Espiritualidade e Sociedade





Maria da Conceição Quintella Fernandes


>   O entendimento da dor

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Maria da Conceição Quintella Fernandes
>  O entendimento da dor

 

 

No capítulo V de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec dedica-se ao estudo de uma das bem-aventuranças trazidas pelo Mestre Jesus no Sermão do Monte, registrada pelos evangelistas Mateus e Lucas. No item 3, Justiça das Aflições, o Codificador conclui que somente a certeza na vida futura permite aos homens a realização das compensações prometidas por Jesus aos aflitos da Terra; porém, isso não parece ser suficiente para explicar as aparentes injustiças sofridas por esses. O que, então, poderia justificar a miséria de muitos ao lado da riqueza de alguns; as doenças incuráveis acometerem crianças inocentes; os flagelos destruidores sempre massacrando alguns povos; e tantas outras tribulações que já conhecemos?

Se, como espíritas cristãos, admitimos a perfeição de Deus e concordamos que Ele seja bom e justo, logo, toda a Sua criação também há de ser justa. Com isso, concluímos que as dores pelas quais passamos ainda são necessárias ao nosso processo evolutivo. Léon Denis, no livro Depois da Morte, cap. L, declara que o sofrimento é uma lei do nosso mundo e que é no cadinho da dor que se formam as grandes almas. É interessante observarmos o significado da palavra cadinho: segundo o Dicionário Online de Português, trata-se de vaso de argila refratária, de ferro, de prata, ou de outra matéria, que serve para nele se fundirem metais ou outros minerais. Por essa metáfora, Denis amplia o nosso entendimento acerca da função da dor em nossa vida. Assim como o recipiente que suporta altas temperaturas para que sejam fundidos os metais, nós também utilizamos o cadinho da dor para transformarmos a carga de sofrimento em sentimentos nobres, depurativos, resgatando-nos dos erros pretéritos que tanto nos aprisionam.

A história do Cristianismo primitivo e do Espiritismo está repleta de exemplos nos quais grandes almas se redimiram pela dor: os apóstolos, que, após o martírio de Jesus, puderam realmente compreender a Sua grandiosa missão na Terra, e, por seus esforços, com as dificuldades de homens comuns, conseguiram levar adiante a divulgação da Boa Nova; Paulo de Tarso, em seu processo de transformação, agiganta-se em sua missão de levar a palavra do Cristo aos gentios, mas sempre à custa de muita luta e sacrifício; o benfeitor Emmanuel, em sua trajetória não menos sofrida, depois de ter desperdiçado a oportunidade de servir ao Mestre, teve sua chance de resgatar os erros ao longo das encarnações, uma delas como o escravo Nestório, levado ao sacrifício por amor ao Cristo; o nosso querido Chico Xavier teve, ao longo de sua vida, já desde a infância, muitos sofrimentos que o prepararam para cumprimento de sua missão na tarefa mediúnica.



Os exemplos anteriormente citados são de grandes espíritos em suas missões, mas não invalidam a importância da utilização da dor no crescimento espiritual. Ao trazermos essas vivências para as nossas realidades de espíritos imperfeitos, seremos capazes de confiar mais na capacidade de também superarmos os nossos limites e transcendermos, por meio das dificuldades impostas.

É fundamental identificarmos os diferentes tipos de aflições, como trouxe Allan Kardec no Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo V. Nas causas atuais das aflições, reconheceremos nossa responsabilidade em grande parte das dores, como consequência do orgulho, da imprevidência e da ambição, levando-nos muitas vezes às enfermidades que não estavam em nosso planejamento reencarnatório. Quanto às causas anteriores das aflições, não encontrando na presente encarnação uma justificativa, vamos encontrá-la certamente em existências passadas, já que todo efeito tem uma causa. Deus não seria justo se assim não fosse. Pela condição evolutiva da Terra, ainda de Provas e Expiações, necessitamos resgatar as faltas do passado e trazemos para o presente essas situações aflitivas e conflituosas, que se apresentam de diversas maneiras, como uma enfermidade desde a infância, orfandade, relacionamentos complicados entre familiares, grandes perdas financeiras etc. Mas como Deus é infinitamente bom, justo e misericordioso, nunca estaremos desamparados. Temos nossos anjos guardiães, espíritos familiares, protetores e também espíritos amigos, que reencarnam conosco para nos auxiliar nas dificuldades.

Sejam quais forem as causas das nossas aflições, a Doutrina Espírita sempre terá como nos consolar, sustentar e fortalecer. Assim como a Boa Nova de Jesus não veio destruir a Lei de Moisés, o Espiritismo também não veio destruir os ensinamentos do Cristo, mas, sim, completá-los, desenvolvê-los. Com a certeza da imortalidade da alma, das vidas sucessivas e dos diversos mundos habitados na casa do Pai, temos condições de compreender por que sofremos e tentar conviver com as dores da melhor forma possível. Certamente, não é fácil. Em muitos momentos, fraquejaremos, mas, como nos disse o apóstolo Paulo em sua Epístola aos Hebreus: “Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados.” Levemos conosco essa exortação do apóstolo dos gentios para nos servir de exemplo. Ainda no capítulo V de O Evangelho segundo o Espiritismo, item 10, a instrução do codificador é bem clara:

 

As provações da vida, quando bem suportadas, fazem progredir; como expiações elas apagam as faltas e purificam; são o remédio que limpa a ferida e cura o doente; quanto mais grave é o mal, mais enérgico deve ser o remédio.


Permita que o Evangelho de Jesus, por meio da Doutrina Espírita e dos ensinamentos dos benfeitores que tanto nos auxiliam, possa derramar sobre suas dores o bálsamo bendito e curador do amor e da esperança! Muita paz!

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Editora Celd, 2010.
DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: Editora Celd, 2011.
Dicionário Online de Português. Disponível em www.dicio.com.br/cadinho, acesso em 16 dez 2019.

 

 

Fonte: Revista CELD de Estudos Espíritas 
> https://celd.xyz/wp-content/uploads/02-Revista_CELD_Fevereiro-2020.pdf

 

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