
Na trama, Valentine é uma modelo
que mora em Genebra, e atropela uma cadela, de nome Rita. Após
prestar socorro e de posse do endereço afixado na coleira,
ela devolve a cadela ao dono, um juiz aposentado que, mostrando-se
indiferente com a devolução do animal, possuía
uma central de escuta telefônica em sua casa, onde captava ilegalmente
as conversas dos vizinhos.
Horrorizada com aquilo, Valentine
repreende moralmente o juiz, momento em que ele responde que ali,
naquele universo clandestino, finalmente ele sabia o que era a verdade:
de que um vizinho bem-sucedido era um traficante, da falta de sinceridade
entre dois amantes, da infidelidade de um marido e pai de família,
das carências afetivas de uma mãe negligenciada pela
filha. Naquele ambiente subterrâneo, anônimo, sombrio
e criminoso, ele encontrava as pessoas tais como elas eram e obtinha
a certeza que nunca tivera em nenhum processo por ele julgado.
Atraída pela situação
inusitada, Valentine retorna à casa do juiz alguns dias depois
e, num determinado momento da conversa, ele faz uma das perguntas
morais mais importantes, e que revela o real sentido da fraternidade:
– “Por que você
recolheu Rita (a cadela) na estrada?”, e ela responde:
– “Porque a atropelei. Estava ferida e
sangrava.” Sabendo que isso não era verdade, o juiz
aposentado retruca:
– “Se a tivesse deixado, ficaria com remorso.
Certamente um cão sem cabeça iria aparecer em seus sonhos
com a cabeça esmagada. Mesmo assim, por que o fez?”.
E Valentine não sabe o que
dizer. Não é por menos. Em se tratando de alteridade,
essa pergunta é essencial: por que você faz o que faz?
Em outras palavras, quais foram os reais motivos para você agir
em prol do outro? Foi efetivamente para o outro ou para você
mesmo? E a resposta é geralmente complexa, pois envolve inúmeras
variáveis evolutivas, psicológicas, morais, afetivas
e certo grau de autoconhecimento.
Dentre as possíveis interpretações
desse diálogo, o que o juiz aposentado queria mostrar à
Valentine era que a sua ação, apesar de trazer bem-estar
para a cadela, visava ao benefício da própria Valentine,
e que ela não era tão boa como imaginava: salvara a
cadela, não por causa da cadela em si, mas para não
ficar com o peso na consciência por não ter feito nada.
Ela era tão repreensível quanto o juiz e, por isso,
tão incapaz de realizar condenações morais.
Isso vai no problema central da alteridade.
Em nosso mundo de relações, posso considerar o outro
como minha extensão, um prolongamento de minha personalidade,
um meio no qual projeto a mim mesmo. É por isso que a crítica
ou o elogio alheio são tão importantes para alguns,
pois veem a si mesmos no comportamento do outro. Ou, posso tratar
o outro como um fim em si mesmo, como alguém por inteiro que,
independente de mim, tem liberdade para agir, pensar e sentir. Voltando
ao filme, a cadela Rita foi apenas um meio para que Valentine se acreditasse
alguém moralmente superior e nobre, quando, na verdade, Valentine
socorria a si mesma, garantindo-se o sono dos justos, sem o perigo
de ter pesadelos com uma cadela sem cabeça.
Logo, a alteridade nos traz um dilema:
até que ponto a minha ação junto ao próximo
é para satisfazer, implicita ou explicitamente, os meus próprios
interesses? Até que ponto o outro é só um meio
para que eu possa me projetar narcisisticamente sobre ele?
Essas reflexões são
fundamentais para doutrinas cuja moral perpassa necessariamente pelo
outro, como a de Jesus e a espírita. Todas as virtudes cristãs
e espíritas são aquelas que só desabrocham no
contato com o outro. Só descubro efetivamente o que é
amor, humildade, abnegação, perdão, justiça,
caridade, etc., quando inserido em certas relações com
meus semelhantes, seja os mais próximos, seja num contexto
mais geral.
Entre os mais próximos, o escritor Franz
Kafka nos traz um exemplo bem significativo, ao dizer, em seus diários,
que os pais que esperam ou exigem gratidão dos filhos são
como agiotas que arriscam o seu capital desde que recebam juros por
ele. Excessivo ou não, Kafka quer dizer que, nesse caso, os
pais tratam os filhos como projeções: o carinho e o
afeto dados agora são, no fundo, a garantia de recebê-los
depois. E a pergunta é: os pais continuariam a dar o mesmo
carinho e afeto se soubessem que os filhos seriam um tanto negligentes
com eles no futuro? O mesmo vale entre filhos e pais, casais, amigos,
etc. Não que esperar gratidão seja errado. O problema
é esperar como uma forma de cobrança velada ou mesmo
imposição.
No contexto mais geral, todos os regimes
políticos que tolhem a autodeterminação ou impedem
que os cidadãos decidam sobre temas que lhes afetam tratam-nos
como projeções, como meio para que um pequeno grupo
– a elite política e econômica –, fale e
escolha em nome de todos, como na democracia representativa e seus
processos de dominação econômica e ideológica.
Disso tudo, resta clara a necessidade
de compreendermos melhor a alteridade enquanto exercício contínuo
de autoconhecimento e de empatia, de desenvolvermos a capacidade de
nos colocarmos no lugar das pessoas, sejam elas vítimas ou
algozes. Isso não significa coadunar-se com o mal, nem aceitar
imposições e humilhações, especialmente
nas relações de forte apelo moral e sentimental. Significa
saber que, se colocados nas mesmas condições, talvez
teríamos sido menos complacentes do que a vítima ou
mais cruéis do que o algoz. Significa, no fundo, encontrar
a nós e ao outro desnudos, tal qual somos, com todas as nossas
qualidades e defeitos, com todo o nosso universo afetivo, moral, intelectual
e evolutivo.
Portanto, o sentido real da fraternidade – de uma sociedade
formada por irmãos – passa por um entendimento profundo
da alteridade, reconhecendo o outro como um fim em si mesmo, como
alguém que deve ser compreendido em suas experiências
evolutivas, alguém que, como eu, é capaz do melhor ou
do pior, e não apenas como um espelho para meus deleites narcisísticos.
Esse entendimento profundo da alteridade é
necessário e fundamental para uma sociedade regenerada, por
mais que ainda nos traga dilemas existenciais e incômodos morais.