23 de dezembro de 2021
“O que o [ser humano] semear, isso mesmo
colherá”
(Gálatas, 6:7)
Em tempos de ameaças à
democracia e à garantia de direitos das minorias, é
preciso tomar partido, descer do muro, sair do armário e se
posicionar contra todo tipo de intolerância e violência.
Seja contra quem for. Mas não podemos confundir, em hipótese
alguma, “a reação do oprimido com a violência
do opressor”, como afirmou o defensor dos direitos dos afro-americanos,
Malcolm X. Já nas palavras de Kardec, em obras póstumas:
“liberdade, igualdade, fraternidade. Estas três palavras
constituem, por si sós, o programa de toda uma ordem social
que realizaria o mais absoluto progresso da humanidade, se os princípios
que elas exprimem pudessem receber integral aplicação”.
Em 2018, momento em que enfrentávamos uma das eleições
mais difíceis – avanço do conservadorismo, fake
news, violência de gênero e política -, entrei
em um grupo de Whatsapp intitulado “Espíritas na política”,
a convite de alguns amigos. Consegui permanecer por cinco dias até
ser expulso. Eram cerca de cem pessoas, com idades variadas, mas a
maioria acima de cinquenta anos e mulheres, embora sejam os homens
os que mais participavam e quase a totalidade do grupo declarava-se
“apolítico/a”. Com o pretexto de debater candidaturas
espíritas para cargos políticos, portanto partidários,
o grupo é politicamente heterogêneo: tem desde apoiadores
da ditadura, armamentistas, militaristas, até conservadores
– apesar de estarem em menor quantidade, pois costumam ser expulsos
– progressistas e pessoas de esquerda, como era meu caso.
Lá, identifiquei três tipos de espíritas: os de
esquerda e/ou progressistas (didaticamente, e, às vezes, contundentemente,
contrários a qualquer postura ou candidatos que fomentem violência,
ataquem os direitos humanos e desrespeitem a democracia), os de centro
– e, infelizmente, não é um trocadilho –
(mais neutros e pendendo, quase que sempre, para a defesa de ideias
conservadoras e reacionárias) e os de extrema-direita (esses
últimos, impossíveis de estabelecer qualquer tipo de
debate, pois não há abertura, respeito, reciprocidade
e afeto). São os representantes desta última categoria
que, diante de qualquer debate e na impossibilidade de argumentação,
atacam com frases como: “você não é espírita”,
“você não sabe ler”, “temos que descer
até onde esses ignorantes estão”.
No auge de uma discussão, implicaram até com a imagem
de um companheiro que usava, como foto de perfil, a obra “In
Voluptas Mors”, do pintor surrealista Salvador Dalí com
o fotógrafo Philippe Halsman. O caso chamou a atenção
de um dos coordenadores do grupo que, embora também se declarasse
apolítico, perseguia, intimidava, constrangia e tentava silenciar
aqueles com pensamentos mais progressistas.
Vivemos dias tristes para a frágil democracia brasileira e
isso, naturalmente, tem refletido nas relações humanas.
A facada em um candidato à Presidência da República
escancarou as rupturas cívicas, éticas e morais que
estamos vivendo. Mostrou-nos como precisamos nos posicionar duramente
contra qualquer manifestação de ódio, violência
e intolerância, mesmo que o alvo seja aqueles que retroalimentam
esses sentimentos. Ou será que acreditaram em algum momento
que isso tudo não se voltaria contra eles mesmos? Lei do retorno,
das consequências, da causa e efeito – a causa é
primária, o efeito, secundário – o que Newton
chamou de “ação e reação”:
“uma força não pode exercer uma ação
sem, no mesmo instante, gerar uma reação igual e diretamente
oposta”, ou “toda causa gera um efeito correspondente”.
Já Lucas, o apóstolo, diz que tudo que recebemos vem
a partir do nosso ato de dar: “Dai e dar-se-vos-á”
(6:38).
A política pode ser desenvolvida por pessoas religiosas e não
religiosas. Há princípios religiosos que podem balizar
a vida pública, mas aos religiosos cabe sempre lembrar que
o estado brasileiro é laico e que, portanto, não se
pode desenvolver políticas públicas a partir de determinadas
crenças ou preceitos de fé, sob o risco de deixar de
fora aqueles/as que não comungam das mesmas convicções.
Não é novidade a atuação de espíritas
na política. Bezerra de Menezes, por exemplo, fez isso de maneira
brilhante. Liberal e de ideias abolicionistas, Bezerra não
foi o “bom velhinho”, doce, que alguns espíritas
insistem em apresentar ou representar. Enérgico, dono de uma
fabulosa oratória, foi contemporâneo de Joaquim Nabuco,
Dom Pedro II e Rui Barbosa.
Ainda que o espiritismo não faça nenhuma acepção
de pessoas ou pregue qualquer tipo de discriminação,
muitos/as trabalhadores/as e frequentadores/as de casas espíritas
ainda são rotulados e excluídos por suas ideologias
políticas, por sua condição socioeconômica
e por questões de sexualidade e/ou gênero, por exemplo.
Há significativos movimentos que têm marcado a busca
pela organização de novos grupos espíritas que
se pautam por uma visão transformadora. Porém, não
aquela transformação puramente individual, que ignora
as relações humanas dialéticas, e sim a visão
que compreenda que toda transformação humana passa necessariamente
pela mudança radical nas relações sociais, porque,
afinal, ninguém é capaz de se autotransformar ignorando
as condições do contexto em que se insere.
Grupos como Espíritas à Esquerda, uma articulação
de pessoas espíritas que foram se agregando a grupos virtuais
(Espiritismo e Direitos Humanos, Abrepaz, Crítica Espírita,
Pueblo Espírita, entre outros) demandaram continuamente um
momento de reflexão conjunta e de encontro físico para
estreitar as relações que se formavam. Tomam por base
o poder revolucionário da filosofia espírita, apregoa
foco no povo, a classe trabalhadora que precisa, além de justas
condições materiais de vida, de consciência social
e política e de educação.
A partir deste posicionamento, Espíritas à Esquerda
tem tornado públicos manifestos e notas com posicionamentos
de oposição ao governo de Jair Bolsonaro, como a ’Nota
dos espíritas progressistas ante a crise institucional brasileira”,
de julho de 2021, e o “Manifesto
de espíritas progressistas pela cassação da chapa
Bolsonaro-Mourão”, de fevereiro de 2021. Em setembro
de 2021, o movimento colheu assinaturas para o manifesto “Manifesto
de espíritas progressistas por justiça, paz e democracia”.Também
foi articulada a frente ampla de LGBTQI+, familiares e aliados/as
espíritas, que emergiu com o objetivo de acolher, informar
e combater manifestações odiosas que se utilize dos
ensinamentos dos espíritos para oprimir, estigmatizar e excluir.
Além disso, essa frente também se integra a tantas outras
iniciativas existentes e que já vem realizando um importante
trabalho de educação para a diversidade, como Um gay
espírita, Espíritas plurais, Homossexualidade Saudável
e Diversidade espírita.
Há ainda o Coletivo Espíritas Antirracistas que tem
repudiado com veemência declarações racistas encontradas
em grupos virtuais espíritas e se pronunciado diante desses
atos com esforços para combater ações de violência
e crime. Em dezembro de 2020, unindo-se ao movimento internacional
“Vidas Negras Importam”, o coletivo
lançou o manifesto com este título.
Temos muito trabalho pela frente, dentro e fora do movimento espírita:
disputando narrativas, denunciando abusos cometidos por representantes
espíritas, eliminando velhos paradigmas, construindo pontes
ao invés de muros, ensinando, didaticamente, conceitos de bem
viver e justiça social e, sobretudo, resgatando os preceitos
de amor e diálogo de Kardec, esquecidos pelos pseudo-médiuns
midiáticos, pelos dirigentes fanáticos e pelos expositores/as
ensimesmados/as.
Afinal, como disse o pastor Martin Luther King, no livro Os Grandes
Líderes: “Não há nada mais trágico
neste mundo do que saber o que é certo e não o fazer.
Não posso ficar no meio de todas essas maldades sem tomar uma
atitude”.
Franklin Felix, psicólogo, educador,
militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento
de espíritas pelos direitos humanos.