Espiritualidade e Sociedade





Bárbara Cruz

>   Como anda a minha fé em tempos de crise?

Artigos, teses e publicações

Bárbara Cruz
>   Como anda a minha fé em tempos de crise?

 

 


“Tomem coragem, a jornada é longa, o caminho é rude, mas a meta é esplêndida.” — Léon Denis —

 

Estas palavras, do nosso mestre Léon Denis, são um bálsamo para nossos espíritos ainda tão sofridos como também um grande estímulo ao nosso progresso moral, visto o momento conturbado por que passa nossa sociedade atual. Podemos afirmar sem medo, inclusive, que, para nós espíritas, se não conhecêssemos a Doutrina e sua base moral e filosófica, nosso olhar para as questões do tempo presente, seria mais descrente e menos esperançoso.

Façamos uma breve reflexão: fechemos nossos olhos por alguns poucos minutos e nos recordemos de nossas rotinas, de nossos trajetos na rua, do jeito de se comunicar e olhar das pessoas. Agora pensemos: Como estamos percebendo esse cotidiano à nossa volta? Em nosso caminho, olhamos para o próximo ou para situações em que alguém se encontre em dificuldade, com a mínima atenção, ou as preocupações da vida material não nos permitem nem olhar para o lado?

Geralmente, o que percebemos são as pessoas preocupadas com sua rotina, alheias ou indiferentes àquele que passa ao seu lado, às situações à sua volta, ou até lançando dardos mentais de raiva, impaciência e incompreensão diante de algo ou alguém que atrapalhe seu caminho.

Pois bem, querido (a) amigo (a) leitor (a), neste texto gostaríamos de convidá-lo(a) a olhar o tempo presente com um novo olhar, um olhar de esperança, de fé raciocinada, mas principalmente um olhar de como nós espíritas, diante de todo banquete doutrinário a que dispomos, podemos exercer nossa cidadania, nosso papel de espíritas no mundo e dentro da nossa sociedade. Pois se a lei é de Progresso e felicidade, e cremos nisto, sabemos que nada está perdido, e sim tudo está sob o controle de Deus nosso Pai. E esse é o primeiro ponto que queremos abordar: Deus.

Tem sido muito comum e corriqueiro, seja dentro de nossa casa com nossos familiares, seja no trabalho, na rua ou até mesmo na Casa Espírita, ouvirmos ou proclamarmos um discurso de pessimismo, de dor, de descrença diante das muitas dificuldades que enfrentamos hoje. Observamos nosso cenário político bastante desorganizado e sem condições de gerir a sociedade; observamos um desemprego e o aumento da miserabilidade cada vez maior devido à essa má gestão; observamos a violência urbana e mais do que isso, um aparente descaso e banalidade da vida humana, e com isso cada vez mais as pessoas estão preocupadas apenas consigo mesmas, em formas de sobreviver em meio a isso tudo. Com certeza, nosso cenário atual não é nem um pouco consolador, até porque afeta a todos nós.

E como é possível então, de alguma maneira, olharmos para essa situação com perspectivas melhores, sentimentos mais elevados e, principalmente com fé em nossos corações?

Dr. Hermann, no livro Palavras do Coração – volume 1, pelo médium Altivo C. Pamphiro, nos chama a atenção para este ponto da fé e da nossa responsabilidade social como espíritas, em uma mensagem intitulada “Deus no Coração”. Nesta mensagem que data de 1991, mas que poderia ter sido ditada para nós nos dias de hoje, Dr. Hermann nos diz:

Em tudo o que observamos diante das lutas pelas quais a humanidade vem passando, analisando detidamente os problemas do mundo, concluímos, com uma certa facilidade, que o homem tem falta de Deus no coração. A pretexto de vencer no mundo, com os desejos aliciados por prazeres ou por sugestões de ganho fácil, o homem vai se deixando envolver pelas ideias mais esquisitas, abandonando sua natureza divina, como se ele vivesse apenas no presente ou ainda como se todos os valores do espírito devessem ficar para trás, dando-se importância tão somente aos valores momentâneos da vida atual. O homem esquece sua natureza divina; por isso após algum tempo de luta, ele teme, ele treme, ele foge". (1)  

1 Grifo nosso.

Dediquemos esse momento a refletir sobre as palavras de nosso mentor da Casa — Dr. Hermann traz para a nós a importância de lembrar-mos a todo momento da nossa natureza divina. Parece até que já virou uma espécie de “jargão” espírita a frase: “não podemos nos esquecer que somos espíritos imortais”. Mas será que de fato nós sabemos o que isso significa? Mais ainda: sabemos todas as possibilidades e potências que carregamos em nós por sermos de Deus?

Aprendemos com nosso patrono Léon Denis, em O Problema do Ser e do Destino, sobre as potências da alma e como podemos fazê-las brotar em nosso auxílio e no auxílio ao próximo. Ao atentarmos para a expressão “natureza divina do homem”, concluímos que não há nada mais consolador do que saber que somos de Deus, viemos de Deus e possuímos dentro as possibilidades necessárias para transformarmos não só a nós mesmos, como também a realidade em que vivemos! Não queremos dizer aqui que iremos salvar o mundo! Não, não. Pois a cada um cabe sua parte da obra da criação. O que queremos destacar é que a felicidade e o progresso estão em nossas mãos.

Não existe injustiça divina em nenhuma situação de tragédia, catástrofe, misérias sociais ou guerras. Existe a ação do homem, que por ainda atender às necessidades da matéria, acarreta para si mesmo esses males que vemos presente em nossas sociedades. Somos nós que com as mesmas mãos que podem alavancar o progresso, que ainda as utilizamos para a destruição. E o grande mal que nos acompanha e nos permite ainda não olhar para o próximo realmente como meu próximo em sociedade, que ainda nos permite a ignorância, o preconceito e a indiferença, é o orgulho.

Quando de fato conseguirmos aprofundar em nós mesmos o ensinamento de que somos espíritos imortais, perceberemos que por mais difíceis que possam parecer as dores e os sofrimentos, todos em um razão educativa de ser, e mais, que estão dentro da Lei de Ação e Reação. Durante séculos, viemos destruindo, guerreando. E todas essas ações dos homens encarnados em suas épocas, trouxeram a Humanidade ao ponto que ela chegou hoje.

A diferença é que hoje, temos a bênção da Doutrina Espírita em nossas vidas, que nos permite compreender que essas dores são na verdade oportunidades de reabilitação do nosso espírito, e que é através dela (a dor) que conseguiremos também sensibilizar o nosso olhar e nosso coração também para as dores do outro. Nosso patrono Léon Denis, nos traz a importância da dor para a nossa condição de espíritos ainda imperfeitos:

Por mais surpreendente que isto possa parecer à primeira vista, a dor é apenas um meio utiliza do pela Potência Infinita, para atrair-nos a ela e, ao mesmo tempo, fazer-nos ascender mais rapidamente à felicidade espiritual, a única durável. Portanto, é mesmo por amor a nós que Deus nos envia o sofrimento”. (Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, terceira parte: “As Potências da Alma”).

De forma sutil e poética, Denis, nos faz compreender a dor como oportunidade de reparo, de ascensão ao progresso e proximidade com o amor de Deus. Que através da dor conseguiremos nos movimentar e trabalhar para dissipar em nós as mazelas que trazemos em nosso períspirito, além de sensibilizar o nosso olhar para as dores e sofrimentos à nossa volta, pois não mais queremos viver em mundo de provas e expiações, desejamos nos regenerar, parar de sofrer, e caminharmos para uma sociedade mais harmônica e feliz.

E quando falamos em sensibilizar o olhar para a dor do outro, é com o objetivo também de lembrarmos o porquê de vivermos em sociedade, como nos explicam os espíritos, na lei de
Sociedade:

“(...) Deus fez o homem para viver em sociedade. Deus não deu ao homem, inutilmente, a
palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação
”. O Livro dos Espíritos – terceira parte: “A Lei de Sociedade”.)

Assim, amigos leitores, o que estamos querendo trazer neste texto, é um chamado mesmo para a nossa responsabilidade como espíritas dentro da nossa sociedade. Se já compreendemos que nós trazemos as faculdades necessárias para contribuir com a vida de relação, que comecemos nós então a pautar nossos atos na caridade, como nos alerta o Apóstolo Paulo, e não esperemos do outro que ele venha até nós. Que mesmo sabendo que nossos governantes materiais deveriam olhar por nós e não fazem, que não fiquemos apenas nas palavras e pensamentos de ódio, que contribuem ainda mais para o desequilíbrio das forças do nosso planeta.

 

Que possamos nós ter ciência de que a parte que nos cabe na criação é suportar as dificuldades com abnegação. Que esse progresso que tanto almejamos e parece-nos distante quando assistimos os noticiários, ou saímos na rua, é uma força íntima que existe em nós como nos fala Léon Denis:

“O progresso é a aspiração pelo melhor, pelo belo, pelo bem; é a prova da existência em nós de um princípio superior, de alguma coisa grandiosa, quase divina, que nos encaminha para destinos mais altos, que nos lança sempre para frente, nos domínios do pensamento e da consciência. (...) Do ponto de vista social, o progresso é a caminhada para um estado de coisas cada vez mais de acordo com a justiça e a razão; é a aplicação, no seio das sociedades humanas, das leis, dos princípios suscetíveis de realizarem nelas a maior soma de ordem, de bem-estar, de liberdade, de fraternidade, de aproximá-las o mais possível do estado de perfeição. Eis o que é o progresso!”... (Léon Denis, O Progresso – cap. 1.)

Se possuímos a natureza divina meus amigos, todos nós, independente de nossa condição, aspiramos pelo melhor, pelo bem e pelo belo, assim como pela fraternidade e o progresso. Que estas palavras de nosso mestre Denis, possam tocar fundo em nossos corações e nos inspirar a realizar o bem por nós e pelo nosso próximo. Que o amor que Jesus veio trazer à Terra e que existe em nós, em gérmen, mesmo no homem mais vil, possa nos guiar a tomar como medida do que se deve fazer aos outros, o mesmo que desejaríamos para nós. Assim como falamos no início, a indiferença nos cega o olhar ao próximo e à fraternidade universal a que devemos buscar.

Agora, dito tudo isto, fechemos novamente os nossos olhos e imaginemos o nosso cotidiano de maneira diferente: a gentileza e a fraternidade entre as pessoas, a justiça social, o olhar benevolente ao próximo. Não é isso que desejamos? Não é para isso que reencarnamos?

Portanto, amigos, que possamos gradativamente substituir os pensamentos pessimistas, os dardos de ódio, a indiferença, pelo amor que Jesus veio nos ensinar. Não é fácil sabemos, afinal estamos nesta tentativa há muitas encarnações! Mas que comecemos por aqueles mais próximos, dentro da família, dentro da Casa Espírita com os companheiros de trabalho, dentro dos trabalhos sociais que podemos realizar e ver que assim como nós, todos estão passando por dificuldades, também na luta pelo seu progresso.

Que nesse exercício de desenvolvermos o nosso amor e o nosso papel como espíritas dentro da sociedade em que vivemos, possamos nos inspirar na frase de Jesus:

Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” Jesus. (JOÃO, 13:35.)

 

 

Fonte: https://celd.xyz/wp-content/uploads/07-Revista_CELD_Julho-2018.pdf

 

 

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