No capítulo
V de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec dedica-se
ao estudo de uma das bem-aventuranças trazidas pelo Mestre
Jesus no Sermão do Monte, registrada pelos evangelistas Mateus
e Lucas. No item 3, Justiça das Aflições,
o Codificador conclui que somente a certeza na vida futura permite
aos homens a realização das compensações
prometidas por Jesus aos aflitos da Terra; porém, isso não
parece ser suficiente para explicar as aparentes injustiças
sofridas por esses. O que, então, poderia justificar a miséria
de muitos ao lado da riqueza de alguns; as doenças incuráveis
acometerem crianças inocentes; os flagelos destruidores sempre
massacrando alguns povos; e tantas outras tribulações
que já conhecemos?
Se, como espíritas cristãos, admitimos a perfeição
de Deus e concordamos que Ele seja bom e justo, logo, toda a Sua criação
também há de ser justa. Com isso, concluímos
que as dores pelas quais passamos ainda são necessárias
ao nosso processo evolutivo. Léon Denis, no livro Depois
da Morte, cap. L, declara que o sofrimento é uma lei do
nosso mundo e que é no cadinho da dor que se formam as grandes
almas. É interessante observarmos o significado da palavra
cadinho: segundo o Dicionário Online de Português, trata-se
de vaso de argila refratária, de ferro, de prata, ou de outra
matéria, que serve para nele se fundirem metais ou outros minerais.
Por essa metáfora, Denis amplia o nosso entendimento acerca
da função da dor em nossa vida. Assim como o recipiente
que suporta altas temperaturas para que sejam fundidos os metais,
nós também utilizamos o cadinho da dor para transformarmos
a carga de sofrimento em sentimentos nobres, depurativos, resgatando-nos
dos erros pretéritos que tanto nos aprisionam.
A história do Cristianismo primitivo e do Espiritismo está
repleta de exemplos nos quais grandes almas se redimiram pela dor:
os apóstolos, que, após o martírio de Jesus,
puderam realmente compreender a Sua grandiosa missão na Terra,
e, por seus esforços, com as dificuldades de homens comuns,
conseguiram levar adiante a divulgação da Boa Nova;
Paulo de Tarso, em seu processo de transformação, agiganta-se
em sua missão de levar a palavra do Cristo aos gentios, mas
sempre à custa de muita luta e sacrifício; o benfeitor
Emmanuel, em sua trajetória não menos sofrida, depois
de ter desperdiçado a oportunidade de servir ao Mestre, teve
sua chance de resgatar os erros ao longo das encarnações,
uma delas como o escravo Nestório, levado ao sacrifício
por amor ao Cristo; o nosso querido Chico Xavier teve, ao longo de
sua vida, já desde a infância, muitos sofrimentos que
o prepararam para cumprimento de sua missão na tarefa mediúnica.

Os exemplos anteriormente citados são de grandes espíritos
em suas missões, mas não invalidam a importância
da utilização da dor no crescimento espiritual. Ao trazermos
essas vivências para as nossas realidades de espíritos
imperfeitos, seremos capazes de confiar mais na capacidade de também
superarmos os nossos limites e transcendermos, por meio das dificuldades
impostas.
É fundamental identificarmos os diferentes tipos de aflições,
como trouxe Allan Kardec no Evangelho segundo o Espiritismo,
capítulo V. Nas causas atuais das aflições, reconheceremos
nossa responsabilidade em grande parte das dores, como consequência
do orgulho, da imprevidência e da ambição, levando-nos
muitas vezes às enfermidades que não estavam em nosso
planejamento reencarnatório. Quanto às causas anteriores
das aflições, não encontrando na presente encarnação
uma justificativa, vamos encontrá-la certamente em existências
passadas, já que todo efeito tem uma causa. Deus não
seria justo se assim não fosse. Pela condição
evolutiva da Terra, ainda de Provas e Expiações, necessitamos
resgatar as faltas do passado e trazemos para o presente essas situações
aflitivas e conflituosas, que se apresentam de diversas maneiras,
como uma enfermidade desde a infância, orfandade, relacionamentos
complicados entre familiares, grandes perdas financeiras etc. Mas
como Deus é infinitamente bom, justo e misericordioso, nunca
estaremos desamparados. Temos nossos anjos guardiães, espíritos
familiares, protetores e também espíritos amigos, que
reencarnam conosco para nos auxiliar nas dificuldades.
Sejam quais forem as causas das nossas aflições, a Doutrina
Espírita sempre terá como nos consolar, sustentar e
fortalecer. Assim como a Boa Nova de Jesus não veio destruir
a Lei de Moisés, o Espiritismo também não veio
destruir os ensinamentos do Cristo, mas, sim, completá-los,
desenvolvê-los. Com a certeza da imortalidade da alma, das vidas
sucessivas e dos diversos mundos habitados na casa do Pai, temos condições
de compreender por que sofremos e tentar conviver com as dores da
melhor forma possível. Certamente, não é fácil.
Em muitos momentos, fraquejaremos, mas, como nos disse o apóstolo
Paulo em sua Epístola aos Hebreus: “Portanto, tornai
a levantar as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados.”
Levemos conosco essa exortação do apóstolo dos
gentios para nos servir de exemplo. Ainda no capítulo V de
O Evangelho segundo o Espiritismo, item 10, a instrução
do codificador é bem clara:
As provações da
vida, quando bem suportadas, fazem progredir; como expiações
elas apagam as faltas e purificam; são o remédio que
limpa a ferida e cura o doente; quanto mais grave é o mal,
mais enérgico deve ser o remédio.
Permita que o Evangelho de Jesus, por meio da Doutrina Espírita
e dos ensinamentos dos benfeitores que tanto nos auxiliam, possa derramar
sobre suas dores o bálsamo bendito e curador do amor e da esperança!
Muita paz!
Referências
Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
Rio de Janeiro: Editora Celd, 2010.
DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: Editora Celd,
2011.
Dicionário Online de Português. Disponível em
www.dicio.com.br/cadinho, acesso em 16 dez 2019.