INTRODUÇÃO
Ao adentrar uma gira de Umbanda, e tomo como referência o Terreiro
de Umbanda Caboclo Junco Verde em Itajaí/SC, numa quinta-feira
após às 21h do ano de 2008, deparo-me com homens e mulheres
de diversas idades sentadas ao chão, fazendo “estrepolias”,
comendo doces e bebendo guaraná. Próximo, a cada um,
brinquedos, bonecas e carrinhos de plástico. Alguns vestem
ou utilizam algum elemento que remetem às crianças,
como chupetas, laços de fita nos cabelos e gorrinhos com motivos
infantis. Uma vez por mês estas entidades baixam no terreiro
e acompanhei estas manifestações por mais de 10 anos.
Atualmente o terreiro encontra-se fechado desde 2021 por motivos de
saúde do pai de santo.
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Nas práticas religiosas híbridas
brasileiras, estas entidades são também conhecidas como
“cosminhos”, remetendo ao santo católico São
Cosme, da mesma forma que “ibejada” as associam ao Orixá
Ibeji da tradição Yourubá, não esquecendo
do termo “erê” também de tradição
nagô. Vale ressaltar que Erê não é o Orixá
Ebeji, como muitos acreditam. Os Erês são os que fazem
a ligação dos orixás com os seres humanos no
plano terreno, no Ayé. São os intermediários,
os que fazem florescer a criança de cada um e que estão
no trânsito entre a consciência do ser humano e a inconsciência
das divindades.
São estas diversas possibilidades de observar entidades tão
graciosas que fazem parte do panteão das Umbandas, que as tornam
também complexas. Não se estranha que no dia 27 de setembro
(em alguns lugares um dia antes), encontramos tanto católicos,
quanto umbandistas distribuindo doces para crianças e adultos
em nome dos Santos Cosme e Damião. No caso das Umbandas, obviamente,
que esta relação se amplia ao identificar este ritual
de entrega de doces para as entidades crianças que trabalham
em seus terreiros. Há uma mistura de significados que permeiam
esta relação que colocam santos oficializados pela Igreja
Católica ao lado de entidades das Umbandas.
Tudo isso faz parte de um emaranhado de redes e conexões que
se tornaram orgânicas no catolicismo brasileiro e nas Umbandas
das diversas regiões do país. É tão significativa
esta relação que parece que um não vive sem o
outro, ou ainda, há necessidade de trânsito entre os
dois campos religiosos, para que um referende e potencialize o outro.
(...)
Independentemente das posturas litúrgicas,
do ponto de vista formal, temos três espaços do sagrado
que disputam a legitimidade destas entidades, destes seres: o Catolicismo,
os Candomblés e as Umbandas.
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