Espiritualidade e Sociedade





Cesar Boschetti

>   Origem do Universo segundo o espiritismo

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Cesar Boschetti
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Introdução

Ciência e filosofia são campos distintos do conhecimento. Desde a antiguidade e durante muitos séculos conviveram sob um mesmo arcabouço. A expressão filosofia ou filosofia natural era usada para quase todos os aspectos do saber. Com a expansão e especialização do conhecimento, principalmente a partir do século XVII, ciência e filosofia passaram a seguir caminhos distintos. O século XIX, com a segunda revolução industrial e grande avanço na ciência e na tecnologia, acabou ensejando um certo dogmatismo científico. O cientificismo, que elegia a ciência como a única via válida na busca da verdade. Essa corrente, radicalmente materialista, teve grande destaque na França de Kardec e negava qualquer visão diferente do mundo. Kardec foi um dos grandes críticos desse fundamentalismo [1].

Kardec não era apenas um observador criterioso. Como ciência de observação e filosofia moral, o espiritismo não seria uma doutrina robusta, se Kardec não fosse também um pensador, um filósofo, um questionador. Um filósofo é um explorador do conhecimento, um questionador incansável, um buscador da verdade. Contribui para a compreensão humana da realidade desafiando as fronteiras do pensamento. Ciência e filosofia devem caminhar lado a lado. O pragmatismo científico não deve cercear a liberdade e ousadia filosófica.

Neste ensaio, sem maiores pretensões, teceremos algumas especulações sobre a origem do Universo, o princípio de tudo. Tentaremos mostrar lado a lado a cosmovisão materialista e a cosmovisão espírita. Tudo lastreado no legado de Kardec, dos espíritos e do conhecimento atual, como era o lema do codificador. Não adentraremos em detalhes científicos que vão além do escopo deste ensaio e da competência deste autor. Vale enfatizar que nosso foco é a origem primeira de tudo, os instantes iniciais do Universo.

Falar em origem ou princípio das coisas nos induz a profundas reflexões sobre nossa pequenez dentro de um Universo incomensurável. Mas isso não deve deter nosso ânimo de seguir em frente para o futuro, enfrentando o desconhecido. O princípio de tudo nos conduz a duas possibilidades. Ou tomamos como premissa que a origem de tudo é um misterioso e fortuito acidente cósmico, ou tomamos como premissa que existe uma misteriosa causa primeira inteligente, muito acima de nossa compreensão, responsável por tudo que existe. Essa dúvida persegue o homo sapiens desde sua origem na Terra ou, quem sabe, muito antes disso. Percebe-se que, ambas as premissas são misteriosas e, igualmente incognoscíveis, mas a primeira denota uma nulidade total de intenção e é desprovida de qualquer sentido ou significado. A segunda, indica intencionalidade com muitos possíveis significados e sentidos.

A opção por uma ou por outra, em geral, não é uma simples questão de crença. Envolve vários aspectos ligados à história de vida, ou de muitas vidas, do indivíduo, aspectos emocionais e o modo como cada um busca o autoconhecimento. Não existem argumentos, suficientemente robustos, objetivos e inquestionáveis, que satisfaçam a todos. A nossa ciência terrestre, por mais que tenha avançado, não tem como atestar, absolutamente, nada neste sentido. A questão se resume a um dogma. Um dogma que vale tanto para o monismo materialista, no papel de acaso, como vale também para o dualismo espiritualista, no caso da premissa de um Criador. Vamos mergulhar no tempo. Vamos em busca de uma metafísica que nos permita levantar uma pontinha do véu que cobre os magníficos e insondáveis mistérios do Universo e de nossa origem. Muito longe de tentarmos apresentar respostas, queremos apenas mostrar que há muitas perguntas que precisam ser feitas, dentro deste tema quase inexplorado dentro da doutrina espírita.

Somos espíritos em evolução com sede de saber. Nossa dimensão espiritual não é um dogma. Evidências dessa dimensão existem desde a pré-história. Kardec estudou de forma bastante metódica esse tema. Modernamente, as experiências de quase morte (EQMs) vêm proporcionando cada vez mais evidências de que nossa consciência não é um subproduto cerebral, mas sim algo não local [2]. Nossa busca pelo autoconhecimento excita nossa ousadia e nos empurra para o desconhecido. A falta de humildade não está no querer saber, mas sim na presunção de que já sabemos muito e não precisamos perder tempo com questões metafísicas sem valor econômico.

Felizmente, este ainda não é um pensamento dominante, mas o risco do dogma materialista se ampliar e nos empurrar para uma nova e triste era, existe. Uma era onde a busca pelo saber se transforme em mera tecnociência produtora de comodidades e lucros. Precisamos reagir. Do mesmo modo que Kardec, precisamos combater essa forma danosa de materialismo utilitarista. A fé raciocinada é nossa melhor arma. Precisamos estudar mais e mostrar ao mundo que o espiritismo não se resume apenas a mais uma religião, mas é, de fato, uma ciência e uma filosofia que se coloca lado a lado com a ciência pura, aquela que busca o conhecimento que eleva e dignifica o ser humano, e não a mera satisfação egoísta dos apetites grosseiros. A proposta espírita não é apenas consoladora, mas, principalmente, transformadora. Transformar o ser para transformar o mundo. O consolador prometido por Jesus não é o espiritismo para os espíritas. O consolador prometido é a mensagem viva do Mestre para todos os espíritos, independente de convicções religiosas. Bem compreendido, isso pode nos levar a um novo patamar na evolução. Um mundo regenerado com mais amor ao próximo, mais respeito pela natureza, menos ganância, menos violência, mais fraternidade, liberdade e igualdade.

Por isso, ao buscarmos compreender a real dimensão da vida e melhor nos conhecermos, mais evoluídos e felizes poderemos ser. Quanto mais e melhor soubermos de onde viemos e para onde vamos, mais e melhor saberemos valorizar a presente vida e o seu sentido. Esta é a verdadeira proposta da filosofia espírita – compreender e se transformar. A filosofia espírita não é contrária ao materialismo científico. A ciência precisa de uma base segura para operar e, por enquanto, ainda não foi possível separar essa base da matéria. Kardec tinha essa percepção. A ciência ainda não dispõe de meios seguros para operar fora do campo material. Mas nem por isto, seus objetivos mais nobres, deixam de se aproximar das questões que tocam os anseios do espírito. A astrobiologia, um ramo novo da ciência, vem se ocupando de forma muito interessante e enriquecedora, do ponto de vista científico e filosófico, com a busca por respostas às velhas e emblemáticas questões: De onde viemos? Para onde vamos? Estamos sozinhos no Universo? Trata-se de uma busca multidisciplinar que enriquece nossa visão de mundo e da vida. Um excelente livro tratando do assunto pode ser baixado gratuitamente neste endereço [3]. “Timeu, A cosmologia de Platão” é também uma leitura enriquecedora disponível no mesmo endereço.

O materialismo a ser combatido não é o científico, mas sim aquele que extrapola o âmbito da pesquisa científica e adentra o campo político e socioeconômico, elegendo o egoísmo e a ganância como alavancas de progresso, transformando o ser humano em mercadoria, avaliado pelo que tem e não pelo que é. Por outro lado, a postura materialista adotada pela ciência, diga-se, necessária por enquanto, não é uma questão trivial. Não se trata apenas de uma simples escolha pessoal do cientista ou mesmo da comunidade científica. Existem fatores históricos, políticos e socioeconômicos importantes envolvidos. Esta questão precisa ser examinada com cuidado e isenção, lembrando que, no meio científico, além de ateus e agnósticos, existem católicos, protestantes, muçulmanos, budistas, teosofistas e espíritas, só para mencionar alguns. E, seguramente, os espíritas são a minoria. É importante ficar claro que Kardec não combatia a filosofia materialista. Isso seria contraditório com o caráter de ampla tolerância com as diferenças proposto pela doutrina. Kardec, assim como nós, não via a diversidade como um mal, ao contrário, compreendia sua importância como alavanca de progresso moral e material. O que deve ser combatido é justamente o radicalismo que nega a possibilidade dessa diversidade. Mas isto está além do escopo deste ensaio. Fica aqui como provocação para futuras considerações.

 

II Contexto da codificação espírita

 

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Cesar Boschetti

Físico aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais de São José dos Campos, SP - INPE. Editor consulente do GeaE (https://geae.net.br/) onde tenho vários artigos publicados. Atuo no movimento espírita há muitos anos como trabalhador da Fraternidade Paulo de Tarso de São José dos Campos, SP.


 

 

 

Fonte: texto enviado pelo autor

 

 

 



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