A mediunidade e a possessão espiritual
são fenômenos culturais encontrados em muitas sociedades
ao redor do mundo. No Brasil, o Espiritismo (uma tradição
em que a mediunidade é enfatizada) é a terceira maior
denominação religiosa. A “hipótese da absorção”
(associação de intensos aumentos na atenção
focada com uma concomitante redução na autoconsciência)
é uma das teorias neuropsicológicas mais amplamente
aceitas para explicar estas vivências, embora existam ainda
outras sugestões sobre possíveis mecanismos neurofisiológicos
subjacentes.
O objetivo do presente estudo foi investigar
correlatos fisiológicos durante vivências dissociativas
não patológicas em vinte médiuns Espíritas
experientes, do sexo feminino, comparados com vinte participantes
controles, não médiuns, do sexo feminino, no mesmo contexto
religioso. Mensuramos as potências espectrais eletroencefalográficas
(EEG) em eletrodos frontais (nas bandas de frequência teta,
alfa e beta), coerências eletrocorticais inter-regionais e parâmetros
de variabilidade da frequência cardíaca (VFC) em três
momentos: antes, durante e após a comunicação
mediúnica. Também mensuramos os níveis plasmáticos
de hormônios e substâncias neuroativas, bem como sinais
vitais, em dois momentos: antes e imediatamente após a comunicação
mediúnica. As médiuns tiveram aumentos significativamente
maiores na frequência cardíaca e nos níveis plasmáticos
de noradrenalina, hormônio tireo-estimulante (TSH), prolactina
e creatina-fosfoquinase (CPK), comparadas com o grupo controle. No
EEG, as médiuns tiveram maiores potências beta em alguns
eletrodos em todas as fases do experimento, maior potência teta
em um eletrodo durante a comunicação e maior potência
alfa em um eletrodo após a comunicação. Além
disso, durante a comunicação, as médiuns apresentaram
um deslocamento significativo do sistema nervoso autônomo a
favor da atividade simpática, comparado com um deslocamento
a favor da atividade parassimpática (entre outros sinais de
relaxamento, como em um estado meditativo) no grupo controle. Não
foi observado efeito de grupo significativo para a melatonina, para
as coerências eletrocorticais inter-regionais ou para os parâmetros
de VFC de períodos amostrais analisados uma hora antes e uma
hora após a comunicação. Para os parâmetros
de EEG, não foram detectados efeitos de condição
(comparações intra-grupos) significativos. Não
foram observados padrões ictais ao EEG, exceto por uma médium
que, embora sem antecedentes de epilepsia, apresentou padrão
ictal durante todas as fases do experimento.
Teorizamos que a breve excitação
manifestada pelas médiuns possa ter ocorrido devido a um efeito
de interferência (Stroop-like). Nossos achados dão suporte
adicional aos conceitos de que dissociação patológica
e não patológica podem ter implicações
fisiológicas diferentes, e de que a absorção
possa ter um papel mecanístico neste tipo de experiências
sensoriais anômalas. Além disso, são corroboradas
as ideias de que sistemas socioculturais poderiam afetar a regulação
autonômica cardíaca em alguns indivíduos propensos
à absorção, e de que processos de controle cognitivo
seriam encadeados durante estas vivências. Finalmente, nossos
resultados falam contra a hipótese da elevação
da melatonina ser um correlato necessário das experiências
mediúnicas.
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