“Tomem coragem, a jornada é
longa, o caminho é rude, mas a meta é esplêndida.”
— Léon Denis —
Estas palavras, do nosso mestre Léon Denis,
são um bálsamo para nossos espíritos ainda tão
sofridos como também um grande estímulo ao nosso progresso
moral, visto o momento conturbado por que passa nossa sociedade atual.
Podemos afirmar sem medo, inclusive, que, para nós espíritas,
se não conhecêssemos a Doutrina e sua base moral e filosófica,
nosso olhar para as questões do tempo presente, seria mais
descrente e menos esperançoso.
Façamos uma breve reflexão: fechemos nossos olhos por
alguns poucos minutos e nos recordemos de nossas rotinas, de nossos
trajetos na rua, do jeito de se comunicar e olhar das pessoas. Agora
pensemos: Como estamos percebendo esse cotidiano à nossa volta?
Em nosso caminho, olhamos para o próximo ou para situações
em que alguém se encontre em dificuldade, com a mínima
atenção, ou as preocupações da vida material
não nos permitem nem olhar para o lado?
Geralmente, o que percebemos são as pessoas preocupadas com
sua rotina, alheias ou indiferentes àquele que passa ao seu
lado, às situações à sua volta, ou até
lançando dardos mentais de raiva, impaciência e incompreensão
diante de algo ou alguém que atrapalhe seu caminho.
Pois bem, querido (a) amigo (a) leitor (a), neste texto gostaríamos
de convidá-lo(a) a olhar o tempo presente com um novo olhar,
um olhar de esperança, de fé raciocinada, mas principalmente
um olhar de como nós espíritas, diante de todo banquete
doutrinário a que dispomos, podemos exercer nossa cidadania,
nosso papel de espíritas no mundo e dentro da nossa sociedade.
Pois se a lei é de Progresso e felicidade, e cremos nisto,
sabemos que nada está perdido, e sim tudo está sob o
controle de Deus nosso Pai. E esse é o primeiro ponto que queremos
abordar: Deus.
Tem sido muito comum e corriqueiro, seja dentro de nossa casa com
nossos familiares, seja no trabalho, na rua ou até mesmo na
Casa Espírita, ouvirmos ou proclamarmos um discurso de pessimismo,
de dor, de descrença diante das muitas dificuldades que enfrentamos
hoje. Observamos nosso cenário político bastante desorganizado
e sem condições de gerir a sociedade; observamos um
desemprego e o aumento da miserabilidade cada vez maior devido à
essa má gestão; observamos a violência urbana
e mais do que isso, um aparente descaso e banalidade da vida humana,
e com isso cada vez mais as pessoas estão preocupadas apenas
consigo mesmas, em formas de sobreviver em meio a isso tudo. Com certeza,
nosso cenário atual não é nem um pouco consolador,
até porque afeta a todos nós.
E como é possível então, de alguma maneira, olharmos
para essa situação com perspectivas melhores, sentimentos
mais elevados e, principalmente com fé em nossos corações?
Dr. Hermann, no livro Palavras do Coração –
volume 1, pelo médium Altivo C. Pamphiro, nos chama a atenção
para este ponto da fé e da nossa responsabilidade social como
espíritas, em uma mensagem intitulada “Deus no Coração”.
Nesta mensagem que data de 1991, mas que poderia ter sido ditada para
nós nos dias de hoje, Dr. Hermann nos diz:
“Em tudo o que observamos diante das lutas
pelas quais a humanidade vem passando, analisando detidamente os problemas
do mundo, concluímos, com uma certa facilidade, que o
homem tem falta de Deus no coração. A pretexto
de vencer no mundo, com os desejos aliciados por prazeres ou por sugestões
de ganho fácil, o homem vai se deixando envolver pelas ideias
mais esquisitas, abandonando sua natureza
divina, como se ele vivesse apenas no presente ou ainda como
se todos os valores do espírito devessem ficar para trás,
dando-se importância tão somente aos valores momentâneos
da vida atual. O homem esquece sua natureza divina; por isso
após algum tempo de luta, ele teme, ele treme, ele foge".
(1)
1 Grifo nosso.
Dediquemos esse momento a refletir sobre as palavras
de nosso mentor da Casa — Dr. Hermann traz para a nós
a importância de lembrar-mos a todo momento da nossa natureza
divina. Parece até que já virou uma espécie de
“jargão” espírita a frase: “não
podemos nos esquecer que somos espíritos imortais”.
Mas será que de fato nós sabemos o que isso significa?
Mais ainda: sabemos todas as possibilidades e potências que
carregamos em nós por sermos de Deus?
Aprendemos com nosso patrono Léon Denis, em O Problema
do Ser e do Destino, sobre as potências da alma e como
podemos fazê-las brotar em nosso auxílio e no auxílio
ao próximo. Ao atentarmos para a expressão “natureza
divina do homem”, concluímos que não há
nada mais consolador do que saber que somos de Deus, viemos de Deus
e possuímos dentro as possibilidades necessárias para
transformarmos não só a nós mesmos, como também
a realidade em que vivemos! Não queremos dizer aqui que iremos
salvar o mundo! Não, não. Pois a cada um cabe sua parte
da obra da criação. O que queremos destacar é
que a felicidade e o progresso estão em nossas mãos.
Não existe injustiça divina em nenhuma situação
de tragédia, catástrofe, misérias sociais ou
guerras. Existe a ação do homem, que por ainda atender
às necessidades da matéria, acarreta para si mesmo esses
males que vemos presente em nossas sociedades. Somos nós que
com as mesmas mãos que podem alavancar o progresso, que ainda
as utilizamos para a destruição. E o grande mal que
nos acompanha e nos permite ainda não olhar para o próximo
realmente como meu próximo em sociedade, que ainda nos permite
a ignorância, o preconceito e a indiferença, é
o orgulho.
Quando de fato conseguirmos aprofundar em nós mesmos o ensinamento
de que somos espíritos imortais, perceberemos que por mais
difíceis que possam parecer as dores e os sofrimentos, todos
em um razão educativa de ser, e mais, que estão dentro
da Lei de Ação e Reação. Durante séculos,
viemos destruindo, guerreando. E todas essas ações dos
homens encarnados em suas épocas, trouxeram a Humanidade ao
ponto que ela chegou hoje.
A diferença é que hoje, temos a bênção
da Doutrina Espírita em nossas vidas, que nos permite compreender
que essas dores são na verdade oportunidades de reabilitação
do nosso espírito, e que é através dela (a dor)
que conseguiremos também sensibilizar o nosso olhar e nosso
coração também para as dores do outro. Nosso
patrono Léon Denis, nos traz a importância da dor para
a nossa condição de espíritos ainda imperfeitos:
“Por mais surpreendente que isto possa parecer
à primeira vista, a dor é apenas um meio utiliza do
pela Potência Infinita, para atrair-nos a ela e, ao mesmo tempo,
fazer-nos ascender mais rapidamente à felicidade espiritual,
a única durável. Portanto, é mesmo por amor a
nós que Deus nos envia o sofrimento”. (Léon
Denis – O Problema do Ser e do Destino, terceira parte:
“As Potências da Alma”).
De forma sutil e poética, Denis, nos faz compreender a dor
como oportunidade de reparo, de ascensão ao progresso e proximidade
com o amor de Deus. Que através da dor conseguiremos nos movimentar
e trabalhar para dissipar em nós as mazelas que trazemos em
nosso períspirito, além de sensibilizar o nosso olhar
para as dores e sofrimentos à nossa volta, pois não
mais queremos viver em mundo de provas e expiações,
desejamos nos regenerar, parar de sofrer, e caminharmos para uma sociedade
mais harmônica e feliz.
E quando falamos em sensibilizar o olhar para a dor do outro, é
com o objetivo também de lembrarmos o porquê de vivermos
em sociedade, como nos explicam os espíritos, na lei de
Sociedade:
“(...) Deus fez o homem para viver em sociedade. Deus não
deu ao homem, inutilmente, a
palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida
de relação”. O Livro dos Espíritos
– terceira parte: “A Lei de Sociedade”.)
Assim, amigos leitores, o que estamos querendo trazer neste texto,
é um chamado mesmo para a nossa responsabilidade como espíritas
dentro da nossa sociedade. Se já compreendemos que nós
trazemos as faculdades necessárias para contribuir com a vida
de relação, que comecemos nós então a
pautar nossos atos na caridade, como nos alerta o Apóstolo
Paulo, e não esperemos do outro que ele venha até nós.
Que mesmo sabendo que nossos governantes materiais deveriam olhar
por nós e não fazem, que não fiquemos apenas
nas palavras e pensamentos de ódio, que contribuem ainda mais
para o desequilíbrio das forças do nosso planeta.

Que possamos nós ter ciência de que a
parte que nos cabe na criação é suportar as dificuldades
com abnegação. Que esse progresso que tanto almejamos
e parece-nos distante quando assistimos os noticiários, ou
saímos na rua, é uma força íntima que
existe em nós como nos fala Léon Denis:
“O progresso é a aspiração
pelo melhor, pelo belo, pelo bem; é a prova da existência
em nós de um princípio superior, de alguma coisa grandiosa,
quase divina, que nos encaminha para destinos mais altos, que nos
lança sempre para frente, nos domínios do pensamento
e da consciência. (...) Do ponto de vista social, o progresso
é a caminhada para um estado de coisas cada vez mais de acordo
com a justiça e a razão; é a aplicação,
no seio das sociedades humanas, das leis, dos princípios suscetíveis
de realizarem nelas a maior soma de ordem, de bem-estar, de liberdade,
de fraternidade, de aproximá-las o mais possível do
estado de perfeição. Eis o que é o progresso!”...
(Léon Denis, O Progresso – cap. 1.)
Se possuímos a natureza divina meus amigos, todos nós,
independente de nossa condição, aspiramos pelo melhor,
pelo bem e pelo belo, assim como pela fraternidade e o progresso.
Que estas palavras de nosso mestre Denis, possam tocar fundo em nossos
corações e nos inspirar a realizar o bem por nós
e pelo nosso próximo. Que o amor que Jesus veio trazer à
Terra e que existe em nós, em gérmen, mesmo no homem
mais vil, possa nos guiar a tomar como medida do que se deve fazer
aos outros, o mesmo que desejaríamos para nós. Assim
como falamos no início, a indiferença nos cega o olhar
ao próximo e à fraternidade universal a que devemos
buscar.
Agora, dito tudo isto, fechemos novamente os nossos olhos e imaginemos
o nosso cotidiano de maneira diferente: a gentileza e a fraternidade
entre as pessoas, a justiça social, o olhar benevolente ao
próximo. Não é isso que desejamos? Não
é para isso que reencarnamos?
Portanto, amigos, que possamos gradativamente substituir os pensamentos
pessimistas, os dardos de ódio, a indiferença, pelo
amor que Jesus veio nos ensinar. Não é fácil
sabemos, afinal estamos nesta tentativa há muitas encarnações!
Mas que comecemos por aqueles mais próximos, dentro da família,
dentro da Casa Espírita com os companheiros de trabalho, dentro
dos trabalhos sociais que podemos realizar e ver que assim como nós,
todos estão passando por dificuldades, também na luta
pelo seu progresso.
Que nesse exercício de desenvolvermos o nosso amor
e o nosso papel como espíritas dentro da sociedade em que vivemos,
possamos nos inspirar na frase de Jesus:
“Nisto todos conhecerão que sois
meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” Jesus.
(JOÃO, 13:35.)