Numa palavra, o que caracteriza
a revelação espírita é que a sua origem
é divina, que a iniciativa pertence aos espíritos
e que a elaboração é o fruto do trabalho
do homem.
Allan Kardec, A Gênese: Os milagres e as predições
segundo o Espiritismo, cap.1.
O Espiritismo é um todo contínuo de
revelações que partem do alto para Terra, onde é
racionalizado, experimentado e sintetizado pelos homens. Nesse sentido,
a Revelação Espírita percorre fases, fluxos de
ensinamentos, onde, geração após geração,
ela vai se ampliando em direção ao mais alto, como um
edifício que de etapa em etapa sobe sempre mais. As bases desse
edifício se assenta no portentoso pensamento de Allan Kardec,
no entanto, não para aí.
Léon Denis, o eminente mestre de Tours, representa e sintetiza
toda obra de uma geração, tanto pela sua estatura moral,
quanto pelo sólido saber e pesquisa sobre a Doutrina Espírita.
Em suas obras, soube dialogar com diversos sábios e cientistas
da sua geração, como os ingleses Frederic Myers, Oliver
Lodge, William Crookes e Florence Marryat, e os franceses Paul Gibier,
Albert de Rochas e Charles Richet, entre outros.
Estruturando uma nova etapa desse edifício, com critério
e amor, clareou zonas desconhecidas ou pouco desenvolvidas do Espiritismo,
em diversas de suas obras. Sobre a mediunidade, temos o No Invisível;
reencarnação, temos O Problema do Ser e do Destino;
Deus, temos O Grande Enigma, para ficarmos com apenas três
exemplos.
Denis, desencarnando em 1927, legou ao conhecimento espírita
substanciosa literatura que estruturou o edifício para nova
etapa, sempre rumo ao mais alto.
Assim, outra etapa desse edifício, podemos dizer,
em síntese, que é representada pela obra do médium
Francisco Cândido Xavier. Nascido em 1910, na cidade de Pedro
Leopoldo, recebeu, sob o influxo do mais alto, grande número
de revelações espirituais, principalmente na obra de
André Luiz que descortina o mundo espiritual.
Toda nova etapa desse edifício, guarda conexão com a
anterior, como dissemos, é um todo contínuo, portanto,
encontramos na obra de Léon Denis e outros da sua geração
uma variada gama de estudos que é ampliada na obra do médium
Chico Xavier.
Nesse sentido, vale recuperar alguns pontos que se correlacionam entre
as duas etapas aqui aludidas, representadas na obra de Denis e Chico/André
Luiz. A título de exemplo, traremos apenas uma das muitas conexões.
Vejamos.
Exteriorização da sensibilidade
Sendo a alma que se transporta,
como pode o sonâmbulo experimentar no corpo as sensações
de calor ou de frio do lugar em que se encontra a sua alma, às
vezes bem longe do corpo?
— A alma não deixou inteiramente o corpo, permanece
sempre ligada a ele pelo laço que os une, e é esse
laço o condutor das sensações. Allan Kardec,
O Livro dos Espíritos, questão 437.
O eminente sábio Frances Albert de Rochas, grande pesquisador
do magnetismo e da reencarnação, lança em 1899
a obra Exteriorização da Sensibilidade, onde
apresenta interessantes descobertas, fruto de suas experiências,
que apontam que a sede da sensibilidade humana não reside no
corpo humano, pois, ao adormecer magneticamente, de maneira profunda
o sujet ou sensitivo fica completamente insensível,
não tem impressões táteis, gustativas, visuais
e etc.
O duplo ou o “fantasma do vivo”, estando exteriorizado
do corpo do sensitivo, percebeu-se que, a sensibilidade era transferida
para este, ou seja, a sensibilidade estava anulada no corpo, no entanto,
ao testá-la no fantasma constatou que este a tinha, inclusive
a níveis superiores ao do corpo, e todas as sensações
eram transmitidas ao corpo por um cordão fluídico. Esse
fenômeno é provocado magneticamente, através de
passes de longo circuito. Um fato curioso a se observar é que
o fantasma ao se exteriorizar apresenta uma polaridade, azulada à
direita e alaranjada à sua esquerda. Outros sábios desenvolveram
pesquisas sobre esse curioso fenômeno, como o francês
Hector Durville e o português Antonio J. Freire.
Na obra No Invisível, o querido mestre de Tours, narra
esse interessante fenômeno.
Vejamos:

“O duplo exteriorizado de
um sensitivo adormecido, estando separado do corpo material e enviado
a um outro aposento, as seguintes experiências foram feitas
sobre a visão, a audição, o olfato, o tato, o
paladar:
Um artigo de jornal é lido pelo duplo e repetido pelo sensitivo
adormecido, na sala vizinha. Assim, também, objetos e pessoas
são percebidos a distância pelo duplo e descritos pelo
sensitivo.
O duplo ouve o tique-taque de um relógio assim como
palavras pronunciadas, em voz baixa, perto dele. Um frasco de amoníaco
é percebido pelo duplo, após outros odores ou perfumes.
O duplo prova a babosa, o açúcar, o sulfato de quinino,
a laranja, etc., e transmite as sensações gustativas
ao corpo.
Finalmente, com relação ao tato, o Sr. Durville se exprime
assim:
Sabe-se que quase todos os sensitivos adormecidos magneticamente,
são insensíveis, porém não se sabe onde
a sensibilidade refugiou-se. Quando o sensitivo está exteriorizado,
a sensibilidade irradia sempre em torno dele; e se pinçam,
se queimam ou espetam as zonas sensíveis, o sensitivo percebe
uma dor viva, enquanto absolutamente nada percebe quando espetam o
corpo. Acontece o mesmo no desdobramento. O sensitivo não sente
as picadas, nem as espetadas que se fazem no corpo físico;
porém, experimenta uma sensação desagradável
e, até, dolorosa, desde que se toque o duplo ou o cordão
que os liga. Esse fenômeno se verifica em todas as sessões
e em todos os sensitivos, sem exceção.”
(1)
Esse fenômeno, igualmente, é estudado na obra
de André Luiz, em Nos Domínios da Mediunidade, onde
temos como personagens o autor espiritual da obra, Hilário
e o instrutor Aulus. No caso em estudo, o trio está observando
as “operação magnéticas “realizadas
pelo benfeitor Clementino sobre o médium Castro, no intuito
de desdobrá-lo para que Castro vá a determinada região
espiritual para realizar interessante trabalho de
intercâmbio mediúnico.
Acompanhemos:

“Aproximou-se dele o irmão
Clementino e, à maneira do magnetizador comum, impôs-lhe
as mãos aplicando-lhe passes de longo circuito. Castro como
que adormeceu devagarinho, inteiriçando-se-lhe os membros.
Do tórax emanava com abundância um vapor esbranquiçado
que, em se acumulando à feição de uma nuvem,
depressa se transformou, à esquerda do corpo denso, numa duplicata
do médium, em tamanho ligeiramente maior.
O médium, assim desligado do veículo carnal, afastou-se
dois passos, deixando ver o cordão vaporoso que o prendia ao
campo somático. Enquanto o equipamento fisiológico descansava,
imóvel, Castro, tateante e assombrado, surgia, junto de nós,
numa cópia estranha de si mesmo. Porquanto, além de
maior em sua configuração exterior, apresentava-se azulada
à direita e alaranjada à esquerda. Tentou movimentar-se,
contudo, parecia sentir-se pesado e inquieto... Clementino renovou
as operações magnéticas e Castro, desdobrado,
recuou, como que se justapondo novamente ao corpo físico.
Verifiquei, então, que desse contato resultou singular
diferença. O corpo carnal engolira, instintivamente, certas
faixas de força que imprimiam manifesta irregularidade ao perispírito,
absorvendo-as de maneira incompreensível para mim.
Desde esse instante, o companheiro, fora do vaso de matéria
densa, guardou o porte que lhe era característico.
Era, agora, bem ele mesmo, sem qualquer deformidade, leve e ágil,
embora prosseguisse encadeado ao envoltório físico pelo
laço aeriforme, que parecia mais adelgaçado e mais luminoso,
à medida que Castro-Espírito se movimentava em nosso
meio.
Com o auxílio do supervisor, o médium foi convenientemente
exteriorizado. A princípio, seu perispírito ou “corpo
astral” estava revestido com os eflúvios vitais que asseguram
o equilíbrio entre a alma e o corpo de carne, conhecidos aqueles,
em seu conjunto, como sendo o “duplo etérico”,
formado por emanações neuropsíquicas que pertencem
ao campo fisiológico e que, por isso mesmo, não conseguem
maior afastamento da organiza ção terrestre, destinando-se
à desintegração, tanto quanto ocorre ao instrumento
carnal, por ocasião da morte renovadora. Para melhor ajustar-se
ao nosso ambiente, Castro devolveu essas energias ao corpo inerme,
garantindo assim o calor indispensável à colmeia celular
e desembaraçando-se, tanto quanto possível, para entrar
no serviço que o aguarda.
— Ah! — disse Hilário, com expressão
admirativa — aqui vemos, desse modo, a exteriorização
da sensibilidade!...
— Sim, se algum pesquisador humano ferisse o espaço
em que se situa a organização perispirítica do
nosso amigo, registraria ele, de imediato, a dor do golpe que se lhe
desfechasse, queixando-se disso, através da língua física,
porque, não obstante liberto do vaso somático, prossegue
em comunhão com ele, por intermédio do laço fluídico
de ligação.
Dos vários pontos interessantes, das duas experiências,
podemos destacar:
1. O operador ou magnetizador, para provocar a exteriorização
do duplo, pode estar encarnado ou desencarnado, haja vista que Durville
estava encarnado e Clementino desencarnado.
2. O duplo ou fantasma do vivo, como é chamado nas obras
de Albert de Rochas, passando por Denis, Delanne, Flammarion, Myers,
Durville, é nomeado por Aulus como Duplo Etéreo, também
conhecido como corpo vital e etc. Esse corpo, como deixou claro
Aulus desaparece com o desligamento da alma do corpo pelo fenômeno
da morte, portanto, ele se liga muito mais ao corpo carnal do que
ao perispírito.
3. Nas observações de André Luiz, fica evidente
a diferença do desdobramento e exteriorização
da sensibilidade. Na exteriorização temos o perispírito
revestido dos eflúvios vitais, ou seja, do duplo etérico
e no desdobramento, Castro “aparece” somente com a forma
perispirítica.
As singelas conexões aqui apresentadas, temos em abundância
em relação à obra de André Luiz, não
somente com as obras de Denis, bem como outros vários autores
dessa geração lembrada como os clássicos espíritas.
Por fim, vale lembrar que, os clássicos espíritas permanecem
atuais, são partes fundamentais da Revelação
Espírita e, lembrando Ítalo Calvino quando diz: “Um
clássico é um livro que nunca esgota tudo o
que tem a dizer a seus leitores”. E como tem a nos
dizer!
Referências
Bibliográficas
1- DENIS, Léon. No Invisível,
cap. 3. Tradução Maria Lucia Alcantara de Carvalho,
2 ed. Editora CELD.
2- LUIZ, André(Psicografia de Francisco Cândido Xavier).
Nos Domínios da Mediunidade, cap. 11, Editora FEB.
Fonte: Revista
CELD de Estudos Espíritas
> https://celd.xyz/wp-content/uploads/10-Revista_CELD_Outubro-2018.pdf
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