
Seria muito mais eficaz
uma casa espírita tratar da educação dos
sentimentos, na visão espírita, do que simplesmente
abster-se de falar de temas espinhosos! E por que se tornaram
espinhosos? Porque as pessoas não sabem conversar a respeito.
Preliminares
A literatura mediúnica
é repleta de oportunidades para o nosso aprendizado. Mas
esta mesma literatura pinta com cores dantescas o carnaval e,
por isso, também merece atenção.
Aquele que está a par dos
esforços dos médiuns para conseguir organizar as
informações trazidas pelo mundo espiritual, sabe
a importância e o desafio que se tem para educar a mediunidade.
Leon Denis já dizia que
o médium, como o próprio nome diz, é intermediário
entre o mundo corporal e o mundo espiritual e, portanto, não
tem motivo algum para envaidecer-se dessa posição,
independente da extensão e importância do seu trabalho.
No meio espírita, especificamente,
houve médiuns donos de uma humildade impressionante. Já
outros, porém, eram detentores de uma vaidade absurda,
sempre estimulada pelos próprios espíritas, numa
reedição dantesca de bizarrices hierárquicas
e ilusórias de outras religiões.
Educando Sentimentos
No início dos anos 2000
a Federação Espírita do Rio Grande do Sul
editou, fruto da lavra de Jason de Camargo, a obra “Educação
dos Sentimentos”. Na época, cerca de 25 anos atrás,
aproximadamente, eu, mineiro, embalado pelas possibilidades de
adquirir literatura espírita fora das Gerais — um
tanto quanto conservadora, diga-se de passagem —, e com
isso ter algo novo que pudesse ser experimentado na casa espírita
como forma de atrair mais frequentadores, levamos a ideia para
a casa espírita que frequentávamos.
Pensava, eu: “— Poxa,
vamos criar um curso sobre ‘Educação dos Sentimentos’!”.
Afinal, temos muitas limitações, mas a falta de
emoção e de vibração nunca foi uma
delas. Vislumbrávamos, assim, a possibilidade de aprofundar
naquilo que o estudo do Evangelho, na nossa região, tocava
apenas na superfície.
Qual não foi a nossa surpresa
quando o dirigente, embora dedicado, mostrou-se ainda condicionado
por uma visão institucional restrita àquele momento,
o que dificultou a percepção de algo que, em futuro
próximo, se tornaria comum, inclusive em casas espíritas,
afirmando: “— A casa não trabalha com isso!”.
Meio espírita, liderança
e cultura
É por isso que insistimos
em falar sobre “liderança”. Ela pode ser libertadora
ou se converter numa prisão, quando não existem
pessoas preparadas para liderar, mas, sim, dispostas apenas a
terem seguidores. Aquilo foi um balde de água fria! Por
que?
Porque a cultura do ambiente em
muitas casas espíritas era (e ainda é) assim: se
você insiste com uma ideia diferente da corrente, você
é “obsediado”; se você aceita e esquece
(para alívio das lideranças) você não
fez mais que sua obrigação “evolutiva”.
Passados mais de vinte e cinco anos, é quase comum, espíritas
fazerem uso do aspecto psicológico para tentar ensinar
alguma coisa sobre, pasmem, sentimentos, nas casas espíritas.
Seria hipocrisia que essas mesmas
pessoas limitadas do passado fizessem uso, hoje, porque “hoje”
entendem. Contudo, a própria Doutrina Espírita nos
ensina que não se pode exigir de uma pessoa, em cargos
de liderança ou não, que ela dê aquilo que
não tem, ainda mais em se tratando de sentimentos.
Ah, o carnaval!
O tempo passou e, nesse ínterim,
diversos livros foram lançados abordando o tema. Livros
de autoajuda pulularam as livrarias espíritas
com lições como a de “como se tornar uma pessoa
melhor em dez passos”. Os médiuns, em um esforço
hercúleo, foram os primeiros a utilizar as “televisões
espirituais” em “4K” para capturar o “inferno”
que muitos Espíritos pintaram e pintam sobre as folias
e os carnavais espalhados pelo mundo, incluindo o Brasil.
Ora, orgias, abusos sexuais, tramas,
transas e tragédias anunciadas envolvendo as emoções
e sentimentos humanos, existem durante o ano
inteiro. Não apenas nessa época! Doenças
sexualmente transmissíveis (DST), também ocorrem
o ano inteiro porque não se educa impondo medo. O espírita
que apresenta algum pendão nessa área, não
está sozinho e nem deveria passar pelo constrangimento
de sentir-se coagido em suas fragilidades, ao se deparar com uma
literatura dantesca e nem com aquelas “conversas baixas”
sobre temas “polêmicos”, pelos corredores de
uma casa espírita. Pelo contrário…
Por que educar sentimentos?
Quando se estabelece um processo
de educação dos sentimentos, em um curso numa casa
espírita, estamos praticando, além do estudo doutrinário,
métodos filosóficos e psicoterapêuticos, como
o diálogo, por exemplo, em torno do tema.
Se você argumentar que esse tipo de curso “não
dá ibope” e que “as pessoas não se interessam
por esse tipo de curso”, até podemos compreender
e por isso é importante o diálogo entre dirigentes
e as pessoas que são voluntárias nas áreas
de cursos e treinamentos das casas espíritas.
Se, ao invés de mascarar
as dificuldades que são reais e existem na sociedade, a
casa espírita tivesse a maturidade de construir cursos
que auxiliassem as pessoas no enfrentamento de suas dificuldades
cotidianas, as obras que tratam de “segunda morte”
e os problemas espirituais profundos pudessem ser melhor compreendidos,
a chance de beneficiamento seria muito maior. Todavia, o que se
vê, é que alguns assuntos não são tratados
e nem discutidos porque “carregam o ambiente, espiritualmente”.
Ora, o que realmente carrega espiritualmente
um ambiente é a maledicência, a vaidade, o egoísmo,
o orgulho e a hipocrisia. Não se pede, ao propor um curso
de educação dos sentimentos, que haja algum indivíduo
“perfeito” na casa espírita para aplicar o
mesmo. Se houvesse maturidade e liderança, primeiro, a
obra sugerida teria sido estudada. Em segundo momento, os que
estudaram teriam oportunidade de traçar um roteiro criando
conexão com o conteúdo doutrinário. E, por
último, rodaria um “protótipo”, um “experimento”
com determinado grupo pequeno e que, também, fosse o coordenador
um estudioso do assunto, para se construir a melhor abordagem.
Citamos o “sexo”,
mas existem outros problemas que requerem a educação
dos sentimentos. Por exemplo, em mais um ano de eleição
democrática, a política não poderia ficar
de fora, justamente porque os espíritas transformaram o
tema (política) nas casas espíritas em um verdadeiro
“show de horrores”! E, a maioria dos que se dizem
espíritas ainda não se deu conta, e, pelo visto,
vão protagonizar, novamente, o mesmo cenário: utilizar
mensagens espirituais “fakes”; pintar cenários
dantescos; encontrar culpados; chamar “fraternalmente”
aqueles que pensam diferentes de “obsediados”; e,
ainda, aguardar a vinda da “legião” de Espíritos
Superiores para “varrer” a terra. Tudo isso parece
ficção científica, mas não é,
infelizmente!
Concluindo…
Dessa forma, entendemos que seria
muito mais eficaz uma casa espírita tratar da educação
dos sentimentos, na visão espírita, do que simplesmente
abster-se de falar de temas espinhosos! E por que se tornaram
espinhosos? Porque as pessoas não sabem conversar a respeito.
Evidentemente, temas complexos,
exigem uma abordagem mais elaborada e uma preparação
mais adequada, sem misticismo. Entendemos, assim, que é
necessário mais cuidado para deixar claro que existe um
roteiro a seguir e que, as demandas que fugirem ao roteiro, precisarão
ser avaliadas para o grupo estudar, elaborar e compreender se
darão conta de responder, seguir por aquele caminho ou
se a sugestão será encaminhar para um atendimento
fraterno ou até mesmo para um atendimento especializado
fora da casa espírita, por exemplo. O atendimento seja
do que for, na casa espírita, precisa ser “especializado”
apenas em Doutrina Espírita (e, convenhamos, já
é muita coisa ser especializado em Doutrina!)!
Temos repetido à exaustão:
o modelo e guia da humanidade é Jesus (Kardec, 2004). Estudar
sobre Jesus é abordar a respeito do seu trabalho, da maneira
como ele viveu e o que a sua forma de viver trouxe de diferente
e serve como modelo para nós. Um Espírito Superior,
preparado para a missão que escolheu; estrategista, e não
maquiavélico; amigo, e não interesseiro; educador,
justamente por já ter atingido a plenitude de seus sentimentos;
um companheiro que, de fato, tem no amor e na caridade suas maiores
virtudes (e se já conseguimos vislumbrar isso, é
um avanço!).
Porque compreender isso reflete
a humildade daqueles que não projetam sombra no próximo,
tentando aprisioná-los e sim, buscando auxiliar na educação
dos sentimentos, transformando cursos, palestras e outras atividades
em uma folia de boas vibrações
e desejos sinceros de um estudo agradável, leve, fraterno
e com muito intercâmbio, nos dois planos da vida!