que deixo de lado aqui, são
as inúmeras possíveis digressões que a idéia
engendra. Por exemplo, a estreita relação entre a liberdade
individual e seu impacto no contexto social. Como isto se relaciona.
Este item, por si só já é material suficiente
para um outro trabalho de cunho sociológico, daí a necessidade
de sua exclusão neste contexto.
Outro aspecto passível de discussão
diz respeito às modificações havidas no conceito
de liberdade e na própria liberdade individual na evolução
do processo civilizatório. Isto é: Como variou o conceito
de liberdade entre épocas e povos?
Tudo isto me leva a deixar de tratar
este item no presente momento.
b) determinismo genético
Sem dúvida este é outro
componente cabível ao tema. Mas por estar trabalhando a questão
centrando a atenção no aspecto da decisão em
si, nesse momento preciso da tomada de decisão. E por estar
pensando no aspecto moral que toda decisão envolve, não
pretendo trabalhar este aspecto. Pelo menos nesta versão do
trabalho.
3) Lógica como base
Neste ponto, gostaria de solicitar
ao leitor, se possível for, a ruptura com as idéias
que previamente tenha sobre o tema.
É muito difícil tal atitude, pois
requer uma nova postura, de certa forma largamos algo, havendo por
certo uma sensação de perda. Isto provoca certa insegurança.
Tal solicitação visa
encaminhar o leitor no sentido de uma linha de análise sobre
a questão, apesar de Ter claro que outras visões sobre
o tema tenham também sua lógica e coesão interna.
Quantas vezes não rejeitamos
idéias a priori, sem nos darmos ao trabalho da análise.
Ou porque não gostamos do autor, do seu grupo intelectual,
e outros tantos motivos que a razão não pode explicar.
Entre tantas outras coisas, Kardec
nos deixou o bom senso e o primado da lógica na análise
dos fatos e situações. Assim, quanto mais desprovida
de paixão for nossa análise, melhor será nosso
mergulho nesse tema. Mas afinal ...
Que é a lógica?
Segundo o Dicionário Oxford
lógica é a ciência do raciocínio, da comprovação,
do pensamento e da inferência. Ela te ajuda a decompor os teus
objetos de análise para com isso descartar argumentos ou tópicos
inválidos.
Por outro lado lógica não
é uma lei absoluta que governa todo o Universo.
No passado se acreditava que se algo
fosse logicamente impossível. Era impossível e ponto
final. A geometria Euclidiana reinava absoluta. E ela é consistente
logicamente, porém não é universal, há
momentos ou lugares onde ela não é válida. Tais
como quando trabalhamos com pequenas dimensões ( átomos,
moléculas ); com imensas dimensões astronômicas;
com corpos em altas velocidades ( por exemplo a velocidade da luz,
300.000 km/s [1]); ou ainda em campos
gravitacionais de grande concentração de massa (por
exemplo os buracos negros do universo, ou ainda as estrelas densas).
Dessa forma busquemos deixar nosso
raciocínio mais maleável, embora estribado no bom senso,
desvinculando-o de qualquer análise passional.
4) Elementos históricos
Desde os mais remotos tempos o homem
se preocupou com o seu destino, porém é no fim da Idade
Média, com o surgimento do Iluminismo, que tal preocupação
se estrutura como um movimento de amplas proporções.
Abarcando diversos países e em cada um deles recebendo sua
denominação característica. Dessa forma na Inglaterra
o movimento teve o nome de Enlightenement; na França, Ilustration
e na Alemanha denominou-se: Aufklärung.
Convém lembrar que em 1728 surge a primeira enciclopédia
a “Universal Dictionary of Arts and Science”, editada
por Efrain Chambers. Na França sob a coordenação
de Diderot e D’Alembert surge a “Encyclopédie ou
Dictionnaire Raisonné des Arts, des Sciences et des Metiers”,
contando com 17 volumes e 130 colaboradores.
Este movimento deslocou o eixo das preocupações humanas
antes focadas em Deus, sob o domínio do clero, para o próprio
homem; tendo este em si todas as possibilidades de discernimento e
autodeterminação através da razão. O fragmento
de texto demonstra o clima daquele momento histórico:
Ao conquistar a Prússia, o Iluminismo assumiu o nome de Aufklärung.
Sob o reinado de Frederico II, a Prússia de fato se abriu ao
espírito novo, a ponto de saudar Voltaire como um herói.
A "vitória" não estava assegurada, o povo
não estava "esclarecido", mas o processo estava em
andamento. E encontrou em Kant seu arauto. "O que é o
Iluminismo, afinal?", escreveu um dia, provocadoramente, um pastor
hostil. Kant retrucou prontamente num opúsculo: o Iluminismo,
afirmou ele, é em essência o fim do período em
que o homem não tinha coragem de se servir do seu entendimento.
Até agora o homem era menor, já que recebia instruções
de um outro e as aplicava. O cuidado com seu espírito, sua
alma e seu corpo não era uma incumbência dele. De certa
maneira, ele se beneficiava com isso, já que ser responsável
por si implica uma grande parcela de riscos; mas que proveito tiravam
seus tutores! Dirigiam-no a seu gosto, como se dirigem as bestas de
carga, e podiam usufruir impunemente dos frutos do seu trabalho...
[2]
Na ciência, o surgimento das idéias
de Newton haviam trazido à luz o conceito de um mundo natural
determinístico. O homem já havia se assenhoreado de
seu destino através da primazia da razão, porém
suas concepções ainda eram bastante rígidas.
Por volta de 1920/1930 através de experimentos
com átomos e partículas ainda menores, os cientistas
perceberam que a velocidade e posição relativa eram
propriedades das partículas que não poderiam ser medidas
separadamente. Além, disso perceberam que a posição
da partícula poderia ser definida com certa exatidão,
no entanto sua velocidade só seria mensurada dentro de certos
limites, através do estabelecimento de intervalos.
Uma vez descoberto o movimento aleatório das
partículas não mais cabia a visão mecanicista
da natureza. Uma mudança sensível nas rígidas
concepções vigentes.
Assim caminhou o pensamento humano, a partiu inicialmente
de concepções rígidas e pela própria força
da reelaboração das idéias, foi fazendo sua caminhada
no sentido de uma compreensão maior e mais clara do universo
que o cerca.
5) Legado do equívoco
E no Movimento Espírita ?
Somos herdeiros do passado. Recebemos uma série
de idéias e concepções que são material
rico para todo e qualquer contraditor das idéias espíritas.
Vejamos um trecho do texto “A antropologia Kardecista no Brasil”
de Ari Antonio da Silva apresentado no CPDoc para análise no
ano de 1998. O texto em questão, por razões do autor:
desconhecimento ou má fé, atribui o adjetivo kardecista
a todos os distúrbios de compreensão encontrados no
Brasil. Coloca tudo numa vala comum, sem critério qualquer
de busca de uma maior diferenciação e compreensão.
De qualquer forma, nos vale como alerta, pois toca em certos conceitos
largamente usados pelo Movimento Espírita tradicional religioso.
"12 - O Determinismo Antropológico
Uma característica da antropologia Kardecista
é o determinismo que se manifesta na erupção
da alma religiosa, que está presa a formas mágicas
de ver o mundo e de atuar sobre ele. Percebe-se que o homem
não é dono de si mesmo, mas continua sendo vítima
de forças ocultas (Kardec, 1992a, p.25, § 10). Este
homem não vê outra saída a não ser colaborar
com estas forças ocultas, acabando assim, por se aniquilar.
O homem Kardecista prostra-se ante tudo isso e se torna passivo,
sem personalidade própria e procura harmonizar-se com estas
forças ocultas, tentando amenizar os efeitos de possíveis
influências maléficas das mesmas. As formas de determinismo
são a reencarnação, que restringe o acesso
do homem a sua própria autonomia frente à natureza
e à própria história. Outra forma de determinismo
é o fatalismo e a feitiçaria. Dentro da antropologia
Kardecista, aparecem correntes que influenciaram profundamente na
postura prática do homem Kardecista. São as seguintes
correntes:
a) a influência das leis do karma;
b) a influência do cristianismo, que incorpora uma praticidade
caritativa, mas de caráter assistencialista, e não
na linha da promoção do homem;
c) a concepção de um homem científico e racional,
inspirado em todo o modismo do século 19;
d) o positivismo cotidiano, que se caracterizou pela romantização
da ciência.
12 - A questão da liberdade dentro do Espiritismo é
um desafio à filosofia e à sociedade. A partir da
visão de homem dentro da doutrina Kardecista, é fácil
concluir se há ou não a liberdade para o homem. O
homem Kardecista está sempre à mercê dos espíritos.
O corpo no espiritismo é um mero instrumento do espírito,
não existe o eu-sujeito-consciente. Desaparece a personalidade
humana e, por conseqüência, a liberdade individual. O
que se manifesta é o determinismo antropológico. O
homem Kardecista está, portanto, amarrado, e não consegue
ser um agente transformador de seu próprio mundo.
13 - A partir da questão antropológica
Kardecista que aniquila o homem como ser pensante, livre e autoconsciente,
aparece o determinismo antropológico com as suas variantes.
Uma das variantes é a reencarnação, que é
chamada de "O dogma da reencarnação". Ora
, esta restringe o acesso do homem à sua própria autonomia
frente a natureza e à própria história. Um
dado interessante é que a reencarnação é
a alavanca para qualquer resposta que não tenha explicação
racional. Uma segunda variante é a visão fatalista
da história, que não permite reação
alguma, mas conduz a uma passividade enervante, deixando-se guiar
por forças ocultas e cegas que, em linguagem popular, são
chamadas de azar, sorte ou destino."
É importante que fique claro ser o texto acima de um padre,
cujo único objetivo é denegrir o Espiritismo, fazendo
uma mistura intencional com o objetivo de confundir seu público.
Mistura conceitos espíritas com não espíritas
com tal meta.
Vale a pena notar desse trecho, que muitas das idéias por ele
colocadas estão corretas se olharmos a forma de ver e de agir
de grande parte do Movimento Espírita constituído.
Nesse sentido, cresce a importância da questão do antagonismo
determinismo/livre arbítrio. Sendo este, um entre tantos itens
passíveis de uma análise mais acurada, se colocando
no rol das idéias a serem revisitadas em nosso momento histórico.
6) Apresentando possíveis visões
sobre o tema
Segundo as concepções vigentes duas
são as principais formas de nos posicionarmos com relação
ao tema: ou somos incompatibilistas ou compatibilistas.
Incompatibilismo
Minhas idéias se fundam na
concepção chamada incompatibilismo, segundo o qual não
podemos Ter determinismo e livre arbítrio com responsabilidade
moral.
Temos dois tipos de incompatibilismo:
a) determinismo radical
propugna ser o determinismo verdadeiro,
não tendo o homem vontade própria e nem responsabilidade
moral sobre seus atos.
b) Libertarianismo
Temos o livre arbítrio ( vontade
livre ), dessa forma o determinismo não existe.
Compatibilismo ( Determinismo suave )
Mesmo que sejamos determinados, continuamos
tendo livre arbítrio e responsabilidade moral. A questão
que essa corrente coloca é: afinal que é Ter livre arbítrio
?
O libertarianismo diz “você
tem livre arbítrio e é responsável por suas ações,
poderá sempre se perguntar se poderia Ter agido de outra maneira”.
O compatibilista diz “a responsabilidade
moral nada tem a ver com a possibilidade de agir de outra forma”.
Acha tolice vincular a responsabilidade moral à possibilidade
em agir de outras maneiras. Acreditam ainda que liberdade de ação
e responsabilidade moral são perfeitamente compatíveis
com o determinismo.
7) Vontade
Gostaria agora que focássemos
a atenção no item vontade para elucidação
da questão do Livre Arbítrio.
Se fizermos uma pesquisa na Internet
sobre o item determinismo, ao seu lado quase sempre aparecerá
o item “free will”, que poderíamos traduzir por
livre vontade, a expressão da língua inglesa para livre
arbítrio.
A língua portuguesa nesta expressão não define
tão claramente a idéia. A língua inglesa, em
sua praticidade e concisão, em muitos momentos, nos presta
grande serviço não só à condução
do raciocínio, como na garantia da clareza de conceito.
Algumas questões podem nos servir ao raciocínio:
- que queremos dizer quando afirmamos que temos livre arbítrio
(free will = livre vontade)?
- que é a vontade ?
- como seria o mundo se tivéssemos uma vontade não
livre?
- as ações humanas têm uma causa? o que as causa?
O determinismo advoga que toda ação humana tem uma causa.
E mais ainda, que a causa determina precisamente seu conteúdo.
Se o determinismo fosse verdadeiro qual a nossa responsabilidade
por nossas ações?
Nossa vida se tornaria sem sentido, pois por mais
esforços que fizéssemos nada poderia mudar nossa trajetória
na vida, esta já estaria dada. A meu ver um absurdo.
Não existem ações não
voluntárias. Todas as ações humanas tem por base
o arcabouço moral do espírito, sempre vinculadas à
sua responsabilidade.
Em que casos a vontade do homem estaria
restrita?
1) caso da hipnose
poderia se negar a ser hipnotizado
sua submissão à vontade do hipnotizador é limitada.
No momento em que o hipnotizador propõe algo que fira sua moral,
este se nega a fazer. Mesmo nesta situação sua vontade
está presente.
2) caso de compulsão psicológica ( cleptomania, álcool,
...)
a vontade pode estar obstruída por questões diversas,
mas sempre existe a decisão individual de roubar ou não,
beber ou não.
há ainda a possibilidade da decisão na procura de um
tratamento ou não, seguir as necessárias prescrições
ou não, ...
Segundo Gandhi “aquele que pela vontade, dominar os sentidos
é o primeiro e mais importante dos homens.” [3] Creio
que muito além dos sentidos o homem deve ser capaz de dominar
seu destino, definindo metas e estabelecendo objetivos.
É exatamente através da vontade que o homem se torna
senhor de seu destino.
Em geral vivemos sem nos dar conta de nossa vontade. Vivemos como
se não a tivéssemos, ou melhor dizendo, como se dessa
vontade não necessitássemos. Um dia percebemos que dela
não nos dissociamos, que tudo o que fazemos e pensamos nada
mais é que a representação dessa vontade.
Nesse momento nos damos conta que além de sermos possuidores
da vontade, somos conscientes dessa mesma vontade. Nos percebemos
capazes de orientar nossos atos, e mesmo nossos pensamentos na direção
que melhor nos interesse.
É um momento de descoberta, de insight.
Todos aqueles que já tiveram um insight, podem afirmar com
segurança que a visão sobre o assunto ou situação
desse insight jamais voltará a ser como era antes. Algo se
abriu em nós, se desanuviou, de forma que passamos a ver mais
claro aspectos dantes obscuros.
Somos tomados por uma sensação de inteireza, de autoconfiança
ou segurança. Não mais somos joguetes na mão
de um destino cego, ao revés disto, definimos nosso destino.
À medida em que aprofundamos nossa confiança na própria
vontade percebemos o quanto ela é libertadora, nos estabelecendo
diretrizes e mesmo canalizando energias.
A vontade é sempre propulsora de realizações,
dinâmica, realizadora. Realiza, e arca com as responsabilidades
relativas a essas realizações. A ela se contrapondo
encontramos a inércia, o comodismo, a apatia, na verdade e
no fundo uma fuga da responsabilidade acarretada pela decisão
livre e soberana.
8) Livre Arbítrio é libertação
O espírito tem em si uma série de leis
que não pode sobrepujar. Envolvido na matéria, preso
a um organismo, sujeito a leis biológicas, fisiológicas
e psíquicas, vinculado a um meio social e a uma raça,
um povo, modelado pelo aspecto cultural e pela educação
da família, preso enfim a uma Lei Universal, não pode
agir sem levar em conta sua natureza perfectível e seu grau
de evolução relativa.
Naqueles que não chegaram a um grau de consciência superior
sua vontade é quase instintiva, baseando-se nas necessidades
de sobrevivência. Na medida porém que tomamos consciência
de nossa existência, e sua finalidade, nos convertemos em seres
mais reflexivos, inteligentes e racionais, conquistando passo a passo
nossa liberdade, que aumenta na medida em que progredimos.
Por esse motivo que o Espiritismo postula que “o livre arbítrio
é sempre proporcional ao grau de evolução do
espírito”. Quanto maior for nosso grau de evolução
maior será nossa liberdade, por conseguinte maior será
nossa responsabilidade diante de cada ato.
Nesse sentido a compreensão da questão do livre arbítrio
traz um salto de qualidade na nossa vida de relação.
A Idade Média dava ao homem uma única perspectiva de
existência, este era temente a Deus e joguete dos interesses
da Igreja e conseqüentemente do Estado daquela época.
O Renascimento desloca o eixo, centrando no indivíduo a questão
do conhecimento e das próprias decisões. Falta-lhe no
entanto uma perspectiva a longo prazo.
O Espiritismo chega ao mundo como esta visão de longo prazo,
além disso rompe com as limitantes das idéias Judaico-cristãs,
caindo por terra idéias como o pecado e uma série de
coisas que apenas trouxeram a infelicidade dos homens.
O livre arbítrio é um desses conceitos libertadores
que o Espiritismo é portador.
A partir dele o homem espírita é capaz de tomar decisões,
e as toma de forma mais conciente que o homem medieval, que o homem
do renascimento, ou qualquer outro homem de seu próprio tempo.
Ciente de sua liberdade plena, faz dessa liberdade linha condutora
de sua prática existencial; usando-a no sentido do crescimento
individual e colocando-a a serviço do aprimoramento das instituições
sociais.
______
[1] Para termos uma noção do que
significa isto, equivale a sete voltas ao Equador terrestre em um
segundo.
[2] Soutet, Marc “Um café para Sócrates”
pags 123-124
[3] “A essência da vontade”, Martin
Claret, 1999, SP, p. 9
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