Brasil Fernandes
Doutor e Pós-Doutorando
em Ciências da Religião pela PUC Minas, com Doutorado
Sanduíche no Religion Department da Boston University. Professor
colaborador do PPGCR – PUC Minas. Editor associado da Revista
Horizonte e da Revista Interações, é membro
do Grupo de Pesquisa REPLUDI (Religião, Pluralismo e Diálogo)
do PPGCR da PUC-Minas e do Núcleo de Estudos de História
do Espiritismo do CNPq (NUESHE), também é membro do
conselho fiscal da ABHR
Cerca
de dez anos após o falecimento do famoso médium mineiro
Chico Xavier, estivemos em contato com uma senhora que se encontrava
numa feira de livros espíritas. Católica declarada,
folheava alguns livros de Chico Xavier e nos perguntava sobre o que
poderia ler que fosse de sua autoria. Durante a conversa, ela nos
relatou o quanto admirava aquele homem, e apesar de deixar claro que
era católica, achava que ele era um “santo”, e
que em termos de sua crença “se pegava muito com ele
em suas orações”.
Com foco em pessoas como esta senhora, o Frei Boaventura Kloppenburg
(1960, p. 9), se dedicou a escrever diversas obras para combater o
Espiritismo. Embora tenha se dedicado a escrever para os “católicos
tentados pela heresia do Espiritismo” ele não atacou
diretamente Chico Xavier dizendo:
[...] antes de tentarmos “explicar”
o fenômeno Chico Xavier [...] convém primeiro “verificar”
sua verdade histórica. Porque nem tudo que se propaga acerca
do famoso médium mineiro corresponde à realidade.
Com isso não queremos, de modo algum levantar uma acusação
contra o próprio médium. Certamente não é
êle (sic) a causa de tantos boatos e exageros. Fazemos mesmo
questão de declarar que acreditamos na sinceridade, na boa
fé e nas
retas intenções de Chico Xavier (Kloppenburg, 1960,
p. 240).
Objeto de estudos acadêmicos,
como o que desenvolvemos em nossa tese de doutorado “Na intimidade
do coração: a mística na vida e obra de Chico
Xavier” ou como os estudos realizados por antropólogos
como Sandra Jacqueline Stoll (2003) ou Bernardo Lewgoy (2000), ou
ainda como de biografias do jornalista que se declara ateu, Marcel
Souto Maior (2003), e de um sem-número de biografias e obras
a respeito do homem cujo termo “médium” foi transformado
de substantivo a adjetivo, Chico Xavier tem uma biografia recheada
de muitas polêmicas e curiosidades.
A quantidade de informações a respeito do médium
mineiro é muito extensa, e não é nosso objetivo
aqui fazer uma nova biografia, e sim trazer os pontos principais de
sua trajetória para aqueles que não a conheçam.
PALAVRAS MINHAS: CHICO XAVIER
POR ELE MESMO
Em sua autobiografia em Parnaso de
além-túmulo que tem o significativo título “Palavras
Minhas”, o médium mineiro fala de si da seguinte
forma:
Nasci em Pedro Leopoldo, Minas,
em 1910. E até aqui, julgo que os meus atos perante a sociedade
da minha terra são expressões do pensamento de uma
alma sincera e leal, que acima de tudo ama a verdade; e creio mesmo
que todos os que me conhecem podem dar testemunho da minha vida
repleta de árduas di?culdades e mesmo de sofrimentos. Filho
de um lar muito pobre, órfão de mãe aos cinco
anos, tenho experimentado toda a classe de aborrecimentos na vida
e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome, porque
a dor há muito já me convenceu da inutilidade das
bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo
(Xavier, 2002, p. 31).
Francisco Cândido Xavier nasceu
em 2 de abril de 1910, na cidade de Pedro Leopoldo, a 35 quilômetros
de Belo Horizonte. Conforme consta em sua certidão de nascimento,
teve seu nome modificado para Francisco de Paula Cândido por
conta de perseguições religiosas (2)
e depois teve seu nome restabelecido em 26 de maio de 1966 através
de um processo na justiça. Ele era filho de João Cândido
Xavier, vendedor de bilhetes de loteria, e de Maria de São
João de Deus lavadeira, conhecida simplesmente por Maria João
de Deus. Conforme ele mesmo declara acima, em sua infância sofreu
“toda classe de aborrecimentos”, forma simplista de descrever
atos que, se corresponderem de fato à realidade, nos dias de
hoje, segundo as leis vigentes, facilmente teriam levado sua madrinha
Rita de Cássia e seu pai João Cândido a dar explicações
ao conselho tutelar de sua cidade.
- 2 - O seu nome foi modificado em
função de perseguições religiosas por
parte de autoridades que queriam sua demissão da Inspetoria
Regional de Fomento da Produção Animal de Pedro Leopoldo
do Ministério da Agricultura em função das repercussões
de suas obras mediúnicas. Era preciso que o sobrenome “Xavier”
desaparecesse da folha de pagamento, e esta foi a forma encontrada
por seu chefe para driblar as perseguições (Harley,
2018, p. 63)
Com cinco anos de idade ficou órfão
de mãe, ela faleceu em 29 de setembro de 1915 aos 34 anos (Harley,
2018, p. 54), e seu pai se viu forçado a “distribuir”
seus nove filhos entre parentes e amigos, já que não
teria condições de cuidar deles e ainda viajar nas cidades
das cercanias para o seu ganha pão. Coube à madrinha,
que parecia acreditar que o Chico tinha “o diabo no corpo”
(Souto Maior, 2003, p. 21) cuidar do
menino. Por dois longos anos teria vivido, segundo descrições
do próprio médium, sob surras de vara de marmelo, garfadas
na barriga e humilhações psicológicas, até
que seu pai se casasse novamente com Cidália Batista, “um
anjo bom” conforme sua mãe em Espírito lhe teria
prometido. Esses eventos são largamente explorados por seus
biógrafos, segundo ele mesmo relata, seu único alento
se dava com os encontros espirituais que ele afirmava ter tido com
sua mãe no quintal da casa de sua madrinha, que o orientava
e consolava no campo da resignação cristã (Souto
Maior, 2003, p. 24). Orientação essa que ela
sempre deu aos seus filhos, inclusive através do exemplo católico,
quando em vida ela se confessava aos sábados e comungava aos
domingos. Mas as dores do menino não teriam sido somente as
dores físicas, os padecimentos psicológicos também
teriam sido muitos, impostos por seu pai e pela sociedade em geral
que não aceitavam os fenômenos que giravam em torno do
“menino médium”.
Começarei
por dizer-lhe que sempre tive o mais pronunciado pendor
para a literatura; constantemente, a melhor boa
vontade animou-me para o estudo. Mas, estudar como? Matriculando-me,
quando contava oito anos, num grupo escolar, pude chegar até
ao fim do curso primário, estudando apenas uma pequena parte
do dia e trabalhando numa fábrica de tecidos, das quinze
horas às duas da manhã; cheguei quase a adoecer com
um regime tão rigoroso; [...] Nunca pude aprender senão
alguns rudimentos de aritmética, história e vernáculo,
como o são as lições das escolas primárias.
É verdade que, em casa, sempre estudei o que pude,
mas meu pai era completamente avesso à minha vocação
para as letras e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros
e revistas queimados (3)
(Xavier, 2002, p. 31, grifos nossos).
- 3 - Segundo Souto Maior (2003, p. 27) esta
queima de livros foi aconselhada pelo Padre Sebastião Scarzello
que recomendou afastar de Chico os livros e as revistas.
A descrição de Chico
Xavier, em suas próprias palavras, a respeito de sua formação
tem significado particular, pois diz respeito a um dos maiores questionamentos
que foram feitos a sua mediunidade, visto que, segundo muitos, a autoria
dos textos, particularmente de Parnaso de além-túmulo,
sua primeira obra publicada e uma das mais polêmicas, teria
sido dele mesmo e não dos poetas ilustres que pretensamente
os assinavam. As frases em que ele dizia ter “[...] o mais pronunciado
pendor para a literatura” e a “a melhor boa vontade [...]
para o estudo” e “em casa, sempre estudei o que pude”
foram algumas das “evidências” usadas por Kloppenburg
(1960, p. 241) para justificar o fenômeno
literário que Chico tinha se tornado, com aproximadamente 60
livros, até aquela época, segundo o autor (p. 239).
Quando morreu, deixou 412 (4) livros,
cuja renda integral dos cerca de 20 milhões de exemplares vendidos
foi doada em cartório (Souto Maior, 2004,
p. 14) para instituições espíritas e obras
de assistência social. Segundo seus biógrafos, viveu
nesse período exclusivamente de sua renda pessoal, oriunda
de sua vida profissional de exímio datilógrafo. A necessidade
de dizer logo no início de sua autobiografia que teve uma educação
frágil reflete, por antecipação, uma autodefesa
das acusações que seriam feitas por muitos de ser, na
verdade, um poeta letrado e culto que copiava o estilo dos poetas
que supostamente teriam assinado as poesias em Parnaso de além-túmulo.
Essa defesa foi algo que o acompanhou por toda sua vida.
Jamais tive autores prediletos;
aprazem-me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos
dos outros, por diferençar muito pouco essas questões.
Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido,
para mim, neste ponto. Os meus familiares não estimulavam,
como verdadeiramente não podem, os meus desejos de estudar,
sempre a braços, como eu, com uma vida de múltiplos
trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião
de conviver com os intelectuais da minha terra. O meu ambiente,
pois, foi sempre alheio à literatura; ambiente de pobreza,
de desconforto, de penosos deveres, sobrecarregado de trabalhos
para angariar o pão cotidiano, onde se não pode pensar
em letras. Assim têm-se passado os dias sem que eu tenha podido,
até hoje, realizar as minhas esperanças (Xavier, 2002,
p. 32).
- 4 - Quanto à quantidade
de livros que deixou, há diversos números em diversas
fontes, particularmente porque depois de sua morte muitos achados
do médium foram reorganizados e publicados na esteira de seu
sucesso literário. Harley (2016, p. 117) diz que a Casa de
Chico Xavier de Pedro Leopoldo catalogou 497 obras. Stoll (2003, p.
79) afirma que foram 378 obras. Um dos exemplos que justificam tal
variação de números é a obra da Editora
Edicel intitulada “Chico Xavier no Pinga Fogo” que transcreve
a entrevista feita à extinta TV Tupi de São Paulo em
1971. A obra foi organizada pelo Departamento Cultural da Editora
Edicel, mas a autoria é catalogada como sendo de Chico Xavier
(1984)
Outro ponto de interesse relevante
em nossa tese a respeito da vida de Chico Xavier é sua formação
religiosa católica até os 17 anos. Ele declara que:
[...] minha família era
católica e eu não podia escapar aos sentimentos dos
meus. Fui, pois, criado com as teorias da igreja, freqüentando-a
mesmo com amor, desde os tempos de criança; quando ia às
aulas de catecismo era para mim um prazer. Até 1927, todos
nós não admitíamos outras verdades além
das proclamadas pelo Catolicismo [...] (Xavier, 2002, p. 32).
Anos depois no Pinga Fogo, Chico declarou
que tinha grande respeito pela Igreja Católica, “[...]
em cujo seio formei a minha fé e que devo declarar de público,
que nunca perdi e não quero perder.” (Xavier, 1984, p.
51). Essa formação religiosa, feita na Igreja Católica,
é relevante, e por diversas vezes é citada pelo médium
que sempre demonstrou grande respeito pela religião. Quando
resolveu seguir o caminho do Espiritismo, procurou o seu confessor,
o Padre Sebastião Scarzello, que o assistia em todas suas angústias
e que em determinada época inclusive impediu que o menino fosse
internado como louco por conta de suas “alucinações
com espíritos”. Tempos depois, o jovem dito “endemoniado”,
após a cura espírita que teria sido feita a sua irmã
Maria Xavier, procurou seu confessor para se despedir:
[...] se ajoelhou no confessionário
e contou tudo: o tratamento da irmã, sua melhora, a sessão
de passes, as ideias de Kardec, sua intenção de se
dedicar à mediunidade. Scarzello disse que não conhecia
o Espiritismo e, por isso, não podia julgar. Sabia apenas
que a Igreja rejeitava o Espiritismo e que Chico era jovem demais
para assumir compromissos e tomar decisões. O rapaz estava
irredutível e o padre ficou em silêncio. Chico não
queria deixar o ex-confessor contrariado e pediu a ele sua mão.
O padre estendeu a mão direita. Depois de beijá-la,
o ex-católico fez mais um pedido. Queria ser abençoado.
Scarzello atendeu. “Seja feliz, meu filho. Rogarei à
Mãe Santíssima para que te abençoe e proteja.”
Chico levantou-se e saiu. Quando
chegou à porta, olhou para trás. O padre o acompanhava
com os olhos e sorria. Nunca mais se viram (Souto Maior, 2003, p.
31).
Na entrevista com Marival Veloso de
Matos (5), escritor, advogado e duas
vezes presidente da União Espírita Mineira, que gozou
de amizade íntima com Chico Xavier desde sua juventude, nos
confirma que, de fato, a influência do catolicismo em sua vida
foi muito grande, mas que, apesar de seu respeito à Igreja
Católica, segundo Marival, Chico Xavier não misturava
as coisas. O ex-presidente da União Espírita Mineira
conta que, em determinada época, os espíritas de um
centro de Monte Carmelo ficaram empolgados com o discurso de um determinado
padre, que teria falas compatíveis com sua religião
a ponto de chamarem ele de “Padre Espírita”. Consultaram
então a Chico Xavier sobre a possibilidade de convidar o padre
para falar na tribuna espírita. A resposta do médium
mineiro, segundo Marival, foi categórica, que isso não
deveria acontecer de forma alguma, pois poderia credenciar, segundo
ele, o padre a falar o que quisesse sobre o Espiritismo uma vez autorizado
a tal, e que isso seria temerário.
- 5 - Entrevista concedida em 25
de janeiro de 2020 – TCLE sob número de registro CEP:
CAAE: (16654819.7.0000.5137)
A partir da cura espiritual de sua
irmã Maria Xavier, auxiliado por Dona Carmen Pena Perácio
e seu marido Sr. José Hermínio Perácio, o jovem
Chico Xavier passou a se dedicar ao Espiritismo na formação
do primeiro (6) núcleo espiritista
em Pedro Leopoldo em conjunto com seu irmão José Xavier,
o Centro Espírita Luiz Gonzaga (Souto Maior, 2003, p. 31).
Seu irmão foi grande parceiro e o ajudou enormemente por onze
anos quando morreu em 1939. Quanto aos seus primeiros passos no Espiritismo
e à psicografia no Centro Espírita Luiz Gonzaga, Chico
relata:
Resolvemos, então, com ingentes
sacrifícios, reunir um núcleo de crentes para estudo
e difusão da doutrina, e foi nessas reuniões que me
desenvolvi como médium escrevente, semimecânico, sentindo-me
muito feliz por se me apresentar essa oportunidade de progredir,
datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas,
para onde comecei a escrever sob a inspiração dos
bondosos mentores espirituais que nos assistiam. Daí a pouco,
a nossa alegria aumentava, pois o nosso confrade José Hermínio
Perácio, em companhia de sua esposa, deliberou fixar residência
junto a nós e as nossas reuniões tiveram resultados
melhores, controladas pela sua senhora, alma nobilíssima,
ornada das mais superiores qualidades morais e que, entre as suas
mediunidades, conta com mais desenvolvimento a clariaudiência.
Nossas reuniões contavam, assim, grande número de
assistentes, porém, a moral profunda que era ensinada, baseada
nas páginas esplendorosas do Evangelho de Jesus, parece que
pesava muito, como acontece na opinião de grande maioria
de almas da nossa época, quase sempre inclinadas para as
futilidades mundanas, e, decorridos dois anos, os assistentes de
nossas sessões de estudos escassearam, chegando ao número
de quatro ou cinco pessoas, o que perdura até hoje (Xavier,
2002, p. 34).
- 6 - Apesar de Souto Maior dizer
em sua biografia que o Centro Espírita Luiz Gonzaga foi o
primeiro centro espírita da cidade, Harley (2018, p. 136)
afirma que já existira na cidade um centro espírita
de nome Centro Espírita Amor e Luz, e que, à época
da fundação do Luiz Gonzaga, havia encerrado suas
atividades.
CHICO XAVIER E SUA VIDA PÚBLICA
No ano de 1931, Chico Xavier alega
ter surgido uma figura marcante em sua vida, o espírito Emmanuel,
que seria o seu guia, o “famoso” mentor espiritual que
iria dar direção a toda sua “missão”
como médium, segundo os espíritas. A figura de Emmanuel
sempre é mencionada como presente na vida de Chico Xavier,
ele sempre o citava dizendo “Emmanuel diz que ..., Emmanuel
aprovou que ..., etc.”. Seria a partir desse momento, sob a
orientação de Emmanuel, que seu trabalho como psicógrafo
se iniciaria de forma mais significativa, culminando com o surgimento
das suas obras ditas mediúnicas. A primeira delas, uma das
mais polêmicas foi Parnaso de além-túmulo,
lançada em 1932 que chamou a atenção da imprensa
por tratar-se de algo inédito: Chico Xavier traria à
vida novamente poetas mortos.
“Parnaso de Além-Túmulo”
era quase um sacrilégio. Arrancava da sepultura poetas tão
célebres quanto mortos. [...] A coletânea de [...]
poemas assinados por catorze defuntos ilustres chegou às
livrarias em 1932 e provocou alvoroço. Os céticos
enfrentavam dilemas. Se os versos foram criados mesmo pelo jovem
de Pedro Leopoldo, por que ele não assumia a autoria? Por
que trocava a possível consagração como poeta
de talento ou como imitador genial pela inevitável suspeita
de ser um impostor, um mentiroso? [...] Os mais descon?ados folheavam
O parnaso de além-túmulo e arriscavam
palpites psicanalíticos sobre o autor. O matuto, leitor compulsivo,
dono de memória prodigiosa, incorporava o estilo dos poetas
inconscientemente. Os versos vinham de seu subconsciente. Chico
deveria ser estudado como um caso de esquizofrenia. Outros, menos
freudianos, defendiam uma tese simples e direta: o livro era pura
jogada de marketing. Francisco Cândido Xavier queria chamar
a atenção. Em breve, ele convocaria a imprensa mineira,
estufaria o peito e revelaria: “Estes poemas foram escritos
por mim mesmo. Sou poeta” (Souto Maior, 2003, p. 45)
Esta obra foi, de fato, objeto de
polêmicas e discussões sobre as quais não cabe
discorrer nessa breve descrição da trajetória
do médium mineiro. Entretanto, ela levou seu nome à
imprensa e todos passaram a observar o que viria em seguida. Até
a publicação dessa obra, o desconhecido Chico Xavier
chegou a ter momentos em que palestrava “sozinho” no Centro
Espírita Luiz Gonzaga, ocasiões nas quais, segundo seus
fiéis, falava somente para os Espíritos.
Outra grande repercussão foi o caso Humberto de Campos, recheado
de muitas polêmicas. Quando Chico Xavier passou a publicar obras
assinadas por Humberto de Campos, a partir do ano de 1937 (7),
a viúva do autor moveu um processo contra ele e contra a Federação
Espírita Brasileira – FEB, pedindo explicações
sobre a utilização do nome do autor nas obras e, com
isso, sobre os eventuais direitos autorais (Souto
Maior, 2003, p. 91).
- 7 - Obras
assinadas por Humberto de Campos, segundo Chico Xavier. 1) Crônicas
de além-túmulo, 1937; 2) Brasil, coração
do mundo, Pátria do Evangelho, 1938; 3) Novas mensagens, 1938;
4) Boa Nova, 1940; 5) Reportagens de além-túmulo –
1942 (Harley, 2018, p. 303).
A situação
da viúva, Catarina Vergolino, era incômoda: não
podia assistir quieta à publicação de livros
assinados pelo marido, pois ainda mantinha contrato com a editora
da obra produzida por ele em vida, a W. M. Jackson. [...] Após
expor os motivos para o processo, a herdeira do escritor lançou
ao tribunal uma questão delicada. As cinco obras atribuídas
ao Espírito do escritor foram mesmo ditadas pelo morto? Catarina
era exigente. Pedia “todas as provas científicas
possíveis”, exigia demonstrações
mediúnicas para “verificação
da sobrevivência e operosidade” do Espírito
de Humberto de Campos, propunha exames gráficos e estilísticos
dos textos escritos por Chico Xavier e requisitava depoimentos dos
envolvidos, além de provas testemunhais (Souto Maior, 2003,
p. 91, grifos nossos).
Essa situação foi particularmente
interessante já que apontava para a constatação
de uma possível nova classe de verdades, pois, se o juiz rejeitasse
a autenticidade dos textos, o médium e a Federação
Espírita Brasileira – FEB estariam sujeitos a indenizações
e consequências no campo da falsidade ideológica. Caso
contrário, o reconhecimento dos livros como obras do além
atestaria a possibilidade de vida além desta vida, decidindo
se os direitos autorais deveriam ou não ser repassados aos
herdeiros. Esta não foi a única demanda judicial envolvendo
Chico Xavier que apontaria para “outra ordem de verdades”.
Nesta linha jurídica, anos depois (8),
também houve a questão dos jovens José Divino
Nunes, de 18 anos e Maurício Garcez Henrique, de 15 anos, que
se envolveram em um acidente fatal, no qual Maurício foi morto
acidentalmente por um tiro de José Divino. Em carta psicografada
por Chico Xavier, o jovem “morto” Maurício Garcez
inocenta o amigo, declarando que teria sido um acidente. O exame grafotécnico
teria atestado que a assinatura era do morto (Juiz, 1979, p. 8).
- 8 - Estes dois eventos não aconteceram
na mesma época são separados no tempo por muitos anos.
Este último caso só foi trazido apenas a título
de ilustração de situação similar.
As repercussões em torno do
caso de Humberto de Campos foram ainda maiores do que as envolvidas
na publicação de Parnaso de além-túmulo,
atraindo a imprensa de forma extremamente intensa. Chico Xavier definitivamente
passou a ser o médium mais famoso do país. O tempo em
que o médium desconhecido fazia palestras sozinho, somente
para os Espíritos, era passado. O número de visitantes
que aportavam a casa de Chico Xavier era cada vez maior. Em torno
de Chico surgiram muitos apoiadores, mas muito mais eram seus acusadores,
inclusive os espíritas que acreditavam que ele havia virado
uma celebridade perigosa para o Espiritismo e que tinha se vendido
à Federação Espírita Brasileira –
FEB (Schubert, 1986, p. 37). O próprio
médium se ressentia das repercussões:
[...] O que
me dizes, reverentemente à atitude de certos confrades que
descambam para o terreno das provocações declaradas,
é a cópia do que sinto também. É muito
triste vermos companheiros, com tantas expressões de cultura
evangélica, arvorarem-se em lutadores e combatentes sem educação.
Logo que houve o agravo da sentença (caso H. Campos), observando
a agressividade de muitos, escrevi mais de cinqüenta cartas
privadas e confidenciais aos amigos da doutrina, com responsabilidade
na imprensa espiritista, rogando a eles me ajudarem, por amor de
Jesus, com o silêncio e a prece e não com defesas precipitadas
e, confesso-te, que algumas dessas cartas foram escritas com lágrimas
por mim, tal a desorientação de certos amigos que
facilmente se transformam em provocadores e ironistas, esquecendo
os mais comezinhos deveres cristãos (Schubert, 1986, p. 32).
Na esteira de todas essas repercussões,
o assédio da imprensa foi enorme, e o caso mais famoso foi
o de David Nasser e Jean Manzon da revista O Cruzeiro, um
dos periódicos de Assis Chateaubriand, que se passaram por
jornalistas norte-americanos com nomes falsos. A matéria principal
expôs a vida íntima de Chico Xavier com o título
“Chico, detetive do além” com diversas fotos e
legendas usadas com o intuito de desmerecer a figura do médium
mineiro. Mas a reportagem não foi tão depreciativa como
se esperava, pois o mais “intrigante” sobre este evento
foi revelado 30 anos depois em uma reportagem de João Antero
de Carvalho, que revelaria no jornal O dia um bastidor importante.
Quando Nasser e Manzon chegaram em casa, tiveram uma surpresa. De
madrugada, Nasser recebeu um telefonema de Manzon dizendo: “Você
já viu o livro que o Chico Xavier nos deu?”. Ele disse
que não, e foi consultá-lo, na dedicatória estava
escrito exatamente isso: “Ao meu irmão David Nasser,
de Emmanuel.” semelhante ao que tinha escrito a Manzon (Souto
Maior, 2003, p. 99). A entrega desses livros se deu logo nos
primeiros dias das entrevistas, quando Chico Xavier ainda achava que
eles eram jornalistas norte-americanos.
Quanto mais polêmicas ocorriam em torno do médium mineiro
mais ele era conhecido, e não dava mostras de desânimo
com tais questões em relação ao seu trabalho,
pois continuava o trabalho de psicografia das obras mediúnicas
e de assistência e consolo aos necessitados. Muitos outros casos
e polêmicas surgiram no decorrer de sua vida na cidade de Pedro
Leopoldo, inclusive com as acusações do seu sobrinho
Amauri (9) Pena, que desmentiam a sua mediunidade e cujas repercussões
tiveram forte impacto pessoal na vida do médium. Mais tarde
Amauri desmentiu todas as suas afirmações. Os dissabores
em relação à presença de Chico na pequena
Pedro Leopoldo não se restringiram a isso, havia uma pressão
geral em torno dele:
- 9 - Há divergências
a respeito da forma que o nome do sobrinho de Chico Xavier é
grafado, o biógrafo Jhon Harley (2018, p. 242) grafa com “y”
ao final, Amaury, Souto Maior (2003, p. 138) grafa com “i”
ao final, Amauri. Em documentos encontrados no Memorial Chico Xavier
de Uberaba encontramos documentos com “i” ao final, por
isso adotamos a grafia “Amauri”
O clima tenso,
em Pedro Leopoldo, atingiu o clímax quando uma senhora bem
vestida, de Belo Horizonte, se aproximou dele e lhe ofereceu veneno:
“Vim aqui te ajudar a se suicidar.” Chico dispensou
o presente: “Quero viver até o fim.” A mulher
insistiu: “É melhor você se suicidar. Você
fica em paz e dá paz ao nosso Centro.” Chico encerrou
o assunto com um “não” redondo. Estava convencido:
já era hora de virar mais um capítulo de sua história.
Sua família andava nervosa. Lucília, a irmã
com quem ele morava, estava cansada de tanto entra-e-sai, tanta
campainha, tanto telefone. O marido dela, Pacheco, era católico
e não entendia tanto movimento, não suportava a invasão
diária de sua privacidade. Um dia, a irmã perguntou:
“Você sai ou nós saímos?” Chico
aproveitou a deixa e saiu. Estava cansado. Todas as irmãs
já estavam casadas, ele já não precisava mais
tomar conta de ninguém. Já era hora de poupar a família,
de poupar a si mesmo (Souto Maior, 2003, p. 145).
CIDADÃO UBERABENSE
Foi assim que Chico Xavier realizou
um desejo antigo e em 4 de janeiro de 1959 mudou-se para morar com
Waldo Vieira (Harley, 2018, p. 242-255).
Ele se mudou por pelo menos quatro razões. Inicialmente, quando
questionado, ele declarou que era por uma questão de saúde,
já que o clima temperado de Uberaba seria melhor do que o clima
frio de Pedro Leopoldo para uma labirintite que sofria. Mas os dissabores
decorrentes das acusações de seu sobrinho, somados às
dificuldades que sua família recebia, devido ao grande assédio,
e o incentivo que recebeu do jovem estudante de medicina e médium
Waldo Vieira para ir para Uberaba também teriam pesado muito.
O médium mineiro precisava ter um porto seguro para que pudesse
se dedicar inteiramente a seu “mandato mediúnico”
(10). Não havia feito essa mudança
ainda em decorrência de sua promessa à Cidália
sua madrasta, dizendo que cuidaria de seus irmãos mais novos
e sobrinhos. Dois anos antes de se aposentar, depois que seus compromissos
familiares estavam cumpridos estava pronto para a mudança.
Quanto a isso ele mesmo declara:
- 10 - Mandato
mediúnico, para o Espiritismo, é uma espécie
de missão especial que recebem alguns médiuns. É
descrito pelo espírito André Luiz (1988, p. 149) como
uma responsabilidade maior diante das pessoas de forma a funcionar
como que um sacerdócio de fraternidade e compreensão
para inspirar fé e esperança àqueles que se aproximam
do médium missionário.
Sair de Pedro
Leopoldo para mim foi muito difícil... Espiritualmente, sempre
estive vinculado ao “Luiz Gonzaga”. A vida de médium
é complicada... Encontrei em Uberaba muitos amigos generosos
— amo essa cidade, mas, falando sinceramente, em Pedro Leopoldo
vivi os meus melhores dias... A coisa foi ficando difícil;
o cerco dos inimigos da Doutrina foi-se apertando. Mas está
tudo certo. Jesus não podia se demorar por muito
tempo numa cidade — logo as trevas davam um jeito de colocar
as autoridades contra ele... Ele pregou o Evangelho em fuga! Jesus
passou os três anos de sua peregrinação sob
o constante assédio das trevas... Houve uma época
em que cheguei a pensar em sair de Uberaba; amigos me convidavam
para morar em São Paulo, outros queriam que eu fosse para
o Rio... Emmanuel me disse: “Chico, para onde você for
a dificuldade irá atrás...” Então, “aguentei
a barra” e não me arrependo de estar em Uberaba até
hoje. Essa cidade é maravilhosa! Com o passar do tempo, descobri
que Pedro Leopoldo e Uberaba são duas cidades irmãs
— Pedro Leopoldo é minha mãe; Uberaba é
como se fosse minha tia, mas uma tia muito querida! [...]"
(Baccelli, 2000, p. 76-77 apud Harley, 2018, p. 239, grifos nossos).
Entendemos ser particularmente relevante
a forma que Chico Xavier fala aqui, “Jesus não podia
se demorar por muito tempo numa cidade – logo as trevas davam
um jeito de colocar as autoridades contra ele... Ele pregou o Evangelho
em fuga! Jesus passou os três anos de sua peregrinação
sob o constante assédio das trevas...” as palavras de
Baccelli, que conviveu muito tempo com Chico Xavier na Comunhão
Espírita Cristã, numa relação muito próxima,
nos parecem muito carregadas de uma admiração dele,
mas, se forem fidedignas, apontariam para uma identificação
de Chico muito forte com Jesus. De toda forma, em outros momentos
veremos posturas similares, nas quais ele parece espelhar de forma
muito dedicada sua vida na vida do Jesus do Espiritismo.
Além das questões de saúde, a escolha de Uberaba
também o favorecia no campo profissional, como funcionário
da Inspetoria Regional de Fomento da Produção Animal
de Pedro Leopoldo, conhecida como Fazenda Modelo desde 1931, efetivado
como funcionário público federal em 1 de agosto de 1935,
seria fácil conseguir sua transferência para a Fazenda
Experimental Getúlio Vargas, atual Parque Fernando Costa, aposentando-se
em 17 de janeiro de 1961 por invalidez devido à doença
incurável em um dos olhos (Harley, 2018,
p. 116-123; Harley, 2016, p. 219-235). Chico já conhecia
a cidade e muitas pessoas do círculo espírita e profissional,
já que por mais de uma vez esteve lá a trabalho pelo
Ministério da Agricultura nas exposições pecuárias
que aconteciam anualmente em maio quando acompanhava o seu chefe.
Entre as pessoas que havia conhecido, estava o jovem estudante de
medicina Waldo Vieira que conheceu em 1955 em uma de suas viagens
e que formalmente o convidou a viver em Uberaba, tornando-se um grande
parceiro.
Waldo Vieira é um capítulo à parte na vida de
Chico Xavier, a parceria de ambos começa de forma inusitada,
ambos diziam psicografar mensagens de um espírito que se apresentava
como André Luiz e descobriram, quando o Espírito teria
se apresentado a ambos de uma só vez, que não era o
caso de um homônimo era de fato o mesmo. Depois de ter conhecido
à época o jovem estudante de medicina, natural de Monte
Carmelo, o médium reconheceu nele, através de suas psicografias
o seu “talento mediúnico” e anteviu a parceria
que fariam anos depois. Antes mesmo de mudar para Uberaba, Chico e
Waldo começaram a psicografar o livro Evolução
em dois mundos atribuído ao Espírito André
Luiz (1987) que já tinha psicografado outras obras através
de Chico. O que era interessante nesse caso, no ponto de vista do
fenômeno, é que, em Uberaba, Waldo psicografava os capítulos
ímpares, enquanto Chico psicografava os capítulos pares,
em Pedro Leopoldo (Harley, 2016, p. 236-245).
Já na noite do primeiro dia em Uberaba, 5 de janeiro de 1959,
há registros de psicografias feitas por Chico Xavier, ele não
teria perdido tempo (Harley, 2016, p. 227; Souto
Maior, 2003, p. 149). Aproximadamente três meses depois
de sua chegada, ao lado da casa de Waldo Vieira foi fundada a sede
da Comunhão Espírita Cristã por ele e por Chico
Xavier.
Os trabalhos de assistência social se multiplicaram. Em 1961
centenas de pessoas esperavam por uma “entrevista espiritual”.
Pessoas de todas as classes e origens, de todo o país começaram
a procurar “o carteiro de outros mundos”.
Um dos mais
ansiosos era o uberabense Augusto César Vanucci, futuro diretor
da linha de shows da TV Globo. Na época, era apenas mais
um homem em crise. Chico entregou-lhe uma xícara de café.
Vanucci viu o líquido preto assumir consistência leitosa
e embranquecer. Quando bebeu, sentiu um gosto de licor. Foi tiro
e queda: ficou novo. Duas décadas depois, comandaria uma
campanha para dar a Chico Xavier o Prêmio Nobel da Paz (Souto
Maior, 2003, p. 163).
A partir de 1962, Chico Xavier já
mobilizava milhares de religiosos ao redor do país, fossem
eles espíritas ou católicos. O seu ritmo de trabalho
era extremamente intenso. Acordava todos os dias às seis da
manhã, regava sua horta, tomava seu café e entregava-se
ao trabalho. Mesmo depois de aposentado, havia muito o que fazer,
datilografando e revisando as obras, respondendo e escrevendo cartas.
Todas as suas psicografias eram datilografadas com cópia em
papel de seda com carbono e ainda tinham que ser revisadas conforme
instruções recebidas da Federação Espírita
Brasileira – FEB (11). Às
sextas e sábados, eram os dias de reuniões públicas,
chegava ao centro meia hora antes da abertura dos portões,
que acontecia às 20h. Enquanto Chico Xavier se recolhia a um
pequeno quarto destinado às psicografias, palestras e estudos
eram feitos do lado de fora. Ao redor de 21h, as orientações
psicografadas começavam a ser disponibilizadas por uma abertura
na porta. Em algumas noites o médium ficava até meia-noite
no chamado “receituário” (12).
Quando saía, sentava-se à mesa, Chico fechava os olhos,
segurava o lápis e junto com Waldo Vieira ambos traziam mensagens
e textos, que muitas vezes se completavam, onde terminava uma, continuava
a outra, sendo as mensagens assinadas pelo mesmo autor e com coerência
e coesão tratavam do mesmo assunto.
- 11 - Essas
revisões foram tratadas por muitos como “provas”
da fraude em andamento, já que se precisavam de revisões
não eram da origem alegada, pois os Espíritos, não
as teriam escrito com erros. Um dos que relatam isso de forma pormenorizada
é o Frei Boaventura Kloppenburg (1960, p. 345), sobre as revisões
feitas pela FEB.
- 12 - Hoje
em dia os espíritas chamam isto de orientação
espiritual, para que não se confundam com receitas médicas,
e com isso sejam enquadrados no exercício ilegal da medicina.
O momento mais esperado, que às
vezes se seguia até as 3h da manhã, eram das “cartas
particulares”, que a esta época ainda não eram
muitas, o que fazia, às vezes, com que ele fosse questionado
por alguém por não ser sido atendido, o que ele invariavelmente
respondia que “O telefone só toca de lá pra cá”
(Souto Maior, 2003, p. 169).
A Comunhão Espírita Cristã crescia, e com isso
contraía dívidas e não podia contar apenas com
as doações voluntárias de alguns e assim, com
a concordância de seu mentor espiritual Emmanuel, segundo os
seus biógrafos espíritas, e de seu parceiro de trabalho
Waldo Vieira, decidiu em junho de 1964, ceder à Comunhão
Espírita Cristã os direitos dos livros (13)
a partir dali. O que cinco anos antes era um simples barraco agora
era um galpão, sala de refeições, livraria, depósito.
Lotado de cobertores, remédios e alimentos destinados à
assistência (Souto Maior, 2003, p. 174).
Enquanto o país passava pelas turbulências do início
da ditadura militar eles continuavam seu trabalho de assistência.
[...] Chico
Xavier, com a ajuda do jovem Waldo Vieira, promovia mais uma distribuição
de Natal. No dia 13 de janeiro de 1965, uma fila de 11.765 pessoas
se estendeu diante da Comunhão Espírita para buscar
sacolas com roupas e alimentos. Com a ajuda de seus amigos de São
Paulo e de outros estados, conseguiram arrecadar 8.337 peças
de roupas, 993 pares de sapatos, 311 enxovais infantis, 1.926 brinquedos,
4.320 lápis, 500 livros, 335 sacas de arroz, 218 quilos de
balas, 11.815 sanduíches (Souto Maior, 2003, p. 174).
- 13 - Diferente de Souto Maior,
Harley (2016, p. 288) apresenta outros motivos para doação
dos direitos autorais de seus livros à Comunhão Espírita
Cristã em 1964. Segundo ele, estaria relacionado a desentendimentos
com a Federação Espírita Brasileira – FEB,
que recebia os direitos até ali. Nos eventos registrados por
Harley são descritos problemas de ordem financeira que inclusive
envolveu a opinião de Waldo Vieira. A partir desse momento
segundo o biógrafo as relações entre Chico e
a FEB passaram a ser formais. Problemas semelhantes anos depois fizeram
com que Chico Xavier deixasse a Comunhão Espírita Cristã.
Em 1965, quando o médium mineiro teria
tomado ciência das estatísticas sobre suicídios
publicadas pelas Nações Unidas no Demographic Year Book,
em 1964, onde Áustria liderava o número de suicidas
(1.598 em 1962) e era seguida pela Alemanha, Suíça,
Japão, França, Bélgica, Inglaterra, Estados Unidos,
Polônia e Portugal. Chico Xavier decidiu que era hora de levar
conforto espiritual às pessoas de outros países. Segundo
Souto Maior (2003, p. 175), com aprovação de Emmanuel,
Chico Xavier e Waldo Vieira decidiram fazer uma viagem internacional,
para divulgação do Espiritismo nos Estados Unidos e
Europa. Nesta viagem ajudaram a fundar o que teria sido o primeiro
Centro Espírita baseado em Kardec nos Estados Unidos, o Christian
Spirit Center (Centro Espírita Cristão), país
no qual também fomentaram a publicação de livros
espíritas. Atualmente são cerca de 96 centros em 26
estados norte-americanos (Federation, 2022). No ano seguinte voltaram
aos Estados Unidos, mas Waldo Vieira não voltaria com ele.
De lá foi para o Japão para um curso de pós-graduação
em medicina e nunca mais se dedicou ao Espiritismo tornando-se inclusive
um crítico dessa religião.
DO PINGA FOGO À MINEIRO
DO SÉCULO XX
Depois da separação
de seu parceiro de trabalho Waldo Vieira, em 28 de julho de 1971,
Chico Xavier, o personagem, que outrora havia sido definido como um
menino com diabo no corpo, foi o responsável por uma das maiores
audiências da história da TV brasileira, cerca de 75%
dos televisores ficaram ligados no programa Pinga Fogo da extinta
TV Tupi até as 3h da manhã para escutar a entrevista
do médium mineiro (Harley, 2016, p. 307;
Xavier, 1984, Souto Maior, 2003, p. 191). Foram tratados assuntos
diversos naquela noite, nas palavras do médium mineiro, sob
o amparo de seu mentor espiritual Emmanuel, falou
[...] menos sobre a doutrina e
mais sobre temas polêmicos na época. Muito mais liberal
do que o papa e os bispos, ele apontou nos bebês de proveta
a possibilidade de diminuir o sofrimento da mulher no parto e os
riscos de vida dos fetos. Viu nas então revolucionárias
e controvertidas pílulas anticoncepcionais a chance de mulheres
e homens ficarem livres do “delito do aborto” e ainda
defendeu o homossexualismo (sic) e a bissexualidade como “condições
da alma humana”, que não deveriam ser encaradas como
“fenômenos espantosos, atacáveis pelo ridículo
da humanidade” (Souto Maior, 2003, p. 193).
Segundo Harley (2016,
p. 307) este evento foi um divisor de águas, o reconhecimento
dos trabalhos de Chico foi enorme. O número de pessoas comuns,
artistas, políticos e jornalistas que visitavam Uberaba era
impressionante, as “cartas particulares” tornaram-se um
fenômeno, que foram objeto de importantes pesquisas científicas
que atestariam a veracidade de seu conteúdo, como a pesquisa
do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), traçando uma linha
de estudos sobre os fatos colocados nas cartas de Chico Xavier e concluindo,
em 2014, que o material
relatado era verídico (14).
- 14 - Importante ressaltar, que
estes estudos confirmam a veracidade dos conteúdos das cartas
de Chico Xavier, e não a existência dos Espíritos
que as teriam trazido (Rocha et al 2014, p. 300)
As repercussões do Pinga Fogo
foram muito importantes para divulgação do Espiritismo,
inclusive internacionalmente, o que levou pesquisadoras como Lynn
Sharp (2006, p. 202) a reconhecer o que ela chamou de reflorescimento
do Espiritismo no Brasil, a partir da década de 1970.
Em 19 de maio de 1975, Chico Xavier se desligou da Comunhão
Espírita Cristã, “[...] quando esta instituição
foi beneficiada, em testamento, com um grande patrimônio de
terras em Goiás.” (Nobre, 1997,
p. xvii). Depois disso, em 8 de julho do mesmo ano, ele fundou
o Grupo Espírita da Prece continuando com um número
enorme de atividades fora, mas com o novo núcleo espírita
pequeno e pautado pela simplicidade. Esta casa tinha, em um ponto
destacado do pequenino salão, uma placa com os seguintes dizeres:
“Aqui, com o nome de ‘Grupo Espírita da Prece’,
funciona o Culto do Evangelho no Lar do irmão Francisco Cândido
Xavier, em casa de sua propriedade”. A existência dessa
placa foi motivada, segundo Humberto Higino dos Reis, pelo discurso
de um dirigente do movimento espírita que, em uma das suas
reuniões, disse que os centros espíritas tinham que
ser filiados às organizações, municipais, estaduais
e federais respectivamente para poderem afirmar sua legitimidade.
A isso respondeu Chico Xavier em alto e bom tom para todos ouvirem
que “[...] para falar a todos, em qualquer parte do mundo, a
palavra de Jesus, não precisava das instituições,
e com a ajuda de Jesus e dos bons espíritos, esta Doutrina
que nunca teve chefe, a não ser Jesus. Se precisasse pedir
licença, ele largaria de ser espírita para continuar
a ser cristão” (Reis, 2010, p.
64- 65 apud Harley, 2016, p. 346).
A esta altura da vida, Chico Xavier havia sido elevado à condição
de uma celebridade e era procurado por artistas e pessoas públicas
de toda ordem. Por um lado, era atacado por espíritas que diziam
que ele tinha se deixado levar pelo orgulho e pela vaidade, por outro,
recebia homenagens, títulos de cidadão honorário
pelo país afora, comendas que vinham de todo canto. A saúde
do homem Chico Xavier dava fortes sinais de que não ia bem,
ainda sim continuava a produzir muito de 1970 a 1977, tinha escrito
nada menos que cinquenta títulos – uma média anual
de oito lançamentos. Nos dez anos seguintes, a média
subiria para catorze ao ano (Souto Maior, 2003, p. 217).
CONCLUSÃO – O PENTACAMPEONATO
Em 1981, por iniciativa de Augusto
César Vanucci, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Segundo
seus biógrafos, a reação de Chico Xavier foi
sorrir, desconversar e continuar o trabalho de distribuição
de alimentos, remédios e roupas aos pobres da periferia. Nessa
época, Vanucci convidou Chico para uma homenagem ao baiano
Divaldo Franco, ele aceitou o convite, reverteu o cachê à
Fundação Maneta Caio e compareceu conforme combinado.
Uma das artistas convidadas, Glória
Menezes, teve uma crise de choro ao deparar com aquele senhor sorridente,
amparado por auxiliares. Vanucci tinha mentido. Chico iria participar
de um programa dedicado a si mesmo, Um Homem Chamado Amor.
Era o lançamento de sua campanha para o Prêmio Nobel
da Paz. No roteiro, poemas e mensagens de Chico declamados por artistas
como Lima Duarte, Tony Ramos e Paulo Figueiredo, depoimentos de
amigos como Roberto Carlos e muita música. Roberto cantou
Ave Maria e Força Estranha, Vanusa apresentou sua Prece de
Cáritas, Joyce interpretou Clareana e Elis Regina, No Céu
da Vibração. Com uma camisa xadrez amarrotada sob
o terno branco, diante de um retrato a óleo de Emmanuel,
Chico Xavier falou sobre a infância, defendeu a inseminação
artificial e desempenhou o papel de garoto-propaganda do papa João
Paulo II, então prestes a desembarcar no Brasil: “Devemos
recebê-lo com todas as atenções de que ele é
digno e de que tanto fez por merecer, conduzindo a Cristandade com
tanta abnegação e com tanto tato para evitar que a
discórdia se alastre no mundo”. O discurso cristão
assentava bem na emissora mais poderosa do país, presidida
por um amigo de dom Eugênio Sales. Após gravar seu
depoimento, Chico encarou Vanucci, o diretor do programa, e afirmou
com um meio sorriso: “Tudo pela doutrina” (Souto Maior,
2003, p. 227, grifos nossos).
Mais uma vez, os críticos que
o acusavam de vaidoso apareceram, a sua maioria espíritas.
Chico reverteu a homenagem ao Espiritismo, definiu que seria ingratidão
imperdoável a recusa de “tamanha honraria” e aproveitou
para divulgar as lições de Kardec e do Evangelho. Diante
das câmeras e dos repórteres, repetiu: “Amai-vos
uns aos outros como eu vos amei”. Em 14 de outubro de 1981,
o ACNUR – Escritório do Alto-Comissariado da Organização
das Nações Unidas para os Refugiados – recebeu
o prêmio Nobel (Souto Maior, 2003, p.
236). Entre doenças e homenagens, ano após ano,
o médium mineiro continuou seu trabalho até que em fevereiro
do ano 2000, por meio de uma promoção feita pela Globo
Minas, Francisco Cândido Xavier foi eleito pelo voto popular
na internet como Mineiro do Século XX, com 704.030 votos. Ele
obteve mais votos do que personalidades como Santos Dumont, Pelé,
Betinho, Carlos Drumond de Andrade e Juscelino Kubitschek (15)
(Souto Maior, 2003, p. 20).
- 15 - Os espíritas
fizeram uma grande campanha para que as pessoas fossem à internet
votar no seu ídolo.
Aos noventa e dois anos, depois de setenta e cinco anos de mandato
mediúnico, como descrevem os espíritas, em 30 de junho
de 2002, por volta de 19h30, Francisco Cândido Xavier em sua
casa, desencarnou, termo usado pelo Espiritismo, enquanto o Brasil
tornava-se penta campeão na décima sétima edição
Copa do Mundo. Chico teria dito, segundo os espíritas, que
queria partir em uma data que o povo brasileiro estivesse muito feliz.
Naquele dia, os fogos de artifício ainda pipocavam no céu
do país pelo penta campeonato.
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