Espiritualidade e Sociedade





Thiago Barbosa

>   A exteriorização da sensibilidade

Artigos, teses e publicações

Thiago Barbosa
>   A exteriorização da sensibilidade - Uma aproximação entre Léon Denis e André Luiz

 

 

Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é que a sua origem é divina, que a iniciativa pertence aos espíritos e que a elaboração é o fruto do trabalho do homem.
Allan Kardec, A Gênese: Os milagres e as predições segundo o Espiritismo, cap.1.

 

 

O Espiritismo é um todo contínuo de revelações que partem do alto para Terra, onde é racionalizado, experimentado e sintetizado pelos homens. Nesse sentido, a Revelação Espírita percorre fases, fluxos de ensinamentos, onde, geração após geração, ela vai se ampliando em direção ao mais alto, como um edifício que de etapa em etapa sobe sempre mais. As bases desse edifício se assenta no portentoso pensamento de Allan Kardec, no entanto, não para aí.

Léon Denis, o eminente mestre de Tours, representa e sintetiza toda obra de uma geração, tanto pela sua estatura moral, quanto pelo sólido saber e pesquisa sobre a Doutrina Espírita. Em suas obras, soube dialogar com diversos sábios e cientistas da sua geração, como os ingleses Frederic Myers, Oliver Lodge, William Crookes e Florence Marryat, e os franceses Paul Gibier, Albert de Rochas e Charles Richet, entre outros.

Estruturando uma nova etapa desse edifício, com critério e amor, clareou zonas desconhecidas ou pouco desenvolvidas do Espiritismo, em diversas de suas obras. Sobre a mediunidade, temos o No Invisível; reencarnação, temos O Problema do Ser e do Destino; Deus, temos O Grande Enigma, para ficarmos com apenas três exemplos.

Denis, desencarnando em 1927, legou ao conhecimento espírita substanciosa literatura que estruturou o edifício para nova etapa, sempre rumo ao mais alto.

Assim, outra etapa desse edifício, podemos dizer, em síntese, que é representada pela obra do médium Francisco Cândido Xavier. Nascido em 1910, na cidade de Pedro Leopoldo, recebeu, sob o influxo do mais alto, grande número de revelações espirituais, principalmente na obra de André Luiz que descortina o mundo espiritual.

Toda nova etapa desse edifício, guarda conexão com a anterior, como dissemos, é um todo contínuo, portanto, encontramos na obra de Léon Denis e outros da sua geração uma variada gama de estudos que é ampliada na obra do médium Chico Xavier.

Nesse sentido, vale recuperar alguns pontos que se correlacionam entre as duas etapas aqui aludidas, representadas na obra de Denis e Chico/André Luiz. A título de exemplo, traremos apenas uma das muitas conexões. Vejamos.

Exteriorização da sensibilidade

Sendo a alma que se transporta, como pode o sonâmbulo experimentar no corpo as sensações de calor ou de frio do lugar em que se encontra a sua alma, às vezes bem longe do corpo?
— A alma não deixou inteiramente o corpo, permanece sempre ligada a ele pelo laço que os une, e é esse laço o condutor das sensações. Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 437.

O eminente sábio Frances Albert de Rochas, grande pesquisador do magnetismo e da reencarnação, lança em 1899 a obra Exteriorização da Sensibilidade, onde apresenta interessantes descobertas, fruto de suas experiências, que apontam que a sede da sensibilidade humana não reside no corpo humano, pois, ao adormecer magneticamente, de maneira profunda o sujet ou sensitivo fica completamente insensível, não tem impressões táteis, gustativas, visuais e etc.

O duplo ou o “fantasma do vivo”, estando exteriorizado do corpo do sensitivo, percebeu-se que, a sensibilidade era transferida para este, ou seja, a sensibilidade estava anulada no corpo, no entanto, ao testá-la no fantasma constatou que este a tinha, inclusive a níveis superiores ao do corpo, e todas as sensações eram transmitidas ao corpo por um cordão fluídico. Esse fenômeno é provocado magneticamente, através de passes de longo circuito. Um fato curioso a se observar é que o fantasma ao se exteriorizar apresenta uma polaridade, azulada à direita e alaranjada à sua esquerda. Outros sábios desenvolveram pesquisas sobre esse curioso fenômeno, como o francês Hector Durville e o português Antonio J. Freire.

Na obra No Invisível, o querido mestre de Tours, narra esse interessante fenômeno.
Vejamos:

“O duplo exteriorizado de um sensitivo adormecido, estando separado do corpo material e enviado a um outro aposento, as seguintes experiências foram feitas sobre a visão, a audição, o olfato, o tato, o paladar:

Um artigo de jornal é lido pelo duplo e repetido pelo sensitivo adormecido, na sala vizinha. Assim, também, objetos e pessoas são percebidos a distância pelo duplo e descritos pelo sensitivo.

O duplo ouve o tique-taque de um relógio assim como palavras pronunciadas, em voz baixa, perto dele. Um frasco de amoníaco é percebido pelo duplo, após outros odores ou perfumes. O duplo prova a babosa, o açúcar, o sulfato de quinino, a laranja, etc., e transmite as sensações gustativas ao corpo.

Finalmente, com relação ao tato, o Sr. Durville se exprime assim:

Sabe-se que quase todos os sensitivos adormecidos magneticamente, são insensíveis, porém não se sabe onde a sensibilidade refugiou-se. Quando o sensitivo está exteriorizado, a sensibilidade irradia sempre em torno dele; e se pinçam, se queimam ou espetam as zonas sensíveis, o sensitivo percebe uma dor viva, enquanto absolutamente nada percebe quando espetam o corpo. Acontece o mesmo no desdobramento. O sensitivo não sente as picadas, nem as espetadas que se fazem no corpo físico; porém, experimenta uma sensação desagradável e, até, dolorosa, desde que se toque o duplo ou o cordão que os liga. Esse fenômeno se verifica em todas as sessões e em todos os sensitivos, sem exceção.”
(1)

Esse fenômeno, igualmente, é estudado na obra de André Luiz, em Nos Domínios da Mediunidade, onde temos como personagens o autor espiritual da obra, Hilário e o instrutor Aulus. No caso em estudo, o trio está observando as “operação magnéticas “realizadas pelo benfeitor Clementino sobre o médium Castro, no intuito de desdobrá-lo para que Castro vá a determinada região espiritual para realizar interessante trabalho de intercâmbio mediúnico.

Acompanhemos:

“Aproximou-se dele o irmão Clementino e, à maneira do magnetizador comum, impôs-lhe as mãos aplicando-lhe passes de longo circuito. Castro como que adormeceu devagarinho, inteiriçando-se-lhe os membros. Do tórax emanava com abundância um vapor esbranquiçado que, em se acumulando à feição de uma nuvem, depressa se transformou, à esquerda do corpo denso, numa duplicata do médium, em tamanho ligeiramente maior.

O médium, assim desligado do veículo carnal, afastou-se dois passos, deixando ver o cordão vaporoso que o prendia ao campo somático. Enquanto o equipamento fisiológico descansava, imóvel, Castro, tateante e assombrado, surgia, junto de nós, numa cópia estranha de si mesmo. Porquanto, além de maior em sua configuração exterior, apresentava-se azulada à direita e alaranjada à esquerda. Tentou movimentar-se, contudo, parecia sentir-se pesado e inquieto... Clementino renovou as operações magnéticas e Castro, desdobrado, recuou, como que se justapondo novamente ao corpo físico.

Verifiquei, então, que desse contato resultou singular diferença. O corpo carnal engolira, instintivamente, certas faixas de força que imprimiam manifesta irregularidade ao perispírito, absorvendo-as de maneira incompreensível para mim.

Desde esse instante, o companheiro, fora do vaso de matéria densa, guardou o porte que lhe era característico
.

Era, agora, bem ele mesmo, sem qualquer deformidade, leve e ágil, embora prosseguisse encadeado ao envoltório físico pelo laço aeriforme, que parecia mais adelgaçado e mais luminoso, à medida que Castro-Espírito se movimentava em nosso meio.

Com o auxílio do supervisor, o médium foi convenientemente exteriorizado. A princípio, seu perispírito ou “corpo astral” estava revestido com os eflúvios vitais que asseguram o equilíbrio entre a alma e o corpo de carne, conhecidos aqueles, em seu conjunto, como sendo o “duplo etérico”, formado por emanações neuropsíquicas que pertencem ao campo fisiológico e que, por isso mesmo, não conseguem maior afastamento da organiza ção terrestre, destinando-se à desintegração, tanto quanto ocorre ao instrumento carnal, por ocasião da morte renovadora. Para melhor ajustar-se ao nosso ambiente, Castro devolveu essas energias ao corpo inerme, garantindo assim o calor indispensável à colmeia celular e desembaraçando-se, tanto quanto possível, para entrar no serviço que o aguarda.

— Ah! — disse Hilário, com expressão admirativa — aqui vemos, desse modo, a exteriorização da sensibilidade!...

Sim, se algum pesquisador humano ferisse o espaço em que se situa a organização perispirítica do nosso amigo, registraria ele, de imediato, a dor do golpe que se lhe desfechasse, queixando-se disso, através da língua física, porque, não obstante liberto do vaso somático, prossegue em comunhão com ele, por intermédio do laço fluídico de ligação.

Dos vários pontos interessantes, das duas experiências, podemos destacar:


1. O operador ou magnetizador, para provocar a exteriorização do duplo, pode estar encarnado ou desencarnado, haja vista que Durville estava encarnado e Clementino desencarnado.

2. O duplo ou fantasma do vivo, como é chamado nas obras de Albert de Rochas, passando por Denis, Delanne, Flammarion, Myers, Durville, é nomeado por Aulus como Duplo Etéreo, também conhecido como corpo vital e etc. Esse corpo, como deixou claro Aulus desaparece com o desligamento da alma do corpo pelo fenômeno da morte, portanto, ele se liga muito mais ao corpo carnal do que ao perispírito.

3. Nas observações de André Luiz, fica evidente a diferença do desdobramento e exteriorização da sensibilidade. Na exteriorização temos o perispírito revestido dos eflúvios vitais, ou seja, do duplo etérico e no desdobramento, Castro “aparece” somente com a forma perispirítica.


As singelas conexões aqui apresentadas, temos em abundância em relação à obra de André Luiz, não somente com as obras de Denis, bem como outros vários autores dessa geração lembrada como os clássicos espíritas.

Por fim, vale lembrar que, os clássicos espíritas permanecem atuais, são partes fundamentais da Revelação Espírita e, lembrando Ítalo Calvino quando diz: “Um clássico é um livro que nunca esgota tudo o que tem a dizer a seus leitores”. E como tem a nos dizer!

 

Referências Bibliográficas
1- DENIS, Léon. No Invisível, cap. 3. Tradução Maria Lucia Alcantara de Carvalho, 2 ed. Editora CELD.
2- LUIZ, André(Psicografia de Francisco Cândido Xavier). Nos Domínios da Mediunidade, cap. 11, Editora FEB.


 

Fonte: Revista CELD de Estudos Espíritas 
> https://celd.xyz/wp-content/uploads/10-Revista_CELD_Outubro-2018.pdf

 

 

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