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>  Entrevista com Janaíne Camargo - médica do Fraternidade Sem Fronteiras



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05/04/2020

 

ENTREVISTA: JANAÍNE CAMARGO
por Ana Clara Santos | segunda-feira, 30 março 2020

 

 

 


Janaíne embarcou para Madagascar movida por um chamado do coração
Ver as crianças nutridas motiva a médica a continuar nessa caminhada de amor

 

 

Unir a ciência com a busca espiritual nem sempre foi algo fácil ou até mesmo comum, mas, ao ouvir um chamado do coração e buscar dentro de si algo que respondesse à sua missão de vida, Janaíne Camargo, Médica de Família e Comunidade, embarcou para Ambovombe, cidade no sul de Madagascar, onde a Fraternidade sem Fronteiras (FSF) mantém o projeto Ação Madagascar em funcionamento. Há quase dois anos na ilha, além de achar as respostas que precisava, ela viveu experiências, teve aprendizados, fortaleceu sua crença na força do amor e da união e, acima de tudo, conheceu uma cultura rica de pessoas que buscam ser felizes e ter fé, apesar de todo o sofrimento.

A própria médica resume de forma perfeita seu trabalho de quase dois anos da ilha, quando cita a frase de Madre Tereza de Calcutá: “O fruto da fé é o amor, e fruto do amor é o serviço ao próximo, e isso nos conduz à paz”. Servir ao próximo com amor e dedicação a fim de que seus pacientes tenham esperança em dias melhores e ver as crianças malgaxes crescerem com saúde é o que motiva nossa entrevistada a manter-se firme nessa causa de amor.

Nesta entrevista, podemos conhecer melhor sua história, seu trabalho e renovar nossa esperança no mundo e nas pessoas, pois, quem se dedica ao próximo com fraternidade e amor tem o dom de nos levar a acreditar novamente.

Confira abaixo, o lindo relato de Janaíne e algumas fotografias que registraram seu trabalho na ilha.

 

FSF: Para começar, nos conte como conheceu a Fraternidade sem Fronteiras.

Janaíne: Conheci em um congresso médico, em 2014, quando o Wagner [Moura], estava com um stand divulgando a Fraternidade. Na época, só existia o trabalho em Moçambique, mas já tinham as caravanas e o apadrinhamento, então, eu tive tempo de sentar e ficar conversando com ele para conhecer e entender o trabalho, os propósitos e os valores. Decidi apadrinhar naquele dia e só depois fui entender a importância de ser madrinha. Hoje, que tenho a oportunidade de estar na África, consigo entender a importância de R$ 50,00: você consegue fazer a diferença. Pra ter uma ideia, aqui um tonel de 150 litros de água você encontra por R$10,00, então, com R$ 50,00 a gente consegue abastecimento de água por uma semana mais ou menos. Realmente, o apadrinhamento de R$ 50,00 é muito valioso para nós.

Naquela época tive que esperar até fevereiro de 2017 para ir à minha primeira caravana, que foi para Moçambique. Como caravaneira e estando in loco, a gente consegue abrir mais nosso coração e entender melhor a necessidade de trabalho, porque no Brasil a gente tem pobreza, dificuldade e desigualdade, mas, realmente, a situação da miséria extrema é muito mais tocante. Por exemplo, lá a gente viu crianças desidratadas, que já chegavam desfalecidas. Em Chimbembe (região de Moçambique) eles tomavam uma água que parecia que tinha nata porque era cheia de larvas, e a gente via que as crianças tinham diarreia, desnutrição: naquele momento meu coração começou a ser tocado e comecei a pensar na necessidade de um trabalho contínuo que pudesse transformar as coisas de uma forma sustentável.

FSF: Qual sua motivação para desenvolver esse trabalho em Madagascar?

Janaíne: Pessoalmente, acredito que somos seres espirituais, nossa essência provém do amor, ela é espiritual e na Terra vivemos uma experiência material, então, eu já buscava viver esse caminho. A Fraternidade ajuda essa semente a germinar em nós para que ela dê frutos e a gente pratique esse sentimento fraterno, de amor, que vai além de uma ou outra escola religiosa. Então, pra mim, houve muito forte essa motivação que uniu minha busca espiritual com esse amor que toca nosso coração, quando a gente tem aquele sentimento de amor ao próximo e quer fazer algo.

Em fevereiro de 2017, tive dificuldade de me despedir de uma criança, mas, justamente por me despedir dela e passar algumas horas chorando, foi que eu percebi que não adiantava ter o sentimento de querer levar ela embora porque isso seria egoísta. Na verdade, o sentimento do amor mais puro me mostrou que se eu quisesse o bem dela, eu deveria trabalhar para que ela vivesse em condições melhores. Não só ela, mas todas aquelas crianças que estavam ali, só que a que gente se conecta mais é uma metáfora daquele povo, uma portinha que Deus acha para abrir nosso coração.

FSF: Como foi que surgiu essa ideia?

Janaíne: Em julho de 2017, conversei com o Wagner sobre a situação daqui, porque eles tinham feito uma avaliação inicial e estavam muito necessitados. Por exemplo, na primeira avaliação, de 1.400 crianças 36% eram desnutridas e, naquela época a gente não sabia, mas a mortalidade infantil aqui é muito alta: em setembro de 2018, a gente fez um levantamento e a mortalidade infantil média era de 4,5%. Então, Madagascar é uma região difícil no ponto de vista de sobrevivência, a gente tem uma mortalidade infantil muito alta, e a principal causa é a diarréia, infecções respiratórias, anemia, desnutrição, são causas evitáveis por um trabalho de mais longo prazo. Tudo isso foi tocando meu coração, então, eu decidi que viria. Vim numa caravana em fevereiro de 2018, já sabendo que eu ia voltar pra ficar, então, vim pra conhecer, pra me ambientar e encontrei a confirmação: cerca de 30 crianças que chegaram aqui numa situação muito grave.

FSF: Teve alguma história nessa caravana que te marcou?

Janaíne: Lembro que teve o Ângelo, que chegou muito grave, inclusive achamos que ele já estava morto, era um menininho de dois anos que chegou pesando cerca de 4,5kg. A gente ficou aqui no período da caravana e, depois de umas duas semanas depois do retorno, um bebê, que tinha se tratado com a gente com desnutrição severa, tinha falecido e, assim, se seguiu a notícia de umas seis crianças que faleceram no intervalo de um mês depois. Isso fortaleceu o sentimento da necessidade, porque naquele momento era uma questão de sobrevivência a gente auxiliar mais de perto as pessoas que adoeciam aqui.

FSF: Você tinha um emprego, tem família no Brasil e diversas outras coisas. Como foi essa transição entre decidir e viajar em definitivo?

Janaíne:
Eu sinto que muita gente diz que gostaria de fazer algo, mas as oportunidades a gente cria, então, quando a gente canaliza nossa vontade, a gente se organiza pra que isso aconteça. Eu tinha um bom trabalho, guardei dinheiro por um ano pra estar aqui, fui me desfazendo dos meus vínculos profissionais pra que outras pessoas fossem assumindo, fui organizando isso com minha família porque é um sofrimento essa distância, então eu fui me preparando nesse um ano, de julho de 2017 a julho de 2018. Nunca teve um plano, nunca teve o pensamento de que eu faria isso, mas a força do amor, o chamado espiritual e a necessidade extrema que existe aqui foi o que me chamou.

FSF: Como é a organização da área da saúde para atender as pessoas?

Janaíne: As ações da clínica têm sido contínuas desde julho de 2018 e a gente pretende que continuem sendo assim. Pra isso, tem três enfermeiros do local, temos uma clínica que oferece serviço de atenção primária à saúde, ou seja, realizamos cuidado integral com avaliação dos aspectos da doença como os biológicos, emocionais, sociais. Além dos aspectos espirituais e no sentido existencial, porque a motivação diante da doença ou do sofrimento acaba sendo aspectos do cuidado em saúde quando a gente pensa nesse modelo de atenção primária.

FSF: Como foi o início do trabalho em Ambovombe?

Janaíne: Quando cheguei, tínhamos uma clínica de madeira construída com uma sala de espera, seis consultórios e uma sala de enfermaria, mas não tinha nenhum serviço funcionando e as pessoas dependiam exclusivamente da vinda das caravanas. No início, foi tudo muito difícil porque para se comunicar trabalhávamos com os tradutores, que não estão acostumados a usar o vocabulário médico e compreender o que é importante pra gente na tradução. Assim, fui compreendendo e me ambientando em relação a tudo isso, foi bastante desafiador.

Hoje, depois, de quase dois anos aqui, consigo atender a maior parte das pessoas em malgaxe, mas, no início, era bem difícil porque ainda não tinha funcionários da clínica, e ficávamos eu, o tradutor e a pessoa da recepção. Foram seis meses trabalhando sem ter enfermeiros, mas, no primeiro mês, foram contratados agentes comunitários, e eu acho que isso fala muito sobre nosso serviço: nosso foco a princípio era estar perto da comunidade, capacitar pessoas daqui para auxiliarem no cuidado em saúde e, nesse sentido, formar pessoas com informação e com compreensão, que pudessem levar um pouco de informação de prevenção de doenças para as famílias e também nos auxiliar no mapeamento e compreensão de que região é essa que a gente chegou para trabalhar.

FSF: Você falou sobre a ampliação que teve no trabalho graças à ajuda que vem dos padrinhos e outros voluntários. Qual a importância do apadrinhamento para o desenvolvimento das ações?

Janaíne: A limitação de recursos, a gente já sabe que é inerente à região onde nós estamos, mas, graças a Deus nunca faltou remédio, sempre conseguimos doações e oferecer um tratamento, na medida do possível, adequado pras pessoas, principalmente, em termo de medicações adequadas para os tratamentos. Também conseguimos fazer a recuperação de centenas de crianças desnutridas, por exemplo, em fevereiro de 2018, eram 225 crianças desnutridas sob supervisão nos quatro polos de atendimento aqui em Madagascar, houve um período de diminuição e estávamos com 80, mas, agora está voltando a receber mais desnutridos por causa da época que não tem colheita, então, estamos chegando a 100, mas, temos conseguido cuidar delas e reabilitá-las.

Tudo isso é sustentado com o apoio das mãos de cada pessoa; cada pessoa que se preocupa em conseguir uma amostra de medicamento, que doa para que possamos comprar, cada doação de um equipamento médico, cada pessoa que trabalha no envio das doações, além das caravanas que vêm para nos auxiliar e nos ajudar a implantar novas etapas dos serviços aqui. Atualmente, recebemos uma média de 700 pessoas na nossa clínica e, graças a Deus, esse trabalho tem crescido e alcançado muitas pessoas.

FSF: Quais são os principais atendimentos feitos por você e pela equipe de enfermagem?

Janaíne: Como médica, eu atendo as pessoas que estão doentes, são tanto crianças como adultos porque tem a preocupação com as crianças, mas, é importante acolher os adultos também, porque, se eles estão adoecidos e sem condições de trabalhar, isso vai ter um impacto muito grande no sistema familiar.

Temos atendido adultos com lesões de pele graves, tuberculose, hanseníase e também com dificuldades respiratórias como enfisema pulmonar porque eles moram em casas pequenas e usam carvão pra cozinhar e se aquecer do frio, então, respiram aquela fumaça a vida toda e com 40 anos já tem doenças respiratórias crônicas. Além disso, muitas mulheres têm infecções ginecológicas graves que chegam na região do útero, dos ovários e isso é uma demanda importante também.

Temos uma ala de internação, com uma média entre 30 e 40 internações por mês, tanto de desnutridos e pessoas com infecções ou doenças graves, pulmonar ou cardíaca. Então, hoje, temos o centro de saúde de atenção primária, um centro de internação, um de nutrição e outro de reabilitação.

FSF: Está em andamento a construção de uma clínica de alvenaria. Você pode falar um pouco mais sobre essa conquista?

Janaíne: Conseguimos mobilizar doações no Brasil e em outros países e agora estamos construindo uma clínica de alvenaria. Isso é um marco de sustentabilidade pra gente porque o governo de Madagascar e a Unicef vieram conhecer nosso trabalho; avaliaram e aprovaram nosso tratamento de desnutrição, o nosso protocolo e o funcionamento, então, hoje somos reconhecidos e legalizados como parte do sistema de saúde da cidade de Ambovombe, e isso é um marco muito importante pra nós. Com isso, a Unicef já nos enviou insumos de planejamento familiar, vacinações de rotina, alguns tipos de vitamina e vamos conseguir ser reconhecidos como centro de recuperação nutricional avançado de casos de desnutridos muito graves.

FSF: Além da saúde primária e internação, quais outras frentes existem neste trabalho?

Janaíne: Na nossa equipe tem várias frentes. Tem uma equipe que compõe o centro nutricional, que é responsável por preparar as fórmulas de tratamento para os desnutridos, faz a supervisão dos que estão vindo e a busca dos que estão ausentes, monitora a pesagem e a medida, além disso, tem o enfermeiro que acompanha as crianças adoecidas e precisam de algum tratamento específico para melhorarem. Também tem a Claudete, que é a nutricionista, que acompanha do Brasil a supervisão de todo o tratamento nutricional.

Depois, tem a auxiliar de enfermagem que trabalha com os agentes comunitários fazendo a supervisão das crianças de zero a dois anos, realizando consultas de rotina com pesagem e medida e avaliação da nutrição, porque nosso objetivo é conseguir tratar das crianças em risco de desnutrir para evitar que elas cheguem a desnutrição.

Uma outra frente de trabalho é a realização do pré-natal com consultas, oferecimento de vitamina e as medicações pra prevenir algumas infecções. As consultas de rotina do pré-natal são feitas por meio de testes rápidos como de HIV e sífilis, que recebemos de doação. Além do pré-natal, a gente realiza o planejamento familiar, quando oferecemos, para as mulheres que desejarem, a contracepção, tantos métodos mais pontuais como pílulas e injeções quanto um implante que dura por três anos. Então, tem um serviço completo voltado para esse ciclo materno-infantil com o intuito de redução da mortalidade materna, da melhoria da saúde durante a gestação quanto do cuidado da criança até os dois anos de vida.

FSF: Quais são os próximos passos?

Janaíne: Agora, estamos nos preparando em equipe para melhorar essa supervisão das crianças até os cinco anos de idade para que a gente consiga interceptar as adoecidas antes que elas se tornem desnutridas. Com a conclusão da clínica, que já está na etapa final, vamos conseguir nos tornar um serviço permanente aqui, então, nossa perspectiva é conseguir a contratação de médicos malgaxes, outros médicos brasileiros que queiram vir passar um período menor ou ficar aqui de modo mais permanente assim como eu. Nós temos conseguido caminhar nesse caminho graças a Deus e com o apoio de todos: padrinhos, mobilizadores, divulgadores da causa, de


O serviço do centro médico está devolvendo a saúde de muitas crianças e a esperança de famílias inteiras cada um que nos auxilia para que possamos nos dar as mãos. Então, tudo isso que temos construído é fruto de nos unirmos e acreditarmos em um sonho e construir juntos, isso mostra a força do amor e a força que o sentimento de fraternidade tem de transformar corações e isso nos levar a transformar nossa realidade
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O serviço do centro médico está devolvendo a saúde de muitas crianças e a esperança de famílias inteiras

 

FSF: Como você se sente vendo tudo que foi realizado nesses dois anos de trabalho?

Janaíne: Quando a gente olha para tudo construído em dois anos, o sentimento que vem é de muita gratidão, conseguimos ver a mão de Deus guiando cada etapa porque essa obra vem Dele para nós e só podemos agradecer a oportunidade de servirmos essa obra que é maior que cada um de nós, mas que não se concretizaria se cada um de nós não estivesse disponível para auxiliar. Então, um dos grandes aprendizados aqui é acreditar piamente no potencial do ser humano e desenvolver minha fé na força amor que constrói, que une e que realmente consegue transformar uma das realidades mais difíceis do mundo.

Acho que não tem como dimensionar isso; hoje a gente não tem ideia de quantas pessoas foram atendidas, mas, principalmente, de quantas vidas foram transformadas e das perspectivas que foram abertas para essas pessoas. O que é mais gratificante é ver as crianças brincando saudavéis, ver o quanto elas já conseguem se desenvolver, ver as pessoas pessoas da própria equipe se desenvolvendo e se superando, não tem preço.

FSF: O que essa experiência mudou em você como profissional? E como pessoa?

Janaíne: Hoje, como profissional eu acredito muito mais no trabalho da equipe, na competência do ser humano o quanto a gente consegue se superar, crescer e aprender, acredito muito na força da união, na soma dos corações.

No ponto de vista pessoal, me tornei uma médica que tem muita fé e tento levar isso pra minha vida porque aqui, diante de tanta dificuldade, de tantos poucos recursos, de tantas vezes que eu me deparei com situações em que eu achei que não teríamos saída, presencio verdadeiros milagres todos os dias, então, a gente sente a força do amor dando suporte incondicional.

Hoje percebo que a medicina é o exercício do cuidado com amor e isso nos transforma como pessoas também. Cada pessoa que esteve diante de mim e que enfrentava uma situação difícil foi uma oportunidade de me compadecer do sofrimento, mas compreendendo a força que tem cada alma que vive nesse lugar, então, hoje eu tenho um sentimento de profunda reverência por cada pessoa que vive aqui, o que causa um sentimento de compaixão, de querer mudar e proporcionar algo melhor porque eles merecem porque são fortes e merecedores do nosso amor, da nossa compaixão.

FSF: Tem algum ponto de diferença cultural que te chama mais atenção?

Janaíne: Tem dois pontos da cultura que quero carregar pra mim. O primeiro é como eles têm uma noção da presença de Deus em tudo que acontece: se deu certo é porque Deus permitiu e se algo deu errado é porque era a vontade de Deus. Vejo pessoas privadas de todos os tipos de recurso, mas vejo essas pessoas agradecendo o tempo todo e não revoltadas, aqui tem pessoas mansas e pacíficas, que não se revoltam diante da situação que vivem e nos dão uma grande lição sobre acreditar que tem uma força maior que organiza o universo e que para nós muitas vezes parece não fazer sentido, mas eles vivem isso como uma verdade, essa aceitação.

Outro ponto da cultura que eu amo é o modo como eles veem a morte, inclusive quando eu estiver no final da vida, quero ser tratada como os malgaxes olham pra morte. É interessante porque a morte parece uma urgência maior que a vida, então, quando está em risco de morrer eles não se mobilizam tanto, mas, quando acontece é muito urgente pra eles. Aos poucos fui entendendo que eles precisam se organizar para chegar na casa da família paterna mais próxima que eles tiverem e da família paterna eles vão pra materna porque vão compartilhar do luto: ninguém vai tentar ser forte porque aquele alguém morreu, todo mundo vai chorar junto, vai sofrer junto, mas, pra isso, eles vão se reunir.

Cada vez que tem um falecimento é muito importante estar junto: nessa hora, a equipe toda para o que está fazendo para estar junto dessa família porque é o momento de se unir. Esse momento é sagrado porque eles entendem que o corpo é a própria presença de Deus, aquele não é mais um corpo e, sim, a materialização de Deus. É muito bonito quando a gente vai acompanhar as pessoas em cuidados paliativos – quando não temos condições de curá-las, mas vamos aliviar o sofrimento – a gente vê que elas têm um sentimento de paz e aceitação mesmo com a perspectiva da morte porque eles caminham com a sensação de que é a vontade de Deus e que Ele está permitindo o alívio da dor enquanto eles estão aqui na Terra por meio da FSF e dos cuidados que a gente oferece.

Independente de crença, aprendi a ver no momento da morte a força da união e a força do amor: a gente aprende a desejar que aquela alma vá em paz e quem fica, também fica em paz. Inclusive, perceber a paz da família e do ambiente nos momentos de velório foi o mais estranho na adaptação cultural, mas, hoje vejo que faz sentido porque demonstra muita sabedoria e muita simplicidade e eles fazem isso com naturalidade.

FSF: Daqui um tempo você retorna para o Brasil. O que fica desse período em Madagascar?

Janaíne: Esse aprendizado foi muito especial no sentido de unir o amor e a ciência porque a medicina e a técnica é o que temos de melhor para oferecer a um paciente e isso precisa continuar crescendo, mas que se esses recursos cheguem providos de amor e de cuidado porque é isso que nos movimenta a viver a fraternidade. A gente pode oferecer o recursos materiais, mas também transformar e conectar nossos corações, pois, isso tem o potencial de nos tornar profundamente humanos.

FSF: E qual a mensagem que você deixa para todos que querem se voluntariar, mas precisam de uma motivação?

Janaíne: O primeiro passo é se permitir ouvir os anseios da alma; ter a capacidade de olhar para o nosso cotidiano e perceber o que nos traz alegria, motivação pra viver, certamente esse é o caminho que temos reservado em nossa vidas e é o que vai nos guiar à paz e à sensação de dever comprido.

Outra coisa é: se a gente sente esse desejo de se doar, que a gente confie e canalize toda nossa vontade porque ela é como uma força, que concretiza as coisas quando a gente realmente quer, então, pra quem pretende auxiliar, olhe para o mundo interior e busque romper as amarras que nos afastam de cumprir esse caminho que ansiamos e coloque essa energia a serviço do que verdadeiramente queremos, assim, todos os recursos necessários vão chegar. Que a gente se lembre que tem uma força maior que rege nosso trabalho e nós somos apenas instrumentos, servindo essa força maior que é o amor, que é o sentimento de fraternidade e isso que vai nos trazer a paz.

Junte-se a essa grande corrente de amor! Clique aqui, conheça o Ação Madagascar e apadrinhe essa causa!

 

 

Fonte: https://www.fraternidadesemfronteiras.org.br/entrevista-janaine-camargo/?fbclid=IwAR0y-60SeZOmoHVDNmlkzyLAcUriaTKBs7QCEIULq96DLgVcTIL-XlbJ5gU

 

 

 

 

 

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